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| No ano letivo de 1915-1916, em Fevereiro, na excursão do Orfeon Académico ao Porto, Braga e Vila do Conde, António Menano consagra-se definitivamente como estrela de 1ª grandeza do meio artístico coimbrão, acompanhado à guitarra por Paulo de Sá e Alberto Menano. Os anos de 1917, 1918 e 1919 constituem um período relativamente morno em termos de “Fados e Guitarradas”, contribuindo talvez para isso o artigo de Manuel da Silva Gaio, ao tempo Secretário da Universidade, publicado na Ilustração Portuguesa de 29-04-1918, pedindo aos estudantes para não cantarem o “venenosos cogumelo do fado, produto originário da viela urbana” e, em vez disso, entoarem as cantigas populares do Orfeon. Curiosamente, este período coincide de certo modo com o facto de António Menano ter passado a cantar canções acompanhadas ao piano, em vez dos tradicionais fados que haveriam de ser profusamente divulgados e conhecidos através dos discos de 78 RPM, de edições musicais impressas e de rolos para auto-pianos, consagrando definitivamente para a posteridade o seu nome e o registo da sua voz. Em 1918 António Menano passa a integrar a Direcção do Orfeon Académico e nas Fogueiras de S.João desse ano novamente canta canções populares portuguesas, com muito agrado e satisfação dos presentes, e não fados. Em Dezembro de 1919, a Associação Académica de Coimbra promove um sarau musical no Teatro Avenida, organizado pelo próprio António Menano, no qual também participa e cujo programa não contem qualquer fado ou guitarrada. E no sarau promovido pelo Orfeon e a Tuna no Teatyro Sousa bastos também não haveria fados nem guitarradas. No final de 1919 surge a primeira proibição de se fazerem serenatas: A imprensa local reage contra esta medida policial e a proibição, em vez de acabar com os fados e as guitarras, provoca aparentemente o seu resurgimento. Entretanto vem a lume uma colecção de edições musicais do “reportório do Orfeon da Universidade”, com fados de António Menano(“Patriótico”, “Da Granja”, “Das Romarias”, “Do Choupal”, “Dos Passarinhos” e “Morena”) que alcançaram enorme sucesso, tendo quase todos eles “atingido a 4ª edição antes de 1923, fados que também foram gravados em rolos para auto-piano. Em Abril de 1923, António Menano, já casado mas ainda não formado, participa na digressão do Orfeon e da Tuna a Espanha, atuando em Salamanca, Madrid e Valladolid. No Monumental Praça de Madrid, na presença dos Reis de Espanha e encontrando-se a praça completamente cheia, António Menano obteve um retumbante sucesso repetindo os fados várias vezes, inclusivé a pedido do Rei, sendo de notar que apesar de não dispôr de qualquer amplificação sonora, a sua voz encheu a praça de toiros, ouvindo-se perfeitamente nos seus famosos “pianissimos”, tal o silêncio em que era escutado. A acompanhá-lo estiveram, como sempre, Paulo de Sá e Alberto Menano. Em Junho de 1924, o Orfeon Académico segue para Paris, onde actua no Trocadero, realizando depois saraus em Toulouse, Bordéus e Bayona. António Menano toma parte na digressão, cantando fados com Agostinho Fontes, acompanhados à guitarra por Manuel Paredes, outro grande guitarrista da época, tio do célebre Artus Paredes. Concluido o curso de medicina, António menano passa a exercer clinica em Fornos de Algodres, terra natal da família Menano e onde seus pais, António da Coista Menano e D. Januária Paulo Menano, residiam. Embora já formado, continua muito ligado à vida artística e académica de Coimbra, onde certas tradições estudantis se revitalizam. António Menano tornar-se-ia definitivamente o cantor de Coimbra mais conhecido e de maior fama em todo o País com as gravações que fez entre os anos de 1927 e 1929, em Paris, Lisboa e Berlim, para a Companhia Odeon de Paris. De todos os cantores da chamada década de oiro da Academia de Coimbra, António Menano foi aquele que mais discos gravou e maior e mais estrondoso sucesso alcançou. Essas séries de discos têm etiquetas de cores diferentes, lilás, azul,escuro e dourada(alguns discos, muito poucos, têm etiqueta vermelha), tendo sido produzidas muitas e muitas dezenas de milhares de discos que se vendiam ainda depois da II Guerra Mundial. No Brasil, com base nessas mesmas gravações realizadas por processos mecânicos, foi feita pela Trans-Oceanic Trading Company para a Casa Edison do Rio de Janeiro a reprodução, já por processos elétricos, da maior parte dessa gravações, discos esses a que foi aposta a etiqueta Odeon de cor azul forte e que tiveram muito boa venda. Pena é que o seu espantoso talento de cantôr não se possa aquilatar muito bem através dos discos pois, além das gravações terem sido efectuadas por processos mecânicos, os acompanhamentos de guitarra e viola são, de uma maneira geral, francamente modestos. |
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Em 1929, por ocasião da célebre Exposição Ibero-Americana de Sevilha, o Dr.António Menano, apesar de
já ter concluído a formatura Há alguns anos, foi o cantor escolhido para a “embaixada artística” enviada
pela Academia de Coimbra para atuar no festival oferecido aos Reis de Espanha aquando da inauguração
do Pavilhão de Portugal e que era constituída por mais três elementos: Artur Paredes, solista e acompanhador,
Afonso de Sousa, 2ª guitarra, e Guilherme Barbosa, viola.
