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Avisos e Liturgia do 25º Domingo do Tempo Comum- ano B

 

Na segunda leitura deste Domingo é proclamado mais um excerto da carta de S. Tiago que nos oferece uma radiografia de muitas situações que são hoje actuais entre nós: “De onde procedem os conflitos entre vós? Não é precisamente das paixões que lutam nos vossos membros? Cobiçais e nada conseguis: então assassinais. Sois invejosos e não podeis obter nada: então entrais em conflitos e guerras”. Será que estas palavras não continuam a expressar muitas situações da nossa sociedade, desumanizada e anestesiada pelo consumismo das coisas materiais?

No texto do evangelho Jesus volta a insistir sobre o seu futuro, ou seja, na sua paixão e morte. Todavia os discípulos não O escutam ou não O querem escutar. Eles esperavam um reino de poder, triunfo e glória, e Jesus falava-lhes de crucifixão e de morte, mas também no desfecho com a ressurreição. O Servo sofrerá muito, será a pedra que os construtores irão rejeitar, e os discípulos do Servo terão o mesmo destino. Por isso, aos discípulos do Servo se pede disponibilidade e entrega.

Jesus anuncia a sua paixão e morte aos seus discípulos mas eles não O escutam, porque continuam a disputar entre eles os melhores lugares e a melhor forma de serem importantes no Reino que imaginam. Então Jesus apresenta os requisitos para quem O quiser seguir: 1) “Quem quiser ser o primeiro será o último de todos e o servo de todos”. Nada de ambições, honras e vaidades. No grupo ninguém deve pretender estar acima dos outros; 2) o segundo requisito é dito através de um gesto simbólico: colocou uma criança no meio deles e disse-lhes: “Quem receber uma destas crianças em meu nome é a Mim que recebe; e quem Me receber não Me recebe a Mim, mas Àquele que me enviou”. Nesta criança tomada e abraçada por Jesus encontramos um símbolo de tantas pessoas débeis e abandonadas que necessitam de atenção e de acolhimento.

Tudo isto que Jesus diz aos seus discípulos é também para a Igreja. Hoje precisamos de uma Igreja servidora, acolhedora e próxima dos mais fracos e abandonados. Ao olhar para o texto evangélico deste domingo podemos concluir o seguinte: muitas vezes os critérios de Jesus não coincidem com os critérios de muitos que nos rodeiam. Quem pensa hoje, por exemplo, que os homens e mulheres mais importantes são aqueles que vivem ao serviço dos outros? Quem valoriza como importantes os milhares de homens e mulheres anónimas, de rosto desconhecido, que nunca serão homenageados ou condecorados, mas que gastam as suas forças e vidas no serviço desinteressado aos irmãos mais necessitados?

Não caiamos na tentação de pertencer ao grupo daqueles e daquelas que passam a vida somente a lamentarem as coisas negativas. Tenhamos a coragem de pertencer ao grupo daqueles e daquelas que passam a vida a fazer caminho à luz dos critérios e valores propostos por Jesus.

19-09-2021

LEITURA ESPIRITUAL

Lembra-te deste provérbio: «Deus resiste aos soberbos e dá a graça aos humildes» (Jo 4,6). Tem presente a palavra do Senhor: «Quem se exaltar será humilhado e quem se humilhar será exaltado» (Mt 23,12). Se achas que tens alguma coisa boa, reconhece-a, mas sem esquecer as tuas faltas; não te engrandeças com o bem que hoje fizeste, nem esqueças o mal recente ou passado; se o presente é para ti motivo de glória, lembra-te do passado e assim destruirás esse estúpido abcesso!

Se vês o teu próximo pecar, não consideres mais do que a falta cometida e pensa também no bem que ele faz ou fez; muitas vezes descobrirás que é melhor do que tu, se examinares o conjunto da tua vida e não te prenderes a coisas fragmentárias, porque Deus não examina assim o homem. Lembremo-nos disso muitas vezes, para nos preservarmos do orgulho, abaixando-nos, para sermos elevados.

Imitemos o Senhor, que desceu do céu até ao aniquilamento total. Mas, depois de tal aniquilamento, fez resplandecer a sua glória, glorificando com Ele aqueles que com Ele tinham sido desprezados. Tais eram, com efeito, os primeiros discípulos que, pobres e nus, percorreram o universo sem palavras de sabedoria nem séquitos faustosos, mas sós, errantes e sofredores, vagabundos por terra e por mar, vergastados, apedrejados, perseguidos e, finalmente, levados à morte. Tais são os divinos ensinamentos do nosso Pai. Imitemo-los para chegarmos também à glória eterna, ao perfeito e verdadeiro dom de Cristo. (São Basílio, c. 330-379, monge, bispo de Cesareia da Capadócia, doutor da Igreja, Homilia sobre a humildade, 5-6).

 

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Ano B - Tempo Comum - 25º Domingo - Boletim Dominical II

Avisos e Liturgia do 24º Domingo do Tempo Comum- ano B

 

Com alegria e esperança, ressoa nos nossos ouvidos as palavras do profeta Isaías, que se encontram na primeira leitura deste domingo: “o Senhor Deus veio em meu auxílio e por isso não fiquei envergonhado”. Mas poderemos olhar, em primeiro lugar, para o trecho da carta de S. Tiago, na segunda leitura. São palavras que não precisam de grande explicação, porque claramente afirmam que “a fé sem obras está completamente morta”, “Mostra-me a tua fé sem obras, que eu, pelas obras, te mostrarei a minha fé”. São palavras para sempre refletir e sempre colocar em prática. São palavras que não nos deixam viver somente de boas intenções. Somos e seremos julgados pelas nossas obras. Quando perguntaram a Jesus como será o julgamento da nossa vida, afirmou claramente que as nossas ações com os outros dão, ou não, sentido à nossa biografia cristã: tive fome e deste-me de comer, era peregrino e recolheste-me, estava doente e foste visitar-me.

