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Artigo de Sandra Correia —- Balanço do ano

   Distante de tudo e com tempo para pensar e até para aprender, tenho tirado algumas ilações sobre pormenores que habitualmente escapam por falta de tempo, numa vida cheia de rotinas e horas marcadas. A observação do mundo que nos rodeia é essencial para estimular o pensamento crítico. Ver claramente visto, como diria Camões, permite-nos analisar, dissecar, refletir, concluir. Para uma sociedade impulsionadora de vontades, não basta essa reflexão. É preciso dar voz ao que julgámos, ainda que saibamos, à partida, que poderemos não agradar, que atiçaremos reflexões perniciosas. Como professora, estímulo o espírito crítico. Em cada trimestre, peço aos meus alunos que avaliem o meu desempenho. Esta tarefa tem uma regra: não podem dizer que sou a melhor professora de português (alguns não acatam), devem principalmente apontar as minhas falhas, para que eu não as repita e para que corrija o meu percurso, peço sugestões para abordar o currículo de forma diferente e mais aliciante. Confesso que a crítica negativa é para eles, em relação à professora, difícil, não por ser boa, mas por falta de coragem. No entanto, ao longo dos anos e em escolas diferentes apareceram e são essas que guardo como uma lição. É assim na minha sala de aula, é assim que deveria ser na sociedade. Desenvolver um projeto para melhorar as condições de trabalho, numa instituição ou a vida dos cidadãos na comunidade carece um profundo conhecimento do espaço e das pessoas. Pensar um projeto dá trabalho, é preciso microscopicamente conhecer todos os ângulos do mundo que nos rodeia. É preciso inovar, aliciar, estimular, é preciso visão estratégica. É preciso amar o que se faz sem interesses pessoais, pondo sempre em destaque as pessoas, o valor e o mérito das pessoas. É preciso viver em pleno o projeto traçado, recuar, quando preciso for ouvir o outro, aceitar a crítica. A humildade, a generosidade e a gratidão são valores que um líder jamais pode esquecer de ter, porque um projeto só terá sucesso se toda a comunidade reconhecer que vale a pena participar da sua concretização.

   No entanto, a estagnação e o amorfismo são características vigentes da nossa sociedade, as pessoas acatam, criticam onde não o devem fazer e, quando o podem fazer, não o fazem, ou porque não convém desagradar quem manda ou porque consideram que não conseguirão frutos da sua voz. Afinal, o mundo segue, continua a girar… e isso basta. Há quem não aceite, quem não se conforme, quem dá voz ao inconformismo, mesmo sabendo que não é ouvido. Os professores foram este ano espelho da voz que não se cala, da luta que não desarma. Há quem acredita na justiça, que não aceite o poucochinho. Mas…. Tivemos, um ano letivo, milhares de professores a clamar por direitos perdidos. Em breve, estaremos todos de férias, em setembro a luta continua, dizem. Tem de continuar. Umas boas férias para todos os professores, alunos e funcionários.

Livro “Voo” de Sandra Correia vai ser apresentado em Fornos de Algodres

A Associação de Pais de Fornos de Algodres, juntamente com o Município e o CLDS-4G Servir Fornos, estão a organizar a apresentação do livro “Voo” de Sandra Correia, dia 16 de junho de 2023, pelas 20:30horas, no Centro Cultural Dr. António Menano de Fornos de Algodres .

Aqui deixamos a sinopse do livro:Em cada livro, as peças do puzzle completam-se, encaixam-se para deixar, no leitor, a imagem de um final feliz, uma aprendizagem, uma lição, a esperança de uma segunda oportunidade. Há livros, ainda, que pedem outro volume, porque a história soube a pouco, porque haveria ainda tanto para viver. O leitor penetra no enredo, imagina, deambula, traça finais, chora e ri. Sente e vive nas personagens, desenha outros finais, outras histórias.
“O meu livro não conta uma história. Se pretende um enredo com final feliz, não leia.
Onde já se viu um escritor pedir para não ser lido?
Numa altura em que a minha vida percorria labirintos sombrios, as palavras atropelaram-se, as frases multiplicaram-se e os textos foram construindo um caminho sem pedras. Voei em busca de cor, em busca de luz, em busca de mim”, realça a autora.

