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Religião

Pedreira nos “Matos” surge na localidade da Matança

No seu site a Junta de Freguesia informou : “os habitantes da Freguesia de Matança de todo o processo de Pesquisa e Exploração de Massas Minerais (Pedreira), a ser implementada numa parcela do terreno baldio, denominado “Matos”. A área total do terreno é de cerca de 215ha e a parcela de terreno contratualizada é de 15ha. A localização precisa está nas imagens anexas.

No início do ano de 2019, a Junta de Freguesia de Matança recebeu propostas de duas empresas para a Exploração de Massas Minerais -extração de granito. Negociou com ambas as empresas e, posteriormente, submeteu para análise e aprovação, em Assembleia de Freguesia a 21 de junho de 2019.

Após discussão em Assembleia de Freguesia, os seus membros deliberaram, por unanimidade, aceitar uma das propostas, que contempla:

– 8 anos de contrato;

– Área de 15ha;

– Renda mensal de 1000€ (mil euros) a partir de 4 de janeiro de 2020;

– Renda mensal de 2000€ (dois mil) a partir do dia seguinte à data em que se iniciar a extração das massas minerais;

– Vedação das áreas utilizadas no terreno objeto de contrato;

–  Cooperação com JFM em beneficio da freguesia, nomeadamente no arranjo de caminhos, acessos, fornecimento de pedra ou outra prestação de serviços que se afigure útil para a freguesia;

Na sua tomada de decisão tiveram por base diversos fatores: interesse social, económico e ambiental. Teve-se em conta o interesse e o benefício da freguesia e dos seus habitantes como um todo.

Em termos socio económicos acreditamos que esta é uma oportunidade que a freguesia tem, através da criação de postos de trabalho diretos/indiretos importantes para o desenvolvimento económico, e consequente fixação de população, que tanto necessitamos.

Importa, também, referir que a Junta de Freguesia tem como receitas fixas cerca de 28 000€ anuais, que resultam da transferência de cerca de 3500€ por parte da Câmara Municipal de Fornos de Algodres, e o restante do Fundo de Financiamento das Freguesias. Desta forma, é possível um incremento anual de 24000€, ou seja, um aumento de cerca de 85% do orçamento anual da freguesia, passando de 28 000€ para 52 000€ anuais. Assim, é possível dotar a Junta de freguesia de meios financeiros que permitam a realização de investimentos em beneficio da freguesia, e consequente melhoria das condições de vida de todos os seus habitantes, e de quem a visita.

Em termos ambientais e paisagísticos, a localização da pedreira também foi tida em conta, uma vez que esta se encontra para lá da linha de média tensão, na encosta virada para a Matela. Não haverá, por isso, qualquer tipo de impacto direto na paisagem vislumbrada, uma vez que a pedreira não será visível a partir da aldeia, sendo que a encosta que se encontra virada para a Matança permanecerá tal como está.

Embora existisse uma proposta financeiramente mais favorável, esta pressupunha a exploração de uma área de 30ha, algo que foi rejeitado, tendo também sido valorizado o facto da empresa contratualizada aproveitar cerca de 90% da pedra e efetuar escavamento em patamares e não em buracos.

Foram também discutidas experiências passadas, uma vez que a Freguesia da Matança já teve uma exploração de granito a trabalhar durante vários anos, numa zona muito próxima da povoação. De forma a salvaguardar os interesses da freguesia, e para que não sejam cometidos erros como no passado, a Junta de Freguesia decidiu incluir no contrato uma cláusula que refere que, em caso de  cessação do contrato, devem ser cumpridas as obrigações decorrentes do D.L. 270/2001, de 6 de outubro, com as alterações introduzidas pelo D.L. 340/2007 de 12 de outubro e da licença em matéria de fecho e recuperação paisagística do sítio, em conformidade com o PARP (Plano Ambiental e de Recuperação Paisagística) aprovado, e até que seja reposta a recuperação paisagística do sítio, e em caso de incumprimento, será pago o valor de 100€ (cem euros) diários até que se cumpra integralmente a sua obrigação.

Importa também referir que todos os procedimentos legais e avaliação dos riscos para a instalação da Pedreira são da competência da Direção Geral da Energia e Geologia, da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional e do Instituto da Conservação da Natureza e Floresta, tendo a empresa responsável pela instalação da pedreira seguido os procedimentos legais impostos pelas mesmas.

Tudo isto foi discutido de forma ampla e transparente em Assembleia de Freguesia, assembleias que são públicas e devidamente publicitadas em locais próprios, onde todos podem participar.

Embora compreendamos que possa existir alguma relutância nesta mudança, reiteramos a nossa convicção de que esta é a escolha acertada em benefício da freguesia”.

Diocese de Viseu sugere que fiéis vão ao cemitério de forma gradual

Nota Pastoral – Viver a Esperança na Vida Eterna

Foi emitida uma Nota Pastoral na Diocese de Viseu que refere: A Liturgia da Comemoração de Fiéis Defuntos, que tem grande manifestação cristã na vida dos fiéis e da Igreja, este ano em contexto de Pandemia de Covid-19 e vivendo em situação de contingência, tendo presente as Orientações sanitárias e das autoridades de saúde pública local, que não permitem ajuntamentos públicos com número elevado de pessoas, convidam-nos a cumprir a lei tendo presente as Orientações da Direção Geral de Saúde e as Orientações Pastorais para a nossa Diocese de Viseu.

Aproximando-se os dias 1 e 2 de novembro em que muitas pessoas se deslocam aos cemitérios, especialmente durante as romagens e as celebrações de sufrágio dos fiéis defuntos, havemos por bem olhar para a comunidade com o bom senso pastoral, a virtude da prudência e da caridade. Convido os pastores e todas as pessoas a rezar em sufrágio dos defuntos participando na celebração da Eucaristia, na visita ao cemitério de forma privada, respeitando sempre as medidas profiláticas de Saúde Pública com o gesto de desinfetar as mãos, usar a máscara, fazer o distanciamento físico e evitar sempre o ajuntamento de grupos.

Todos somos livres e responsáveis, “todos estamos no mesmo barco” e queremos o bem de todos. Não queremos ser responsabilizados por infetar ninguém, nem sermos infetados pelo vírus.

A promoção da Saúde é um bem precioso para a humanidade, algo que devemos promover e incentivar, educando para os valores da vida e da saúde, num diálogo de abertura e compreensão para vivermos todos a vida “em fraternidade e amizade social” (Papa Francisco).

Conscientes de que o momento presente continua a ser crítico com o aumento de número de contágios e aumento de números de mortes, sabendo que são muitas as pessoas que nestes dias vêm de outros lugares e do estrangeiro às suas comunidades para participar na visita e na romagem aos cemitérios e rezar pelos seus entes queridos.

