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Artigo de Augusto Falcão—-Agosto

 

  Num mundo cada vez mergulhado na guerra que no leste da Europa, teima em não terminar, e estando em campos opostos as duas maiores potências militares do mundo, sendo que uma delas é dona do maior arsenal nuclear do mundo, hoje recordo aqui, para que nunca se esqueça, um pedaço da história da humanidade que teve o culminar a 9 de agosto de 1945.

  Corria o ano de 1942, em plena Segunda Guerra Mundial, o general do exército dos Estados Unidos, Leslie Groves, aborda e recruta Julius Oppenheimer, um físico teórico, que tinha estudado em Harvard e que na altura lecionava na Universidade de Berkeley, para ser o cérebro por detrás do Projeto Manhattan.

  Em 1942, lutava-se a Segunda Guerra Mundial, e quer os Aliados, quer a Alemanha nazi, procuravam novas armas que pudessem fazer pender a balança da guerra para o seu lado; a Alemanha lutava por ganhar essa corrida, já que os Aliados, com a entrada dos Estados Unidos na guerra, a balança militar começava a pender para o lado dos Aliados; a indústria norte americana, começou a concentrar-se no esforço de guerra, e tal como o almirante japonês Yamamoto tinha dito após Pearl Harbor, o gigante adormecido acordou.

  Este programa, altamente secreto, tinha a sua casa no Laboratório de Los Alamos, no Novo México; no entanto a pesquisa e a produção de materiais para o projeto ocorreu em mais de 30 locais diferentes.

  Objetivo: criar uma bomba atómica, uma arma de poder tão destrutivo que iria terminar a guerra, e quem sabe, evitar novas guerras no futuro. Os americanos trabalharam com afinco e ganharam a corrida.

O trabalho do Laboratório culminou na criação de três bombas atómicas, uma das quais foi usada no primeiro teste nuclear, perto Alamogordo (Novo México) em 16 de julho de 1945, tendo sido batizada com o nome de código Trinity. A detonação foi equivalente à explosão de cerca de 20 quilotoneladas de TNT e é considerada como o marco do início da chamada Era Atómica. Mais tarde, Oppenheimer, ao recordar o momento da explosão disse ter-se lembrado das palavras de uma escritura hindu: “Agora eu tornei-me a morte, destruidora de mundos”.

Depois do sucesso da detonação da Trinity, e com a derrota da Alemanha nazi, a guerra no Pacífico continuou com os americanos a prepararem a invasão do Japão; centenas de toneladas de bombas foram largadas sobre as cidades japonesas de forma a preparar a invasão. No entanto, e julgando-se que a invasão teria um custo pesadíssimo em vidas de soldados americanos, Harry Truman, presidente dos Estados Unidos, toma a decisão de usar as novas armas, decisão essa que até hoje nunca mais foi tomada.

Assim a bomba atómica de uranio Little Boy foi lançada sobre Hiroshima, a 6 de agosto de 1945, tendo a bomba atómica de plutónio Fat Man largada sobre Nagasaki, a 9 de agosto de 1945; o Japão rendeu-se a 15 de agosto de 1945.

Estima-se que nos dois meses seguintes as explosões tenham morrido entre 90 000 e 160 000 pessoas em Hiroshima e 60 a 80 000 pessoas em Nagasaki, sendo que metade destas mortes ocorreu no primeiro dia; os efeitos nefastos das explosões mantiveram-se por vários meses tendo muitas pessoas morrido por causa das queimaduras, envenenamento por radioatividade e outras lesões que foram agravadas pelo efeito da radiação.

Sumie Kuramoto, que presenciou e sobreviveu ao ataque, tinha dezasseis anos e recorda:

 “Nunca esquecerei esse momento. Pouco depois das 8 da manhã, houve um estrondo, uma explosão reverberante e, no mesmo instante, um clarão de luz amarelo-alaranjado entrou pelo vidro do telhado. Ficou tudo tão escuro como noite. Um golpe de vento atirou-me no ar e a seguir no chão, contra as pedras. A dor estava apenas começando quando o prédio começou a ruir em torno de mim. Aos poucos o ar se aclarou e eu consegui sair dos destroços. No caminho para um dos centros de emergência vi muita confusão. As ruas estavam tão quentes que queimavam meus pés. Casas ardiam, os trilhos de bonde irradiavam uma luz sinistra e no local de um templo pessoas se amontoavam. Algumas respiravam, a maioria estava imóvel. No pronto-socorro chegava gente correndo, as roupas rasgadas, chorando, gritando. Alguns tinham o rosto ensanguentado e inchado, outros tinham a pele queimada caindo aos frangalhos de seus braços e pernas. Em um bonde vi fileiras de esqueletos brancos. Havia também os ossos de pessoas que tentaram fugir. Hiroshima tinha – se tornado num verdadeiro inferno.”

  Deixo esta recordação, deste sobrevivente a um dos dois únicos ataques nucleares até hoje perpetrados na história da humanidade.

 Num dia quente de agosto, o mês que terminou. Porque quem não compreende os erros do passado, está condenado a repeti-los no futuro.

 

Augusto Falcão

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