 

 

Artigo de Sandra Correia-Associação de Pais

Associação de Pais

Sim! As rotinas do dia a dia, os horários cada vez mais apertados afastam os adultos da vida social, mas também da vida escolar. À medida que as crianças vão pulando do pré-escolar para o primeiro ciclo, deste para o segundo e para o terceiro ciclos e entram no ensino secundário, a presença dos pais e encarregados de educação na Escola vai sendo cada vez menor. É preciso motivá-los a manter um diálogo contínuo com a Escola. É preciso convencer os pais da importância de estarem mais presentes no ambiente escolar.

Há evidências que comprovam que um maior acompanhamento promove um melhor comportamento e um maior sucesso escolar. Criar um ambiente colaborativo em que os desafios são pensados e concretizados juntos – Pais e Escola – é o caminho certo para uma Educação que fomenta as raízes do futuro. A escola não faz nada sozinha. Por isso, é essencial a participação constante e muito consistente de todos os agentes envolvidos no processo educacional. Dito isto, pretendo aqui louvar o trabalho incessante da Associação de Pais e Encarregados de Educação de Fornos de Algodres (APEE), que, desde outubro, tem tido um trabalho de reconhecido mérito. Da comunicação das ementas, às informações sobre as greves, das atividades articuladas com o Agrupamento à realização de sessões de esclarecimento para os Encarregados de Educação, tudo tem sido feito para que seja ponte entre escola e pais. Diz o povo que “é de pequenino que se torce o pepino”. Se as crianças, ao longo do seu percurso escolar, observarem uma participação mais ativa por parte dos seus pais/encarregados de educação, mais tarde, enquanto pais terão o mesmo papel. Ser participativo não significa somente acompanhar o desempenho escolar dos filhos, é também dar sugestões, participar da elaboração dos documentos orientadores da Escola, participar ativamente nas atividades. Esta participação ativa não se pode restringir aos representantes dos pais no Conselho Geral ou nos Conselhos de Turma. A voz dos pais pode e deve ser ouvida através destes representantes, mas também da Associação de Pais que, de mãos dadas, colabora na concretização do Projeto Educativo da Escola. Esta colaboração e a articulação entre Agrupamento, Município e APEE só pode estimular um diálogo construtivo em prol do sucesso escolar de todos os alunos.

O Perfil do Aluno à saída da Escolaridade Obrigatória prevê, entre outros objetivos, que o aluno seja, no futuro, um cidadão capaz de pensar crítica e autonomamente, criativo, com competência de trabalho colaborativo e com capacidade de comunicação e que conheça e respeite os princípios fundamentais da sociedade democrática e os direitos, garantias e liberdades em que esta assenta. Uma eficiente e eficaz cultura de escola conseguirá concretizar estes objetivos com a participação proativa dos pais e encarregados de educação. Estou certa que os alunos, os vossos filhos, tornar-se-ão cidadãos mais ativos e mais interventivos, na sociedade, se soubermos ser espelho do que desejamos que sejam amanhã, dando voz à vossa voz. E a APEE parece-me ir no bom caminho.

 

Artigo de Opinião de Sandra Correia–A arte de bem falar e bem escrever

Numa altura em que todos os jovens estão agarrados aos telemóveis e apenas comunicam por mensagens utilizando a escrita inteligente ou abreviaturas, verificamos, seja qual for a disciplina, que os nossos alunos são preguiçosos, pouco pensam, mal falam ou nada argumentam.

A reflexão, o pensamento crítico, a arte de escrever e falar bem rareiam nas salas de aula. Dá-se importância à nota final, por causa do acesso ao ensino superior, no entanto, verificamos que, quando os alunos sobem para esse patamar, os resultados já não são os mesmos.

Cabe-nos a nós professores, remar contra esta maré das novas tecnologias, importantes, sem dúvida, mostrando-lhes que o que pensamos, o que dizemos e o que escrevemos fazem parte da engrenagem do motor do desenvolvimento da sociedade. A transmissão de conhecimentos, a partilha de ideias, os poderes argumentativos são catalisadores da formação de cidadãos e profissionais de mérito. Os conteúdos das disciplinas relevam para o enriquecimento de diversas competências, mas não bastam. Urge promover a curiosidade, o querer saber mais, conhecer o mundo, compreendê-lo, questionar, promover o debate de ideias e soluções para um futuro que se avizinha, cada vez mais crítico. Urge dar-lhes as ferramentas adequadas para que usem a sua voz e a sua escrita, para espelharem as suas vontades, as suas opiniões, o seu pensamento crítico.