Perante a atual situação de pandemia pedimos a todos os pastores e fiéis que acolham as seguintes orientações da Diocese e em comunhão de verdadeira fraternidade, todos sejam cumpridores das seguintes normas pastorais:

  1. Estamos autorizados a celebrar a Eucaristia ou a promover a Celebração da Palavra dentro da Igreja ou capela, ao ar livre se o tempo o permitir, no dia 1 de novembro, celebração de Todos os Santos, e no dia 2, na Comemoração de Fiéis Defuntos, cumprindo sempre as orientações que já assumimos como de ver cívico e boa prática reconhecida à Igreja. No final da Eucaristia podemos fazer uma oração de sufrágio por todos os defuntos. Exortemos os fiéis a visitarem os cemitérios durante o mês de novembro e rezarem pelos fiéis defuntos, evitando sempre os ajuntamentos proibidos por lei.
  2. Não estamos autorizados a realizar procissões ou romagens aos cemitérios. De acordo com a lei, os cemitérios estão sob a tutela da autoridade civil. A celebração da Eucaristia na Capela do Cemitério ou qualquer outra celebração comunitária de fé está proibida.
  3. Aproveitemos as nossas homilias para apresentar o verdadeiro valor e sentido da vida, o chamamento de todos à santidade, a beleza da vida eterna, a importância da oração de sufrágio pelos fiéis defuntos, o sentido pleno da morte, procurando educar e formar as pessoas e os cristãos para o verdadeiro sentido das exéquias, ajudando também os fiéis a fazerem de modo sadio e cristão o luto.

 

Espero que a comunhão, na unidade de critérios pastorais e na corresponsabilidade, seja assumida por todos.

Confio a Nossa Senhora do Rosário, a Mãe de Jesus e nossa Mãe, o caminho da Missão renovada da Igreja, para que com a oração do terço em família, imploremos o eterno descanso de todos os fiéis defuntos.

Unido aos vossos sentimentos e preocupações pastorais, desejo-vos o maior bem com gratidão e estima pessoal.

 

Viseu, 7 de outubro de 2020

† António Luciano dos Santos Costa,

Bispo de Viseu

Avisos e Liturgia do 27º domingo do Tempo Comum- Ano A

 

 

Neste Domingo, a Palavra de Deus fala-nos do povo judeu, utilizando a metáfora da vinha: “A vinha do Senhor é a casa de Israel”, assim cantamos no salmo. A primeira consideração que se nos oferece fazer desta vinha é que o seu proprietário é Deus. Foi Ele que cavou a vinha, limpou-a das pedras, plantou-a de cepas escolhidas e arrendou-a a uns vinhateiros. Podemos afirmar que a vinha que nos é oferecida por Deus, é a nossa vida em união com as pessoas que nos rodeiam nesta casa comum que é o nosso planeta. Quem é capaz de dar vida a não ser Deus? Todos procedemos graciosamente do seu amor: “Fomos concebidos no coração de Deus e, por isso, cada um de nós é o fruto de um pensamento de Deus. Cada um de nós é querido, cada um de nós é amado, cada um é necessário”, como afirma o Papa Francisco (‘Laudato si’, 65). As pessoas que nos rodeiam são também um dom do Senhor. Elas enriquecem-nos com as suas qualidades e virtudes que receberam de Deus e, assim, cada um de nós também deve colocar ao seu serviço as qualidades que Deus nos deu. Todas as pessoas têm a dignidade de ser imagem e semelhança do criador, de proceder do seu amor. Finalmente, a terra é um dom do criador que temos de cuidar: “A terra existe antes de nós e foi-nos dada” (‘Laudato si’, 67). “A criação só se pode conceber como um dom que vem das mãos abertas do Pai de todos, como uma realidade iluminada pelo amor que nos chama a uma comunhão universal” (‘Laudato si’, 76).

A vinha tem um único dono que é Deus e a nós foi confiada, ou seja, arrendada, para nela trabalharmos. Sobre os frutos, teremos de prestar contas ao Senhor. Os príncipes dos sacerdotes e os anciãos do povo pretenderam possuir a vinha como sua propriedade. Esta aspiração destruiu a harmonia da vinha e a cobiça dos vinhateiros levou ao assassínio dos representantes do dono, incluindo o seu próprio filho. A pretensão de possuir a vinha por parte dos vinhateiros, querendo usurpar a Deus a sua propriedade, conduz aos piores desastres. A vinha, em vez de dar boas uvas, produzirá agraços. Quando pensamos que somos donos da vida, acreditamos que temos o direito de decidir sobre o princípio e o fim da mesma. A fraternidade passa para segundo plano e cresce a nossa indiferença perante pobres e os que sofrem. Se a terra é considerada como propriedade e não como um dom, pensamos que temos o direito de a explorar sem olhar a meios: “Esta irmã clama contra o mal que lhe provocamos por causa do uso irresponsável e do abuso dos bens que Deus nela colocou. Crescemos a pensar que éramos seus proprietários e dominadores, autorizados a saqueá-la” (‘Laudato si’, 2).

 

Folha Elo de Comunhão

 

Somos convidados a sermos administradores da vinha. Somos administradores de uma propriedade que nos foi confiada como um dom e da qual teremos de entregar os frutos ao Senhor. Para sermos bons vinhateiros, é-nos pedido uma maneira diferente de viver, reconhecendo que Deus é o criador e o proprietário da vinha. Assim, a nossa missão consiste em acolher o dom da vida, do irmão e da terra numa atitude de agradecimento ao criador. Todavia, temos de cultivar e desenvolver este dom procurando para todos uma terra acolhedora e familiar. O Senhor pede-nos que trabalhemos no cuidado da vinha quando esta aparece frágil e em risco. Temos de velar com mimo pela vida a começar (em embrião), sobretudo quando corre o risco de se extinguir ou está ameaçada. “A melhor maneira de colocar o ser humano no seu lugar e acabar com a sua pretensão de ser dominador absoluto da terra, é voltar a propor a figura de um Pai criador e único dono do mundo; caso contrário, o ser humano tenderá sempre a querer impor à realidade as suas próprias leis e interesses” (‘Laudato si’, 75).

 

Dar fruto

 

O Senhor está permanentemente comparando a alma humana com uma vinha: «O meu amigo possuía uma vinha numa colina fértil» (Is 5,1); «plantou uma vinha, cercou-a com uma sebe» (Mt 21,33). É, evidentemente, à alma humana que Jesus chama a sua vinha, foi a ela que cercou, qual sebe, com a segurança que proporcionam os seus mandamentos e a protecção dos seus anjos, porque «o anjo do Senhor assenta os seus arraiais em redor dos que O temem» (Sl 33,8). Em seguida, ergueu em nosso redor uma paliçada, estabelecendo na Igreja «primeiro, apóstolos, segundo, profetas, terceiro, doutores» (1Cor 12,28). Por outro lado, através dos exemplos dos homens santos de outrora, eleva-nos os pensamentos, não os deixando cair por terra, onde mereceriam ser pisados. Deseja que os abraços da caridade, quais ramos de uma vinha, nos liguem ao nosso próximo e nos levem a repousar nele. Assim, mantendo permanentemente o impulso em direcção aos céus, elevar-nos-emos como vinhas trepadeiras até aos mais altos cumes.

