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Artigos de Opinião

Artigo de Augusto Falcão—O Natal e a Humanidade: Entre Luzes e Silêncios

À medida que o mês de dezembro avança, as ruas iluminam-se com cores cintilantes, as montras enchem-se de presentes e os sons das músicas natalícias ecoam em cada esquina. Mas o Natal é mais do que um calendário de consumo ou um ritual repetido ano após ano. É, sobretudo, um convite à humanidade — àquilo que nos torna próximos, solidários e conscientes do valor da vida em comunidade.

O Natal recorda-nos que, por detrás das tradições, existe uma mensagem intemporal: a importância de cuidar uns dos outros. Num mundo marcado por desigualdades, guerras e crises, este tempo pode ser um momento de pausa, em que se reaviva a esperança de que a bondade ainda tem lugar. A partilha de uma refeição, o gesto simples de oferecer tempo ou atenção, ou até o silêncio respeitoso junto de quem sofre, são expressões de humanidade que não dependem de grandes recursos, mas de uma vontade genuína de estar presente.

É também um período em que se confrontam duas realidades: a abundância e a carência. Enquanto muitos celebram rodeados de conforto, outros enfrentam o frio, a solidão ou a ausência. O Natal, nesse contraste, desafia-nos a olhar para além das nossas casas e a reconhecer que a verdadeira festa só se cumpre quando ninguém é esquecido. A solidariedade, mais do que um ato isolado, deve ser um compromisso que se prolonga para lá do dia 25.

Mas há ainda uma dimensão muitas vezes esquecida: as profissões que não param. Médicos, enfermeiros, bombeiros, polícias, motoristas de transportes públicos, jornalistas, trabalhadores da hotelaria e da restauração — todos eles mantêm viva a engrenagem da sociedade mesmo nos dias festivos. Enquanto uns se reúnem em família, outros asseguram que a saúde, a segurança, a informação e o acolhimento não falham. O seu trabalho é, em si mesmo, um gesto de humanidade, pois garante que o Natal pode ser vivido com tranquilidade e dignidade por todos.

E é aqui que o Natal nos desafia a ser mais: a transformar cada gesto em semente de esperança. Não basta celebrar, é preciso inspirar. Não basta receber, é preciso dar. Cada palavra de carinho, cada mão estendida, cada sorriso partilhado pode ser o início de uma mudança maior. O Natal é um lembrete de que a humanidade não é apenas um conceito abstrato, mas uma prática diária que se constrói em pequenos atos de coragem e bondade.

No fundo, o Natal é uma metáfora da humanidade: luz que rompe a escuridão, calor que vence o frio, encontro que supera a distância. É um apelo a que cada um de nós seja capaz de transformar pequenos gestos em grandes sinais de esperança. Porque, se o Natal nos lembra que a vida tem valor, cabe-nos a nós dar-lhe sentido, todos os dias.

Que este Natal seja vivido com autenticidade, como um tempo de encontro e de esperança. Que cada gesto, por mais pequeno que pareça, seja capaz de acender luzes no coração de alguém. E que o novo ano nos encontre mais solidários, mais conscientes e mais humanos, prontos para transformar desafios em oportunidades e sonhos em realidade.

Feliz Natal e um ótimo Ano Novo, cheio de saúde, paz e inspiração para todos.

 

Augusto Falcão

Artigo de Luís Miguel Condeço—O longo caminho para nascer

Na madrugada ainda fresca do outono algarvio, uma ambulância acelera na A22 com uma grávida em trabalho de parto avançado. Horas antes, esta mulher tinha sido observada no Hospital de Portimão e enviada para casa, mais tarde a viagem tornava-se inesperadamente no cenário de um nascimento. O bebé acabou por nascer ali mesmo, entre sirenes, num corredor improvisado sobre rodas, e o país acordou com esta notícia e inquietação de que não se tratava de um caso isolado.

Até setembro de 2025, registaram-se 32 partos em ambulâncias e 154 partos pré-hospitalares, ultrapassando os totais anuais de anos anteriores. Este fenómeno inquietante não é apenas um episódio dramático ou uma fatalidade geográfica, mas é um espelho da fragilidades profunda do sistema de saúde. E, ironicamente, parece aproximar-nos de um passado que julgávamos definitivamente esquecido.

Para compreender o alcance deste retrocesso, é essencial recuar à primeira metade do século XX, quando o parto em Portugal, acontecia sobretudo em casa. Até 1961, cerca de 80% dos nascimentos eram domiciliares, assistidos por parteiras tradicionais ou curiosas (mulheres experientes, mas sem formação específica na área). O parto era um acontecimento profundamente comunitário, mas também profundamente arriscado. As histórias recolhidas pela historiografia mostram mulheres que caminhavam quilómetros até às maternidades, casos dramáticos de partos complicados e elevadas taxas de mortalidade infantil e perinatal. Em 1975, a mortalidade perinatal atingia os 31,8 por mil nados-vivos, valor que consideramos inaceitável.