Não obstante a correção linguística e a riqueza lexical qualificarem um texto, esse mesmo texto só se tornará interessante, se cumprir o seu objetivo: ação. Quando escrevo, penso no que irá pensar o meu leitor, se conseguirei movê-lo a refletir sobre o assunto, se o meu texto terá algum impacto. São questões às quais raramente obtenho respostas, no entanto, escrevo porque gosto, tenho a tal teimosia de falar sobre qualquer assunto, de expressar, sem rodeios e medos, a minha opinião. Ainda que não concordem com ela, terei alcançado o meu objetivo. Acreditem. Sei fui lida, por alguns, e que os meus leitores pensaram sobre o assunto.

Ser professora de Português, por acaso, a melhor e mais importante de todas as disciplinas do currículo, é desafiante. Melhor e mais importante? Perguntarão alguns. Verdade. Digo-o, no início de cada ano, a todos os meus alunos. Não serão bons alunos às outras disciplinas, se não souberem escrever bem, interpretar e falar bem.

Ser professora de português é desafiante porque permite-me, ao longo do ano, explorar os conhecimentos dos meus alunos, permite-me ouvi-los, atiçar a curiosidade sobre qualquer assunto, sem nunca fugir ao planificado. A análise de qualquer texto, de um artigo de opinião ao texto poético ou dramático, dá-me inúmeras possibilidades para dar-lhes voz, para terem confiança em si próprios, para ganharem autoestima e serem ativos fora da sala de aula. Gosto quando um aluno discorda de uma opinião, gosto quando um aluno, a propósito de um texto, opina sobre a crise em que vivemos, quando questiona o autor. Qualquer dinâmica, numa aula, promove a arte de bem falar e de bem escrever. O erro pertence às nossas aulas, cabe-nos corrigir, ensinar a não repeti-lo, fazer da “maldita” gramática a receita doce que enriquece o nosso discurso escrito e falado. A gramática não pode ser uma aprendizagem isolada na aula de português, deve ser complementar, deve ser entendida pelos alunos como um domínio que se cruza com os restantes; a leitura, a escrita, a oralidade, a educação literária. Ler Mais »

Artigo de Sandra Correia—Preparados, para mais um ano?

Com o mês de setembro, regressam as rotinas: para os pais, o emprego, para os filhos, a Escola. O primeiro dia é, sempre, para as crianças e jovens, um dia de emoções: o reencontro com os amigos, o relato das aventuras vividas ao longo das férias, a curiosidade pelo novo horário, pelos novos professores. E os restantes longos dias do ano escolar? A Escola é o lugar para aprender e desenvolver competências, importarão as emoções? A empatia? Os afetos?

Neste contexto, falar de inteligência emocional pareceu-me um tema pertinente. Num mundo em constante movimento, cada vez mais global, as redes sociais dominam o nosso dia-a-dia, as nossas relações e as nossas profissões, o que é valorizado é parecer sempre perfeito, realizado e feliz, mesmo que essa não seja a realidade. Desde tenra idade, os desafios são crescentes. Não interessa quanto uma pessoa é inteligente, se não souber agir quando os obstáculos, as tristezas, as frustrações surgirem no seu caminho. Como diria o pai da inteligência emocional, Daniel Goleman, se não possuirmos competências emocionais e não soubermos gerir as nossas emoções não vamos muito longe, não conseguimos seguir em frente.

O papel da Escola é formar cidadãos livres, criativos, competentes e autónomos, capazes de enfrentar os desafios da sociedade do século XXI. Um século cada vez mais preocupante. O futuro parece-nos cada vez mais incerto, mais nebuloso para os nossos filhos e netos. A questão tão explorada, há anos, das alterações climáticas, veio provar a necessidade premente de tomar medidas face à escassez de água. A guerra trouxe para o mundo imagens de atrocidade, desespero e morte, mas também o aumento do valor dos bens essenciais, da energia e a diminuição do dinheiro, nas carteiras. Esta é a nossa realidade.

É crucial revelar às nossas crianças e jovens, que vivem num mundo onde mostrar aos outros que estamos sempre felizes, nas redes sociais, é regra, que, afinal, o mundo nem sempre é cor-de-rosa. É essencial encurtar a distância que os envolve. O tempo dos telefonemas, dos encontros deu lugar à falta de tempo, às mensagens por WhatsApp, à falta de comunicação vivida e sentida, aos desabafos e pedidos de ajuda, à solidão no quarto. Quantas vezes, percorro o corredor da Escola e encontro um grupo de jovens, em silêncio, cada um no seu telemóvel. Ainda que a época pandémica que vivemos (e ainda existe), com os vários confinamentos, tenha contribuído para o vício das tecnologias, o levantamento das restrições deveria ter aproximado mais os jovens no que concerne a comunicação presencial. O mês de agosto espelhou, nas festas, uma necessidade real de estar com os amigos, de abraçá-los e aproveitar o momento. Não houve concerto, baile ou outro qualquer evento que não estivesse lotado. No entanto, quantos e quantos jovens continuavam agarrados ao telemóvel.

