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Tag Archives: ciência

Artigo:A revisão entre pares abordada no filme “Não Olhem para Cima” é um dos pilares da ciência

No âmbito do programa “Cultura, Ciência e Tecnologia na Imprensa”, promovido pela Associação Portuguesa de Imprensa.

Contribuir para o avanço do conhecimento é algo que todos os cientistas ambicionam. Mas para isso, é necessário que as suas descobertas sejam validadas por outros cientistas. Esta validação é feita através do processo de revisão entre pares, um dos pilares do processo científico, mencionado por Leonardo DiCaprio e Jennifer Lawrense no filme “Não Olhem Para Cima”.

Se já viu o filme “Não Olhem Para Cima”, de Adam McKay, terá notado que o professor Randall Mindy e a sua doutoranda Kate Dibiasky, interpretados por Leonardo DiCaprio e Jennifer Lawrense, questionam o processo científico de revisão entre pares da missão implementada pela BASH, a grande empresa que prometia impedir que o cometa “destruidor de planetas” acabasse com a vida na Terra. Mas afinal o que é que é o processo de revisão entre pares e em que medida é que este seria uma importante ferramenta para escolher a missão mais eficaz para salvar o mundo?

A revisão entre pares é o processo através do qual os cientistas avaliam o trabalho desenvolvido por outros cientistas, sendo um dos principais pilares da ciência. Esta avaliação pode ocorrer em várias etapas do processo científico, mas é mais frequente quando os cientistas que conduziram um determinado estudo submetem o seu trabalho a uma revista científica, com o objetivo de verem as suas descobertas publicadas e disseminadas pela comunidade científica.

Existem pelo menos três fases no processo de revisão entre pares

A primeira fase ocorre no momento em que o artigo é submetido para uma revista científica selecionada pelos autores, de acordo com a área de investigação e com as características do estudo. Nesta fase, o trabalho passa por uma primeira avaliação por parte do editor da revista. Quando são identificadas limitações significativas no trabalho desenvolvido, ou quando a investigação não se enquadra nos objetivos da revista, o artigo é imediatamente rejeitado. Segundo o grupo Elseviers (https://www.elsevier.com/connect/authors-update/5-ways-you-can-ensure-your-manuscript-avoids-the-desk-reject-pile) 30 a 50% dos artigos são rejeitados nesta fase.

A segunda fase ocorre quando o artigo passa nesta primeira avaliação e é enviado para revisão entre pares. O editor convida um, dois ou mais cientistas com experiência reconhecida na área de investigação, designados por revisores. O número de revisores depende da área de conhecimento e da revista científica. Por exemplo, na revista multidisciplinar Nature (https://www.nature.com/nature-portfolio/editorial-policies/peer-review) são usualmente convidados dois ou três revisores por artigo. É importante que os revisores não tenham qualquer ligação direta com o estudo, para evitar potenciais enviesamentos na avaliação.

Aos revisores convidados, é solicitado que analisem, de forma independente e criteriosa, se as hipóteses dos autores são suportadas pela evidência científica; se os métodos implementados são adequados para testar as hipóteses; se os dados foram recolhidos e analisados corretamente; se as conclusões dos autores vão de encontro com os dados obtidos; se acrescenta conhecimento ao já existente; entre outros aspetos. Revistas com processos mais rigorosos de revisão entre pares tendem a ser julgadas como mais prestigiadas pela comunidade científica.

É através destas avaliações e da sua própria perspetiva que o editor consegue filtrar os estudos com qualidade, que serão publicados na revista e consequentemente disseminados pela comunidade científica. Assim, podem acontecer três cenários distintos:

No primeiro cenário, o estudo é avaliado com elevada qualidade e é aceite para publicação, sem qualquer revisão. Este cenário é pouco frequente, já que a maioria dos estudos tem alguns aspetos que podem beneficiar de uma revisão, ainda que mínima.

No segundo cenário, os revisores encontram problemas incorrigíveis que diminuem a qualidade do estudo e, consequentemente, a validade das suas descobertas. Perante uma avaliação negativa deste tipo, o editor geralmente opta pela rejeição do artigo, o que faz com que o mesmo não seja publicado na revista.

Por fim, no terceiro cenário, apesar de considerarem que o estudo tem vários pontos positivos, os revisores apontam aspetos que devem ser melhorados ou esclarecidos.

