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Artigo de opinião-ANTÓNIO DAMAS MORA – Um médico português entre os trópicos

A luta contra as doenças tropicais nas antigas colónias portuguesas é uma epopeia quase esquecida. Mas as gerações do então denominado Império Português deixaram-nos um “fio de memória” que deve ser desfiado e devidamente reconhecido.

Vamos focar hoje a figura de António Damas Mora (1879-1949), que foi um protagonista ativo no combate à doença do sono na Ilha do Príncipe e em Angola, mas também a Oriente, nos territórios de Timor e de Macau.

É ele o protagonista do livro intitulado “António Damas Mora – um médico português entre os trópicos”, da autoria de Luiz Damas Mora, publicado pela editora BytheBook.

O texto é ilustrado com fotografias muito curiosas da época, que enquadram o leitor neste espaço geográfico e cronológico.

Mas quem foi este jovem pioneiro e arrojado António Damas Mora?

Nasceu em Rio de Moinhos (Abrantes) em 1879. Em 1901 termina a licenciatura em Medicina na Escola-Médico Cirúrgica e posteriormente vai-se alistar no Exército, onde fará sua  carreira militar, atingindo o posto de Coronel-Médico (1923). Entre 1902 e 1910 passa a Delegado de Saúde na Ilha do Príncipe, onde teve participação ativa no combate à doença do sono.

Na década de 20 já será Diretor Interino da Direção de Saúde do Ministério das Colónias. E em 1921, Norton de Matos nomeia-o para o lugar de Diretor dos Serviços de Angola,. Nessa região põe em campo os seus princípios de uma Medicina Social, criando a Central Assistência Médica aos Indígenas e combatendo as endemias, nomeadamente a fatal doença do sono.

Mas o que é exatamente esta doença? Segundo a OMS, este é o nome comum da Tripanossomíase Humana Africana. É uma infeção transmitida pela mosca de tsé tsé, que aterrorizava cerca de quarenta países africanos. É uma doença tremenda, pois ataca o sistema nervoso e, se não tratada prontamente, pode levar o doente ao coma e à morte.

Mas este médico português pioneiro na Medicina Tropical, rapidamente entendeu que havia muito para fazer em terra Africana para combater este flagelo.

Cria em África laboratórios de  análises bacteriológicas, parasitológicas químicas, treina e forma pessoal autóctone, tudo isto de forma pioneira. Em 1923, organiza e dirige o 1º Congresso Internacional de Medicina Tropical da África Ocidental.

Em 1926 participa, no âmbito da Organização de Saúde da Sociedade das Nações, numa longa viagem de estudo na África Ocidental (“Tour” de Dakar). No ano de 1928 é nomeado Governador-Geral Interino de Angola. Morre em 1949, legando uma obra admirável, digna dos anais da História da Medicina Tropical.

A evolução da medicina tropical é uma epopeia ainda pouco conhecida. À luz da sensibilidade dos tempos atuais, ficamos espantados com a dureza das estratégias sanitárias com que estas terríveis pandemias eram enfrentadas, e mesmo assim dizimavam grande número de indígenas. São tantos os doentes, nomeadamente as crianças, que podemos classificar como heróis os denominados médicos e enfermeiros “do mato” que tudo faziam para salvar estas populações, apesar dos escassos recursos disponíveis.

Damas Mora sempre mobilizou os médicos contra a ameaça comum – endemias e epidemias tropicais – tendo também formado um grupo coeso de enfermeiros nativos de Angola, que irão desempenhar um papel de relevo no terreno. Em simultâneo,

  1. Damas Mora deixa uma grande coleção de “escritos” que são gritos de alerta, com um sentido humanista admirável, fazendo esforços para que a Metrópole desse o devido apoio às suas inquietações. Mas nada foi fácil.

Estes primórdios da medicina tropical são o retrato de um Portugal grande em extensão, mas muito pequeno na capacidade de gerir tamanha imensidão

Uma época fascinante este período da nossa História, muito marcado pela controvérsia política e pelos desafios inimagináveis, estes muitas das vezes entregues a Homens notáveis (infelizmente pouco conhecidos) que agiram com coragem, quebrando tabus e abrindo caminho para um sistema de saúde público universal.

Por: Ana de Albuquerque (editora)

No âmbito do programa “Cultura, Ciência e Tecnologia na Imprensa”, promovido pela Associação Portuguesa de Imprensa.

 

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