O investimento na saúde materna e a modernização obstétrica alterou profundamente este cenário. A inauguração da Maternidade Dr. Alfredo da Costa, em 1932, representou um marco importante nos cuidados perinatais, mas foi sobretudo a partir das décadas de 1960 e 1970 que o parto se deslocou em massa para o hospital. A criação do Serviço Nacional de Saúde consolidou esta transição, oferecendo cuidados especializados, vigilância pré-natal e maior segurança clínica. Os resultados foram de tal forma notórios, que em 2012, a mortalidade perinatal desceu para 4,2 por mil nados-vivos, uma das descidas mais significativas da Europa. A hospitalização do parto salvou vidas, mesmo que tenha trazido consigo uma crescente medicalização, com taxas elevadas de cesarianas e intervenções instrumentais.

Este progresso não veio “sozinho”, trouxe novos mapas e novas fronteiras. O encerramento de pequenas maternidades em zonas rurais e do interior do país, justificado pela concentração de recursos e pela necessidade de equipas diferenciadas, fez com que muitas mulheres ficassem dependentes de longas deslocações. Como reconhece Joanna White, o fenómeno dos “partos em trânsito” não é uma surpresa estatística, é a consequência direta de um sistema que concentrou competências, mas não garantiu acessibilidade territorial.

Hoje, a situação agrava-se pela instabilidade das urgências de obstetrícia, pela dificuldade em fixar profissionais especializados e pelas limitações crónicas de recursos. A cada fim de semana ou feriado, muitas grávidas vivem na incerteza sobre qual hospital as poderá receber. E quando nascer depende do código postal, o parto transforma-se de novo, num risco geograficamente determinado.

O mais inquietante é que este retorno a cenários improvisados acontece num contexto, em que os enfermeiros especialistas em saúde materna e obstétrica são profissionais altamente qualificados, alinhados com padrões europeus de formação e competência. Paralelamente, cresce no país um movimento de humanização do parto, que valoriza práticas baseadas em evidência e a continuidade de cuidados. A existência de equipas multidisciplinares e projetos de parto humanizado mostra uma sociedade mais informada, mais exigente e mais orientada para a autonomia da mulher. No entanto, estes avanços convivem paradoxalmente, com partos feitos em ambulâncias, à pressa, sem condições adequadas e muito aquém da dignidade que o momento exige.

É difícil aceitar que este seja apenas mais um dado na crónica dos constrangimentos do Serviço Nacional de Saúde. Um parto na estrada não é um mero dado estatístico, é uma marca profunda da desigualdade territorial e da incapacidade de garantir um serviço essencial. A geografia, antiga fronteira entre privilégio e desproteção, não pode determinar quem nasce em segurança e quem nasce em improviso.

Autor

Luís Miguel Condeço

Professor na Escola Superior de Saúde de Viseu

Artigo de Luís Miguel Condeço—Não basta falar de Saúde Mental

O último Relatório Anual de Segurança Interna (RASI) regista um crescimento de 8,7 % no número de ocorrências de delinquência juvenil entre jovens dos 12 aos 16 anos, totalizando 1.833 atos em 2023, e com tendência a aumentar.

Em simultâneo, multiplicam-se os discursos públicos e as campanhas sobre saúde mental: escolas que falam de ansiedade, redes sociais que promovem o “bem-estar emocional”, programas institucionais dedicados à literacia em saúde mental. Contudo, quando olhamos para casos extremos de agressões familiares, homicídios cometidos por adolescentes ou episódios de violência entre pares, percebemos que algo falha. É importante que a saúde mental esteja na ordem do dia, mas não basta falar dela, é preciso agir, cedo e de forma integrada.

O caso recente do adolescente que cometeu matricídio chocou a sociedade, alimentando as manchetes e a indignação pública. Tal como a tragédia vivida em Castro Daire, onde adolescentes alegadamente envolvidos num pacto de morte abalaram toda a comunidade escolar, estes acontecimentos são sintomas de uma crise de fundo. As alterações comportamentais extremas já não podem continuar a ser tratadas apenas como “problemas de ordem pública” ou “traumas individuais”. Mais do que compreender o porquê destes gestos, importa questionar o onde estávamos nós, famílias, escolas e sociedade, quando o sofrimento começou a crescer em silêncio, sem voz nem resposta.

A investigação aponta para uma forte relação entre a exposição à violência, seja como vítima, testemunha ou partícipe, e o risco acrescido de desenvolver perturbações psiquiátricas como a ansiedade, a depressão ou o stress pós-traumático. Em Portugal, o relatório Saúde Mental dos Jovens identifica igualmente fatores como o bullying, o cyberbullying, a violência no namoro, a solidão e as relações familiares conflituosas como determinantes da vulnerabilidade psicológica. O aumento da delinquência juvenil, registado pelo RASI, obriga-nos a refletir sobre os nexos entre saúde mental, vigilância precoce e contextos de adversidade.