A partir do texto da carta de S. Tiago, debrucemo-nos sobre o texto do evangelho deste domingo que tem duas partes bem distintas, mas muito importantes. A pergunta que Jesus faz aos seus discípulos é feita também a todos nós. “E vós, quem dizeis que Eu sou?”. Não se exige respostas académicas, bem fundamentadas nos tratados de Teologia, mas pede-se uma resposta nascida do encontro e da experiência com Jesus. Do conhecimento histórico de Jesus não sabemos grande coisa; sobre o conhecimento bíblico e teológico já foram escritos milhares de livros; mas o conhecimento que aqui nos é pedido é o conhecimento nascido da experiência, do interior de cada um e do encontro e da relação com Jesus. Mas, respostas precipitadas também não servem. Pedro respondeu: “Tu és o Messias”, mas ainda não sabia muito bem o que isto significava, como Jesus confirmou ao dizer: “Tu não compreendes as coisas de Deus, mas só as dos homens”. Pedro pensava num Messias triunfante, entendendo o triunfo de uma forma humana, não como o entende Deus. Na segunda parte do texto encontramos, em certo sentido, o cumprimento da primeira. Conhecer Cristo supõe saber segui-Lo, é levar a cruz de todos os dias. Seguir Jesus é perder a vida, se for necessário, por Ele e pelo Evangelho. Por isso, “se alguém quiser seguir-Me, renuncie a si mesmo, tome a sua cruz e siga-Me”.

Tomar a cruz e perder a vida não é um convite ao “pietismo” ou ao “devocionismo”. Jesus experimentou as alegrias e as esperanças dos homens e mulheres do seu tempo, mas também assumiu as responsabilidades e as exigências da vida. É a própria vida que nos traz a cruz. Quando Jesus fala em “salvar a vida” convida-nos a aceitar as nossas debilidades que nascem tantas vezes da própria condição humana e, sobretudo, das incompreensões perante a nossa fidelidade a uma conduta ética e comprometida. “Renunciar a si mesmo” não é cair em depressão e angústia, mas colocar a nossa coerência e as nossas responsabilidades acima dos nossos interesses, e isto supõe muitas vezes a cruz!

Aceitar Jesus Cristo na nossa vida é aceitar a sua doutrina e o seu estilo de vida. Serão muitas as dificuldades e sofrimentos que teremos, simplesmente porque nos afirmamos como cristãos. Mas sabemos que a cruz acabará na ressurreição e que este mundo injusto e inseguro se converterá num “novo céu e numa nova terra”.

12-09-2021

LEITURA ESPIRITUAL

A união com o Crucificado faz nascer a força apostólica do amor misericordioso, que se torna presente em todas as partes onde Cristo sofre qualquer necessidade material ou espiritual nos mais pequenos deste mundo.

«O mundo está em chamas! Urge-te extingui-las? Contempla a Cruz. Desde o coração aberto brota o sangue do Salvador. Ele apaga as chamas do inferno. Liberta o teu coração pelo cumprimento fiel dos teus votos e então derramar-se-á nele o caudal do Amor divino até inundar todos os confins da terra. Ouves os gemidos dos feridos nos campos de batalha do Este e do Oeste? Tu não és médico, nem mesmo enfermeira, nem podes vendar as feridas. Estás recolhida na tua cela e não lhes podes acudir. Ouves o grito agónico dos moribundos e quererias ser sacerdote e estar ao seu lado. Comove-te a aflição das viúvas e dos órfãos e quererias ser o Anjo da Consolação e ajudá-los. Olha para o Crucificado. Se estás unida a Ele, como uma noiva no cumprimento fiel dos teus santos votos, és tu / seu sangue precioso que se derrama. Unida a Ele, és como o omnipresente. Não podes ajudar aqui ou ali como o médico, a enfermeira, ou o sacerdote; mas com a força da Cruz podes estar em todas as frentes, em todos os lugares de aflição. O teu Amor misericordioso, Amor do coração divino, leva-te a todas as partes onde se derrama o seu precioso sangue, suavizante, santificante, salvador».

A união com Cristo é necessária para participarmos na obra da expiação e da redenção nossa e de toda a humanidade: «No fundo não há nenhuma separação entre a  santificação própria e o apostolado. Quem busca a perfeição segundo a vontade de Deus, busca-a não para si, mas para os outros».

A união com Cristo Crucificado alcança assim uma dimensão de santificação pessoal e uma dimensão apostólica de salvação universal.

«Desta forma encontram-se indissoluvelmente unidos a própria perfeição, a união com Deus, o trabalho para que o próximo alcance a união com Deus e a perfeição. E o caminho para tudo isto é a Cruz. E a pregação da cruz seria vã se não fosse a expressão de uma vida unida a Cristo Crucificado».

O caminho de seguimento do Crucificado é animado pela certeza da vitória de Cristo: «No sinal da cruz venceremos… vejam-se ou não os frutos». «Vitória, Tu reinarás; ó Cruz, Tu nos salvarás». (S. Teresa Benedita da Cruz, A expiação mística. Amor à Cruz, 24-11-1934)

 

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12-09-2021

Avisos e Liturgia do 23º Domingo do Tempo Comum- ano B

Habitualmente na liturgia da Palavra dá-se muito relevo ao texto do evangelho, mas é sempre oportuno passar os olhos e o pensamento pelas três leituras. Isaías, na primeira leitura, lança-nos um apelo e dá-nos um conselho muito importante: “Tende coragem, não temais”. Como é necessário ouvir hoje estas palavras reconfortantes e encorajadoras! Diante do quadro social e religioso que estamos a viver, a tentação do desânimo e da tristeza pode surgir. Por isso o profeta Isaías insiste: “Tende coragem, não temais. Aí está o vosso Deus; vem para fazer justiça e dar a recompensa; Ele próprio vem salvar-nos”. Na segunda leitura, o conselho da carta de S. Tiago também é muito importante: “a fé em Nosso Senhor Jesus Cristo não deve admitir acepção de pessoas. Não estareis a estabelecer distinções entre vós e a tornar-vos juízes com maus critérios?”. Isto é fundamental numa comunidade cristã. Promover a igualdade é oferecer os meios materiais e espirituais para que todos possam viver a vida dignamente. Nunca deixemos de trabalhar na construção de uma comunidade sem acepção de pessoas. No evangelho, que é um texto exclusivo de S. Marcos, encontramos a narração de um momento da vida de Jesus: Ele sai do território judeu, dirige-se para terras pagãs, onde cura um surdo com dificuldade em falar, símbolo da humanidade fechada à voz de Deus. Também cada um de nós deve sair do seu “território confortável” e ir às periferias territoriais e existenciais das pessoas, procurando aqueles que desejam encontrar Deus e escutar a sua voz.