Sinto que o poder da vida escorre pelos dedos das nossas crianças. É importante aprenderem os variadíssimos currículos das disciplinas, mas mais crucial, ainda, é ensinar-lhes a conciliar a inteligência com as emoções, é permitir-lhes alcançar uma vida mais rica, com menos níveis de ansiedade, maior equilíbrio emocional, maior capacidade de tomar decisões, maior autocontrolo e maior autoestima.
                          Aumento significativo da depressão nos jovens

Faço aqui um parêntese, para chamar a atenção para um aumento significativo da depressão nos jovens, que têm uma vida pela frente, mas vivem presos à ansiedade, ao stress, à pressão. A saúde mental dos adolescentes e jovens adultos vive a reboque da precariedade e da inexistência de um futuro promissor e a fatura já se começa a pagar: quase um quarto dos portugueses entre os 15 e os 34 anos já pensou ou tentou suicidar-se e 26% já tomou medicamentos para a ansiedade – dados da Fundação Francisco Manuel dos Santos, no retrato Os jovens em Portugal, hoje: Quem são, que hábitos têm, o que pensam e o que sentem.

Assim, e apesar de toda a controvérsia que caracteriza a classe docente, o professor tem a maior missão do mundo. Assim, sou, assim acredito. O professor tem a função de mostrar o caminho, aos seus alunos. de fornecer uma mochila repleta de valores, regras, sentimentos, resiliência e persistência para enfrentar as dificuldades que surgirem mais tarde. Na sala de aula, o professor, de mãos dadas com os seus alunos, ensina o currículo, mas também lhe cabe a tarefa de estar atento, de dialogar, de compreender um gesto, uma reação, de ler o olhar, de parar, se preciso for. Ao professor cabe sentir e fazer sentir, cabe gerir emoções e compreendê-las para agir.

Urge fazer da Escola um lugar feliz, um lugar seguro, onde os alunos sintam que estão a crescer para serem bons cidadãos, para que compreendam que o caminho da vida contém pedras, rochedos e dar-lhes as ferramentas para o enfrentar, sem medo de falhar, sem ansiedade, sem frustração, sem pressão, com espírito empreendedor, com a crença de que o sucesso virá.  Aos pais, é urgente ter tempo, consagrar tempo à família, no meio da rotina, do stress imposto pelo relógio, parar, falar com o coração, curar feridas, ouvir, estar atento, encorajar, abraçar.

O sucesso deste processo só pode ser a formação de cidadãos mais felizes, mais resilientes, mais seguros, mais ativos, mais participativos. Compreender o outro, pôr-se no lugar do outro, intervir para agir são resultados positivos para quem possui inteligência emocional. Aceitar a diferença, lutar a favor da igualdade de género, contra a violência doméstica, proteger o ambiente, compreender o outro e pôr-se no lugar do outro fazem, reconhecer o erro, pedir perdão, cuidar são parte dos objetivos da missão da Escola, do professor, na sua sala de aula, de coração aberto e olhos iluminados. Alunos felizes serão cidadãos felizes que darão voz às suas convicções, às suas ideias, porque é assim que serão proativos, por eles e em prol dos outros.

Acredito que a Escola contribui para o estímulo e o treino da inteligência emocional, junto das nossas crianças e jovens, mas também junto das famílias. Professores motivados cumprem a sua missão, dão de si mais do que o exigido e do que é valorizado. Os professores e as famílias fazem parte de uma adição cujo resultado só pode ser positivo.

A Educação é um dos pilares que sustém a sociedade. Não reconhecer esta premissa é não querer um melhor futuro para os nossos filhos, para nós, pais, para os avós, para quem precisa de ser cuidado, para todos e todas, para Portugal e para o mundo.

Professores felizes, alunos felizes, pais felizes. Juntos com a mesma visão: a promoção do sucesso escolar aliado à promoção de ferramentas que permitam gerir os desafios do mundo, do século XXI.

Um bom regresso para todos!

 

Sandra Correia

sandrampcorreia@gmail.com