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Avisos e Liturgia do XXXIII do Tempo Comum- ano C

 

Ao chegarmos ao fim do ano litúrgico, voltamos a saborear o carácter escatológico dos textos de Domingo. O texto do evangelho precede a narração da paixão e revela os sentimentos dos primeiros cristãos acerca do futuro que consideram difícil e incerto, porque as primeiras comunidades cristãs já tinham vivido situações de perseguição e de martírio; muitos cristãos já tinham dado a vida por causa da fé. Depois de Jesus ter chorado por Jerusalém, anuncia a destruição do templo. Porém, Jesus convida-nos a não ter medo, a sermos perseverantes na vida cristã, a ter confiança porque Deus está connosco, ao nosso lado, nos momentos de dificuldade e nos sofrimentos. Ou seja, Jesus sofre connosco e anima os seus discípulos dizendo-lhes que, mesmo que sejam levados para a prisão e arrastados para os tribunais acusados por causa do Seu nome, Ele estará ao nosso lado, dando-nos “sabedoria a que nenhum dos nossos adversários poderá resistir ou contradizer”. Serão tempos propícios para dar testemunho e para a perseverança, tempos de afirmação da nossa liberdade. Porque somos livres, em Jesus Cristo, devemos lutar contra o mal todos os dias, contra todo o tipo de abusos, de opressões, de desprezo dos mais fracos. Todos os tempos são difíceis, mas também favoráveis.

Bem sabemos que, em tempo de dificuldades, algumas vezes aparecem salvadores espontâneos ou profetas que anunciam soluções para todas as situações dolorosas do nosso tempo. Jesus avisa de uma forma clara: “Não os sigais”. Esses novos caminhos não servem e não são autênticos se não estiverem de acordo com o Evangelho. O desafio da nossa vida é viver o Evangelho nos momentos de dificuldade com toda a humildade, sem pretender ter respostas imediatas. Na primeira leitura, o profeta Malaquias diz que os orgulhosos serão reduzidos a nada, mas os que perseveram serão felizes, porque Deus não esquece que é Pai. Malaquias propõe um mundo melhor para sair do pessimismo da experiência judaica marcada pelo exílio na Babilónia. Perante o pessimismo e os profetas da desgraça, temos muito que fazer, temos de amar a fatia de mundo que nos rodeia e não desistirmos do mundo, como faziam os cristãos que São Paulo critica na segunda leitura, como se ele já não tivesse solução. Nem sempre ganham os poderosos. Por isso, Jesus avisa-nos para não nos deixarmos enganar pelos falsos messias, procurando ver onde está realmente o Espírito do Senhor. Na carta aos Gálatas, São Paulo afirma: “há certa gente que vos perturba e quer perverter o Evangelho de Cristo. Mas, até mesmo se nós ou um anjo do céu vos anunciar como Evangelho o contrário daquilo que vos anunciámos, seja anátema. Como anteriormente dissemos, digo agora mais uma vez: se alguém vos anuncia como Evangelho o contrário daquilo que recebestes, seja anátema” (Gl 1,7-9).

Dificuldades, perseguições, catástrofes, desastres sempre haverá, e os tempos difíceis serão sempre ocasião para o martírio, para o testemunho evangélico humilde, mas convicto. Manter a esperança em tempos difíceis significa promover os valores evangélicos. Os tempos difíceis serão sempre propícios a viver uma paciência persistente que nunca perde o estilo da vida cristã, mesmo que não agrade a todos, sobretudo quando se denuncia e condena o mal que fazem aos outros. Hoje, como outrora, os cristãos são perseguidos em diversos países. Rezemos por eles, estejamos unidos a eles, porque sofrem por causa da sua fidelidade a Jesus Cristo.

Jesus não engana ninguém: não promete a facilidade, mas a felicidade; não resolve problemas, mas dá achegas para os ultrapassar; dá-nos esperança e a promessa da sua fidelidade. Um cristianismo light, relaxado, sem testemunho fiel, não convence ninguém. Confiemos sempre em Deus para vencer as dificuldades, conscientes de que nunca nos abandona. Se nos perseguem, que seja por amarmos os mais fracos, por causa do nome de Jesus Cristo e porque estamos a seguir o seu exemplo de entrega aos irmãos. “Pela vossa perseverança salvareis as vossas almas”. Sofrendo como Jesus, teremos como prémio a vida eterna.

 

13-11-2022

LEITURA ESPIRITUAL

«Pela vossa perseverança salvareis as vossas almas»

 

Aquele a quem, no tempo da prova, falta a paciência nas aflições que lhe chegam e se distancia do amor dos seus irmãos espirituais não tem ainda o amor perfeito nem o conhecimento profundo da Providência divina.

O objectivo da Providência divina é unificar, pela fé recta e o amor espiritual, aqueles que o mal separou de muitas maneiras. Foi para isso que o Salvador sofreu: para reunir na unidade (cf Jo 11,52) os filhos de Deus que estavam dispersos. Assim, pois, aquele que não suporta o que o perturba, que não sabe sofrer o que o aflige, que não assume o que lhe dói, não anda pelo caminho do amor divino e passa ao lado do objectivo da Providência. Se o amor é paciente e benévolo (cf 1Cor 13,4), aquele a quem falta coragem quado surgem as aflições, e por essa razão faz mal àqueles que o afligiram e se distancia do amor que lhes deve, não realiza o objectivo da Providência divina. É paciente aquele que aguarda o fim da prova e recebe a glória da perseverança.

O homem paciente tem grande sabedoria (cf Prov 14,29, LXX), pois leva até ao fim tudo o que lhe acontece e suporta as aflições aguardando este fim. Ora, o fim é a vida eterna, segundo o Apóstolo (cf Rom 6,22). E a vida eterna é que Te conheçam, a Ti, único Deus verdadeiro, e Àquele a quem Tu enviaste, Jesus Cristo (cf Jo 17,3). (São Máximo, o Confessor, c. 580-662, monge, teólogo, Centúria sobre o amor IV, 16-18, 23-24).

 

Programação Semanal de Missas (15 a 20/11)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Avisos e Liturgia do XXXII do Tempo Comum – ano C

Domingo XXXII do TEMPO COMUM – ano C

 

Novamente, neste Domingo, a Liturgia da Igreja convida-nos a falar sobre a ressurreição. Mas, desta vez, não falemos deste assunto como uma afirmação do Credo, ou fazendo uma longa e profunda reflexão teológica. “Creio…na ressurreição da carne”, ou “espero a ressurreição dos mortos”, proclamamos todos os domingos na Eucaristia. Neste Domingo, façamos uma proclamação de confiança e de esperança, mas não partindo dos textos aprendidos no catecismo. Professemos a nossa fé na ressurreição a partir da confiança das crianças que tudo esperam dos pais, a partir da esperança dos pobres que confiam que Deus nos ama, apesar das dificuldades da vida. Os irmãos Macabeus, homens de fortes convicções religiosas, numa altura em que se perseguia a fé judaica e os seus ritos e costumes, enfrentam e sofrem a morte, expressando que uma vida vivida segundo a Lei não podia terminar em nada. Uma vida em que se experimentou a felicidade do amor que se dá aos outros, seguindo a vontade de Deus de O amar e de amar o próximo, não pode ter um final sem sentido. O quarto irmão diz isto de uma forma belíssima: “Vale a pena morrermos às mãos dos homens, quando temos a esperança em Deus de que Ele nos ressuscitará”.

