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Artigo de Luís Miguel Condeço—Sem Crises

 

 

Autor

Luís Miguel Condeço

Professor na Escola Superior de Saúde de Viseu

 

Muitos foliões portugueses e não só, festejam o secular “carnis vale” (ou Carnaval), esta festa de origem pagã tornou-se importante para os cristãos enquanto ponto de partida para o período quaresmal.

As celebrações carnavalescas coincidem este ano com o dia de São Valentim, ícone comercial dos apaixonados, românticos e namorados, que muito contribuem para o desenvolvimento das atividades comerciais nacionais.

Curiosa é a forma como Valentim aparece nos nossos dias, revestido de um peso histórico considerável e que até o campo clínico não pode descurar. Apesar da controversa em torno do padre Valentim (também com referência em alguns textos a bispo), acredita-se que terá sido perseguido e mais tarde executado pelo imperador Claudius Gothicus (Cláudio II) no século III, pela sua ação enquanto disseminador do cristianismo, mas também, enquanto “casamenteiro” dos soldados solteiros das legiões romanas, motivando o abandono e a menor ousadia nos campos de batalha.

São Valentim (já que nunca desapareceu do Martirológio Romano), emerge pela “mão” de Hartmann Schedel na sua obra mais importante do século XV (1493) e uma das mais emblemáticas da Idade Média – o Liber Chronicarum ou Crónicas de Nuremberga. O relato de um Santo que consegue curar homens e mulheres “doentes da cabeça” ou do corpo, está presente quer nas Crónicas como em pinturas e gravuras da época, onde é visível a presença de sinais clínicos, que hoje genericamente relacionamos com a epilepsia.

Já no papiro de Ebers (1500 anos a.C.) a epilepsia é relatada e até um tratamento (!) é sugerido, contudo é Hipócrates que defende a origem cerebral da doença contrariando a “comunidade científica” grega da época, que julgava tratar-se de uma possessão espiritual.

Hoje sabemos que a epilepsia é uma doença do sistema nervoso central que provoca crises epilépticas (alterações no processo de comunicação entre as células cerebrais – neurónios), ou descargas elétricas anormais manifestando-se de forma mais comum em convulsão. A Organização Mundial da Saúde (OMS) identifica outras manifestações desta atividade elétrica cerebral anormal além das convulsões (manifestações motoras), como o comportamento e sensações anormais (sintomas sensitivos, alucinações visuais, sintomas psíquicos ou alterações da linguagem), e por vezes, perda de consciência. Afeta pessoas de todas as idades, e em Portugal, a Sociedade Portuguesa de Neurologia estima que 1 em cada 200 portugueses têm epilepsia.

Desde 2015, na segunda 2ª-feira do mês de fevereiro, a International Bureau for Epilepsy (Agência Internacional para a Epilepsia) e a International League Against Epilepsy (Liga Internacional contra a Epilepsia), promovem a iniciativa do Dia Internacional da Epilepsia, que este ano se evoca no dia 12.

A OMS considera esta iniciativa fundamental para a implementação do seu Plano Global de Ação Intersectorial até 2031, que tem como principal objetivo fortalecer a abordagem à epilepsia pela saúde pública e duas metas globais que visam colmatar as principais lacunas no tratamento e a inclusão de pessoas portadoras da doença em todo o mundo. A baixa literacia em saúde e os mal-entendidos ou mitos sobre a epilepsia, são os principais obstáculos no alcance destas metas.

A falta de conhecimento traduz-se em estigma social e exclusão e leva à discriminação de pessoas com epilepsia no trabalho, na escola ou na comunidade. Assim, é importante clarificar que:

– Nem todas as pessoas com epilepsia têm convulsões;

– Nem todas as pessoas com convulsões têm epilepsia;

– Durante uma crise convulsiva não se deve introduzir qualquer objeto na boca, a atuação correta passa pela lateralização da pessoa e não restrição de movimentos;

– As pessoas com epilepsia não têm à partida limitações cognitivas ou físicas;

– A epilepsia pode surgir em qualquer idade;

– Os estímulos luminosos não provocam crises em todas as pessoas com epilepsia;

– As mulheres com epilepsia podem engravidar;

– Filhos de pais com epilepsia têm um risco baixo de ter a doença;

– Em regra geral as pessoas com epilepsia podem praticar desporto.

 

O adequado conhecimento sobre esta doença possibilita um rápido e fácil acesso ao tratamento, e apoio às pessoas com epilepsia e aos que delas cuidam.