O Senhor pede-nos também que consintamos em ser podados. Ora, uma alma é podada quando afasta para longe de si os cuidados do mundo, que são um fardo para o nosso coração. Assim, aquele que afasta de si mesmo o amor carnal e a ligação às riquezas, ou que tem por detestável e desprezível a paixão pela miserável vanglória foi, por assim dizer, podado, e voltou a respirar, liberto do fardo inútil das preocupações deste mundo.

Mas – e mantendo ainda a linha da parábola – não podemos produzir apenas lenha, ou seja, viver com ostentação, ou procurar os louvores dos de fora. Temos de dar fruto, reservando as nossas obras para as mostrarmos ao verdadeiro agricultor (Jo 15,1). (São Basílio, c. 330-379, monge, bispo de Cesareia da Capadócia, doutor da Igreja, Homilia 5 sobre o Hexâmeron, 6).

 

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Ano A - Tempo Comum - 27º Domingo - Boletim Dominical II

 

Avisos e Liturgia do 26º Domingo do Tempo Comum- Ano A

 

A conversão é algo que depende do esforço pessoal. Acreditamos que cada um de nós é capaz de se aperfeiçoar, de ir ultrapassando as suas limitações, erros e pecados. Como consequência, este trabalho pessoal agrada a Deus. Antes de tudo, a conversão é um dom de Deus Pai que devemos aceitar e agradecer, ajustando a nossa vida com a sua vontade. Não é fruto do esforço para alcançar a perfeição ou o perfeccionismo, mas é o resultado da abertura à graça de Deus Pai, que é rico de misericórdia. A conversão é a expressão do desejo de obedecer à vontade de Deus.

Porém, a conversão é reconhecer a nossa dimensão de pecadores. Através da profecia de Ezequiel, Deus adverte o seu povo e interroga-se sobre o seu modo de pensar: “Vós dizeis: ‘A maneira de proceder do Senhor não é justa’; Será que a minha maneira de proceder não é justa? Não será antes o vosso modo de proceder que é injusto?”. O profeta alertava o povo sobre o risco das suas acções conduzirem à maldade e à morte e não serem conformes à vontade de Deus. Cada pessoa é responsável pelos seus actos. Na segunda leitura, S. Paulo faz referência à falta de fraternidade que existia na comunidade de Filipos. Por isso apela à consolação, à ternura, à caridade, falando com carinho e realismo àqueles cristãos que estavam a sofrer, para que encontrem remédio para esse pecado. Jesus quer que os príncipes dos sacerdotes e os anciãos do povo se consciencializem da sua desobediência à vontade de Deus para que possam emendar-se. Fala-lhes duramente, afirmando que os publicanos e as mulheres de má vida irão diante deles para o reino de Deus. Também nós precisamos da Palavra de Deus e do auxílio dos irmãos para que nos ajudem a sermos conscientes da nossa responsabilidade, quando praticamos o mal, e da nossa indiferença e distância, em alguns momentos, da vontade de Deus. Realmente, sentimos uma grande dificuldade para reconhecer o nosso pecado. Muitas pessoas, talvez alguns de nós, perderam a consciência do pecado.

 

27-09-2020

 

A conversão é acolher os sentimentos de Cristo Jesus. Entrar no coração de Deus leva-nos a descobrir como é misericordioso: “Lembrai-Vos, Senhor, das vossas misericórdias e das vossas graças, que são eternas” (Salmo). O amor de Deus nunca se desvanece, é-nos dado quando menos o merecemos. Deus derrama a sua misericórdia sobre nós e deseja que acolhamos os sentimentos do seu Filho. São Paulo apresenta-nos os sentimentos de Cristo: a humildade e a entrega. A humildade é a virtude daquele que sabe que não se construiu a si próprio e que a sua vida está nas mãos de Deus. Por isso, não se acha altivo mas coloca-se ao nível dos últimos: “Não se valeu da sua igualdade com Deus, mas aniquilou-Se a Si próprio, assumindo a condição de servo”. A entrega é a virtude de quem acredita que é no servir e dar a vida pelos outros que se encontra a verdadeira alegria e que se cumpre a vontade de Deus: “humilhou-Se ainda mais, obedecendo até à morte, e morte de cruz”. Acolhemos os sentimentos de Cristo quando o contemplamos na sua Palavra, na vida e nos sacramentos.

A conversão é obedecer a Deus. É sua vontade que estejamos empenhados na construção do Seu reino. Perante isto, acontecem duas reacções contrárias: há aqueles que dizem sim e não vão trabalhar e aqueles que dizem não, mas arrependem-se e vão trabalhar na vinha. Também corremos o mesmo risco dos príncipes dos sacerdotes e dos anciãos do povo quando deixamos que a nossa fé se converta em pura ideologia, longe da nossa vida e indiferente ao serviço dos irmãos. Obedecer a Deus é trabalhar na vinha, é viver segundo a Sua vontade.

 

Obedientes ao Pai, a imitação do Filho

 

«Seja feita a vossa vontade!» (Mt 6,10) Isto resume toda a vida do Salvador. Ele veio ao mundo para fazer a vontade do Pai, não apenas para expiar o pecado de desobediência com a sua obediência (Rm 5,19), mas também para conduzir os homens à sua vocação no caminho da obediência.

A vontade dos seres criados não está feita para ser livre sendo senhora de si própria; está chamada a conformar-se com a vontade de Deus. Se com ela se conformar por submissão livre, é-lhe dado participar livremente no aperfeiçoamento da criação. Se se recusar a fazê-lo, a criatura livre perde a sua liberdade. A vontade do homem mantém o livre arbítrio, mas ele é seduzido pelas coisas deste mundo, que puxam por ele e o empurram em direcções que o afastam do desenvolvimento da sua natureza tal como Deus a quis, e da finalidade que ele próprio estabeleceu na sua liberdade original. Para além desta liberdade original, perde a segurança da sua resolução, torna-se vago e indeciso, é importunado por dúvidas e escrúpulos, ou fica endurecido no seu desregramento.