Na segunda leitura, São Paulo fala-nos da eterna consolação e feliz esperança. Esta eterna consolação não se obterá pelo esforço humano ou ascese, mas será fruto da graça de Deus, porque Ele ama-nos sem medida. A mãe dos irmãos Macabeus é uma imagem desta eterna consolação, com a sua presença e com as suas palavras de encorajamento. E como ela nos recorda Maria, a Mãe de Deus, e a Igreja: a mãe acompanha, anima, consola, está sempre ao lado dos seus filhos, animando-os perante as ameaças ou as promessas enganosas do rei (seria bom ler todo o capítulo: 2Mac 7). É Maria de pé junto à cruz, é Maria em Caná (“Não têm vinho”), é a Igreja que nos acompanha nas nossas dúvidas e dificuldades e as suaviza com o azeite da consolação e o vinho da esperança. Estas últimas palavras são pronunciadas no Prefácio Comum VIII que proclama Jesus Cristo como Bom Samaritano, um bom samaritano que cura e levanta os caídos à beira do caminho da vida e os carrega às costas. Uma atitude destas gera consolação e esperança em todos os que estão nas bermas das nossas ruas. Recordemos o que dizia Pedro: “Para quem iremos nós, Senhor? Só Tu tens palavras de vida eterna; nós sabemos e acreditamos que Tu és o Santo de Deus”.

No nosso coração, gravemos o que Jesus diz no evangelho: “Deus não é um Deus de mortos, mas de vivos, porque para Ele todos estão vivos”. Que lição aos saduceus! Eles acreditavam somente no Pentateuco e desprezavam os outros livros da Bíblia. Então, Jesus recorda-lhes uma passagem do livro do Êxodo, o chamamento de Moisés feito por Deus na sarça ardente, onde Deus se apresentou como o “Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacob (Ex 3,6). Como se pode entender que aquele Deus que pedia a Moisés para libertar o seu povo se apresentasse como um Deus de personagens já mortos? Mas não podemos entender assim, porque, para Deus, Abraão, Isaac e Jacob vivem (estão ressuscitados) no seio de Deus.

Como Abraão, Isaac e Jacob, também Jesus, o Filho de Deus, vive no seio de Deus e preparou-nos um lugar junto Dele, “para que onde Eu estou, vós estejais também” (Jo 14, 1-6). Mas este lugar começamos a ocupá-lo já na nossa vida terrena, quando seguimos a vontade de Jesus Cristo: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vai ao Pai senão por Mim”. Vivemos a ressurreição quando percorremos o caminho de Jesus, ou seja, quando amamos, imitando-O e sendo Suas imagens vivas no mundo que nos rodeia. No final da nossa vida, ouviremos estas perguntas: Viveste? Amaste? Como será bom abrir o nosso coração cheio dos nomes daqueles e daquelas de quem nos aproximámos! Somos filhos de Deus e irmãos uns dos outros. É assim que Deus nos vê. A verdadeira morte não consiste em deixar de viver, mas em deixar de amar.   a casa”.

 

06-11-2022

LEITURA ESPIRITUAL

«Creio na ressurreição da carne»

 

Nós cremos e esperamos firmemente que, tal como Cristo ressuscitou verdadeiramente dos mortos e vive para sempre, assim também os justos, depois da morte, viverão para sempre com Cristo ressuscitado, e que Ele os ressuscitará no último dia. Tal como a dele, também a nossa ressurreição será obra da Santíssima Trindade: «Se o Espírito daquele que ressuscitou Jesus de entre os mortos habita em vós, Ele, que ressuscitou Jesus Cristo de entre os mortos, também dará vida aos vossos corpos mortais, pelo seu Espírito, que habita em vós» (Rm 8,11). A palavra «carne» designa o homem na sua condição de fraqueza e mortalidade. «Ressurreição da carne» significa que, depois da morte, não haverá somente a vida da alma imortal, mas também os nossos «corpos mortais» retomarão a vida.

Crer na ressurreição dos mortos foi, desde o princípio, um elemento essencial da fé cristã. «A ressurreição dos mortos é a fé dos cristãos: é por crermos nela que somos cristãos» (Tertuliano). «Como é que alguns de entre vós dizem que não há ressurreição dos mortos? Se não há ressurreição dos mortos, também Cristo não ressuscitou. Mas se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação, e vã também a vossa fé. Mas não! Cristo ressuscitou dos mortos, como primícias dos que morreram» (1 Cor 15, 12-14.20).

A ressurreição dos mortos foi revelada progressivamente por Deus ao seu povo. A esperança na ressurreição corporal dos mortos impõe-se como consequência intrínseca da fé num Deus criador do homem todo, alma e corpo. Os fariseus e muitos contemporâneos do Senhor esperavam a ressurreição. Jesus ensina-a firmemente. E aos saduceus, que a negavam, responde: «Não andareis vós enganados, ignorando as Escrituras e o poder de Deus?» (Mc 12,24) A fé na ressurreição dos mortos assenta na fé em Deus, que «não é um Deus de mortos, mas de vivos» (Mc 12,27). (Catecismo da Igreja Católica, 989-993).

 

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Programação Semanal de Missas (08 a 13/11)

União das Paróquias de Fornos de Algodres, Cortiçô, Casal Vasco, Infias, Vila Chã e Algodres.

Avisos e Liturgia do XXIX Domingo do TEMPO COMUM – ano C

Mais uma vez as leituras bíblicas deste Domingo convidam-nos a rezar com os critérios do Evangelho, de uma forma persistente, a “incomodar” Deus, a saber interpretar a sua resposta, ou o seu silêncio. Já no texto da primeira leitura aparece-nos uma imagem de como deverá ser a oração. Os grandes combates da vida só se alcançam com a fé de quem se sabe protegido por Deus, com a oração confiante e persistente ao Senhor e pelo auxílio dos outros nossos irmãos que, com o seu apoio, impedem que se caia facilmente no desânimo e no abandono da luta. Se assim não for, não aguentaremos as nossas dificuldades e sofrimentos. A viúva do evangelho estava angustiada por causa de um juiz que devia ser justo e não era, porque “não temia a Deus nem respeitava os homens”. É um assalariado sem vocação. Mas a pobre viúva insistia firmemente. E o juiz, não porque quisesse fazer justiça, mas para que não o incomodasse mais, atende a viúva. Jesus convida-nos a orar sempre sem desanimar. Usa a imagem de um juiz iníquo que somente atende por interesse. Se um homem assim atende à insistência da viúva, quanto mais Deus atenderá as nossas súplicas!

Deus não é juiz desta maneira. Aquele juiz não temia a Deus (o temor de Deus é um dos dons do Espírito Santo), porque não teve a oportunidade de experimentar o seu amor nem quer amar aqueles que o rodeiam. Mas também não respeitava os homens, muito menos aquela pobre mulher, que é mulher, é pobre e é viúva. No Antigo Testamento, as viúvas, como os órfãos e os estrangeiros, eram desprezadas e exploradas. Mas são pessoas que os profetas sempre falam como preferidas de Deus. De certeza que aquele juiz não conhecia esta frase do profeta Zacarias: “Assim fala o Senhor do Universo: Praticai uma verdadeira justiça e excedei-vos em bondade e compaixão, cada um para com o seu irmão. Não oprimais a viúva e o órfão, o estrangeiro e o pobre e não formeis nos vossos corações maus desígnios uns para com os outros” (Zc 7, 9-10). Jesus apresenta o exemplo desta viúva para louvar a sua perseverança e, assim, faz o juiz reconsiderar. E acrescenta: se um juiz injusto cede, muito mais fará Deus em favor dos seus eleitos, dos pobres, como aquela viúva. É este o desafio para todos nós: rezar sem desanimar e sermos perseverantes na oração, como São Paulo nos propõe (Rom 12,12; Ef 6,18; Col 4,2). Sabemos que o Senhor sempre nos atende, especialmente se lhe pedirmos coisas boas (Mt 7,11), ou o Espírito Santo (Lc 11, 13).