Aqui, inicia-se a terceira fase do processo de revisão entre pares: os autores são convidados pelo editor a submeter uma versão revista do artigo, de forma a responder às dúvidas e solicitações dos revisores e do próprio editor. Esta versão é avaliada novamente pelos revisores e o processo repete-se até que o editor decida aceitar (caso todas as questões dos revisores tenham sido devidamente respondidas) ou rejeitar o artigo (caso as revisões feitas ao artigo não tenham acrescentado qualidade ao mesmo, existindo problemas que limitam muito a validade das conclusões). No caso da revista The Lancet (https://www.thelancet.com/), uma das mais prestigiadas na área da medicina, apenas 5% dos artigos submetidos são aceites para publicação.

O processo de revisão pode demorar vários meses ou até vários anos, exigindo esforço e dedicação de todos os intervenientes. Porém, estas revisões permitem aumentar a confiança nas descobertas do estudo, ao agregar não só os conhecimentos dos autores, mas também os conhecimentos e críticas dos revisores e do editor.

Existem diferentes tipos de revisões. As mais comuns são as revisões cegas simples, revisões cegas duplas e revisões abertas. Nas revisões cegas simples, os autores não sabem a identificação dos revisores. Nas revisões cegas duplas, os autores não sabem a identificação dos revisores e os revisores também não sabem a identificação dos autores. Por outro lado, nas revisões abertas, a identidade dos autores e dos revisores é conhecida por todos os envolvidos no processo de revisão. Apesar de terem vantagens e desvantagens distintas, todos os tipos de revisões partilham o mesmo propósito: garantir que o conhecimento científico provém de estudos de qualidade, seguindo metodologias rigorosas, baseadas na evidencia científica e não enviesadas por interesses políticos, económicos ou pessoais.

Voltando ao filme, a recusa do CEO da BASH em responder a questões relacionadas com o processo científico da missão, sugere que o mesmo não foi validado por revisão entre pares. Consequentemente, não só não foi possível averiguar a (evidente falta de) qualidade do projeto, a sua base teórica e a adequabilidade da metodologia, como também não foi possível lutar contra um claro enviesamento político e económico na seleção da missão a ser implementada.

É sabido que o processo de revisão entre pares não está isento de limitações, conforme descrito neste artigo publicado na revista Frontiers in Neuroscience (https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC4444765/). Por exemplo, a revisão entre pares, sendo um processo praticado por humanos, está sujeita a erro ou falhas de comunicação entre os autores e os revisores, e nem sempre é eficaz na identificação de possíveis erros. É também um processo demorado, que pode limitar o acesso atempado a conhecimento científico em momentos mais urgentes, como no contexto pandémico.

No entanto, apesar das limitações, a revisão entre pares no filme “Não Olhem Para Cima” teria ajudado a evitar uma catástrofe global bem ao estilo de Hollywood, mas facilmente transferível para a vida real.

Joana Grave

Licenciada em Psicologia (2012) e Mestre em Psicologia Forense (2014) pela Universidade de Aveiro. Colaborou enquanto investigadora (2016-2018) no Departamento de Saúde Mental da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova de Lisboa, e como assistente convidada (2017-2018) na mesma instituição. É atualmente bolseira de doutoramento em Psicologia no Departamento de Educação e Psicologia da Universidade de Aveiro, em colaboração com o Departamento de Psiquiatria e Psicoterapia da Universidade de Tübingen, Alemanha. O objetivo geral da sua investigação passa por compreender a forma como determinadas pistas sociais (em particular, expressões faciais e odores corporais) são percecionadas e modelam processos cognitivos, comportamentais e fisiológicos, tanto na população geral como em certas perturbações mentais. Para além do percurso académico, é membro da Ordem dos Psicólogos Portugueses desde 2016. Já desempenhou funções de psicologia clínica, psicogerontologia e psicologia da justiça.

Estudo pretende verificar se é viável utilizar CO2 na produção de energia geotérmica

No âmbito do programa “Cultura, Ciência e Tecnologia na Imprensa”, promovido pela Associação Portuguesa de Imprensa

Uma equipa de cientistas da Universidade de Coimbra (UC) desenvolveu um equipamento que, pela primeira vez, permite testar a viabilidade de utilizar dióxido de carbono (CO₂), um dos principais gases do efeito estufa, na extração de energia geotérmica, uma energia limpa gerada através do calor da terra.