A sorte daquele surdo com dificuldade em falar foi encontrar pessoas que o levaram a Jesus que O curou e O enviou para o meio do seu povo. Hoje existem muitas pessoas que precisam de alguém que lhe ofereça meios para recuperar a fé. Uma comunidade evangelizadora deve assumir esta missão. Todos somos enviados a evangelizar, porque todos somos chamados a percorrer o caminho do Senhor que, como o salmo nos diz, “dá pão aos que têm fome” e “entrava o caminho aos pecadores”.

Por outro lado, a cura do surdo com dificuldade em falar é um alerta para escutarmos os outros. Ser cristão é ser portador de uma palavra de esperança e não cair no pessimismo que inunda a sociedade de hoje. É importante falar, mas também escutar, o que nem sempre fazemos. Falamos muitas vezes com Deus, mas não o escutamos suficientemente; falamos com os outros, mas nem sempre os escutamos. Temos de aprender a lição: o Senhor “faz ouvir os surdos e falar os mudos”. Habitualmente, Deus fala pela boca dos outros. Então peçamos ao Senhor: pela Tua Palavra e pelo clamor dos nossos irmãos necessitados, fala, Senhor, que o teu servo escuta.

05-09-2021

LEITURA ESPIRITUAL

Como podemos discernir a voz de Deus entre as mil vozes que ouvimos todos os dias neste nosso mundo. Diria: Deus fala connosco de modos muito diferentes. Fala através de outras pessoas, através de amigos, dos pais, do pároco, dos sacerdotes. Aqui, os sacerdotes aos quais estais confiados, que vos guiam. Fala por meio dos acontecimentos da nossa vida, nos quais podemos discernir um gesto de Deus; fala também através da natureza, da criação, e fala, naturalmente e sobretudo, na Sua Palavra, na Sagrada Escritura, lida na comunhão da Igreja e pessoalmente em diálogo com Deus.

É importante ler a Sagrada Escritura, por um lado de modo muito pessoal, e realmente, como diz São Paulo, não como palavra de um homem ou como um documento do passado, como lemos Homero, Virgílio, mas como uma Palavra de Deus que é sempre actual e fala comigo. Aprender a ouvir um texto, historicamente do passado, a Palavra viva de Deus, ou seja, entrar em oração, e assim fazer da leitura da Sagrada Escritura um diálogo com Deus.

Santo Agostinho nas suas homilias diz com frequência: Bati várias vezes à porta desta Palavra, até que pude compreender o que o próprio Deus me dizia; por um lado, esta leitura muito pessoal, este diálogo pessoal com Deus, no qual procuro o que o Senhor me diz, e juntamente com esta leitura pessoal é muito importante a leitura comunitária, porque o sujeito vivo da Sagrada Escritura é o Povo de Deus, é a Igreja. (Bento XVI, Discurso aos seminaristas, 17-02-2007).

 

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Ano B - Tempo Comum - 23º Domingo - Boletim Dominical II (1)

Avisos e Liturgia do 22º Domingo do Tempo Comum- ano B

 

Depois de dedicar cinco Domingos ao tema do pão da vida que se encontra no capítulo 6 do Evangelho de S. João, regressamos neste domingo ao Evangelho de S. Marcos, ao capítulo 7, onde o evangelista apresenta uma oposição entre a maneira de pensar e de agir dos “fariseus e de alguns escribas que tinham vindo de Jerusalém” e o pensamento e as acções dos discípulos de Jesus no que se refere ao tema das leis e das normas. Jesus critica os fariseus que convertem em principais e importantes alguns mandamentos que, na realidade, são secundários, formando um conjunto de práticas e ritos externos que a tradição criou. Valorizam tanto alguns preceitos de somenos importância e voltam as costas ao projecto de Deus quando se relacionam com o próximo. Para Jesus, o mais importante é o comportamento e as atitudes das pessoas, ou seja, a maneira de viver e de proceder e não o simples cumprimento de algumas normas. Na atitude dos fariseus, Jesus resume a atitude de todas as pessoas que, ao longo da história, caiem na tentação de os imitar com uma citação do profeta Isaías: “Este povo honra-Me com os lábios, mas o seu coração está longe de Mim. É vão o culto que Me prestam, e as doutrinas que ensinam não passam de preceitos humanos”.

É evidente que um ritual (religioso, militar, político, etc.), por si mesmo, não muda uma pessoa. Um ritual não se pode impor nem abafar as atitudes éticas da pessoa. Para além do legalismo, está a atitude interior. A norma, a lei, é necessária mas terá de ser sempre um caminho de libertação e não de angústia e de ameaça. Por isso na liturgia deste domingo é importante destacar o salmo: “Quem habitará, Senhor, na vossa casa? O que vive sem mancha e pratica a justiça, e diz a verdade que tem no seu coração e guarda a sua língua da calúnia. O que não faz o mal ao seu próximo nem ultraja o seu semelhante…o que não empresta dinheiro com usura, nem aceita presentes para condenar o inocente”. Para a sociedade dos nossos tempos, estas palavras são pertinentes. Vivemos num mundo onde a subversão dos valores é frequente e esta realidade leva-nos a não deixar de trabalhar pelas exigências éticas que supõe a vontade de seguir Jesus. O farisaísmo no tempo de Jesus, como também hoje no nosso tempo, pretendia tapar com uma imagem exterior a sujidade que existia no seu interior. Por isso, Jesus é muito claro: “O que sai do homem é que o torna impuro”.

A denúncia de Jesus contra a maneira que tinham os fariseus de subverter os valores tem plena actualidade nos nossos dias. A tentação do farisaísmo centrada em manter uma imagem que não corresponde à realidade tem plena validade e é uma das tentações mais presentes à nossa volta. Por isso, a liturgia deste domingo é um forte apelo à sinceridade. Nem sempre somos o que parecemos e podemos cair na tentação de colocar máscaras que não deixam revelar a verdade do nosso interior e da nossa vida. Rezemos todos os dias: Livrai-nos, Senhor, de cair nesta tentação…

29-08-2021

LEITURA ESPIRITUAL

É, portanto, claro, que nos devemos esforçar por todos os meios por preparar os tempos em que, por comum acordo das nações, se possa interditar absolutamente qualquer espécie de guerra. Isto exige, certamente, a criação duma autoridade pública mundial, por todos reconhecida e com poder suficiente para que fiquem garantidos a todos a segurança, o cumprimento da justiça e o respeito dos direitos. Porém, antes que esta desejável autoridade possa ser instituída, é necessário que os supremos organismos internacionais se dediquem com toda a energia a buscar os meios mais aptos para conseguir a segurança comum. Já que a paz deve antes nascer da confiança mútua do que ser imposta pelo terror das armas, todos devem trabalhar por que se ponha, finalmente, um termo à corrida aos armamentos e por que se inicie progressivamente e com garantias reais e eficazes, a redução dos mesmos armamentos, não unilateral evidentemente, mas simultânea e segundo o que for estatuído.