Mas será que temos paciência para esperar a resposta de Deus? Muitas vezes nos queixamos dos impacientes e ansiosos, daqueles que querem tudo imediatamente. Muitas avós ensinam-nos a sermos pacientes quando, constantemente, repetem aos seus netos que têm de ter paciência, calma e bom comportamento. A justiça de Deus também é paciente. Deus não tem pressa. Deus espera pacientemente e, como nos diz Jesus, fará justiça, porque a sua indiferença é aparente, mesmo que a tenhamos como escandalosa em certas circunstâncias. Deus fará justiça, mas fará à sua maneira e não à nossa. Ele fará justiça, ainda que seja pacientemente. Ele atenderá os seus eleitos “teimosos”, que “por Ele clamam dia e noite”. Jesus diz não só para não desanimar, mas para perseverar, não abandonar o Senhor, importunando-O com as nossas preces. Enquanto se grita a Deus, mesmo que sejam gritos de revolta, dúvida ou inquietação, não deixamos de O ter como referência, como única salvação possível. “Mas quando voltar o Filho do Homem, encontrará fé sobre a terra?”. Sem perseverança, sem confiança, sem a firmeza do que se aprendeu e aceitou como certo, sem uma vida de oração alimentada na Escritura ou sem o auxílio da comunhão eclesial dos irmãos, a fé individual morre porque não cresce.

Portanto, neste domingo somos convidados a pensar se fazemos parte destes eleitos, daqueles que reclamam justiça “dia e noite”. Façamos parte daqueles que procuram o Senhor quando estamos cansados e abandonados; daqueles que não colocam condições para seguir o Senhor; daqueles que constroem a vida na rocha firme da Palavra de Deus; daqueles que têm Deus como única riqueza; daqueles que colocam a vida nas suas mãos. Se assim for, Deus far-nos-á justiça, mas quando lhe aprouver, segundo o seu ritmo.

16-10-2022

 

LEITURA ESPIRITUAL

Oremos sem cessar para descobrirmos o esplendor do seu Reino

 

A invocação contínua de Jesus, quando acompanhada de um desejo pleno de ternura e alegria, permite que o espaço do coração se encha de alegria e serenidade pela graça da atenção extrema. Mas aquele que conduz ao seu termo a purificação do coração é Jesus Cristo, Filho de Deus e Deus, que é a origem e o Criador de todos os bens. Pois Ele diz: «Eu sou o Deus da paz» (Is 45,7).

Façamos, como David, o esforço de gritar: «Senhor Jesus Cristo». Fiquemos roucos e que o olhar da nossa inteligência não deixe de esperar no Senhor nosso Deus (Sl 68,4). Se nos recordarmos da parábola do juiz iníquo, por meio da qual o Senhor nos diz que temos de rezar continuamente e não desfalecer (cf Lc 18,1), encontraremos ganho e justiça.

A alma que, pela morte, se elevou nos ares, e que, às portas do Céu, tem Cristo consigo e por si, não será confundida pelos seus inimigos, mas, tal como agora, falar-lhes-á com segurança. Mas, até ao seu êxodo, não pode cansar-se de clamar noite e dia pelo Senhor Jesus Cristo, o Filho de Deus. E Ele, segundo a sua divina promessa que não engana, far-lhe-á justiça prontamente, como afirmou a propósito do juiz iníquo (cf Lc 18,1). Sim, eu vos digo que o fará, tanto na vida presente como quando ela tiver abandonado o seu corpo.

É certo que nada disto vem de nós, mas de Deus, que no-lo deu. Ele que, no Pai, no Filho e no Espírito Santo, é louvado e glorificado por todas as naturezas racionais, pelos anjos, pelos homens, por toda a criação que vem da Trindade inefável, do Deus único. Possamos nós descobrir o esplendor do seu Reino, pelas súplicas da puríssima Mãe de Deus e dos nossos santos pais. Ao Deus inacessível, seja dada glória eterna. Amém! (Hesíquio do Sinai, dito de Batos, por vezes assimilado a Hesíquio, sacerdote de Jerusalém, séc. V?, monge, «Sobre a sobriedade e a vigilância», 91, 106, 107, 149, 203).

 

Avisos e Liturgia do II Domingo do Advento- ano C

 

João Baptista proclama a salvação para toda a humanidade: “toda a criatura verá a salvação de Deus”. Trata-se de uma jubilosa mensagem que os cristãos não deveriam esquecer. Nos meios de comunicação social, as notícias relatam maus tractos físicos, falam da corrupção mais ou menos generalizada, dos cristãos perseguidos por causa da fé, da morte de tantos imigrantes que procuram chegar à Europa para terem uma vida melhor, de tantas agressões à dignidade humana… Não estamos muito bem, poderíamos estar melhor. Nesta complexidade da vida das pessoas e do mundo, não é fácil encontrar caminhos de saída, soluções para estas realidades e também vislumbrar um futuro melhor para todos. Estas realidades negativas são causa de tristeza, de desânimo, de injustiças e fazem sofrer muitas pessoas. Por isso, é importante dar ouvidos às pessoas, escutarmo-nos mais vezes, dar mais atenção aos outros, apostar num diálogo sincero procurando não alimentar e diminuir o egoísmo para que cresça a cooperação no bem comum. É necessário rasgar caminhos que conduzam à paz, à justiça, à erradicação da pobreza, à defesa dos direitos humanos, à valorização da dignidade da pessoa humana e, acima de tudo, à vontade de assumir cada vez os nossos deveres sociais. O profeta Baruc dirige-se à cidade de Jerusalém, deprimida como uma mãe viúva que chora a desgraça dos seus filhos: “deixa a tua veste de luto e aflição e reveste para sempre a beleza da glória que vem de Deus… Levanta-te, Jerusalém, sobe ao alto e olha para o Oriente: vê os teus filhos reunidos desde o Poente ao Nascente… Deus decidiu abater todos os altos montes e as colinas seculares e encher os vales, para se aplanar a terra, a fim de que Israel possa caminhar em segurança, na glória de Deus” (1ª leitura). É desejo do profeta animar os exilados com a esperança do regresso à terra. Neste domingo, S. Lucas apresenta-nos João Batista, o maior do grupo dos profetas. Num determinado momento, bem situado na história, depois de uns anos de solidão no deserto onde experimentou a Palavra de Deus, João dirige-se para o rio Jordão, nos limites do deserto, como “voz” que convida o povo à conversão, a uma mudança radical de vida, a reconhecer os seus erros e pecados que os conduziu para um caminho sem saída. Agora, são convidados a percorrer novos caminhos que tornem possível o encontro com Deus que se aproxima e quer trazer a salvação para todos. “Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas… toda a criatura verá a salvação de Deus”. Como poderemos aplanar ou endireitar novos caminhos? Aplanar quer dizer rebaixar as colinas e as proeminências da prepotência, do orgulho, do egoísmo, do poder, do mercantilismo que impedem a chegada de um mundo verdadeiramente humano, segundo o projecto de Deus. Por isso João Batista convida o povo a abrir caminhos para encontrar o Salvador. Através das mediações, Deus revela os seus mais nobres desejos para cada um de nós. A nível pessoal, será através de uma mão amiga, uma palavra de ânimo, uma proximidade discreta que nos oferece compreensão e afecto. A nível colectivo, temos o grupo dos profetas do mundo de hoje, mesmo que não conhecidos nem escutados. Alguém disse: “Se não houver vozes proféticas morrerão muitas esperanças dos povos”. Na segunda leitura, S. Paulo exorta os cristãos de Filipos, e a nós também, a viver com coerência: “a vossa caridade cresça cada vez mais em ciência e discernimento, para que possais distinguir o que é melhor e vos torneis puros e irrepreensíveis para o dia de Cristo, na plenitude dos frutos de justiça que se obtêm por Jesus Cristo, para louvor e glória de Deus”. Os verdadeiros caminhos são abertos e construídos com a ternura, a razão, a verdade, a sabedoria e a justiça. São os caminhos das pessoas íntegras que preparam o caminho do Senhor. Se desejas encontrar-te com o Senhor, rasga e percorre o caminho da tua vida na integridade e com coerência no que dizes, no que pensas e no que fazes.