Em teoria é possível utilizar dióxido de carbono em estado supercrítico para extrair energia geotérmica, mas até agora esta possibilidade nunca foi testada, ou seja, não existe informação experimental que explique o que é que acontece ao CO₂ a partir do momento em que entra nas rochas. O estado supercrítico caracteriza-se pela capacidade de alguns fluidos, como é o caso do CO₂, apresentarem simultaneamente propriedades líquidas e gasosas quando expostos a pressão e temperatura superiores às do seu estado crítico.

O grande objetivo do projeto “KIDIMIX – Difusão Molecular e Difusão Térmica de CO₂ em misturas modelo próximo do ponto crítico”, que tem a colaboração da Universidade Livre de Bruxelas, na Bélgica, «é estudar a viabilidade de usar CO₂ capturado da atmosfera para produzir energia geotérmica. A injeção de dióxido de carbono em formações rochosas subterrâneas, para armazenamento geológico, pode proporcionar benefícios que vão além da redução da sua concentração na atmosfera. A temperatura e pressão existentes à profundidade a que o armazenamento geológico ocorre colocam o dióxido de carbono num estado supercrítico, o que faz dele um ótimo candidato para a extração de energia geotérmica», explica Cecília Santos, que coordena o estudo juntamente com Ana Ribeiro. Ambas são investigadoras do Centro de Química da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC).

No entanto, esclarece, do ponto de vista experimental, desconhece-se «o comportamento do CO₂ a partir do momento em que é armazenado nas formações geológicas, sendo este previsto com base em modelos teóricos. Conhecê-lo é particularmente importante para tirar partido das propriedades termofísicas deste gás relativamente às da água, o fluido atualmente usado para a extração de energia geotérmica. Por exemplo, a menor viscosidade e maior coeficiente de expansão térmica do CO₂ permitem uma troca de calor mais eficiente, o que é muito importante para extrair energia da terra».

Considerando que já existem tecnologias estabelecidas para sequestrar CO₂ da atmosfera, «se demonstramos que extrair energia geotérmica com este gás é seguro e financeiramente viável, uma vez que as tecnologias de armazenamento de carbono são muito dispendiosas quando utilizadas isoladamente, seria uma excelente notícia para ajudar no combate às alterações climáticas e contribuir para a descarbonização», frisa Cecília Santos.

O equipamento experimental desenvolvido no âmbito do projeto permite efetuar vários tipos de medições, incluindo a difusão do dióxido de carbono com componentes que estariam naturalmente no interior das formações geológicas, como hidrocarbonetos. Estas medições, indica a investigadora da FCTUC, são essenciais para «caracterizar misturas supercríticas e obter dados precisos sobre as propriedades de transporte destas misturas. Estamos a estudar a difusão molecular e difusão térmica de misturas de vários componentes, conjuntamente com a sua modelação teórica, de forma a aprofundar a compreensão do estado e das propriedades do dióxido de carbono em condições supercríticas».

Se as experiências em laboratório confirmarem que o CO₂ pode efetivamente ser usado na extração de energia geotérmica, além de representarem um grande passo em direção às metas de descarbonização preconizadas pela União Europeia (UE) e uma ajuda preciosa no combate às alterações climáticas, os resultados também poderão ser úteis para aplicação «em outros tipos de indústria. Este estudo pode contribuir para o desenvolvimento de tecnologias de captura e armazenamento de dióxido de carbono mais seguras, permitindo uma melhor avaliação de risco e de eficácia. O desenvolvimento destas tecnologias aliadas à geração de gás ou energia renovável pode aumentar a competitividade do país (e da UE) e estimular o crescimento económico», acrescenta.

Nesta fase do estudo, a equipa está centrada em compreender o comportamento do CO₂ no interior do reservatório geológico. Numa segunda fase, depois de entender toda a mecânica envolvida no processo, será possível desenvolver um modelo que torne o processo viável, sobretudo do ponto de vista económico. «A ideia é, no futuro, dar uso a toda esta informação numa planta industrial em ambiente real», remata Cecília Santos.

 

O projeto KIDIMIX teve início em 2018 e é financiado, em 200 mil euros, por fundos comunitários, através do programa COMPETE 2020, e pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT).