Contra isso, não há outro remédio senão seguir a Cristo, o Filho do homem, que, não só obedecia directamente ao Pai dos Céus, como também Se submeteu aos homens que para Ele representavam a vontade do Pai. A obediência tal como Deus a quis liberta a nossa vontade escrava de todos os laços com as coisas criadas e devolve-lhe a liberdade. É também o caminho para a pureza do coração. (Santa Teresa Benedita da Cruz, Edith Stein, 1891-1942, carmelita, mártir, co-padroeira da Europa, Meditação para a festa da Exaltação da Santa Cruz)

 

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Ano A - Tempo Comum - 26º Domingo - Boletim Dominical II

 

Avisos e Liturgia do 25º Domingo do Tempo Comum do Ano A

O autor da carta aos Hebreus afirma que a Palavra de Deus é viva, eficaz e mais afiada que uma espada de dois gumes, ou seja, é capaz de cortar, de separar aquelas realidades que pertencem ao domínio de Deus das que são fruto do sentir e agir humanos. Para o discípulo, a Palavra de Deus converte-se no principal critério de discernimento. É importante aprender a distinguir os planos de Deus dos nossos. É isto que nos é proposto neste domingo. Por muito que queiramos não é fácil harmonizar os nossos planos com os de Deus, sem haver o risco da vontade de Deus ser falseada e deturpada. Uma vez discernidos, os planos de Deus podem ser acolhidos como nossos.

É vontade de Deus Pai que todos os seus filhos estejam junto Dele, disfrutando da sua companhia. Ele nunca faz acepção de pessoas e quer salvar todos. “Com efeito, manifestou-se a graça de Deus, portadora de salvação para todos os homens” (Tit 2,11). Jesus apresenta-nos este projecto de salvação universal de Deus com uma comparação. O seu Reino é como uma vinha, na qual todos somos chamados a trabalhar. O dono da vinha saiu à praça pública em diversos momentos do dia e convidou a trabalhar na sua propriedade todos quanto encontrou. Se estivéssemos no lugar deste empresário, teríamos feito uma selecção do pessoal, contratando os mais fortes, os que nos foram recomendados ou aqueles que nos pediram. Mas Deus não faz isto. Não são os operários que se aproximam do proprietário a pedir trabalho. É o dono que sai e vai chamando os que vai encontrando. Trabalhar na vinha do Senhor não é, em primeiro lugar, fruto do nosso desejo e das nossas capacidades. É consequência de uma escolha e de um chamamento de Deus que temos de acolher com alegria e gratidão. São todos convocados e o salário ajustado com os da primeira hora é um denário. Este salário que Deus nos oferece é a sua própria presença ao nosso lado. Oferece-se como salário, porque sabe que nós seremos plenamente felizes com a sua companhia. Mas quando nos afastamos dele ficamos fracos. Esta experiência fez S. Paulo. Ele descobriu que só com o Senhor a vida tem sentido: “Para mim, viver é Cristo”.

20-09-2020

Os nossos pensamentos e os nossos caminhos não são como os de Deus. Nós pensamos que aqueles que renderam bem no seu trabalho têm de ser recompensados e receber mais do que os seus colegas. Achamos que isto é justo e nisto somos como os que foram contratados no início do dia. Deus tem um modo de pensar e de agir caracterizado pela misericórdia. Quanto à nossa maneira de pensar, poder-se-ia fazer as seguintes perguntas: Por que é que se paga menos aos que são mais fracos? Não têm todos uma família para sustentar? Os operários da última hora terão o suficiente para levar algo para jantar com a sua família? Deus pensa sempre a partir dos últimos, dos pobres, dos que têm menos oportunidades. Por isso paga a todos por igual, porque Ele é o salário. Perante esta atitude do dono da vinha, os primeiros operários contratados protestaram. Tiveram inveja do patrão e dos colegas de trabalho. Recordam-nos o filho mais velho da parábola do Filho Pródigo. Não conseguiram reconhecer a imensa alegria que é trabalhar na vinha do Senhor, gozando da sua companhia; por isso, não se sentiram recompensados. São muitos os cristãos a quem a rotina não lhes deixa perceber a felicidade de estar junto de Deus. Todos somos irmãos chamados por Deus a trabalhar na sua vinha e nenhum tem o direito a cobrar nem mais nem menos do que aquilo que Deus nos quer dar, que é Ele próprio.

 

«Ide vós também para a minha vinha»

 

Meus bem-amados, perseverai nas boas obras que começastes. Há homens infelizes que servem um rei terreno correndo risco de vida e passando por enormes dificuldades em troca de um benefício que rapidamente desaparece; como não haveis vós de querer servir o Rei do Céu para obter a felicidade do Reino? Uma vez que, pela fé, o Senhor já vos chamou à sua vinha, ou seja, à unidade da Santa Igreja, vivei e comportai-vos de tal maneira que, graças à generosidade de Deus, possais receber a moeda de prata, isto é, a felicidade do Reino dos Céus.

Que ninguém desespere por causa da grandeza dos seus pecados, dizendo: «Numerosos são os pecados nos quais perseverei até à velhice e à velhice extrema; não poderei já obter perdão, sobretudo porque foram os pecados que me deixaram, não fui eu que os rejeitei.» Que essa pessoa não desespere de todo da misericórdia divina, porque uns são chamados à vinha do Senhor à primeira hora, outros à terceira, outros à sexta, outros à nona e outros à décima primeira – ou seja, uns são conduzidos ao serviço de Deus na infância, outros na adolescência, outros na juventude, outros na velhice e outros na velhice extrema.

Que ninguém desespere, pois, se quer converter-se a Deus, seja qual for a sua idade. Trabalhai fielmente na vinha da Igreja, para receberdes o salário da felicidade eterna e reinardes com Cristo por todos os séculos dos séculos. (Autor anónimo do século IX, na actual Itália, Homilia para a Septuagésima, 4-7)

 

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Ano A - Tempo Comum - 25º Domingo - Boletim Dominical II

Avisos e Liturgia do 24º domingo do Tempo Comum- Ano A

 

Pedro é um discípulo curioso que procura aprofundar a mensagem de Jesus. Através das suas incompreensões, das suas perguntas e da sua ousadia, o Mestre explica com mais clareza os mistérios do Reino. Neste Domingo, encontramos este discípulo inquieto pelas vezes que tem de perdoar. Talvez tivesse alguém que o ofendesse continuamente e que tivesse de perdoar para além do número que pede a lei judaica. Coloca esta questão a Jesus e, como sempre, este ultrapassa com a sua resposta as expectativas de Pedro.