 

 

Sugestão de cânticos: Entrada: O Senhor é a minha luz, F. Santos, NCT 224; Chegue até Vós, Senhor, F. Santos, NCT 213; Vamos confiantes (C. Silva) – CT 50; Eu vos invoco, Senhor (A. Cartageno) – CEC II 129; Apresentação dos Dons: Quem quiser ser grande (M. Luís) – NCT 555; A messe é grande (C. Silva) – OC 14; Comunhão: Elevarei o cálice da Salvação, M. Faria, NCT 259; O Senhor alimenta, F. Silva, NCT 267; Beberam o cálice do Senhor (C. Silva) – OC 54; O Filho do Homem (F. Santos) – CEC I 116; Final: Ide por todo o mundo (M. Luís) – NCT 355; Ó Maria, Rainha das Missões (Popular) – CT 567.

 

Sugestão de Cânticos: Entrada – Maranatha, Aleluia (F. Santos) – CEC I 32; Ó Povo de Sião (M. Luís) – CEC I 32; Povo de Sião, NCT 26; O Senhor vem e não tardará, NCT 24; Sobre Jerusalém, NCT 35. Ofertório: Preparai os caminhos do Senhor (F. Santos) – CEC I 31; Povo de Deus, eis o teu Senhor (M. Luís) CAC 53; Comunhão – Levanta-te, Jerusalém (F. Silva) – CEC I 18; Senhor, descei a nós (M. Luís) – CEC I 34; Levanta-te, Jerusalém, BML 48,15; ou NCT 43; O Senhor nosso Deus virá, NCT 45. Final – Abri as portas (C. Silva) – OC 24; Maria, fonte de esperança (M. Luís) – NCT 53; Vinde, vinde, NCT 51

 

05-12-2021

LEITURA ESPIRITUAL

«O deserto e a terra árida vão alegrar-se, a estepe exultará e dará flores» (Is 35,1) «Uma voz clama no deserto: ‘Preparai o caminho do Senhor’». Irmãos, reflictamos antes de mais na graça da solidão, na beatitude do deserto, que mereceu ser consagrado ao repouso dos santos desde o começo da era da salvação. É verdade que o deserto foi santificado para nós pela «voz [que] clama no deserto», João Batista, que pregava e administrava um baptismo de penitência; mas já antes dele os profetas mais santos tinham amado a solidão enquanto local favorável ao Espírito. Porém, este local recebeu uma graça de santificação incomparavelmente maior quando Jesus tomou o lugar de João (Mt 4,1). Ele permaneceu no deserto durante quarenta dias, como que para purificar e consagrar este local a uma vida nova; venceu o déspota que o assombrava, não tanto por si, mas por aqueles que, no futuro, aí habitariam. Portanto, espera no deserto Aquele que te salvará do medo e das tempestades; quaisquer que sejam os combates que sobre ti se abatam, quaisquer que sejam as privações que venhas a sofrer, não regresses ao Egipto, pois o deserto há de alimentar-te melhor com o maná. Jesus jejuou no deserto, mas muitas vezes alimentou a multidão que O seguia, e fê-lo de forma maravilhosa. Quando pensares que Ele te abandonou há muito, nessa altura Ele virá, recordado da sua bondade, para te consolar e te dizer: «Recordo-me da tua fidelidade no tempo da tua juventude, dos amores do tempo do teu noivado, quando me seguias no deserto» (Jer 2,1). Nessa altura, Ele fará do teu deserto um paraíso de delícias, e tu proclamarás, como o profeta, que «tem a glória do Líbano, a formosura do monte Carmelo e da planície de Saron» (Is 35,2). Então, da tua alma saciada brotará um hino de louvor: «Dêem graças ao Senhor, pelo seu amor e pelas suas maravilhas em favor dos homens. Pois Ele deu de beber aos que tinham sede, e matou a fome aos famintos» (Sl 106,8-9). (Beato Guerric de Igny, c. 1080-1157, abade cisterciense, 4.º Sermão do Advento)

Que necessidade havia de que o Filho de Deus sofresse por nós? Uma grande necessidade, que podemos resumir em dois pontos: necessidade de remediar os nossos pecados e necessidade de dar o exemplo para a nossa conduta. A Paixão de Cristo dá-nos um modelo válido para toda a vida. Se procuras um exemplo de caridade: «Ninguém tem mais amor do que quem dá a vida pelos seus amigos» (Jo 15,13). Se buscas paciência, é na cruz que a encontramos no grau máximo: Na cruz, Cristo sofreu grandes tormentos com paciência porque «ao ser insultado não ameaçava» (1Pd 2,23), «não abriu a boca, como um cordeiro que é levado ao matadouro» (Is 53,7). «Corramos com perseverança a prova que nos é proposta, tendo os olhos postos em Jesus, autor e consumador da fé. Ele, renunciando à alegria que lhe fora proposta, sofreu a cruz, desprezando a ignomínia» (Hb 12,1-2).

Se procuras um exemplo de humildade, olha para o Crucificado. Porque Deus quis ser julgado por Pôncio Pilatos e morrer. Se procuras um exemplo de obediência, basta que sigas Aquele que Se fez obediente ao Pai «até à morte» (Fl 2,8). «De fato, tal como pela desobediência de um só homem todos se tornaram pecadores, assim também pela obediência de um só todos se tornarão justos» (Rm 5,19). Se buscas um exemplo de desapego dos bens terrenos, simplesmente segue Aquele que é o «Rei dos reis e Senhor dos senhores», «em quem estão escondidos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento» (1Tm 6,15; Cl 2,3); Ele está nu na cruz, tornado motivo de escárnio, coberto de escarros, maltratado, coroado de espinhos e, por fim, dessedentado com fel vinagre. (São Tomás de Aquino, 1225-1274, teólogo dominicano, doutor da Igreja, Conferência sobre o Credo, 6).