Entretanto, não se devem subestimar as tentativas já feitas ou ainda em curso para afastar o perigo da guerra. Procure-se antes ajudar a boa vontade de muitos que, carregados com as ingentes preocupações dos seus altos ofícios, mas movidos do seriíssimo dever que os obriga, se esforçam por eliminar a guerra de que têm horror, embora não possam prescindir da complexidade objectiva das situações. E dirijam-se a Deus instantes preces, para que lhes dê a força necessária para empreender com perseverança e levar a cabo com fortaleza esta obra de imenso amor dos homens, de construir virilmente a paz. Hoje em dia, isto exige certamente deles que alarguem o espírito mais além das fronteiras da própria nação, deponham o egoísmo nacional e a ambição de dominar sobre os outros países, fomentem um grande respeito por toda a humanidade, que já avança tão laboriosamente para uma maior unidade.

As sondagens até agora diligente e incansavelmente levadas a cabo acerca dos problemas da paz e desarmamento, e as reuniões internacionais que trataram deste assunto, devem ser consideradas como os primeiros passos para a solução de tão graves problemas e devem no futuro promover-se ainda com mais empenho, para obter resultados práticos. No entanto, evitem os homens entregar-se apenas aos esforços de alguns, sem se preocuparem com a própria mentalidade. Pois os governantes, responsáveis pelo bem comum da própria nação e ao mesmo tempo promotores do bem de todo o mundo, dependem muito das opiniões e sentimentos das populações. Nada aproveitarão com dedicar-se à edificação da paz, enquanto os sentimentos de hostilidade, desprezo e desconfiança, os ódios raciais e os preconceitos ideológicos dividirem os homens e os opuserem uns aos outros. Daqui a enorme necessidade duma renovação na educação das mentalidades e na orientação da opinião pública. Aqueles que se consagram à obra de educação, sobretudo da juventude, ou que formam a opinião pública, considerem como gravíssimo dever o procurar formar as mentalidades de todos para novos sentimentos pacíficos. Todos nós temos, com efeito, de reformar o nosso coração, com os olhos postos no mundo inteiro e naquelas tarefas que podemos realizar juntos para o progresso da humanidade.

Não nos engane uma falsa esperança. A não ser que, pondo de parte inimizades e ódios, se celebrem no futuro pactos sólidos e honestos acerca dá paz universal, a humanidade, que já agora corre grave risco, chegará talvez desgraçadamente, apesar da sua admirável ciência, àquela hora em que não conhecerá outra paz além da horrível tranquilidade da morte. Mas, ao mesmo tempo que isto afirma, a Igreja de Cristo, no meio das angústias do tempo actual, não deixa de esperar firmemente. A nossa época quer ela propor, uma e outra vez, oportuna e importunamente, a mensagem do Apóstolo: «eis agora o tempo favorável» para a conversão dos corações, «eis agora os dias da salvação. (Concílio Vaticano II, Constituição Pastoral Gaudium et spes, 82).

 

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Ano B - Tempo Comum - 22º Domingo - Boletim Dominical II

Avisos e Liturgia do 21º Domingo do Tempo Comum- ano B

 

Foram cinco as semanas que a liturgia dedicou ao capítulo 6 do Evangelho de S. João, conhecido como o discurso do pão da vida. O texto do evangelho deste Domingo é a parte final deste discurso. Perante estas palavras, surgiu a reacção das pessoas: umas a favor e outras contra Jesus. “A partir de então, muitos discípulos afastaram-se e já não andavam com Ele”. Todavia, Pedro, em nome dos outros discípulos, responde à pergunta de Jesus, “Também vós quereis ir embora?”, com as seguintes palavras: “Para quem iremos, Senhor? Nós acreditamos e sabemos que Tu és o Santo de Deus”. Esta profissão de fé de Pedro, em nome dos Doze, tem a mesma convicção da decisão que tomaram os israelitas perante a proposta de Josué, como nos relata a primeira leitura: “Longe de nós abandonar o Senhor para servir outros deuses!”. Realidades semelhantes aconteceram e acontecem no decorrer da história: algumas pessoas não aceitam a fé, outras acreditam em Cristo, Filho de Deus, com uma adesão incondicional. Quanto à Eucaristia, como já foi reflectido no Domingo passado, há pessoas que a desprezam, e outras que encontram nela o alimento mais importante da fé.

Ao longo destes cinco Domingos dedicados ao discurso do pão da vida, apercebemo-nos que o grande erro de muitos que escutavam Jesus foi pensarem somente num pão material, enquanto Ele falava de um pão que sacia outras fomes e necessidades das pessoas. É isto que acontece hoje: crentes e não crentes falamos linguagens diferentes, e quando a vida se reduz somente à satisfação dos bens materiais é muito difícil acreditar e trabalhar por outros valores que não terminam neste mundo. Hoje encontramo-nos imersos num supermercado de ofertas sobre diversas maneiras de entender a vida e os valores. Pedro, na sua intervenção, dizendo que Jesus tem “palavras de vida eterna”, faz uma proposta que hoje, numa sociedade repleta de palavras vazias de significado e descontextualizadas, é uma ousadia e atrevimento…por isso, muitos não o ouvem! A segunda leitura deste Domingo, da carta de S. Paulo aos Efésios, leva-nos a pensar sobre o matrimónio. Não vamos discutir o aspecto literário e o vocabulário da mesma…será para outros momentos! Mas pensemos somente neste ponto: quantas promessas de matrimónio para toda a vida, diante do altar do Senhor, se desfizeram e diluíram? Há tantas palavras mentirosas, conformistas, enganosas e falsas…

Que conclusão tirar desta reflexão que se prolongou durante cinco Domingos sobre o discurso do pão da vida, contido no capítulo 6 do Evangelho de S. João? É importante e urgente sentir e fazer sentir a Eucaristia como sacramento e celebração, e como identificação com Cristo morto, ressuscitado e vivo no meio de nós, porque esta é a nossa identidade cristã. Participar na Eucaristia é interiorizar e assimilar a maneira de pensar e de agir de Jesus. “Comer a carne e beber o sangue de Cristo” é uma expressão simbólica da união e da fusão com a sua vida. Assim como os alimentos se fazem carne e sangue do nosso corpo, a Eucaristia nutre de Cristo a nossa vida espiritual. A Eucaristia é uma experiência muito íntima e um encontro pessoal, ao mesmo tempo comunitário, com Cristo ressuscitado e presente no meio de nós.