O rei da parábola evangélica sentiu compaixão daquele servo que lhe devia uma fortuna, deu-lhe a liberdade e perdoou-lhe a dívida. O perdão é uma das manifestações mais radicais e puras do amor e de Deus, que é amor. O refrão do salmo responsorial introduz-nos na essência de Deus, “que é clemente e compassivo, paciente e cheio de bondade”. Quando alguém faz a experiência do pecado, Deus deseja a sua conversão e propõe-lhe caminhos para reorientar novamente a vida. O salmo 81 mostra-nos o desgosto de Deus perante o pecado do seu povo: “Mas o meu povo não quis ouvir-me; Israel não quis obedecer”; e, ao mesmo tempo, expressa o desejo do seu regresso: “Se o meu povo me tivesse escutado! Se Israel tivesse seguido os meus caminhos!”. Santa Teresa de Jesus diz-nos como antes da sua conversão Deus a avisava na oração e através de algumas pessoas para que deixasse o pecado e voltasse para Ele (cf. Livro da Vida, 7,8-9). Podemos, então, entender que quando um pecador se converte, a inquietação do coração do Pai transforma-se em alegria.

O perdão de Deus é-nos oferecido de uma forma total e gratuita. Perdoa a dívida ao servo e dá-lhe liberdade sem nenhuma condição. Este modo de perdoar de Deus está no centro da mensagem de Jesus. Oferece sempre aos pecadores a graça libertadora da sua misericórdia sem qualquer cláusula. Assim aconteceu com Levi, com a mulher pecadora, com Zaqueu…e com o servo do evangelho deste domingo. Quando bebemos no manancial da misericórdia de Deus, a nossa vida fica curada. Quando se é perdoado por Deus, descobre-se com humildade a nossa debilidade de espírito e vive-se agradecido Àquele que nos dá a fortaleza. Santa Teresa de Jesus narra em muitas ocasiões o excesso de amor de Deus que viveu na sua vida ao acolher o Seu perdão: “Olhem o que Ele fez comigo; cansei-me mais depressa de O ofender que sua Majestade de perdoar-me. Nunca se cansa de dar nem se podem esgotar as suas misericórdias” (Livro da Vida 19,15).

13-09-2020

Quem já experimentou o perdão de Deus, sente vontade em viver perdoando em todas as ocasiões em que é ofendido. Por isso, Jesus diz a Pedro que tem de perdoar “setenta vezes sete”, ou seja, sempre. O perdão é uma atitude que define a vida do cristão. Não há ofensa tão grande que não possa ser perdoada com a ajuda daquele que perdoou na hora da morte aos que o tinham condenado injustamente. Jesus alerta-nos para uma irregularidade que pode acontecer na nossa vida. O servo da parábola, depois de ter sido perdoado pelo rei, não foi capaz de perdoar a um dos seus companheiros que lhe devia somente cem denários. E nós? Depois de fazermos a experiência do perdão do Pai, somos capazes de perdoar aos que nos ofendem? Talvez celebremos com frequência o perdão do Pai, mas sem o valorizar. Será que também pensamos que merecemos o perdão, tendo em conta as nossas boas obras? “O senhor, indignado, entregou-o aos verdugos, até que pagasse tudo o que lhe devia”. Jesus avisa-nos que o perdão que Deus nos dá reclama forçosamente o nosso perdão ao irmão: “Assim procederá convosco meu Pai celeste, se cada um de vós não perdoar a seu irmão de todo o coração”.

 

Deus à procura do homem perdido

 

Como a fraqueza dos homens não é capaz de manter um rumo firme neste mundo escorregadio, o bom médico mostra-nos o remédio para os nossos desvios, e o juiz misericordioso não nos recusa a esperança do perdão. Compreende-se assim que São Lucas tenha apresentado em sequência as três parábolas da ovelha perdida, da dracma perdida e do filho que estava morto e regressou à vida; fê-lo para que este triplo remédio nos comprometa a cuidarmos das nossas feridas.

Alegremo-nos, pois, pelo facto de a ovelha que se tinha perdido em Adão ser reerguida em Cristo. Os ombros de Cristo são os braços da cruz; foi lá que depus os meus pecados, nesse madeiro encontrei repouso. Aquela ovelha é única na sua natureza, mas não nas suas pessoas, porque todos nós formamos um só corpo, mas somos muitos membros. Por isso está escrito: «Vós sois o corpo de Cristo e membros dos seus membros» (1Cor 2,27). Pois «o Filho do homem veio salvar o que estava perdido» (Lc 19,10), quer dizer, todos os homens, uma vez que «todos morrem em Adão, tal como todos voltam à vida em Cristo» (1Cor 15,22).

Também não é indiferente que a mulher se alegre por ter encontrado a moeda: é que nessa moeda figura a imagem de um príncipe. De igual modo, a imagem do Rei é o bem da Igreja. Nós somos ovelhas; peçamos, pois, ao Senhor que nos conduza à água do descanso (Sl 22,2). Nós somos ovelhas; peçamos para ser conduzidas às pastagens. Nós somos a moeda; mantenhamos o nosso valor. Nós somos filhos; corramos para o Pai. (Santo Ambrósio, c. 340-397, bispo de Milão, doutor da Igreja, Sobre o evangelho de S. Lucas, 7, 207)

 

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Ano A - Tempo Comum - 24º Domingo - Boletim Dominical II

Avisos e Liturgia do 23º Domingo do Tempo Comum do Ano A

O individualismo é um dos aspetos que caracterizam a sociedade atual. Há a tentação de cada um viver por sua conta e risco, centrado em si mesmo sem ter que responder à incómoda pergunta de Deus a Caim: “Onde está o teu irmão?”. Na própria comunidade cristã aparecem sintomas da infiltração deste elemento tão nocivo. Alguns cristãos vivem despreocupados pelos outros, só aparecem na igreja paroquial para satisfazer a sua necessidade particular de relação com Deus; mas também é grande o grupo de cristãos sem comunidade que vão a esta ou outra paróquia dependendo do seu gosto. Neste domingo, mais uma vez, Jesus recorda-nos que a comunidade é essencial para o caminho que nos propõe. Sem vida comunitária, seguir Jesus não se compreende nem faz sentido. A Palavra de Deus oferece-nos alguns conselhos para a vida fraterna, entre os quais se destaca a necessidade de ajudar a mudar a vida do irmão que anda desorientado e perdido. Todos somos responsáveis daqueles que nos rodeiam.