 

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Avisos e Liturgia do I Domingo do Advento- ano C

a)         Iniciamos, hoje, um novo Ano Litúrgico, muito antes do início de mais um ano civil. O ambiente social, através do comércio, da publicidade, já respira um “ar natalício”. Vale a pena aproveitar esta antecipação e valorizar aquilo que é interessante. Para nós, cristãos, o tempo tem outro sentido. O centro, a plenitude dos tempos, o núcleo do ano é a Páscoa do Senhor, o Tríduo Pascal no qual celebramos o mistério salvador da morte e da ressurreição de Jesus Cristo que nos convoca em cada domingo à eucaristia. Porém, há que preparar o Advento e as festas do Natal. Iremos preparar, novamente, o nosso interior para receber de novo, no hoje da nossa vida, o nascimento Daquele que dá sentido ao tempo, à história e à nossa vida. É importante que se note que estamos a iniciar um novo tempo que é forte e importante. Ao começar o Advento, coloquemos já o nosso olhar na celebração do Natal – Epifania, como fazemos quando iniciamos a Quaresma que só tem sentido a partir da Páscoa. Na nossa celebração e na pastoral da comunidade, tudo tem que expressar que estamos a começar de novo: a coroa do Advento, cartazes com frases alusivas ao tempo, cânticos adequados, a programação de uma celebração penitencial, vigílias de oração, actividades formativas e catequéticas, etc.

 

b)        O Advento situa-nos entre as duas vindas do Filho do Homem. O Prefácio do Advento I diz-nos claramente: “Ele veio a primeira vez … de novo há-de vir”. O primeiro domingo do ano litúrgico põe-nos sempre à nossa reflexão esta segunda vinda do Filho do Homem. Para esta segunda vinda, na celebração tudo nos convida a estar preparados e vigilantes, mesmo a recordação da primeira vinda. Aguardaremos pela segunda vinda do Senhor em vigilância e oração. Mas hoje, o Senhor também está presente, porque vem assiduamente ao encontro de cada um e da história. É preciso saber descobrir o Senhor, é necessário estar atento para que Ele não passe despercebido. O momento presente não é só preparação para a vinda definitiva, mas também acolher hoje a vinda do Senhor que é salvadora.

28-11-2021

c)         Jesus diz-nos no evangelho: “Erguei-vos, levantai a cabeça, porque a vossa libertação está próxima”. Libertação de quê? Jesus dá a resposta: de todas as coisas que escurecem e preocupam demasiado o nosso coração. Que programa mais belo para o Advento: o contraste com tudo aquilo que nestes dias que antecedem o Natal nos preocupa demasiado; quantos negócios e compras nos preocupam demasiado! Tudo isto pode criar em nós uma insensibilidade a Deus que vem para nos libertar de todas as escravidões da vida. A livre pobreza do Natal recordar-nos-á de tudo isto. A nossa pregação deverá ajudar a que todos “compareçam de pé diante do Filho do Homem” que vem amorosamente à vida humana. Como São Paulo nos diz, há que valorizar o esforço que cada um faz na sua caminhada de fé. Não vale a pena ter sempre um discurso negativo e deprimente. “Deveis proceder para agradar a Deus e assim estais procedendo; mas deveis progredir ainda mais” (2ª leitura). Só assim tem sentido o Advento. A Oração Colecta deste domingo faz-nos pedir a Deus que despertemos em nós “a vontade firme, pela prática das boas obras, para ir ao encontro de Cristo”.

 

d)        “Para Vós, Senhor, elevo a minha alma”, cantaremos no Salmo Responsorial. É também o texto da Antífona de Entrada. Quando nos preparamos para viver de novo a “humilhação” de Deus que assumiu a nossa condição humana, excepto o pecado, deveremos corresponder com a nossa “elevação”. “Corações ao alto! O nosso coração está em Deus”, proclamaremos no início da Oração Eucarística. “Ensinais a amar os bens do Céu e a viver para os valores eternos”, diremos na Oração Depois da Comunhão. Este “subir” e “descer” que vivemos na Eucaristia tem de estar bem firme nos nossos corações “para nos apresentarmos santos e irrepreensíveis” diante de Deus. Esta é a nossa esperança, é a esperança do Advento.

 

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Ano C - Advento - 1º Domingo - Boletim Dominical II

Avisos e Liturgia do Domingo 34º do Tempo Comum – ano B CRISTO – REI

O título de rei é um dos que mais aparece no Antigo Testamento aplicado a Deus. Além de outros livros, no livro dos Salmos encontramos muitos exemplos, como o salmo 92 (93) que cantamos neste domingo: “O Senhor é rei, revestiu-Se de majestade”. A tradição da Igreja leu o Antigo Testamento a partir da experiência de Jesus Cristo ressuscitado. Nos Cânticos do Servo de Javé, em Isaías, os cristãos contemplam Jesus Cristo como “Servo sofredor”. Esta tradição também o viu como rei entrando na sua glória, como diz o salmo 24 (23): “Ó portas, levantai os vossos umbrais! Alteai-vos, pórticos eternos, que vai entrar o rei glorioso. Quem é Ele, esse rei glorioso? É o Senhor do universo! É Ele o rei glorioso”. A história de Israel é ambígua sobre a realeza, como se pode comprovar com o profeta Elias que resiste dar ao povo o rei que reclama: “Dá-nos um rei que nos governe, como têm todas as nações” (1Sm 8,5). Porém, Deus avisa Elias que se o povo quer um rei é porque rejeita a sua realeza: “Ouve a voz do povo em tudo o que te disser, pois não é a ti que eles rejeitam, mas a mim, para que Eu não reine mais sobre eles” (1Sm 8,7). E diz a Elias que lhes conceda o que pedem, mas que lhes explique como irão sofrer com os abusos do rei. Jesus retoma esta ideia quando fala do serviço e do poder: “Os reis das nações imperam sobre elas…Ora, Eu estou no meio de vós como aquele que serve” (Lc 22,25.27). O texto que colocaram na cruz de Cristo dizia: “Este é Jesus, o rei dos Judeus” (Mt 27,37), e nos diversos relatos da paixão, começando pela entrada solene em Jerusalém, vai-se afirmando frequentemente que Jesus é o rei dos judeus. O texto evangélico deste domingo centra-se no interrogatório de Pilatos sobre que classe de rei é Jesus e qual é a sua realeza: “Tu és o rei dos Judeus?”. Jesus sempre guardou silêncio sobre se Ele era o Messias, com receio que o Messias que Ele é fosse confundido com o Messias que os seus conterrâneos esperavam. Isto também acontece sobre a sua realeza. Recordemos o que aconteceu depois da multiplicação dos pães e dos peixes: “Jesus, sabendo que viriam arrebatá-lo para o fazerem rei, retirou-se de novo, sozinho, para o monte” (Jo 6,15). Não quer ser o rei que eles querem coroar. Jesus é rei, mas entra em Jerusalém humildemente: “Dizei à filha de Sião: Aí vem o teu Rei, ao teu encontro, manso e montado num jumentinho, filho de uma jumenta” (Mt 21,5). É um rei que vem em nome de Deus: “E diziam: Bendito seja o Rei que vem em nome do Senhor! Paz no Céu e glória nas Alturas” (Lc 19,38). Finalmente, é um rei mestre e Filho de Deus: “Respondeu Natanael: Rabi, Tu és o Filho de Deus! Tu és o Rei de Israel” (Jo 1,49). É Rei dos Judeus, mas não o rei que eles querem que seja, mas o rei que Ele quer ser. Jesus respondeu a Pilatos: “O meu reino não é deste mundo”. E diz mais: “Para isso nasci e vim ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade”, da Verdade, com letra maiúscula, ou seja, de Deus. Nasceu e está no mundo com esta finalidade. O Seu Reino propõe outro mundo, nada sublime, mas concreto, humano, embutido no mundo para o qual foi enviado para o salvar. São Paulo fala deste Reino como do Reino de “justiça, paz e alegria no Espírito Santo” (Rom 14,17). Não é um Reino de poder excessivo, mas é um Reino de vida plena para todos os que O acolhem de coração: “porque deles é o Reino do Céu” (Mt 5,10). O prefácio da solenidade deste domingo é muito claro: “reino de verdade e de vida, reino de santidade e de graça, reino de justiça, de amor e de paz”. Que este Reino venha até nós, como pedimos na oração do Pai Nosso.