22-08-2021

LEITURA ESPIRITUAL

Voltemos de novo à Última Ceia. A novidade que ali se verificou, estava na nova profundidade da antiga oração de bênção de Israel, que desde então se torna a palavra da transformação e nos concede a participação na “hora” de Cristo. Jesus não nos deixou a tarefa de repetir a Ceia pascal que, de resto, como aniversário, não é repetível a nosso bel-prazer. Deixou-nos a tarefa de entrar na sua “hora”. Entramos nela mediante a palavra do poder sagrado da consagração uma transformação que se realiza mediante a oração de louvor, que nos coloca em continuidade com Israel e com toda a sua história da salvação, e ao mesmo tempo nos dá a novidade para a qual tendia por sua íntima natureza aquela oração. Esta oração chamada pela igreja “oração eucarística” realiza a Eucaristia. Ela é palavra de poder, que transforma os dons da terra de maneira totalmente nova na doação de si da parte de Deus e envolve-nos neste processo de transformação. Eis por que chamamos a este acontecimento Eucaristia, que é a tradução da palavra hebraica beracha agradecimento, louvor, bênção, e assim transformação a partir do Senhor: presença da sua “hora”.

A hora de Jesus é a hora em que o amor vence. Por outras palavras: foi Deus que venceu, porque Ele é Amor. A hora de Jesus quer tornar-se a nossa hora e tornar-se-á a nossa hora se nós, mediante a celebração da Eucaristia, nos deixarmos envolver por aquele processo de transformações que o Senhor tem por finalidade. A Eucaristia deve tornar-se o centro da nossa vida. (Bento XVI, Homilia da celebração eucarística da XX Jornada Mundial da Juventude, 2005).

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Ano B - Tempo Comum - 21º Domingo - Boletim Dominical II

Avisos e Liturgia do 19º Domingo do Tempo Comum – ano B

 

Este é já o terceiro Domingo a proclamar o capítulo 6 do evangelista S. João, conhecido como o discurso do pão da vida. Nos últimos Domingos escutámos a narração da multiplicação dos pães e dos peixes, apresentada como uma grande lição de partilha, e o próprio Jesus a dizer que é o pão da vida, ou seja, que Ele se oferece como o pão que dá vida. Neste Domingo continuamos o discurso na parte em que os judeus confrontaram Jesus, porque desconfiavam que Ele fosse “o pão que desceu do Céu”. Os judeus murmuravam de Jesus, porque os seus olhos só O viam como filho de José e de Maria. Não podemos esquecer que o evangelho de S. João foi escrito numa altura em que proliferava a literatura gnóstica, segundo a qual a humanidade de Jesus não era real, mas só aparente. Por isso o evangelista procura apresentar Jesus em situações normais na vida de um ser humano, proclamando nesses momentos a sua divindade. O Jesus da fé é o Jesus de Nazaré, humano e sensível, mas também é o Filho de Deus, ou seja, o único que viu Deus e que dá a vida eterna a todos os que Nele acreditam. Ele é o Pão que alimenta o espírito e dá vida ao mundo.

Ao reflectirmos este discurso do pão da vida temos de referir, por um lado, a Eucaristia, mas por outro lado, pensar como aplicar hoje estas palavras à realidade das nossas comunidades e do nosso mundo. É evidente que, a partir deste discurso, o evangelista convida as comunidades cristãs a promoverem a ceia eucarística. Se para o mundo judeu, tal como se ensinava nas sinagogas, a lei era a vida, as comunidades cristãs têm de encontrar a vida na Eucaristia. Isto continua actual para os nossos dias. Hoje, como ontem, as nossas comunidades cristãs, se não querem cair na fraqueza, terão de centrar a sua vitalidade na celebração litúrgica como fonte que alimenta e dá vida, acolhendo, evangelizando, catequizando, partilhando. Só assim será uma comunidade que caminha, alimentada por um pão que dá vida. Tantas pessoas abandonaram a sua comunidade e as celebrações, porque regressavam a casa e à vida com fome, vazios, desconsolados porque não foram acolhidos, incomodados com maus testemunhos que viram, desiludidos com a indiferença reinante e o “apontar do dedo” atrevido! Todavia, também é verdade que algumas comunidades cristãs estão a sofrer a mesma situação de desânimo do profeta Elias, como nos diz a primeira leitura. É importante continuar a ouvir as palavras do anjo: “Levante e come, porque ainda tens um longo caminho a percorrer”. Não precisamos de comunidades acomodadas, satisfeitas somente em cumprir tradições e costumes piedosos, e sem sabor. Precisamos de comunidades cristãs revitalizadas, entusiasmadas, motivadas com o alimento que dá vida e força para continuar a caminhar.

Vivemos numa sociedade que tem aspectos bons e aspectos mais preocupantes. Teremos sempre de ter presente esta pergunta: como devo contribuir para melhorar o pedaço de mundo em que vivo. Por isso, é importante a afirmação de Jesus que termina o texto do evangelho deste Domingo: “o pão que Eu hei-de dar é a minha carne, que Eu darei pela vida do mundo”. Assim, se quisermos colaborar para dar um novo sentido à vida da sociedade em que vivemos, teremos de, imitando Jesus Cristo, gastar as nossas forças em tudo o que ajude a construir um mundo mais humano, mais justo e mais fraterno. Todas as celebrações da Eucaristia continuam quando saímos da igreja. O mandato no final de cada celebração é claro: “Ide em paz e que o Senhor vos acompanhe”, ou seja, continuemos a grande e difícil missão de levar paz, que é vida, aos corações oprimidos e sofredores.

08-08-2021

LEITURA ESPIRITUAL

“O Senhor Jesus, na noite em que foi entregue” (1 Cor 11, 23), instituiu o sacrifício eucarístico do seu corpo e sangue. As palavras do apóstolo Paulo recordam-nos as circunstâncias dramáticas em que nasceu a Eucaristia. Esta tem indelevelmente inscrito nela o evento da paixão e morte do Senhor. Não é só a sua evocação, mas presença sacramental. É o sacrifício da cruz que se perpetua através dos séculos. Esta verdade está claramente expressa nas palavras com que o povo, no rito latino, responde à proclamação “mistério da fé” feita pelo sacerdote: “Anunciamos, Senhor, a vossa morte”.