Jesus começa a instruir os seus discípulos num assunto delicado e transcendente: a correcção fraterna. É delicado porque requer muito amor, doçura da parte de quem faz e muita humildade de quem recebe. É transcendente porque na emenda do irmão depende a sua salvação: “Se te escutar, terás ganhado o teu irmão”. A correcção fraterna é fruto do amor. Na segunda leitura, São Paulo afirma: “A caridade não faz mal ao próximo”. A correcção do irmão é um acto de amor por ele, do qual sairá beneficiado. Nesta missão aparece a comunidade como mediadora da salvação. Não nos salvamos na solidão (sozinhos), o caminho da fé faz-se com os outros. A graça de Jesus Cristo não vem directamente do seu coração através de raios penetrantes, mas chega-nos pelo nosso próximo. Trata-se de um processo paciente que procura, não a reprovação, mas a salvação daquele que pecou. Em primeiro lugar, corrige-se a sós; depois, com a presença de duas ou três testemunhas; finalmente, com toda a comunidade (Igreja). Era bom que a correcção fosse aceite num destes três momentos, mas se, infelizmente, tal não acontecer, essa pessoa coloca-se fora da comunidade e os irmãos irão considerá-la como um “pagão”. A comunidade procura a conversão da pessoa; esta, ao não deixar-se orientar pela comunidade, coloca-se à margem de todos.

06-09-2020

Com a expressão “Em verdade vos digo”, Jesus apresenta-se como mestre que dá às suas palavras uma coloração peculiar. Este mestre atribui a autoridade aos seus apóstolos no meio da comunidade: “Tudo o que ligardes na terra será ligado no Céu, e tudo o que desligardes na terra será desligado no Céu”. Mas agora concede-lhes um poder especial que se relaciona com o que, mais tarde, conferirá a Pedro em Cesareia (cf. Mt 16,19). É o poder de atar e desatar. Assim, Pedro e os outros discípulos são confirmados por Jesus como guardiães e intérpretes da Nova Aliança. Jesus tem uma grande confiança nos seus discípulos. Ele conhece as limitações e pecados de cada um. Apesar disso, Ele compromete a sua Palavra e a sua acção às palavras e acções destes homens. Esta concessão de autoridade perpetua-se no tempo e é sempre dada por Jesus àqueles que vai escolhendo como pastores do seu rebanho.

 

«Tudo o que ligardes na terra será ligado no Céu»: o sacramento da reconciliação

Ano A - Tempo Comum - 23º Domingo - Boletim Dominical II

 

No outro dia, alguém, um jornalista, fez-me uma pergunta estranha: «A Madre também se confessa? – Sim, confesso-me todas as semanas, respondi. – Deus deve ser muito exigente, para a Madre também ter de se confessar.»

Então disse-lhe: «Por vezes, o seu filho também se porta mal. O que é que o senhor faz quando ele lhe diz: ‘Paizinho, desculpa-me!’ O que é que faz? Toma o seu filho nos braços e beija-o. Porquê? Porque é a sua maneira de lhe dizer que o ama. Deus faz a mesma coisa. Ele ama-o com ternura.» Se tivermos pecado ou cometido alguma falta, façamos de maneira que isso nos ajude a aproximarmo-nos de Deus. Digamos-Lhe com humildade: «Sei que não devia ter agido assim, mas ofereço-Te esta fraqueza.»

Se tivermos pecado, se tivermos cometido faltas, vamos ter com Ele e digamos-Lhe: «Desculpa Estou arrependido!» Deus é um pai que tem piedade. A sua misericórdia é maior do que os nossos pecados. Ele perdoar-nos-á. (Santa Teresa de Calcutá, 1910-1997, fundadora das Irmãs Missionárias da Caridade, «Não há maior amor»)

 

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Avisos e Liturgia do 22º Domingo do Tempo Comum- Ano A

 

Depois de tudo o que aconteceu na Galileia, ou seja, a falta de fé de algumas pessoas, o abandono de muitos dos que O seguiam e a aversão, cada vez maior, dos anciãos, dos príncipes dos sacerdotes e dos escribas, Jesus toma consciência da sua paixão e morte. “Tinha de ir a Jerusalém e sofrer muito”. É vontade do Pai que Jesus entregue a vida e Ele está disposto a iniciar este caminho. A vontade do Pai era revelada nas suas palavras, “era um fogo ardente, comprimido dentro dos meus ossos. Procurava contê-lo, mas não podia” (1ª leitura). Depois da profissão de fé de Pedro, “Jesus começou a explicar aos seus discípulos que tinha de ir a Jerusalém e sofrer muito da parte dos anciãos…”. Talvez, estivesse a precisar de sentir o apoio e o afecto dos seus discípulos; por isso, faz-lhes esta confidência e prepara-os, para que possam assumir e compreender o escândalo da cruz à luz da ressurreição: “tinha de ser morto e ressuscitar ao terceiro dia”.

Jesus tinha perguntado aos seus discípulos sobre a sua identidade: “Quem dizem os homens que Eu sou?”. Pedro, como verdadeiro discípulo, confessou a sua fé, afirmando que Jesus é o Messias. Mas, agora, a sua atitude é diferente, deixa de ser discípulo, convencido que é capaz de ensinar o próprio mestre. Toma a iniciativa de tomar Jesus à parte para o contrariar. Pedro estava ainda fascinado pela ideia de um messianismo terreno caracterizado pelo poder. “Tomando-O à parte, começou a contestá-l’O, dizendo: Deus Te livre de tal, Senhor! Isso não há-de acontecer!”. Ainda não entende o sofrimento que supõe a entrega da vida por amor. A atitude de Pedro é totalmente humana. Gosta tanto de Jesus que não quer que Ele sofra por nada deste mundo. Ainda não descobriu que Jesus está a cumprir a vontade do Pai e não entende um Messias como servo a entregar a vida por amor. A tentação aborda Jesus através de uma pessoa próxima e amiga.

30-08-2020

“Jesus voltou-se para Pedro” e mudou o semblante e o tom de voz. Agiu com dureza porque sentiu a presença próxima do tentador. Aquele que antes se tinha revelado como um bom discípulo recebendo de Deus a novidade do messianismo de Jesus, agora é utilizado por Satanás para tentar Jesus a afastar-Se do plano que o Pai Lhe tinha confiado. Jesus pede a Pedro que ocupe novamente o seu lugar como discípulo. Com amor, quer arrancar Pedro da influência do Maligno e colocá-lo nas mãos de Deus, na rota do discipulado. Para Jesus, Pedro estava a ser um obstáculo porque ainda não tinha entrado no pensamento de Deus. Pensar como Deus, discernir a sua vontade, é fruto da graça e da aprendizagem. Paulatinamente, o discípulo vai fazendo uma conversão da sua mentalidade, como afirma S. Paulo, na segunda leitura: “Transformai-vos pela renovação espiritual da vossa mente”. Reflectindo e conhecendo Jesus pelo Evangelho, vamos descobrindo e acolhendo o seu modo de pensar e de agir, adquirindo gratuitamente o modo de pensar de Deus.

Finalmente, Jesus diz-nos que o sofrimento não é só para o mestre, mas que será um companheiro fiel de quem quiser seguir o Mestre. Viver em doação por amor aos outros supõe este incómodo mas fecundo companheiro de viagem: “Se alguém quiser seguir-Me, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me”. Neste domingo, S. Paulo recorda-nos que ser discípulo de Jesus supõe uma vida de sofrimento. Somos convidados a viver uma liturgia existencial, na qual, como vítimas agradáveis a Deus, nos oferecemos a Ele.