21-11-2021

LEITURA ESPIRITUAL

Pois, que é isto, Senhor meu?… Que é isto, meu Imperador? Como se pode sofrer isto? Sois Rei, Deus meu, para sempre, e não é emprestado o reino que tendes. Quando se diz no Credo: «Vosso Reino não terá fim», isto dá-me quase sempre particular consolação. Louvo-Vos, Senhor, e bendigo-Vos para sempre; enfim, o Vosso reino durará para sempre. Nunca permitais, Senhor, que se tenha por bom que, quem for a falar convosco, o faça só com a boca. Sim, não nos devemos aproximar para falar a um príncipe com o mesmo descuido que a um lavrador ou como a uma pobre como nós, pois, como quer que seja que nos falem, está bem. E assim, já que por humildade deste Rei, se eu por grosseira não Lhe sei falar, Ele nem por isso deixa de me ouvir, nem de me chegar a Si, nem me lançam fora Seus guardas; porque bem sabem os anjos que ali estão a índole do seu Rei, que gosta mais desta rudeza dum pastorzinho humilde pois vê que, se mais soubera mais diria, que dos mui sábios e letrados por elegantes arrazoados que façam, se não vão acompanhados de humildade, não é razão que, por Ele ser bom, sejamos nós descomedidos. Sequer ao menos para Lhe agradecer o que Ele sofre da vizinhança, consentindo a uma como eu ao pé de Si, é bem que procuremos conhecer a Sua limpeza e quem é. É verdade que, logo em chegando, se conhece, não como a senhores de cá que, em nos dizendo quem foi seu pai e os contos que tem de renda e o título, nada mais há a saber. Aproximai-vos pensando e entendendo, ao chegar, com quem ides falar ou com quem estais falando. Em mil vidas das nossas não acabaremos de entender como merece ser tratado este Senhor, diante de quem tremem os anjos. Em tudo manda, tudo pode; Seu querer é operar. Pois, razão será, filhas, que procuremos deleitar-nos nestas grandezas que tem o nosso Esposo e entendamos com quem estamos casadas e que vida havemos de ter. (Santa Teresa de Jesus, Caminho da Perfeição, cap. 22).

 

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Ano B - Tempo Comum - 34º Domingo - Boletim Dominical II

Padre Pelágio Tomás novo pároco das Paróquias de Figueiró da Granja, Fuinhas, Maceira, Muxagata e Sobral Pichorro

Em comunicado, a Diocese de Viseu anuncia as seguintes nomeações: Saí o Padre Jorge Carvalhal Pinto, Administrador Paroquial,  nas Paróquias de Canas de Senhorim e Santar e entra para Pároco das Paróquias de Santíssimo Salvador de Canas de Senhorim e de São Pedro de Santar, Arciprestado de Beira Alta, o Padre Marco  Cabral.

Depois saí o Padre Marco  Cabral das Paróquias de Figueiró da Granja, Fuinhas, Maceira, Muxagata e Sobral Pichorro e entra o Pároco das Paróquias de Nossa Senhora da Graça de Figueiró da Granja, de Nossa Senhora da Graça de Fuinhas, de São Sebastião de Maceira, de São Miguel Arcanjo de Muxagata e de Nossa Senhora da Graça de Sobral Pichorro, Arciprestado de Beira Alta, o Padre Pelágio Faz Tomás. Para Assistente Espiritual do Agrupamento 1393 do CNE de Fornos de Algodres irá o Padre Pelágio Faz Tomás. O Padre Pelágio é angolano, nasceu a 25-09-1966 e foi ordenado sacerdote a 6-8-2000.

Está em Portugal desde 2004 e que já esteve nas Dioceses de Aveiro e Porto. Veio para a Diocese de Viseu ao abrigo de um acordo entre o Bispo de Benguela e o Bispo de Viseu, assim como outros 3 que já cá trabalham há vários anos.

 

Avisos e Liturgia do 33º Domingo do Tempo Comum- ano B

 

O próximo Domingo será o último do ano litúrgico antes de iniciar o Advento. Nestes últimos Domingos encontramos textos que, segundo os especialistas em Sagrada Escritura, pertencem à literatura apocalíptica, porque falam-nos de um futuro um pouco perturbador, descrevendo visões referentes ao momento em que as forças do mal se enfrentam com o poder de Deus, em que os idólatras e os que praticam o mal serão castigados, enquanto os fiéis a Deus serão recompensados. Por causa destes prenúncios tão espantosos, muitas pessoas atribuíram à palavra “apocalipse” o significado erróneo de um tempo de catástrofe, de tragédia, de desgraça. A palavra Apocalipse, em grego, significa “revelação”. É a revelação de uma realidade que bem conhecemos: que o mundo nem sempre se rege segundo os planos de Deus, porque existe o mal, a injustiça, a tristeza. Em todas as épocas da história, as pessoas lamentaram-se que o tempo “presente” de cada momento histórico foi o pior tempo de toda a história. Ouvia-se dizer: “Onde é que isto vai parar?”, “Estamos no fim do mundo!”. Apocalipse é também a revelação de uma esperança: que Deus cuida e salva o seu povo, julga-o com justiça, que todos aqueles que forem fiéis ao Senhor serão recompensados. Na primeira leitura, pode ler-se: “Os sábios resplandecerão como a luz do firmamento, e os que tiverem ensinado a muitos o caminho da justiça brilharão como estrelas por toda a eternidade”. Assim, podemos concluir o seguinte: há que olhar o futuro sem medo, porque o futuro a Deus pertence. Neste Domingo lemos os últimos versículos do capítulo 13 do evangelho de S. Marcos. Este capítulo começa com palavras de admiração, ditas por Pedro, André, Tiago e João (os quatro primeiros discípulos de Jesus) sobre a imponência do edifício do templo. Sentem-se orgulhosos do seu templo, que tinham como residência de Deus e o centro do mundo. Porém, este templo de pedras será destruído para que apareça o templo dos fiéis do Senhor, criado à volta do Ressuscitado. O Filho do homem, vitorioso sobre a morte, será contemplado como Deus era contemplado no Antigo Testamento, na nuvem, anunciando e propondo um futuro em que o mundo já não será dominado pelo mal e pelo pecado, mas um mundo que será transformado. Todos temos a tentação de dar mais atenção àquilo que corre mal do que àquilo que corre bem. Muitas vezes somos pessimistas, negativos, mesquinhos para reconhecer as manifestações e as sementes do Reino que já estão a acontecer. Recordemos o gesto da viúva pobre do texto do evangelho do domingo passado. Jesus soube ver aquilo que era positivo naquele gesto, irrelevante aos olhos dos outros. Neste domingo, o texto do evangelho diz-nos que o Filho do homem “mandará os Anjos, para reunir todos os seus eleitos dos quatro pontos cardiais”. Quem são os eleitos? Aqueles que puseram em prática a Palavra de Deus, aqueles que tiveram o mesmo espirito de Simeão que acolheu Jesus no templo: “era justo e piedoso e esperava a consolação de Israel. O Espírito Santo estava nele”. O eleito do Senhor é todo aquele que espera e acredita que o mundo será confortado pelo Filho de Deus. Neste Domingo, o que deve ficar gravado no meu coração? Que Jesus está sempre próximo de nós, que está sempre à porta. Não temos de O esperar num futuro incerto, porque Ele está no meio de nós. A semente de Deus está já em ti, em mim, no seio do povo de Deus. Para este povo, que é de Deus, somos enviados para anunciar a esperança, a alegria, a proximidade divinas, missão sempre difícil mas sempre pertinente. Estas dificuldades não são novas. Recordemos o medo e a desilusão de S. Paulo em Corinto e o apoio do Senhor: “Certa noite, o Senhor disse a Paulo, numa visão: Nada temas, continua a falar e não te cales, porque Eu estou contigo e ninguém porá as mãos em ti para te fazer mal, pois tenho um povo numeroso nesta cidade” (Act 18, 9-10). Temos de estar atentos na vida para reencontrarmos Jesus ressuscitado no meio de nós, em tantas pessoas e acontecimentos. Jesus nunca desistiu e nunca se foi embora. Está aqui e pede-nos que continuemos a fazer o que Ele fez e anunciou. Para esta missão, contamos com o Pai, o Filho e o Espírito Santo, o Deus que é, que era e que vem, pelos séculos dos séculos. Amen.