A Igreja recebeu a Eucaristia de Cristo seu Senhor, não como um dom, embora precioso, entre muitos outros, mas como o dom por excelência, porque dom d’Ele mesmo, da sua Pessoa na humanidade sagrada, e também da sua obra de salvação. Esta não fica circunscrita no passado, pois “tudo o que Cristo é, tudo o que fez e sofreu por todos os homens, participa da eternidade divina, e assim transcende todos os tempos e em todos se torna presente”.

Quando a Igreja celebra a Eucaristia, memorial da morte e ressurreição do seu Senhor, este acontecimento central de salvação torna-se realmente presente e “realiza-se também a obra da nossa redenção”. Este sacrifício é tão decisivo para a salvação do género humano que Jesus Cristo realizou-o e só voltou ao Pai depois de nos ter deixado o meio para dele participarmos como se tivéssemos estado presentes. Assim cada fiel pode tomar parte nela, alimentando-se dos seus frutos inexauríveis. Esta é a fé que as gerações cristãs viveram ao longo dos séculos, e que o magistério da Igreja tem continuamente reafirmado com jubilosa gratidão por dom tão inestimável. É esta verdade que desejo recordar mais uma vez, colocando-me convosco, meus queridos irmãos e irmãs, em adoração diante deste Mistério: mistério grande, mistério de misericórdia. Que mais poderia Jesus ter feito por nós? Verdadeiramente, na Eucaristia demonstra-nos um amor levado até ao “extremo” (cf. Jo 13, 1), um amor sem medida. (S. João Paulo II, Encíclica “Ecclesia de Eucharistia”, 11.

 

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Ano B - Tempo Comum - 19º Domingo - Boletim Dominical II

Avisos e Liturgia do 18º Domingo do Tempo Comum- ano B

 

Neste Domingo continuamos a nossa reflexão do discurso de Jesus, conhecido como o do pão da vida, que se encontra no capítulo 6 do evangelho de S. João. A frase central da passagem deste Domingo, na boca de Jesus, é a seguinte: “Eu sou o pão da vida: quem vem a Mim nunca mais terá fome, quem acredita em Mim nunca mais terá sede”. Esta frase foi proferida num diálogo entre Jesus e algumas pessoas que tinham assistido ao milagre da multiplicação dos pães e dos peixes. Jesus corrige-os em três aspectos: 1) que não andem atrás dele pelos bens materiais; 2) que para terem um alimento que dá a vida têm de aceitar o verdadeiro caminho que é a fé; 3) e que não esperem do Messias uma repetição do antigo maná, tal como narra a primeira leitura, mas do pão de Deus que desce do céu para dar a vida ao mundo. É neste momento que Jesus proclama que é “o pão da vida”. O evangelista João apresenta Jesus através de três símbolos: o pão, a água e a luz. São os três dons que o povo de Israel recebeu no deserto para combater os três grandes perigos na sua travessia: morrer de fome, de sede e perder-se. No deserto da nossa vida, é importante termos estes três dons. Aderir a Jesus, aceitar a sua mensagem e o seu estilo de vida, é pão que alimenta o espírito.

O carácter eucarístico da afirmação de Jesus a dizer que é o pão da vida é muito claro e evidente, mas não se esgota somente neste aspecto, porque vivemos num mundo e numa sociedade em que o problema material e espiritual da fome e da sede atinge muitas pessoas e nações. Por isso, temos de estar conscientes desta realidade e analisar como Jesus pode ser para eles esse pão da vida. À nossa volta, temos homens e mulheres famintos que têm necessidade do pão material e do pão da ajuda, da amizade, da companhia, da estima, do afecto e da solidariedade. Dizemos muitas vezes que todos têm direito à felicidade, mas o que fazer? Que caminhos percorrem as pessoas para ter felicidade? Não são somente os bens materiais que dão felicidade. Na segunda leitura, S. Paulo aconselha-nos a não viver como os pagãos e na superficialidade dos seus pensamentos. Convida-nos a abandonar o homem velho, corrompido por desejos enganadores e que nos destroem, e a alimentarmo-nos deste pão da vida, que é Jesus, que renova a nossa maneira de pensar e de viver. Jesus é o pão da vida que nos fortalece para uma vida justa, boa e santa.

O texto do evangelho deste Domingo termina com uma oração feita por aquelas pessoas que falavam com Jesus e que se encontra no Pai-Nosso: “Senhor, dá-nos sempre desse pão”; “o pão nosso de cada dia nos dai hoje”. Cristo pode dar vida, porque com a sua ressurreição venceu a morte e a vida que nos oferece é a vida eterna. Façamos nossa esta oração. Na Eucaristia, recebemos este pão da vida que nos transforma, nos ilumina e nos alimenta na caminhada que percorremos para alcançar o banquete celeste, a vida eterna, a glória de Deus.

01-08-2021

LEITURA ESPIRITUAL

A Igreja vive da Eucaristia. Esta verdade não exprime apenas uma experiência diária de fé, mas contém em síntese o próprio núcleo do mistério da Igreja. É com alegria que ela experimenta, de diversas maneiras, a realização incessante desta promessa: “Eu estarei sempre convosco, até ao fim do mundo” (Mt 28, 20); mas, na sagrada Eucaristia, pela conversão do pão e do vinho no corpo e no sangue do Senhor, goza desta presença com uma intensidade sem par. Desde o Pentecostes, quando a Igreja, povo da nova aliança, iniciou a sua peregrinação para a pátria celeste, este sacramento divino foi ritmando os seus dias, enchendo-os de consoladora esperança. O Concílio Vaticano II justamente afirmou que o sacrifício eucarístico é “fonte e centro de toda a vida cristã “. Com efeito, “na santíssima Eucaristia, está contido todo o tesouro espiritual da Igreja, isto é, o próprio Cristo, a nossa Páscoa e o pão vivo que dá aos homens a vida mediante a sua carne vivificada e vivificadora pelo Espírito Santo”. Por isso, o olhar da Igreja volta-se continuamente para o seu Senhor, presente no sacramento do Altar, onde descobre a plena manifestação do seu imenso amor.