A contradição é evidente, fala-se muito sobre saúde mental, mas raramente esse discurso se traduz em redes de cuidado capazes de intercetar os percursos de risco dos nossos jovens. Fala-se em acolhimento psicológico nas escolas, mas quantos programas sistemáticos existem que articulem escola, família, serviços de saúde e comunidade? Fala-se em literacia emocional, mas quantos pais são realmente formados para exercer o seu papel de vínculo protetor? Fala-se em “prevenção” de forma abstrata, mas quantos profissionais detetam, a tempo, os sinais de isolamento, agressividade ou vulnerabilidade emocional antes de se converterem em violência?

No cerne do problema está o negligenciado valor da relação, da presença e do vínculo. Em contextos escolares, comunitários ou familiares, o contacto humano e o acompanhamento próximo (pais, professores, membros da comunidade escolar) constitui fator protetor. Pelo contrário, laços frágeis ou inexistentes aumentam exponencialmente o risco de sofrimento psicológico e de comportamentos violentos.

Impõe-se, por isso, uma política pública que se mobilize de forma real e coordenada:

  • para uma intervenção precoce e integrada, capaz de detetar sinais de sofrimento emocional e comportamentos desviantes nas escolas e famílias, articulando serviços de saúde mental, assistência social e comunidade local;
  • para o fortalecimento das redes de cuidado, onde pais, professores, associações e instituições de saúde se assumam como âncoras de suporte efetivo, dotando o espaço escolar de mais equipas de psicologia;
  • e para a transformação do discurso em prática, através da formação parental, da capacitação docente e da construção de comunidades mais atentas e solidárias.

Falar sensibiliza e desperta consciências, mas por si só, não impede que o sofrimento visível ou oculto se transforme em tragédia. A verdadeira mudança exige que passemos da palavra à ação, da escola à família, da comunidade ao serviço de saúde, do discurso ao cuidado.

Autor

Luís Miguel Condeço

Professor na Escola Superior de Saúde de Viseu

Artigo de Sara Morais—ANSIEDADE EXISTENCIAL E A HIPNOTERAPIA

A natureza é caracterizada pela sua ciclicidade, lançamos uma semente na terra, esperamos que esta ganhe raízes para que possa germinar, crescer, florescer e morrer. Assim como as fases da lua, como o dia e a noite, como as marés…Há um ritmo inerente a tudo!  O Ser Humano como elemento natural faz parte,também, de um ciclo: nascer, viver e morrer. Durante este “viver”, o leitor cumpre a sua experiência através de uma ciclicidade de eventos como as guerras, pandemias, perdas de referências, crises económicas, afetos e desafetos, grandes e rápidas transformações sociais, doenças, mudanças de valores e comportamentos. Esta roda viva que é a vida favorece aquilo que se designa por ansiedade existencial.

A ansiedade existencial é caracterizada por uma angústia profunda alimentada pelas perguntas centrais da existência: “Quem sou eu?”, “Qual é o sentido da minha vida?”, “Como lidar com a morte e a finitude?”. Embora estas interrogações façam, naturalmente, parte da condição humana e possam impulsionar crescimento pessoal, também, quando persistem de modo recorrente ou intenso, compromete a saúde mental, pois pode criar sofrimento e favorecer o isolamento, assim como afetar o bem-estar, o sono, a motivação, relações inter e intra-pessoais, desencadear depressão ou bloqueios existenciais.

A hipnoterapia surge como uma ferramenta terapêutica que pode oferecer caminhos complementares para aliviar essa ansiedade existencial. Ao induzir um estado de relaxamento e de consciência, existe uma maior atenção e concentração e uma menor funcionalidade crística consciente o que permite a permeabilidade da mente. Neste seguimento, ao intervir na ansiedade existencial é possível trabalhar os valores pessoais, o sentido de vida, permite ao leitor entrar em contacto com o que verdadeiramente lhe é importante, assim como o que pode estar escondido ou esquecido. Esta primeira abordagem poderá aliviar o sentimento de vazio ou de desorientação existencial. Uma outra abordagem é o trabalho sobre a redução de medos profundos, como por exemplo: o medo da morte ou de morrer, medo do sofrimento ou isolamento. Neste âmbito, as técnicas utilizadas ajudam a enfrentar e as reprocessar esses medos. Ainda no modelo interventivo existem as imagens terapêuticas e metáforas que ajudam a trabalhar o sentimento de segurança e a reconciliação com o “eu”. Existe, também, práticas de auto-hipnose e auto cuidado que podem ser trabalhadas para que o leitor reúna as ferramentas necessárias para a auto regulação emocional.

Em conclusão, a hipnose não é uma “cura milagrosa”, não resolve todos os conflitos existenciais sobretudo se houver condições psiquiátricas graves associadas, ou se for utilizada sem acompanhamento. No entanto, aparece como uma intervenção promissora para aliviar a ansiedade existencial, através da facilitação de significado, redução do medo ou sofrimento, do uso de metáforas simbólicas e da criação de práticas de auto-hipnose, pode ajudar o leitor a encontrar maior sentido de vida, mais aceitação e menos angústia.