14-11-2021

LEITURA ESPIRITUAL

Para impedir qualquer pergunta indiscreta acerca do momento da sua segunda vinda, Jesus declarou: «Essa hora, ninguém a conhece, nem mesmo o Filho» (Mt 24,36); e, noutro momento: «Não vos pertence conhecer os dias e os tempos» (Act 1,7). Escondeu-nos esse conhecimento para que vigiemos, e cada um possa pensar que tal vinda se produzirá durante a sua vida. Se o tempo da sua vinda tivesse sido revelado, o seu advento seria em vão, pois as nações e os séculos em que se produzisse não o teriam desejado. Ele bem disse que viria, mas não precisou em que momento; dessa forma, todas as gerações e todos os séculos têm sede dele. É certo que fez conhecer os sinais da sua vinda; mas não revelou o seu termo. Na mudança constante em que vivemos, alguns desses sinais já tiveram lugar, outros já passaram, outros duram sempre. Com efeito, a sua última vinda será semelhante à primeira: os justos e os profetas desejavam-na e pensavam que teria lugar no tempo deles. Também hoje, cada um dos fiéis de Cristo deseja acolhê-Lo no seu próprio tempo, tanto mais que Jesus não disse claramente quando apareceria. Assim, ninguém poderá imaginar que Cristo esteja submetido a uma lei do tempo, a uma hora qualquer, Ele que domina os números e o tempo. (Santo Efrém, c. 306-373, diácono da Síria, doutor da Igreja, Comentário do Evangelho ou Diatessaron).

 

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Ano B - Tempo Comum - 33º Domingo - Boletim Dominical II

Avisos e Liturgia do 32º Domingo do Tempo Comum – Ano B

 

a)         Se no Domingo passado acompanhava-mos aquele verdadeiro discípulo que, depois de descobrir a fé em Jesus, O seguiu até Jerusalém, e ali vimos que o mais importante para quem segue Jesus é amar, hoje entramos com Jesus no coração da manifestação da fé em Deus: entramos no templo. Ali encontramos aqueles que se exibem com a sua religião, mas incapazes de comprometer a sua vida com os que mais precisam, enquanto que Jesus salienta e valoriza a atitude da viúva que dá tudo o que tem. O contraste é enorme. Aquele que verdadeiramente acredita em Deus dá tudo. Já a Oração Colecta deste domingo convida-nos a pedir a Deus que “nos afaste de toda a adversidade, para que, sem obstáculos do corpo ou do espírito, possamos livremente cumprir a vossa vontade”. Quando vivemos a fé, a nossa vida não pode ser dupla, ou seja, exibicionista da própria fé e ao mesmo tempo escassez de generosidade e doação.

 

b)        Tanto na primeira leitura como no Evangelho encontramos duas pessoas que são a expressão da pobreza na Bíblia. As duas pessoas são viúvas e pobres. Não têm ninguém nem qualquer amparo. Só podem entregar-se e confiar em Deus. No aspecto social, vivem na solidão. A viúva de Sarepta ainda tem a seu cuidado criar um filho e vive uma situação de desespero. Todavia, a mulher escuta o homem de Deus, o profeta, e através dele escuta a vontade de Deus que lhe pede um acto de generosidade que ultrapassa a sua situação humana. Porém, ela cumpre o que lhe pede a voz da sua fé e prepara tudo aquilo que o profeta lhe pede. Diz-lhe o que tem e dá-lhe o que tem. No evangelho, a pobre viúva deu tudo o que tinha (condição para ser um verdadeiro discípulo). Para Deus, o mais importante não é a eficácia das coisas materiais, mas a intenção e a generosidade do coração. Aquele que deseja seguir Jesus terá que libertar o seu corpo e o seu espírito de qualquer obstáculo para cumprir a vontade do Deus Misericordioso.

 

c)         No evangelho encontramos o contraste entre a atitude discreta da mulher e a descrição que Jesus faz da exibição dos escribas. Jesus denuncia e condena a tentação de estar sempre no centro das atenções, dos aplausos, das decisões. Todos aqueles que caem nesta tentação não são sensíveis às necessidades dos outros nem a auxiliar o próximo: “devoram as casas das viúvas com pretexto de fazeres longas rezas”.

 

d)        A segunda leitura da Carta aos Hebreus diz-nos que o sacerdócio de Cristo é superior ao sacerdócio do Antigo Testamento, porque Ele é o Mediador da Nova Aliança. A entrada de Cristo no Santos dos Santos é diferente da entrada do Sumo Sacerdote: este tem que entrar cada ano e em todas as festas; Cristo entrou num agora eterno “no próprio céu, …manifestou-se uma só vez”. O Santo dos Santos onde Cristo entrou é muito mais autêntico que o templo; não entrou por uns momentos, mas para sempre. As orações e as ofertas dos homens encontram em Cristo um mediador atento que está sempre diante de Deus. Cristo está revestido da soberania universal de tal modo que exerce sobre os homens uma realeza definitiva: “para dar a salvação àqueles que O esperam”. Aquilo que dá autoridade a Cristo para exercer a expiação definitiva não é o facto de ter derramado o seu sangue, mas o ter oferecido a sua própria vida. A doação de Cristo tem um valor duplo: enquanto Filho de Deus, o seu sacrifício tem um valor superior aos sacrifícios antigos; enquanto Homem perfeito, dá à sua oblação um carácter espiritual que nenhum ritualismo antigo possuía. Cristo pode perdoar os pecados porque foi o primeiro homem que viveu sem pecado e foi o primeiro Senhor que aboliu o reino do mal.