Durante o Grande Jubileu do ano 2000, pude celebrar a Eucaristia no Cenáculo de Jerusalém, onde, segundo a tradição, o próprio Cristo a realizou pela primeira vez. O Cenáculo é o lugar da instituição deste santíssimo sacramento. Foi lá que Jesus tomou nas suas mãos o pão, partiu-o e deu-o aos seus discípulos, dizendo: “Tomai, todos, e comei: Isto é o meu Corpo que será entregue por vós” (cf. Mt 26, 26; Lc 22, 19; 1 Cor 11, 24). Depois, tomou nas suas mãos o cálice com vinho e disse-lhes: “Tomai, todos, e bebei: Este é o cálice do meu Sangue, o Sangue da nova e eterna aliança, que será derramado por vós e por todos para remissão dos pecados” (cf. Mc 14, 24; Lc 22, 20; 1 Cor 11, 25). Dou graças ao Senhor Jesus por me ter permitido repetir no mesmo lugar, obedecendo ao seu mandato: “Fazei isto em memória de Mim” (Lc 22, 19), as palavras por Ele pronunciadas há dois mil anos. Teriam os Apóstolos, que tomaram parte na Última Ceia, entendido o significado das palavras saídas dos lábios de Cristo? Talvez não. Aquelas palavras seriam esclarecidas plenamente só no fim do Triduum Sacrum, ou seja, aquele período de tempo que vai da tarde de Quinta-feira Santa até à manhã do Domingo de Páscoa. Nestes dias, está contido o mysterium paschale; neles está incluído também o mysterium eucharisticum. (S. João Paulo II, Encíclica “Ecclesia de Eucharistia”, 1-2).

 

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Ano B - Tempo Comum - 18º Domingo - Boletim Dominical II

Avisos e Liturgia do 17º Domingo do Tempo Comum- ano B

 

a)         A pregação homilética dos domingos 17-21 “per annum” exige uma atenção especial pelo carácter unitário do tema: a Eucaristia. A proposta que aqui se faz tem três vertentes, a saber: figuras da Eucaristia (primeiras leituras), o discurso do pão da vida (evangelho), oração eucarística (salmos responsoriais). Nas reflexões dominicais destes domingos, poder-se-ia rever a doutrina eucarística, tendo como base os seguintes documentos: a Exortação Apostólica “Sacramentum Caritatis” e a Encíclica “Ecclesia de Eucharistia”.

 

b)        A breve narração do 2º Livro dos Reis leva-nos a destacar alguns aspetos que poderíamos chamar “o mistério do pão”. Trata-se das primícias das colheitas. O gesto de apresentar as primícias das colheitas aos profetas era, em Israel, uma maneira de reconhecer que a terra onde viviam e as colheitas que dela tiravam, eram um dom de Deus. Este gesto era, ao mesmo tempo, memorial, acção de graças e súplica. No caso particular de Eliseu, o pão apresentado converte-se em alimento para toda a comunidade, apesar da desproporção entre a quantidade de pães e a multidão que come. É uma manifestação da eficácia da palavra do Senhor, o Criador. Como é fácil de constatar que, onde se cumpre a Palavra do Senhor, o pão não falta: “eles comeram e ainda sobrou”. Diante das políticas que procuram a “solução” para a fome no mundo com a diminuição da natalidade – chegando a promover o aborto – a nossa fé afirma que, quando os homens se aperceberem que a terra é de Deus e lhe oferecerem os frutos como dons recebidos, saberão também distribuí-los fraternalmente: “Comerão e ainda há-de sobrar”. O pão apresentado a Eliseu anuncia o pão e o vinho apresentados para a celebração da Eucaristia. Quando Jesus os transforma na sua pessoa, toda a comunidade se alimenta com o alimento celestial.

 

c)         A multiplicação dos pães e dos peixes, tal como a escutámos no evangelho de S. João, apresenta-nos características próprias: trata-se de um facto contemporâneo à Páscoa; estavam numa montanha, num lugar isolado, onde não se costuma encontrar pão; Jesus “bem sabia o que ia fazer”, como também na Última Ceia: destaca-se o carácter teândrico do símbolo. A multidão reage com uma alusão implícita ao anúncio feito por Moisés: “Este é, na verdade, o Profeta que estava para vir ao mundo” (cfr. Dt 18,15: “O Senhor, teu Deus, suscitará no meio de vós, dentre os teus irmãos, um profeta como eu; a ele deves escutar”. Jesus é considerado o Novo Moisés, que procura pão para o povo. Toda a narração tem um carácter profético em relação com a instituição da Eucaristia. A proximidade da Páscoa anuncia a “nova Páscoa”, na qual, Jesus sabendo o que queria fazer, na solidão da cruz oferecerá ao Pai o seu próprio corpo para reunir os filhos de Deus que andavam dispersos. Antes deste momento, realizou o seu sacrifício pascal, único e definitivo, para que a Igreja, através dos sacerdotes, sob as espécies do pão e do vinho, possa unir-se à sua oferenda.

25-07-2021

d)        O salmo 144 parte da fé na criação: Deus é glorioso e poderoso. Por isso, o salmista tem os olhos postos em Deus, com um olhar cheio de esperança, porque basta que Deus abra as mãos para que todos fiquem saciados. Na base deste dom de Deus está sempre a sua bondade: “a todos saciais generosamente”. A criação é a primeira revelação do amor de Deus.

 

e)         O início da Oração Eucarística IV, antes do Santo, é um texto muito semelhante ao salmo 144. Toda a oração eucarística tem, em diversos momentos, referências à criação. Na Eucaristia, há matéria que são “fruto da terra e do trabalho do homem”, porque foi essa a vontade de Jesus. Na Eucaristia, a criação faz a passagem para a nova criação.

 

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Ano B - Tempo Comum - 17º Domingo - Boletim Dominical II

Avisos e Liturgia do 16º Domingo do Tempo Comum – ano B

O medo não é um bom conselheiro, mas este sentimento pode ajudar-nos a sermos prudentes e a manifestar uma coragem e valentia mais madura. Os profetas, como Jeremias, tinham medo, mas não se demitiram da sua responsabilidade de servir o povo de Israel, apesar das críticas, das perseguições e até da morte. Não é fácil construir caminhos de paz e de bem se estamos bloqueados pelo medo do que os outros nos possam fazer, ou tirar, ou das feridas que possam surgir.