 

Sara Morais – Hipnoterapeuta

 

 

Artigo de opinião de Luís Miguel Condeço—Entre o desperdício e a fome

Dia 16 de outubro assinala-se o Dia Mundial da Alimentação, uma data que, mais do que evocativa, deverá ser um apelo à consciência coletiva. Instituído pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), este dia convida-nos a refletir sobre os desafios globais da alimentação. Nos países desenvolvidos, a atenção recai principalmente sobre a alimentação saudável e a sustentabilidade alimentar, procurando-se reduzir o consumo de produtos ultraprocessados (produzidos industrialmente e com alto teor de sal, açúcar e gorduras), valorizar a produção local e promover dietas amigas do ambiente. Mas enquanto discutimos a origem biológica de um tomate ou a redução da pegada de carbono da carne, há milhões de pessoas que continuam simplesmente a lutar pela sobrevivência.

Cerca de 673 milhões de pessoas estão em situação de fome no mundo, segundo o relatório mais recente da FAO (2024). E não se trata apenas de um dado estatístico, mas de um flagelo que destrói vidas, compromete futuros e mina comunidades inteiras. Entre as suas vítimas mais cruéis estão as crianças, que em muitos países chegam à escola com o estômago vazio e regressam a casa sem garantia de uma refeição. Em zonas de conflito, como Gaza, Sudão ou Iémen, a fome já foi classificada como “catástrofe”, traduzindo-se em milhares de mortes silenciosas, raramente mediáticas, mas devastadoras.

Este cenário contrasta violentamente com o que se passa nas sociedades desenvolvidas. Aqui, o problema não é a escassez, mas sim o excesso e o desperdício. Estima-se que um terço dos alimentos produzidos globalmente nunca seja consumido. Basta olhar para o nosso dia a dia: prateleiras cheias em supermercados, fruta descartada por imperfeições estéticas, refeições preparadas que expiram nas vitrinas e toneladas de sobras que nunca chegam a quem precisa. O desperdício é banalizado, invisível pela abundância, mas carrega consigo uma responsabilidade ética inegável.

A Direção-Geral da Saúde e outras entidades sublinham a importância de uma alimentação equilibrada, diversificada e sustentável, como parte essencial da saúde pública e da mitigação das alterações climáticas. Estas preocupações são legítimas e urgentes, precisamos de reconfigurar os nossos sistemas agroalimentares para produzir de forma mais eficiente, reduzir o impacto ambiental e proteger o futuro das próximas gerações. No entanto, não podemos cair na armadilha de acreditar que sustentabilidade é apenas um conceito associado à ecologia. Não existe sustentabilidade num mundo onde a fome persiste e mata.

O futuro da alimentação decide-se em várias frentes. Nos países mais desenvolvidos, passa por políticas de incentivo à produção local, educação alimentar e combate ao desperdício. Nos países menos desenvolvidos, exigem-se estratégias estruturais de combate à fome, reforço da agricultura familiar, acesso equitativo a mercados e apoio humanitário consistente. É urgente reconhecer que a alimentação saudável e a luta contra a fome fazem parte de um mesmo compromisso global.

Evocar o Dia Mundial da Alimentação deve servir para interpelar consciências. Não basta multiplicar campanhas sobre dietas equilibradas se não denunciarmos também a injustiça gritante de um planeta onde alguns contam calorias, enquanto outros contam migalhas. Cada cidadão pode ser parte da solução, reduzindo o desperdício em casa, valorizando os produtores locais, apoiando projetos solidários e exigindo aos decisores políticos que a fome seja tratada como prioridade absoluta da agenda internacional.

Entre o desperdício e a fome, ergue-se o maior paradoxo do nosso tempo. Como pode a humanidade, em pleno século XXI, ainda não ser capaz de garantir a todos o mais básico dos direitos, o direito a alimentar-se com dignidade.

Autor

Luís Miguel Condeço

Professor na Escola Superior de Saúde de Viseu

Artigo de opinião de Augusto Falcão—-Agosto em chamas

E acaba agosto com uns dias frescos, mas recordam-se da minha última crónica? Foi sobre os incêndios; naquela altura havia 3 grandes ocorrências: Ponte da Barca, Arouca e Penamacor;

E vai daí que agosto nos prega uma grande partida; calor quase todo o mês; consequência disto?

Grandes incêndios; incêndios com vários dias de duração, com muitas horas de diretos nas televisões que mostravam o HEROÍSMO das populações, muitas vezes sem ajuda, a tentarem salvar os seus pertences; Bombeiros que lutavam com um verdadeiro inferno de chamas, que teimava em não dar tréguas; relatos imensos da descoordenação entre terreno e comando, eram o prato de cada dia; em qualquer canal de televisão era uma chuva de especialistas sobre incêndios florestais, onde havia desde especialistas de comunicação até comandantes de Bombeiros, que no fundo, ainda cestão entre os técnicos com credenciação para falar das operações de combate.