 

Cristina Pinto

Assessoria de Imprensa – Universidade de Coimbra – Comunicação de Ciência

Artigo-Prémio Nobel da Química 2021 atribuído

No âmbito do programa “Cultura, Ciência e Tecnologia na Imprensa”, promovido pela Associação Portuguesa de Imprensa.

O Prémio Nobel da Química de 2021 foi atribuído,  ao alemão Benjamin List e ao britânico David W.C. MacMillan, pela Academia Sueca, em Estocolmo. Os cientistas são distinguidos pelos seus feitos no “desenvolvimento da organocatálise assimétrica, uma nova e engenhosa ferramenta para a construção de moléculas”, refere o comité Nobel.

Muitas áreas de investigação e indústrias dependem da capacidade dos químicos para construir moléculas que podem formar materiais elásticos e duráveis, armazenar energia em baterias ou inibir a progressão de doenças. Este trabalho requer catalisadores, que são substâncias que controlam e aceleram reacções químicas, sem se tornarem parte do produto final. Por exemplo, os catalisadores nos automóveis transformam substâncias tóxicas nos fumos de escape em moléculas inofensivas. Os nossos corpos também contêm milhares de catalisadores sob a forma de enzimas, que produzem as moléculas necessárias à vida.

Os catalisadores são assim ferramentas fundamentais para os químicos, mas os investigadores há muito que acreditavam que, em princípio, apenas existiam dois tipos de catalisadores disponíveis: metais e enzimas. Benjamin List e David MacMillan recebem o Prémio Nobel da Química 2021 porque em 2000 desenvolveram, independentemente um do outro, um terceiro tipo de catálise. Chama-se organocatálise assimétrica e baseia-se no uso de pequenas moléculas orgânicas.

“Este conceito de catálise é tão simples como engenhoso, e o facto é que muitas pessoas têm-se perguntado porque não pensámos nele mais cedo”, diz Johan Åqvist, presidente do Comité Nobel de Química.

Os catalisadores orgânicos têm um quadro estável de átomos de carbono, ao qual os grupos químicos mais activos se podem ligar. Estes contêm frequentemente elementos comuns, tais como oxigénio, azoto, enxofre ou fósforo. Isto significa que estes catalisadores são simultaneamente amigos do ambiente e baratos de produzir.

A rápida expansão na utilização de catalisadores orgânicos deve-se principalmente à sua capacidade de condução de catálise assimétrica. Quando as moléculas estão a ser construídas, ocorrem frequentemente situações em que duas moléculas diferentes se podem formar, que – tal como as nossas mãos – são a imagem de espelho uma da outra. Os químicos muitas vezes só querem uma destas moléculas, particularmente quando produzem produtos farmacêuticos.

A organocatálise desenvolveu-se a uma velocidade espantosa desde 2000. Benjamin List e David MacMillan continuam a ser líderes no campo, e demonstraram que os catalisadores orgânicos podem ser utilizados para conduzir multidões de reacções químicas. Utilizando estas reacções, os investigadores podem agora construir de forma mais eficiente qualquer coisa, desde novos produtos farmacêuticos a moléculas que possam captar luz em células solares. Desta forma, os organocatalisadores estão a trazer grande benefício para a humanidade.

António Piedade

 

António Piedade é Bioquímico e Comunicador de Ciência. Publicou mais 700 artigos e crónicas de divulgação científica na imprensa portuguesa e 20 artigos em revistas científicas internacionais. É autor de nove livros de divulgação de ciência, entre os quais se destacam “Íris Científica” (Mar da Palavra, 2005 – Plano Nacional de Leitura),”Caminhos de Ciência” com prefácio de Carlos Fiolhais (Imprensa Universidade de Coimbra, 2011) e “Diálogos com Ciência” (Ed. Trinta por um Linha, 2019 – Plano Nacional de Leitura) prefaciado por Carlos Fiolhais. Organiza regularmente ciclos de palestras de divulgação científica, entre os quais, o já muito popular “Ciência às Seis”, no Rómulo Centro Ciência Viva da Universidade de Coimbra. Profere regularmente palestras de divulgação científica em escolas e outras instituições.

 

30 anos de Ciência e Tecnologia em papel de jornal

Partindo da análise de milhares de artigos de jornais diários, pagos e de circulação nacional, ou seja, sem contemplar os jornais ditos regionais, refletiu-se sobre as representações que os portugueses têm da ciência e da tecnologia, de 1976 até 2005.