Anos depois, em 1933, abandonando voluntariamente
a sua meteórica e impressionante carreira artística, que fôra a mais prometedora da década de oiro(1920-1930),
o Dr. António Menano parte para Moçambique onde exerce clinica durante quase trinta anos, pois só em
1961 regressaria definitivamente. A sua última residência foi na Rua José Falcão, nº 57, 5º Esquerdo,
em Lisboa, onde viria a falecer.
Entre as atuações de António Menano depois da sua ida para Moçambique
podemos destacar as seguintes, já que ele continuaria preso para sempre ao seu passado coimbrão:
–
Em Outubro de 1956, em Lisboa, no Instituto Superior de Agronomia, na Tapada da Ajuda, no célebre recital
que deu, já sexagenário,, e que constituiu um êxito retumbante. O espectáculo estava marcado para a meia-noite,
começou às duas horas da manhã e só viria a terminar de madrugada sem que ninguém tivesse arredado pé.
Do Diário de Notícias de 23-10-1956 respigamos o seguinte: “Até madrugada alta, com um céu em que a
Lua e as estrelas paradas pareciam acercar-se da Terra, no sortilégio das canções de Menano ressurgiu
Coimbra de há quatro décadas.” Conclui dizendo:”Sem luz eléctrica nem microfones a voz de Menano, casada
coma das violas e das guitarras, brindou Lisboa com uma noite inesquecível, única. Espectáculo imprevisto
e verdadeiramente sensacional…”
– De tempos a tempos aparecia em Coimbra e acabava sempre por cantar
fazendo-o em qualquer sitio, desde que isso se proporcionasse; uma noite acabou por cantar nas escadas
da secular Igreja de Santa Cruz, “Feita de Pedra Morena”, perante o entusiasmo e admiração da multidão
que ali logo se juntou e que obrigou a parar o trânsito.
– Em 1967, dois anos antes da sua morte,
teve ainda duas brilhantes atuações que foram bastante noticiadas e ficaram na lembrança. A primeira
em Coimbra, na madrugada de 24 de Junho, do alto das escadarias da Sé Velha, por ocasião da reunião do
Curso Juridico de 1907-1912, de que fazia parte o Dr. Francisco menano, seu irmão, na serenata monumental
que ali teve lugar com a participação de três cantores de uma nova geração, José Manuel dos Santos, António
Bernardino e Luiz Góes. António Menano, que veio cantar quatro fados, provocou a maior admiração pela
forma maravilhosa como um septuagenário conseguia cantar assim.
– A sua última actuação pública teve
lugar em 16 de Dezembro por ocasião da inauguração em Lisboa da Galeria Rodin, do Pintor Mário Silva,
que reuniu muitos antigos estudantes de Coimbra, entre os quais Luiz Góes, Jorge Tuna, João Bagão, Aurélio
Reis, Tossan e Vitorino Nemésio. António Menano cantou duas das suas melhores interpretações, o “Fado
dos Passarinhos” e o “Fado da Ansiedade”.
António Menano morreu em 11 de Setembro de 1969 mas a sua
memória perdura na nossa lembrança, e a saudade da sua voz pode ser algo mitigada ouvindo os discos que
nos deixou.
Fonte: macua.org/biografias
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