Mas era um verdadeiro desfile de estrelas; recordo-me particularmente de alguém dizer que tinha passado 1 semana no interior do País e que conhecia o território de que se falava…

Omitiu-se que mais de 90% dos incêndios nascentes foram dominados à sua nascença porque esses não dão direito a imagens catastróficas, nem a um rol de especialistas poderem debitar sempre ou quase sempre a mesma mensagem;

Recordo-me de quando era miúdo, de ir com os meus avôs para as hortas que povoavam a nossa paisagem; todos tinham um bocadinho que terra para plantar; essas terras cuidadas eram bons tampões ao incêndios; também me recordo de que tudo o que se podia apanhar no meio das matas, tudo era aproveitado para as lareiras aquecerem as casas; matas limpas também dificultam a propagação dos incêndios; e também me recordo que havia mais castanheiros e carvalhos e menos pinheiro e eucalipto, árvores estas que são mais resistentes ao fogo, mas também ardem, ao contrário do que também ouvi dizer numa televisão nacional; foi um momento de humor….

Ora a vida mudou; o clima também; e se estes dois fatores mudaram a nossa paisagem, o nosso território também mudou; tornou-se mais seco e quente; e se as terras deixaram de ser tratadas, a carga combustível como aumenta, aumenta também a intensidade dos incêndios; se juntarmos a isto um isqueiro ou uma trovoada seca ( o apurar das causas dos incêndios são da responsabilidade das autoridades policiais) vamos ter um incêndio; e se juntarmos todas as estrelinhas certas teremos um incêndio muito difícil de controlar;

Mas até aqui não há novidades; todos nós sabemos isto; e basicamente foi isto que o rol de especialistas e comentadores debitaram nas televisões; diagnósticos já feitos há bastante tempo, e sempre repetidos de ano para ano, porque todos os anos andamos a falar nisto; e quando caem as primeiras pingas, a nossa comunicação social tão expedita a dar voz a um desfile de especialistas, também esquece o assunto; até dá a sensação que haver fogos dá jeito as televisões senão o que noticiar? Os mergulhos do Presidente da República no Algarve?  Afinal estamos na silly season certo?

Afinal não precisamos de mais diagnósticos; porque eles estão todos feitos;  precisamos é de ação; precisamos de o governo arregace as mangas e se ponha a trabalho; coloque em prática os planos de prevenção e limpeza do território, começando pelas propriedades do estado; que crie legislações exequíveis e não feitas a “martelo” após a ocorrência ( casa roubada, trancas na porta); que crie um sistema de combate simples e descomplicado para que as necessidades fluam cadeia acima sem ser preciso (“requerimentos em papel selado) como se dizia antigamente; que as Câmaras e juntas assumam as suas responsabilidades nas suas áreas de influência , relativamente às limpezas dos terrenos, mesmo em ano de eleições ( sei que é pouco eleitoral, mas é um mal necessário); não precisamos é do passa culpas sistemático que existe neste País; sim, porque os investigadores dos incêndios afirmam que o futuro próximo vai ser com incêndios mais difíceis de extinguir… precisamos de ação e não de palavras e grupos e comissões de estudo: porque parece-me que tudo está estudado e com recomendações; tudo o resto é empurrar os problemas com a barriga e deixar o problema para o próximo ano.

Espero pelo ano que não se fale nisto… mas estou cada vez mais a desistir.

Tenham cuidado; evitem comportamentos de risco; sigam os conselhos das autoridades….

Um bom setembro.

Augusto Falcão

 

Artigo de opinião de Luís Miguel Condeço—-Arder por dentro

Outra vez!

Voltou a viver-se neste mês de agosto um cenário de fogo quase permanente. As imagens repetem-se: aldeias cercadas pelas chamas, populações em fuga, habitações destruídas, animais mortos, bombeiros exaustos. Mas, para lá da destruição visível, há feridas silenciosas que se instalam e que perduram além do rescaldo, como o impacto dos incêndios na saúde das populações.

Segundo o Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas, arderam já este ano cerca de 234 mil hectares, o valor mais elevado desde 2017, quando as tragédias de Pedrógão e de outubro desse ano marcaram para sempre a memória coletiva dos portugueses. Só em agosto, registaram-se dezenas de grandes incêndios, incluindo o megaincêndio que deflagrou em Arganil, responsável pela maior área ardida deste ano. E mais importante, a perda de vidas humanas que se somam a esta tragédia, contando-se oito mortes diretamente associadas ao fogo.

Os números ajudam a perceber a dimensão do problema. Entre 2010 e 2025, a área florestal perdida soma 1,97 milhões de hectares, o equivalente a 60% de toda a floresta portuguesa. Distritos como Coimbra, Viseu e Castelo Branco concentram mais de 320 mil hectares ardidos na última década, refletindo a vulnerabilidade crónica do interior. Não se trata apenas de hectares de pinhal e eucalipto, mas de comunidades expostas a uma ameaça repetida, que compromete a sua saúde e qualidade de vida.