 

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07-11-2021

Ano B - Tempo Comum - 32º Domingo - Boletim Dominical II

Avisos e Liturgia do 31º Domingo do Tempo Comum- Ano B

No Domingo passado, no texto evangélico, vimos como os apóstolos Tiago e João, perante a pergunta “Que quereis que Eu vos faça?”, responderam que queriam poder, sentar-se à direita e à esquerda do Mestre. A pergunta repete-se no evangelho deste Domingo dirigida ao cego Bartimeu, mas também dirigida a cada um de nós. Também o Senhor me pergunta: “Que queres que Eu te faça?”. Cada um responderá partindo das suas necessidades, como o cego, que vive de pedir caridade, que suporta a suspeita sobre os pecados que terá cometido, ele ou os seus pais, e que provocaram a sua cegueira. Recordemos que no mundo judeu a doença era tida como consequência de algum pecado. Este homem tem fé, porque, aos gritos, dirige-se a Jesus dando-lhe o título de Filho de David e faz o seu pedido: “Tem piedade de mim”. Que oração tão simples e tão sincera! Por vezes, as súplicas e as justas reclamações dos pobres são reprimidas. O texto diz que “muitos repreendiam-no para que se calasse”. Não era a preocupação de não aborrecer o Mestre que os fazia ter este comportamento. Os ouvidos de Jesus estavam sempre atentos para escutar e acolher as súplicas e reclamações dos pobres. “Jesus parou e disse: Chamai-o”. Não te esqueças que Jesus também escuta o teu pedido! Este texto evangélico permite-nos apreciar o valor da comunidade que também se sente interpelada, e convertida, pela decisão de Jesus de chamar aquele pobre cego que estava aos gritos. As pessoas rejeitavam o cego, pecador e pobre, porque estava a incomodar, porque não tinha o direito de se manifestar e porque, sendo considerado pecador, não tinha direito a Deus. Contudo, a voz do cego expressa a sua fé enraizada na convicção de que Jesus é o Filho de David, o Messias. É isto que lhe dá força para insistir. O seu pedido é escutado por Jesus, que o manda chamar, dizendo, assim, às pessoas que todos têm o direito a ser escutados e acolhidos por Ele. Com esta acção educa e repreende todos aqueles que queriam excluir aquele pobre. Então, as pessoas dizem ao cego: “Coragem! Levanta-te, que Ele está a chamar-te”. E qual é o pedido daquele homem a Jesus? “Mestre, que eu veja”. Desejamos sempre que Deus atenda e realize os nossos pedidos pessoais e das pessoas que mais gostamos. Recordemos o argumento dos responsáveis da sinagoga de Cafarnaum para que Jesus curasse o servo do centurião: “Satisfaz o seu pedido, porque ele gosta muito de nós e até nos construiu a sinagoga”. Tantas vezes, usamos o mesmo argumento para sermos escutados com as seguintes palavras: “até é boa pessoa”, “está sozinha, coitada”, “ajuda toda a gente”, “é muito simples”, “tem os filhos no desemprego”, “está doente”, “é um miserável, não tem nada”! “Logo ele recuperou a vista e seguiu Jesus pelo caminho”. Através de uma narração tão simples esconde-se uma breve explicação do caminho a fazer para cada um se encontrar com Jesus Cristo e seguir os seus passos. É cego quem não descobriu Jesus Cristo como Mestre e como Senhor. Em primeiro lugar, o cego Bartimeu só reconhece Jesus como Filho de David, como Messias. Mas Jesus está atento e disponível a deixar-se encontrar pelos que O procuram, como fez com Zaqueu. Depois, chamou o cego que atirou fora a capa, ou seja, desprendeu-se de tudo o que lhe pudesse impedir de ir ao encontro de Jesus. Deu um salto, libertado da miséria e respondeu a Jesus dando-lhe o título de Rabbuni, mestre, senhor, pedindo-lhe a fé: “Que eu veja”, ou que eu tenha fé. De imediato, Jesus percebeu o cego, como também me percebe a mim com prontidão: “Vai: a tua fé te salvou”. Assim, temos um final feliz: o cego recuperou a vista, abriram-se-lhe os olhos da fé, e seguiu Jesus como solução para a sua pobreza. E qual era o caminho que o cego percorria para seguir Jesus? Era o caminho para Jerusalém, para viver com Jesus a sua paixão, morte e ressurreição. No seu texto evangélico, a seguir à cura do cego Bartimeu, S. Marcos narra a entrada de Jesus em Jerusalém, recordada todos os anos no Domingo de Ramos. Também Jesus me chama a segui-Lo por este caminho.

31-10-2021

LEITURA ESPIRITUAL

No Monte Sinai, Moisés disse ao Senhor: «Mostra-me a tua glória». Deus respondeu-lhe: «Farei passar diante de ti toda a minha bondade, mas tu não poderás ver a minha face» (Ex 33,18ss).] Experimentar este desejo parece-me porvir de uma alma animada pelo amor à beleza essencial, uma alma a quem a esperança não para de conduzir da beleza que já viu para aquela que está para além. Este pedido audacioso, que ultrapassa os limites do desejo, almeja pela beleza que está para além do espelho, do reflexo, para a ver face a face. A voz divina satisfaz o pedido, recusando-o simultaneamente: a magnanimidade de Deus concede-lhe a satisfação do desejo mas, ao mesmo tempo, não lhe promete repouso nem saciedade. É nisto que consiste a verdadeira visão de Deus: quem para Ele eleva os olhos nunca mais cessa de O desejar. É por isso que Ele diz: «não poderás ver a minha face». O Senhor que tinha respondido a Moisés exprime-Se da mesma forma aos seus discípulos, clarificando o sentido desta simbologia. Ele diz «Se alguém quiser vir após Mim», (Lc 9,23) e não: «Se alguém quiser ir à minha frente». Ao que Lhe faz um pedido a respeito da vida eterna, propõe o mesmo: «Vem e segue-Me» (Lc 18,22). Ora, aquele que segue caminha virado para as costas daquele que o guia. Portanto, o ensinamento que Moisés recebe sobre a maneira pela qual é possível ver a Deus é este: ver a Deus é segui-Lo para onde Ele conduzir. Com efeito, aquele que não conhece o caminho não pode viajar em segurança se não seguir o guia. Este precede-o, mostrando-lhe o caminho; por isso, quem o segue não se desviará do caminho se se mantiver virado para as costas daquele que o conduz. Com efeito, se se deixar ir ao lado ou de frente para o guia tomará uma via diferente da indicada. Por isso, Deus diz àquele a quem conduz: «Não poderás ver a minha face», o que significa: «Não olhes de frente o teu guia» porque, se assim fizesses, correrias num sentido que Lhe é contrário. Como vês, é importante aprender a seguir a Deus: para aquele que assim O segue nenhuma contradição do mal se poderá opor ao seu caminhar. (São Gregório de Nissa, c. 335-395, monge, bispo, A Vida de Moisés, II, 231-233, 251-253 (a partir da trad. de cf. SC Iter, pp. 265ss.).

 

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Ano B - Tempo Comum - 31º Domingo - Boletim Dominical II