A comparação efetuada, entre os jornais de “qualidade” e os jornais “populares”, revelou-se frutuosa, ainda que as fronteiras entre estes dois tipos de jornais sejam cada vez mais ténues.

A grande diferença identificada entre estes dois tipos de jornal refere-se à tendência geral observada. Nos jornais de “qualidade, foi possível identificar uma forte tendência para o aumento dos artigos sobre assuntos de ciência e tecnologia. Curiosamente, no caso dos jornais “populares”, verificou-se uma maior apetência para a publicação de artigos sobre estes assuntos até finais da década de 1980. A partir daí, observou-se uma opção editorial marcada pela diminuição de publicação destes artigos. Acrescente-se que, no caso dos jornais “populares”, boa parte deste artigos debruçou-se sobre estas temáticas de forma superficial, abordando o assunto do ponto de vista da curiosidade e da bizarria.

No que diz respeito aos principais atores presentes, em ambas as tipologias de jornal, os artigos revelaram uma ciência e tecnologia de rosto masculino, não consonante com a proporção e importância das mulheres na ciência e tecnologia produzidas em Portugal, ainda que se tenha observado uma crescente presença de mulheres, à medida que nos aproximamos da atualidade.

Relativamente aos temas dominantes, em ambos os tipos de jornal, observou-se um predomínio generalizado dos artigos que versavam sobre questões de biologia humana e saúde. A presença paradigmática da medicina e da saúde, revelou uma imagem da ciência e tecnologia muito conectada com as preocupações quotidiana com a saúde. Não obstante as nuances de proporção, ao longo dos anos, também ambos os tipos de jornal deram especial ênfase à astronomia e ao espaço, e à história, arqueologia e antropologia. Se no caso da astronomia e do espaço, os artigos eram muito relacionados com a conquista espacial e a guerra fria, no caso da história, arqueologia e antropologia, os artigos reportavam descobertas arqueológicas, bem como o património histórico português, em Portugal e no mundo. Saliente-se, que esta visão de auto-valorização da história e património nacionais estava mais patente nos jornais “populares”

. Também não é de descurar a relevância dada às questões ambientais e relacionadas com a energia nuclear e de uma crescente consciencialização das populações, para os problemas decorrentes da má gestão ambiental – mais nos jornais de “qualidade” – e aos computadores, informática e internet – nos jornais “populares”.

No sentido de compreender as geografias da ciência e da tecnologia, considerou-se relevante analisar a localização geográfica, dos eventos relatados nos jornais. Assim, os dados recolhidos permitem afirmar que independentemente, do tipo de jornal os eventos ocorreram maioritariamente na Europa, primeiro, e na América do Norte, depois. Estamos perante uma ciência e tecnologia Made in Europe e Made in USA and Canada. Nos últimos anos, ambos os tipos de jornais transmitiram uma imagem da ciência e da tec

nologia de “rosto europeu”.

Quanto ao discurso dominante utilizado na comunicação de questões de ciência e tecnologia, também se identificaram algumas nuances. Ao longo dos anos, nos jornais de “qualidade” observou-se a evolução de um discurso dominante de benefício dos desenvolvimentos, científicos e tecnológicos, para um discurso tendencialmente enfatizador dos riscos. Nos jornais “populares”, o discurso do benefício foi predominante. De um modo geral, a imagem da ciência e da tecnologia, parece ser dominada por um discurso de benefício e de promessa.

Estes são alguns dos itens que permitem compreender e refletir sobre a pres

ença da ciência e da tecnologia na imprensa portuguesa, num longo período da história recente de Portugal. Dá que pensar…

 

Rui Brito Fonseca

 

Presidente e Professor Coordenador no Instituto Superior de Ciências Educativas do Douro, em Penafiel (desde 2019). Professor adjunto no Instituto Superior de Ciências Educativas, em Odivelas (desde 2010). Doutorado em Sociologia e Mestre em Ciências do Trabalho, pelo ISCTE-IUL. É também licenci

ado em Ciência Política com especialização em relações internacionais, pela Universidade Lusófona. É desde 2000 investigador, tendo vindo a desenvolver trabalho sobre comunicação, media e compreensão pública da ciência, sobre tecnologias da informação e comunicação em saúde e sobre toxicodependências, em diversos projetos de investigação.