A ciência é clara, a exposição ao fumo e às partículas finas libertadas pelos incêndios aumenta os riscos de doenças respiratórias e cardiovasculares. Tosse, falta de ar (dispneia), agudizações de asma ou agravamento da doença pulmonar obstrutiva crónica tornam-se frequentes nas semanas mais críticas. Idosos, crianças e pessoas com doenças respiratórias são os mais atingidos, mas ninguém fica imune. E de forma oficiosa, sabemos que as unidades hospitalares das zonas afetadas registam sempre picos de procura nestes períodos, confirmando que os incêndios florestais são também um problema de saúde pública.

Há, contudo, um outro impacto que raramente ocupa o espaço mediático, ou que por pequenos “fogachos” vai sendo abordado por alguns especialistas nos programas televisivos, e que nos faz “arder por dentro” – o impacto na saúde mental das populações. Quem vive a ameaça das chamas, quem perde a casa ou os terrenos agrícolas e florestais, carrega cicatrizes emocionais profundas. Ansiedade, insónias, depressão e até perturbação de stress pós-traumático são cada vez mais identificados em comunidades atingidas. E também as equipas de socorro e emergência, como os bombeiros, submetidos a uma pressão contínua e muitas vezes desumana, estão igualmente em risco.

O combate aos incêndios exige meios no terreno, mas também uma estratégia integrada do sistema de saúde. É urgente investir em programas de vigilância respiratória para grupos vulneráveis, criar equipas de apoio psicológico nas zonas afetadas e assumir que cada grande incêndio é também uma crise de saúde pública. Ao mesmo tempo, não podemos esquecer a prevenção: mais de 70% das ignições em Portugal têm origem em atividades humanas, desde queimadas agrícolas ao fogo posto. Sem educação, fiscalização e políticas de ordenamento, os números não se irão alterar.

O verão de 2025 deixa, mais uma vez, a lição dolorosa de que os incêndios não se medem apenas em hectares perdidos. Medem-se em vidas interrompidas, em corpos fragilizados pela poluição, em mentes marcadas pelo medo. A floresta pode regenerar-se com o tempo. As pessoas, sem apoio, não. E é por elas que este combate não pode nunca terminar, mesmo quando a última chama se apaga.

Autor

Luís Miguel Condeço

Professor na Escola Superior de Saúde de Viseu

Artigo de opinião de Luís Miguel Condeço—Educação Assexuada

Em Portugal, a Educação Sexual é legalmente obrigatória desde 2009. No entanto, quem acompanha a realidade escolar percebe rapidamente que sua implementação é mais teórica do que prática, e mais desejada do que efetivamente realizada. Na maioria das escolas, tópicos relacionados à sexualidade, no seu sentido mais amplo e humano, aparecem esporadicamente, entre uma aula de ciências naturais e uma sessão pontual com um profissional de saúde. A sexualidade ainda é vista como um risco a evitar, e não como um direito a ser vivido. Essa é a grande contradição da Educação Sexual em Portugal: sendo um dever do Estado, permanece uma tarefa negligenciada.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde, a sexualidade é “um aspecto central do ser humano ao longo da vida”, influenciada por fatores biológicos, psicológicos, sociais, culturais, éticos e espirituais. Na escola portuguesa, essa centralidade frequentemente é negada, e a sexualidade permanece como um tema secundário, muitas vezes considerado desconfortável, sendo relegada a atividades extracurriculares ou a abordagens improvisadas na educação.

A Lei n.º 60/2009, de 6 de agosto, ainda vigente, determina que a Educação Sexual seja ensinada do 1.º ao 12.º ano, inserida na disciplina de Cidadania e Desenvolvimento (no 2º e 3º ciclos) ou por meio de projetos transversais. Contudo, e após mais de uma década depois da sua publicação, o Ministério da Educação admite que muitas escolas não cumprem totalmente a lei. Entre os obstáculos estão a falta de gabinetes de apoio ao aluno, recursos humanos insuficientes, escassez de tempo letivo ou espaço físico, além de equipas pedagógicas pouco preparadas e quase nenhum envolvimento de encarregados de educação.

Para além disso, a abordagem dominante continua excessivamente centrada na componente biológica da sexualidade: gravidez, infeções sexualmente transmissíveis, puberdade; descurando os afetos, os valores, a identidade, a igualdade de género, os direitos sexuais e reprodutivos, a intimidade, o prazer e a responsabilidade. A Educação Sexual é assim reduzida a uma lógica de prevenção do risco, muitas vezes enviesada por preconceitos, ausente de uma perspetiva emancipadora.

Manuel Damas, sexólogo português, afirma que “a sexualidade e os afetos são essenciais na formação do ser humano e as escolas têm uma função determinante na desconstrução de tabus e mitos”. De facto, mais do que ensinar a evitar riscos, a escola deve educar para viver, para compreender o corpo, respeitar o outro, assumir os desejos com responsabilidade, reconhecer a diversidade de identidades e expressões. A adolescência, com as suas descobertas e contradições, exige informação rigorosa, espaço para o diálogo e uma pedagogia dos afetos. Esconder a sexualidade é condenar os jovens à ignorância e à culpa.

