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Artigo de Luís Miguel Condeço—Borda d’Água

Confesso que a leitura atenta dos seculares almanaques que nos apresentam prognósticos, conselhos práticos baseados na sabedoria popular, previsões meteorológicas e astrológicas, assim como as informações sobre o oceano e as marés, faz parte da minha infância e acredito que de muitos que fazem da agricultura de subsistência uma prática regular. Por isso, não são alheias às “obras” do Borda d’Água e d’O Seringador.

Contudo serão previsíveis e confiáveis esses prognósticos?

Sempre foram, mas as alterações climáticas, a poluição atmosférica e marítima, o aquecimento do planeta e a emissão de gases com efeito estufa, têm transformado radicalmente o senso comum e a sabedoria popular há muito enraizados no nosso cancioneiro.

E um dos resultados mais visíveis destas mudanças climáticas no nosso Portugal é a seca! Em agosto do ano passado, e segundo o Instituto Português do Mar e da Atmosfera, 97% do território continental estava em seca e 27% em seca extrema (situação em que a precipitação é quase nula e a disponibilidade de água no solo é francamente baixa). Apesar da preciosa chuva no início do inverno, 37,6% de Portugal continental ainda se encontrava em seca (21,4% seca fraca e 16,2% seca moderada) no mês de dezembro, desta forma, não podemos esquecer a necessidade hidrológica que a agricultura, a pecuária, a indústria e também a população sentem.

Foi desde 1992, e no âmbito da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento e Ambiente, que o Dia Mundial da Água começou a ser comemorado no dia 22 de março. Este dia pretende servir de impulso à dinamização de várias atividades que alertam para a importância deste recurso natural, criando estratégias de preservação e restauração do ciclo natural da água.

Lembro que o ser humano é constituído na sua maioria (70%) por água, e esta é fundamental para os processos de digestão, absorção, metabolismo e excreção do organismo (pois é a principal constituinte do sangue, da linfa e das secreções corporais), além da sua função no controlo térmico do corpo humano. A sua ingestão diária deve ser uma prioridade, recomendando-se que os indivíduos adultos saudáveis bebam entre 1,5 e 3 litros de água. Muitas vezes o nosso organismo “pede” essa ingestão de água, através da comum sensação de sede, mas para que tal aconteça é importante criar hábitos de beber água ao longo do dia.

Algumas organizações não governamentais internacionais, apontam para uma “crise da água” atendendo ao seu papel social, político e económico. Hoje 1 em cada 10 pessoas no mundo não tem acesso a água potável e 1 em cada 4 não têm acesso a instalações sanitárias, condições que para nós parecem tão básicas e intrínsecas à nossa vida diária.

De acordo com a Organização Mundial de Saúde, se tivermos em linha de conta os dados relativos à mortalidade, percebemos que todos os anos morrem cerca de um milhão de pessoas devido a doenças causadas pela ingestão de água imprópria para consumo ou por falta de higiene, e se atendermos à população infantil percebemos que a cada 2 minutos morre uma criança devido aos mesmos problemas. A acessibilidade a água potável e a instalações sanitárias condignas permitem reduzir a disseminação de doenças infeciosas e as taxas de mortalidade infantil e materna, principalmente nos países em desenvolvimento.

Quase a totalidade (97%) da água disponível para consumo humano encontra-se no subsolo, e esta representa cerca de 1/3 da água doce disponível no planeta. Razão pela qual a falta de reposição de água no solo nas grandes cidades europeias, nos deve deixar muito preocupados.

A escassez de água, como as secas ou o excesso de água, como as cheias, são a principal expressão pela qual sentiremos muitos dos efeitos das alterações climáticas. Milhões de famílias vivenciam já estas situações no seu dia-a-dia, mas é responsabilidade de todos e em qualquer parte do mundo zelar por este Bem tão precioso.

 

Autor

Luís Miguel Condeço

Professor na Escola Superior de Saúde de Viseu

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