 

«Não tens em vista as coisas de Deus, mas dos homens»

 

Quando o Senhor impõe ao homem que quer segui-Lo que renuncie a si mesmo, achamos que os seus mandamentos são difíceis e duros de ouvir. Mas, se aquele que ordena nos ajuda a cumprir o que ordena, então esses mandamentos deixam de ser difíceis e penosos. É igualmente verdadeira aquela outra palavra saída da boca do Senhor: «O meu jugo é suave e o meu fardo é leve» (Mt 11,30). Com efeito, o amor suaviza o que os preceitos podem ter de penoso. Conhecemos todas as maravilhas que o amor pode realizar. Que dificuldades não enfrentaram os homens, que condições de vida indignas e intoleráveis não suportaram para atingirem o objecto do seu amor! Porque nos admiramos se aquele que ama Cristo e quer segui-Lo renuncia a si mesmo para O amar? Porque, se o homem se perde amando-se a si mesmo, deverá sem dúvida alguma encontrar-se renunciando a si mesmo.

Que homem se recusaria a seguir Cristo até à morada da felicidade perfeita, da paz suprema e da tranquilidade eterna? É bom segui-Lo até aí; mas é preciso conhecer o caminho para lá chegar. O caminho parece-te cheio de asperezas, repugna-te, não queres seguir a Cristo. Vai atrás dele! O caminho que os homens traçaram é pedregoso, mas foi aplanado quando Cristo o percorreu ao voltar ao Céu. Que homem se recusaria, pois, a avançar em direcção à glória?

Todos gostamos de nos elevar até à glória, mas temos de o fazer pela escada da humildade. Porque levantas o pé acima da tua própria altura? Quererás cair em vez de subir? Começa pelo primeiro degrau: já começaste a subir. Os dois discípulos que diziam: «Senhor, permite-nos que, no teu Reino, nos sentemos, um à tua direita e outro à tua esquerda» não deram atenção à escada da humildade. Visavam o cume, mas não viam os degraus. Mas o Senhor mostrou-lhos. Na verdade, o que foi que Ele respondeu? «Podeis beber do cálice que Eu vou beber? (Mc 10,37-38) Vós que desejais atingir o cume das honras, podeis beber o cálice da humildade?» Foi por isso que Ele não Se limitou a dizer, de uma maneira genérica: «Renuncie a si mesmo e siga-Me», mas acrescentou: «Tome a sua cruz e siga-Me». (Santo Agostinho, 354-430, bispo de Hipona, norte de África, doutor da Igreja, Sermão 96)

 

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 Ano A - Tempo Comum - 22º Domingo - Boletim Dominical II

Avisos e Liturgia do 21º Domingo do Tempo Comum – Ano A

 

Para um discípulo, o mais importante é conhecer Jesus. Só quem conhece Jesus poderá ser seu discípulo. Se não O conhecemos razoavelmente, como O vamos amar e dar a conhecer? Neste domingo a Palavra de Deus mostra-nos o caminho para ir descobrindo a identidade de Jesus.

Um dos grandes males da Igreja é a falta da experiência de Deus e de Jesus Cristo em muitos cristãos. Conhecem coisas de Jesus, que foram ouvidas, mas não O conhecem pessoalmente. Por isso, continua actual a pergunta de Jesus: “Quem dizem os homens que é o Filho do Homem?”. Jesus só pode ser conhecido através de uma relação pessoal e íntima com Ele. Quando dialogamos com Ele cara a cara, quando com Ele convivemos, quando escutamos o que diz e vemos o que faz, vamos captando e fazendo nossas as características da sua pessoa. Por isso é muito importante a nossa oração, o diálogo permanente com Jesus. É também importante o estudo amoroso, contemplativo e vital da Palavra que nos revela o seu modo de sentir, pensar e agir. É indispensável a vida em fraternidade na Igreja que é o seu Corpo. É essencial a experiência de O servir nos pobres e esquecidos deste mundo; Ele quis ficar nos desfavorecidos da nossa sociedade, como se fossem outro sacramento.

Muitas pessoas aproximaram-se de Jesus e conheceram alguns aspectos parciais da sua identidade. Uns consideram-no como um profeta, outros como um excelente mestre de moral, alguns como um revolucionário que prega uma mensagem de libertação para os pobres. Porém, todos estes ficam com uma visão incompleta de Jesus. Nas palavras de Pedro, “Ele é o Messias, o Filho de Deus vivo”. Jesus Cristo é o Ressuscitado que vive para sempre e tem poder sobre o mal e sobre a morte. Jesus é aquele que caminha ao nosso lado. Através da força do Espírito Santo, ajuda-nos na construção do Reino de Deus.

23-08-2020

Quem conhece Jesus Cristo como o Filho de Deus que hoje vive e caminha ao nosso lado, sente que a sua vida está construída em bom alicerce. Em Jesus encontramos a rocha firme sobre a qual podemos edificar o nosso itinerário por este mundo. Jesus dá-nos uma nova identidade e uma nova missão para realizar entre as pessoas. Depois da confissão de fé, foi isso que fez a Pedro: “Tu és Pedro; sobre esta pedra edificarei a minha Igreja”. Muda o nome a Simão, chama-o e confia-lhe a missão de ser o alicerce da Igreja, o pastor do seu rebanho. Como aconteceu com Pedro, Jesus também nos concede uma vida nova e nos dá uma missão: ser imagem do seu amor neste mundo e na Igreja, como leigos, religiosos ou sacerdotes.

A confissão de fé de Pedro não foi fruto de uma inebriante pesquisa, nem de leituras de livros sobre Jesus. Foi uma dádiva de Deus Pai: “não foram a carne e o sangue que to revelaram, mas sim meu Pai que está nos Céus”. É Deus Pai que nos dá a conhecer o seu Filho Jesus, como deu a conhecer a Pedro, a Tiago e a João no monte Tabor: “Este é o meu Filho muito amado, Escutai-O”. É esta a certeza de S. Paulo na segunda leitura: “Como é profunda a riqueza, a sabedoria e a ciência de Deus! Como são insondáveis os seus desígnios e incompreensíveis os seus caminhos”. Queres conhecer Deus Pai e o Filho? Reza muito, reflecte a sua Palavra, vive a caridade e a fraternidade…E, quando Deus quiser, O veremos tal como Ele é, na plenitude da vida no novo céu e na nova terra.