Estudos e relatórios internacionais demonstram que os programas de Educação Sexual Compreensiva contribuem para o adiamento do início da vida sexual, redução do número de parceiros, maior uso de contracetivos, e talvez mais importante, para o desenvolvimento de relações mais saudáveis e menos violentas. Estes programas reconhecem a sexualidade como parte da dignidade humana e promovem atitudes mais inclusivas, diminuem a homofobia, a discriminação e a violência baseada no género.

A falta de um programa nacional bem estruturado, que seja substituído apenas por “orientações” e uma grande liberdade para cada escola, levará a uma grande disparidade na aplicação da lei. Contudo, poderemos contar com escolas que criam projetos sólidos, trabalhando em parceria com profissionais de saúde, organizações não governamentais e serviços comunitários.

Um exemplo de boa prática nesta área é o projeto “Devagar que tenho P®essa”, da Escola Superior de Saúde de Viseu, que promove a literacia em saúde sexual e afetos junto de alunos do ensino básico (2º e 3º ciclos), através de sessões educativas, formação de professores e materiais pedagógicos. Esta iniciativa preenche lacunas deixadas pelo sistema, mostrando como a escola pode, de facto, educar para a sexualidade de forma estruturada, respeitosa e transformadora.

É tempo de resgatar a dimensão pedagógica da sexualidade e afirmar o papel da escola como espaço de formação integral. Para isso, é urgente investir na formação dos professores, envolver os pais, criar equipas multidisciplinares efetivas, integrar os alunos nas decisões e garantir que todas as escolas do país, de forma sistemática e sustentada, assumam a Educação Sexual como prioridade. Não como um apêndice, mas como parte essencial da Educação para a Saúde, da Educação para os Direitos Humanos e, em última análise, da Educação para a Vida.

Autor

Luís Miguel Condeço

Professor na Escola Superior de Saúde de Viseu

Artigo de Opinião de Augusto Falcão—Temperaturas elevadas

Chegou o calor; e nestes últimos dias um calor acima do normal, mesmo em tempo de verão;

E pelas previsões, o tempo quente irá continuar para mal dos de sempre; espantou-me que nada tivesse ocorrido na primeira vaga de calor; os incêndios que deflagraram foram de pouca monta se a memória não falha;

Mas, e ainda estamos no início desta vaga de calor, e já os serviços noticiosos abrem com grandes incêndios em vários pontos do País.

À hora que escrevo isto, há pelo menos 3 grandes ocorrências em Portugal; Arouca, Ponte da Barca e Penamacor; e durante os próximos dias logo veremos, até porque o calor, de acordo com as previsões não dá sinal de querer abrandar;

Mais uma vez, as nossas televisões em horário nobre, enchem-nos de veículos de bombeiros, de bombeiros a tentar extinguir as chamas, de populações em desespero, e que veem os seus bens a serem reduzidos a cinzas em questões de minutos.

Mais uma vez…, mas eu recordo-me de o ano passado, termos visto a mesma coisa; e há dois anos também, e há três… e se formos por aí a fora, iremos regressar ao fatídico ano de 2017, onde os incêndios de junho e outubro criaram a página mais negra da nossa história moderna….

E todos os anos, vemos as mesmas imagens; e revoltam-nos; dizemos que tudo tem que mudar; os políticos esses apressam-se a debitar umas frases feitas (há muito tempo) esquecendo-se depois de tudo o que disseram; do governo à oposição, todos debitam uma qualquer verdade, que um dia foi produzida numa daquelas comissões que se criam depois de alguma catástrofe (lembra-se de Pedrógão?) mas que depois não saem disso mesmo – de comissões e de uma página num relatório.

Aliás, lembram-se da mais alta figura da Nação ter visitado Pedrógão e que numa imagem comovente abraçou um idoso que tinha ficado sem a sua casa? Essa individualidade disse que tudo iria ser reconstruído; pelo que li, esse idoso já não está entre nós, mas a sua casa também não foi reconstruída.

Palavras leva-as o vento; todos reclamam e todos concordam na análise; todos aceitam que é preciso mudar; mas onde o poder realmente reside nada muda; em público diz-se umas coisas “giras”, mas depois nos gabinetes onde o verdadeiro “status quo” existe a ordem é para nada fazer porque tudo tem de ficar igual; ou então muda-se algo, na superfície porque na sua essência tudo fica igual;

No início da “época balnear” ou época de incêndios, juntam-se todos, numa exposição de veículos, operacionais e equipamentos, para dar a noção de segurança e que tudo está a postos; mas a verdade é que apesar do esforço de todos os que a esta hora combatem as chamas em Portugal,  tudo voltará ao seu rumo normal depois da tempestade de fogo terminar; a terra estará negra, as cinzas ocuparão o lugar do verde da mata e daqui a uns anos tudo estará igual e pronto para arder…

E o que nos vai ainda valendo é este esforço, destes operacionais que tudo darão para que o mal maior não suceda…

Tenham cuidado; evitem comportamentos de risco; sigam os conselhos das autoridades….

