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Artigo Literário de António Vilela—O Poeta é um fingidor

Um dia, uma jornalista entrevistou-me para saber a minha opinião sobre a Mentira dos Poetas. Quando ela me declarou ao que vinha, eu quis saber qual o verdadeiro sentido da pergunta. É que os Poetas mentem – disse-me de imediato… Mentem e temos poetas que reconhecem isso. Fernando Pessoa, por exemplo. Ao ouvir esta pergunta incisiva mobilizei-me todo e corri atrás de uma resposta.

Procurei organizar as minhas ideias em cima dessa temática e ainda hoje me lembro de como me embaracei. Agora, que já meditei muito sobre o assunto, essa pergunta não me atrapalha. Ao contrário, acho que a pergunta que continua a ser feita, deve ser respondida com objetividade. E então, dirá alguém, os Poetas mentem ou não? Eles fingem? O que é fingir em poesia? Que sentido tem essa expressão? E qual é o âmbito da ficção poética? O que entendemos por ficção poética, por mentira dos Poetas?

Vamos tentar dar uma pequena resposta:

Um dos principais responsáveis por esta questão é Fernando Pessoa no poema “Autopsicografia”, texto famoso, publicado na revista “Presença”, em 1932, e hoje integrado no texto global das obras poéticas do autor da “Mensagem”.

Esse poema é formado por três quadras. Mas é a primeira delas que enuncia o escandaloso conceito e que formula a tese que circula por aí de que os poetas mentem:

“O Poeta é um fingidor

Finge tão completamente

Que chega a fingir que é dor

A dor que deveras sente.”

A segunda quadra agrava ainda mais o nível de ficção da poesia. Trata de supor que o poeta finge que é dor a dor real e que, sobre as duas dores, o homem pode ainda construir uma dor inteiramente fictícia… Na terceira quadra, há uma dimensão diferente deste fingimento. A relação do coração com a razão.

Quando o poeta escreve, portanto, ele está a criar uma realidade escrita, diferente da realidade cousal e física do mundo dos objetos. Uma realidade construída em cima de signos e de símbolos, diferente da realidade das coisas onde as horas rolam.

Há, por isso, um nível de ficção na poesia. Um faz de conta, para sermos mais claros. A realidade posta é “como se” fosse…e não que seja realmente…

Agora, pensemos.

Se há um nível de ficção na palavra poética, é fácil entender que, de alguma maneira, o poeta finge. Fingir é agir a nível de ficção. No faz-de-conta, os suspiros são “como se” fossem suspiros, as saudades são como se fossem saudades, os beijos são “como se” fossem beijos, e o amor é “como se fosse” amor…

Ou seja, sentimentos que partem da verdade real da pessoa, confissões, desejos, lembranças…

Os leitores aproximam-se dos textos por várias razões. Em primeiro lugar, pelo gosto de ler poesia, ou para estudo da linguagem, pelo interesse temático, por razões de estudo. Eles querem ler como se estivessem a ler a alma humana, como se estivessem abrindo o cofre do tesouro… O leitor não quer saber de “ficção” nem do jogo real da palavra. Ele quer sentir o jogo da expressão dentro de uma realidade que ele coisifica, que aproxima de si próprio, dos valores sociais e dos ideais que tem da vida.

António Vilela