 

«Tu és o Filho do Deus vivo»

 

O Senhor tinha perguntado: «Quem dizem os homens que é o Filho do homem?» Naturalmente que o aspecto do seu corpo manifestava o Filho do homem; mas, ao fazer esta pergunta, Ele dava a entender que, para além do que se via nele, havia outra coisa a discernir. O objecto da pergunta era um mistério para o qual a fé dos crentes devia orientar-se.

A confissão de Pedro obteve em pleno a recompensa que merecia por ter visto naquele homem o Filho de Deus. «Feliz» é ele, louvado por ter prolongado a sua vista para além dos olhos humanos, não olhando para o que vinha da carne e do sangue, mas contemplando o Filho de Deus revelado pelo Pai dos céus: foi considerado digno de ser o primeiro a reconhecer o que em Cristo era de Deus. Que belo alicerce pôde ele dar à Igreja, confirmado pelo seu novo nome! Ele torna-se a pedra digna de edificar a Igreja de forma a ela romper as leis do inferno e todas as cadeias da morte. Feliz porteiro do Céu, a quem são confiadas as chaves do acesso à eternidade; a sua sentença na Terra antecipa a autoridade do Céu, de tal forma que o que tiver ligado ou desligado na Terra o será também no Céu.

Jesus ordena ainda aos discípulos que não digam a ninguém que Ele é o Cristo, porque vai ser preciso que outros, quer dizer, a Lei e os profetas, sejam testemunhas do seu Espírito, uma vez que o testemunho da ressurreição caberá aos apóstolos. E, assim como foi manifestada a felicidade daqueles que conhecem Cristo no Espírito, foi igualmente manifestado o perigo de se desconhecer a sua humildade e a sua Paixão. (Santo Hilário, c. 315-367, bispo de Poitiers, doutor da Igreja, Comentários sobre Mateus, 16)

 

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Ano A - Tempo Comum - 21º Domingo - Boletim Dominical II

Avisos e Liturgia do 20º Domingo do Tempo Comum – Ano A

Deus concede a salvação não só ao povo eleito mas a todos os povos da terra. Por isso Isaías, na primeira leitura, afirma que os estrangeiros fiéis ao Senhor serão acolhidos no seu monte santo. Jesus vai mais além dos limites de Israel para deixar bem claro que o projecto salvador do Pai vai para além das barreiras que pretendemos colocar às pessoas. Oriunda de um povo estrangeiro, para além das fronteiras de Israel, uma mulher cananeia aproximou-se de Jesus e, graças à sua fé, conseguiu a cura da sua filha. Hoje, esta mulher continua a ser um modelo de oração nas situações difíceis da vida.

Na mulher cananeia encontramos o exemplo de uma pessoa que pede insistentemente a ajuda de Jesus. Esta mulher mostra a necessidade que temos de rezar sem desanimar. A mulher cananeia começou a gritar, ou seja, não se aproximou de Jesus porque estava desesperada com a falta de saúde da sua filha, mas tem a certeza que Jesus a poderá curar. Aproxima-se de Jesus com humildade, prostrou-se diante d’Ele, reconhecendo a autoridade Daquele de quem se aproximou. Muitas vezes, o grito converte-se em oração. Exprime um momento de sofrimento para a pessoa e também a profissão de fé naquele que pode salvar. Gritou o cego de Jericó (cf. Mc 10,47). Gritou Pedro, quando começou a afundar-se caminhando sobre as águas ao encontro de Jesus (cf. Mt 14,30). Grita cada um de nós quando estamos em aflição: “Ai Jesus!”.

16-08-2020

Jesus ouviu o grito da mulher cananeia, mas põe à prova a sua oração de aflição. Em primeiro lugar, ouviu, mas não lhe respondeu uma palavra. É a prova do silêncio. Mas ela não desanima, não se afasta, continua a pedir. Em segundo lugar, coloca a mulher diante da mentalidade dos israelitas, segundo a qual aquela mulher não tinha o direito de pedir a Deus. Esta é a prova mais dura. Aquela mulher conhecia esta mentalidade, mas também sabia que Deus sempre deixaria parte do banquete, nem que fossem umas migalhas, para os que como ela não pertenciam ao povo de Israel. A nossa oração é também posta à prova. Por vezes, Jesus cala-se. Parece não estar connosco, não nos diz nada. Nesta situação, Ele pede-nos perseverança.

A segunda prova é a tentação que, por vezes, temos em acreditar que Jesus não nos ouve por causa das nossas limitações e pecados. Quando temos consciência da nossa pobreza, parece que não somos dignos de nos dirigirmos a Deus. Pelo contrário, quando assumimos as nossas fraquezas e pecados, rezemos a Jesus porque Ele ouve-nos e atende-nos sempre, especialmente nos momentos de sofrimento e angustia.

Finalmente, Jesus respondeu à cananeia: “Mulher, é grande a tua fé. Faça-se como desejas”. Jesus comove-se perante o sofrimento daquela mulher, porque era uma mulher cheia de fé e perseverante na oração. A mulher cananeia tinha uma fé forte, vencendo as suas dificuldades e sofrimentos com a oração e reconhecendo Jesus Cristo como Messias e Senhor. É esta grandeza da fé que somos convidados a ter. A mulher estrangeira foi tocada por Jesus. Deixa que Jesus te toque e te oiça em todos os momentos da tua vida, especialmente nos momentos de dor, de desânimo, de desespero, pois tudo se transformará.

«Mulher, é grande a tua fé. Faça-se como desejas».

 

O Evangelho mostra-nos a grande fé, a paciência, a perseverança e a humildade da cananeia. Esta mulher era dotada de uma paciência verdadeiramente fora do comum. Ao seu primeiro pedido, o Senhor não responde uma palavra. Apesar disso, longe de cessar de rezar, ela implora-Lhe com redobrada insistência o socorro da sua bondade. Vendo o ardor da nossa fé e a tenacidade da nossa perseverança na oração, o Senhor acabará por ter piedade de nós e conceder-nos-á o que desejamos.

A filha da cananeia era «atormentada por um demónio». Uma vez expulso o nefasto desassossego dos nossos pensamentos e desfeitos os nós dos nossos pecados, recuperaremos a serenidade de espírito, bem como a possibilidade de agirmos correctamente. Se, a exemplo da cananeia, perseverarmos na oração com firmeza inabalável, ser-nos-á concedida a graça do nosso Criador; ela corrigirá todos os nossos erros, santificará tudo o que é impuro, pacificará toda a agitação. Porque o Senhor é fiel e justo, Ele nos perdoará os nossos pecados e nos purificará de toda a mancha se gritarmos por Ele com a voz vigilante do nosso coração. (São Beda, o Venerável, c. 673-735, monge beneditino, doutor da Igreja, Homilia sobre os Evangelhos, I, 22: CCL 122, 156-160, PL 94, 102-105)

 

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Ano A - Tempo Comum - 20º Domingo - Boletim Dominical II