Um bom agosto.

Augusto Falcão

Artigo de Luís Miguel Condeço—O lado certo da guerra

Da Guarda a Beja, dista (em linha reta) sensivelmente o mesmo, que de Gaza ao país europeu mais próximo (Chipre). Este conflito, infelizmente também é nosso, como a guerra na Ucrânia! E ainda há poucas semanas, se evidenciava a mortandade dos dois conflitos, ultrapassando o milhão e meio de vítimas (mortos e feridos). E na Europa, a história vai-se repetindo com muito frequência e amplitude.

Há pouco mais de século e meio (24 de junho de 1859), a violência das guerras atingia níveis sem precedentes. No norte de Itália, o empresário suíço Jean‑Henri Dunant acabado de chegar a Castiglione delle Stiviere, foi surpreendido pela sangrenta batalha de Solferino, confronto brutal entre exércitos austríacos e franco‑sardos que durou aproximadamente nove horas. Acredita-se que o número de feridos e mortos, ultrapassou os 40 000 soldados, que nos dias seguintes chegaram a Castiglione, transformando a localidade num hospital improvisado. Os residentes esforçavam-se por ajudar os feridos da batalha, e Dunant colaborava nesse esforço, impressionando-o os cuidados prestados pelas mulheres da vila a soldados aliados e inimigos, não olhando à farda que envergavam. Esse esforço espontâneo inspirou‑o a escrever Un souvenir de Solférino, em que sublinhou a urgente necessidade de criar uma associação permanente para cuidar dos feridos em tempos de paz e guerra.

De facto, a batalha de Solferino deu origem a um movimento global de ajuda humanitária e à regulamentação da proteção dos feridos e dos civis em guerra.

Em 1863, Dunant reuniu‑se com diversas personalidades e representantes de dezasseis estados europeus em Genebra, criando o Comité Internacional das Sociedades de Ajuda aos Feridos, antecessor do Comité Internacional da Cruz Vermelha. No ano seguinte (1864), realizou‑se a conferência diplomática que originou a Primeira Convenção de Genebra, intitulada “Sobre a melhoria do destino dos militares feridos em campanha”. Nesta convenção, assinada por doze países (incluindo Portugal), surgiu pela primeira vez o símbolo que conhecemos hoje, a cruz vermelha sobre fundo branco, que deveria ser utilizada pelos membros do Comité.

 

O símbolo da Cruz Vermelha (e, mais tarde, do Crescente Vermelho e do Cristal Vermelho) tornou‑se um farol de esperança em campos de batalha, sob a proteção jurídica das convenções. Os emblemas identificam quem está exclusivamente ao serviço da humanidade, e quem deve permanecer intocados pelo conflito.

As Convenções de Genebra estabeleceram normas básicas do Direito Internacional Humanitário, como o tratamento sem discriminação de feridos e dos doentes, a proteção dos hospitais e dos profissionais, e o respeito pela neutralidade médica. Foram adotadas mais três convenções (1906, 1929, 1949), que estenderam a proteção aos náufragos, regularam os direitos e o tratamento dos prisioneiros de guerra e introduziram proteções explícitas para civis. Os protocolos de 1977 e de 2005 adaptaram o Direito Humanitário a conflitos armados não‑internacionais e introduziram símbolos alternativos com o mesmo valor legal.

O Comité Internacional da Cruz Vermelha, formalizado em 1876, assume o papel de guardião destas convenções. Conjuntamente com o Crescente Vermelho agrupa 191 sociedades nacionais e mobiliza cerca de 80 milhões de pessoas, reafirmando-se como organismo “neutro, imparcial e independente”. Atua exclusivamente com base no Direito Humanitário, promovendo o respeito por estas normas, visitando detidos e prisioneiros, prestando cuidados médicos diretamente em zonas de conflito e instaurando diálogo diplomático quando necessárias negociações para permitir ajuda humanitária.

O impacto destas conquistas não se limitou a legislações ou a símbolos, a Cruz Vermelha foi laureada com o Prémio Nobel da Paz por três vezes (1917, 1944 e 1963), reconhecendo a sua ação vital durante as guerras mundiais e ao longo de um século de intervenção humanitária. Assim como, o seu fundador Jean-Henri Dunant (juntamente com Frédéric Passy), recebeu o primeiro Prémio Nobel da Paz em 1901.

Hoje, vemos ataques a estruturas e instalações prestadoras de cuidados de saúde, sequestros e mortes de profissionais de saúde, ou bloqueios de ajuda humanitária, e nunca é de mais referir a importância dos princípios inerentes ao Direito Internacional Humanitário. Reafirmar o legado de Dunant e das Convenções é insistir que, mesmo na guerra, há regras. E as regras existem para salvar vidas. Este é o lado certo da guerra.

Autor

Luís Miguel Condeço

Professor na Escola Superior de Saúde de Viseu