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Liturgia do XVIII Domingo do Tempo Comum – ano C

De vez em quando, ouvimos falar de alguém que viveu como um miserável e que, ao morrer, se descobriu que possuía uma grande fortuna. Estes casos podem ser de extrema avareza ou de demência mental. Mas, parece que esta imagem tem algo a ver com a sociedade hodierna: somos capazes de criar muita riqueza, mas uma grande parte da humanidade vive em pobreza extrema, mesmo com problemas graves de sobrevivência.

Para o bem ou para o mal, os seres humanos distinguem-se dos outros animais: somos insaciáveis, queremos sempre mais. A vida de qualquer animal consiste em rotinas cíclicas. Um cão come, brinca, dorme, come, brinca, dorme…e não precisa de mais nada! Porém, nós aspiramos sempre mais no conhecimento, no bem-estar, no ter…nunca estamos satisfeitos. Deus não nos fez assim. Com razão, dizia S. Agostinho: “Criaste-nos para Vós, Senhor, e o nosso coração andará sempre inquieto enquanto não repousar em Vós”.

O problema está em não saber a razão da nossa inquietação e os objectivos da nossa vida. Então, começamos a resvalar pelos escorregadios caminhos do êxito, da fama, da cobiça, do prazer, do poder, do carreirismo…nada nos preenche, nada nos satisfaz, tudo é passageiro. “Vaidade das vaidades”. O nosso coração foi feito à medida de Deus, não das criaturas, e correndo atrás das vaidades não deixamos que Deus nos preencha. Cada um terá de se examinar e ver onde, na sua vida, sofre este sintoma da insaciabilidade. Há pessoas que têm em casa mais livros do que poderá ler na sua vida e continuam a comprar. Há pessoas que têm fortunas de dinheiro, tendo como único interesse acumular riqueza e não praticam a generosidade. Tudo isto poderia ser uma desordem inofensiva se não existissem tantas pessoas no mundo que não têm o necessário para viver.

Apesar de não ser muito agradável, de vez em quando, faz bem pensar que a nossa vida tem um princípio…e um fim. Ajuda-nos a relativizar os problemas que parecem não ter solução, mas que, também, um dia, acabarão. Isto faz pensar no essencial da vida. Quando morrermos, o que irá acontecer? Certamente, virá gente ao funeral! Muita ou pouca, não sabemos. Mas a maioria esquecer-nos-á. Lá diz o ditado popular: “rei morto, rei posto”. Os nossos familiares irão fazer o luto, o que é habitual quando se perde um ente querido, e estarão mais tristes e mais sensíveis durante um tempo. A roupa será dada a alguém, ou irá para o contentor do lixo. A maior parte dos nossos objectos pessoais irão para o lixo ou para o sótão das arrumações. O dinheiro e as propriedades passarão de mão em mão pelos herdeiros. Oxalá não haja guerras por causa das partilhas! Uma coisa é certa: nada poderemos fazer. Com o passar dos anos, também se vai esfumando a nossa memória no coração de algumas pessoas. O nosso nome, a nossa imagem, os nossos “feitos heróicos”, serão conservados no baú da história durante algum tempo, mas chegará o tempo em que o nosso nome e a nossa imagem não terão sentido para as pessoas, como acontece connosco quando nos encontramos com rostos desconhecidos em fotografias antigas. Até podem ser da nossa família, mas não os reconhecemos.

Então, o que levaremos connosco depois da morte? Qual é a riqueza que não passa? Se somos convidados a viver com Deus, que é Amor, temos de pensar que só poderemos levar para o Reino aquilo que esteja relacionado com o amor que vivemos e com o bem que fizemos: tratar dos outros, o perdão a quem nos ofendeu, o pão partilhado, a esmola que demos, a alegria que espalhámos. Tudo o que damos gratuitamente parece perdido neste mundo, mas fica depositado no banco do Reino. No momento da morte, perdemos tudo o que quisemos conservar e recuperamos tudo aquilo que oferecemos aos outros. Não tenhamos medo de nos oferecermos a Deus e aos outros, para que Deus nos faça ricos aos seus olhos.

 

 

LEITURA ESPIRITUAL

Amontoar para si próprio ou ser rico aos olhos de Deus?

 

«Que hei de fazer? Vou aumentar os meus celeiros!» Porque eram as terras deste homem tão produtivas, se ele fazia tão mau uso da sua riqueza? Para melhor se ver a imensa bondade de um Deus que estende a sua graça a todos, «pois Ele faz que o sol se levante sobre os bons e os maus e faz cair a chuva sobre os justos e os pecadores» (Mt 5,45). Eram estes os benefícios de Deus para com este rico: uma terra fecunda, um clima temperado, abundantes colheitas, bois para o trabalho, e tudo o que assegurasse a prosperidade. E ele, o que dava em troca? Mau humor, taciturnidade e egoísmo: era assim que agradecia ao seu benfeitor.

Esquecia que pertencemos todos à mesma natureza humana; não pensou que devia distribuir o que lhe sobrava aos pobres; não fez nenhum caso destes mandamentos divinos: «não negues um benefício a quem precisa dele, se estiver nas tuas mãos concedê-lo» (Pv 3,27), «não se afastem de ti a bondade e a fidelidade» (3,3), «partilha o teu pão com quem tem fome» (Is 58,7). Todos os profetas, todos os sábios lhe gritavam estes preceitos, mas ele fazia ouvidos de mercador. Os seus celeiros rachavam, pequenos para o trigo que neles se acumulava, mas o seu coração não estava satisfeito. Ele não queria desfazer-se de nada, mesmo não chegando a armazenar tudo. Este problema incomodava-o: «Que hei de fazer?» perguntava constantemente. Quem não terá piedade de um homem assim obcecado? A abundância tornava-o infeliz; lamentava-se como se lamentam os indigentes: «Que hei de fazer? Como hei de alimentar-me e vestir-me?»

Observa, homem, quem foi que te cumulou de dons. Reflecte um pouco sobre ti próprio: Quem és tu? O que te foi confiado? De quem recebeste esse encargo? Porque foste tu o escolhido? Tu és servo de Deus; tens a teu cargo os teus companheiros. «Que hei de fazer?» A resposta é simples: «Saciarei os famintos, convidarei os pobres. Vós todos a quem falta o pão, vinde possuir os dons que me foram concedidos por Deus, jorrando como que de uma fonte». (São Basílio, c. 330-379, monge, bispo de Cesareia da Capadócia, doutor da Igreja, Catequese 31).

 

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