Em cada um de nós há sempre um coração dividido, porque temos muita vontade de fazer o bem, mas, muitas vezes, deixamo-nos levar pelo egoísmo e pelos nossos interesses. Somos capazes de expressar sentimentos de compaixão com todas as vítimas de alguma desgraça, como também facilmente desconfiamos das campanhas solidárias e ficamos numa indiferença irresponsável. Sentimos que, por vezes, desconfiamos do projecto de paz e de fraternidade para a nossa sociedade e para o mundo. Jesus é o bom pastor que nos ajuda a construir pontes para unir a humanidade, como um só povo.

Depois de ter enviado os Doze dois a dois em missão, eles “voltaram para junto de Jesus e contaram-Lhe tudo o que tinham feito e ensinado. Então Jesus disse-lhes: Vinde comigo para um lugar isolado e descansai um pouco”. Como é importante interiorizar, rezar, contemplar, dar graças, pedir a força do Espírito Santo e a sabedoria de coração! Não se pode construir nada de bom com a cabeça quente, prisioneiros de interesses, de pessoas, de amizades estratégicas e aduladoras, pagando favores a quem nos deixámos vender. Para quem tem a missão de ser pastor e de orientar pessoas, o que foi dito anteriormente nunca deve entrar no programa das suas vidas. Ser pastor, ser guia, supõe sempre respeitar a dignidade e a liberdade de todas as pessoas. Não pode haver escolhas de pessoas, de famílias. Aparentemente parece que se ganha muito ao fazer escolhas, mas perde-se tudo quando nos deixamos vender. Não pode haver predilecção por pessoas com títulos, com brasões, com influência na sociedade. Ser pastor, ser guia, é acolher todos da mesma forma, tendo em conta as suas angústias e as suas preocupações. Ser pastor, ser guia, supõe estar atento às necessidades de todas as pessoas que clamam por serem escutadas e amadas.

Ser discípulo de Jesus é ser pastor e ser guia. Supõe ser enviado por Ele e descansar Nele, nunca esquecendo que Ele é a nossa justiça e a nossa paz e repouso. Sim, há uma justiça humana que impõe normas e dá sentenças de acordo com os critérios de cada lugar e de cada cultura. Há também uma paz humana, condicionada sempre pelos poderes políticos, nem sempre orientados para o bem comum. A Justiça e a Paz de Jesus fundamentam-se no amor, na confiança de que Deus quer a liberdade e o melhor para os seus filhos, para todos os seus filhos. Jesus sofreu muito e acabou a morrer na cruz. É da cruz, com os braços bem abertos, que quer reconciliar todo o mundo. A paz de Jesus gera homens e mulheres novos, livres e fraternos.

Jesus enviou os seus discípulos em missão mas não os abandonou. Espera por eles, acompanha-os, ouve-os. Um bom pastor, um bom guia, deve ter sempre presente na sua missão estes três verbos: esperar, acompanhar, ouvir. Jesus procedeu assim para que os pastores aprendam a acompanhar todos aqueles que precisam de ser apoiados e animados ao longo da vida. Não se escolhem pessoas, acolhem-se todas as pessoas!

Como S. Paulo e Jeremias, sabemos que a amizade e a misericórdia de Deus nunca nos abandonarão. Por isso, não devemos abandonar ninguém, mas sermos pontes de afecto e de generosidade, porque todos são filhos de Deus.

17-07-2021

LEITURA ESPIRITUAL

Jesus Cristo, que morreu, que ressuscitou, que está à direita de Deus, que intercede por nós” (Rm 8, 34), está presente na sua Igreja de múltiplos modos: na sua Palavra, na oração da sua Igreja, “onde dois ou três estão reunidos em Meu nome” (Mt 18, 20), nos pobres, nos doentes, nos prisioneiros, nos seus sacramentos, dos quais é o autor, no sacrifício da missa e na pessoa do ministro. Mas está presente “sobretudo sob as espécies eucarísticas”. O modo da presença de Cristo sob as espécies eucarísticas é único. Ele eleva a Eucaristia acima de todos os sacramentos e faz dela “como que a perfeição da vida espiritual e o fim para que tendem todos os sacramentos”. No santíssimo sacramento da Eucaristia estão “contidos, verdadeira, real e substancialmente, o corpo e o sangue, conjuntamente com a alma e a divindade de nosso Senhor Jesus Cristo e, por conseguinte, Cristo completo”. “Esta presença chama-se “real”, não a título exclusivo como se as outras presenças não fossem “reais”, mas por excelência, porque é substancial, e porque por ela se torna presente Cristo completo, Deus e homem”. É pela conversão do pão e do vinho no corpo e no sangue de Cristo que Ele Se torna presente neste sacramento. Os Padres da Igreja proclamaram com firmeza a fé da mesma Igreja na eficácia da Palavra de Cristo e da acção do Espírito Santo, para operar esta conversão. Assim, São João Crisóstomo declara:

“Não é o homem que faz com que as coisas oferecidas se tomem corpo e sangue de Cristo, mas o próprio Cristo, que foi crucificado por nós. O sacerdote, figura de Cristo, pronuncia estas palavras, mas a sua eficácia e a graça são de Deus. Isto é o Meu corpo, diz ele. Esta palavra transforma as coisas oferecidas”. A presença eucarística de Cristo começa no momento da consagração e dura enquanto as espécies eucarísticas subsistirem. Cristo está presente todo em cada uma das espécies e todo em cada uma das suas partes, de maneira que a fracção do pão não divide Cristo. Na liturgia da Missa, nós exprimimos a nossa fé na presença real de Cristo sob as espécies do pão e do vinho, entre outras maneiras, ajoelhando ou inclinando-nos profundamente em sinal de adoração do Senhor. É de suma conveniência que Cristo tenha querido ficar presente à sua Igreja deste modo único. Uma vez que estava para deixar os seus sob forma visível, Cristo quis dar-nos a sua presença sacramental; e visto que ia sofrer na cruz para nos salvar, quis que tivéssemos o memorial do amor com que nos amou “até ao fim” (Jo 13, 1), até ao dom da própria vida. Com efeito, na sua presença eucarística, Ele fica misteriosamente no meio de nós, como Aquele que nos amou e Se entregou por nós, e permanece sob os sinais que exprimem e comunicam este amor. (Catecismo da Igreja Católica, 1373-1380)

 

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Ano B - Tempo Comum - 16º Domingo - Boletim Dominical II

Avisos e Liturgia do 15º Domingo do Tempo Comum – ano B

 

a)         São Marcos relata-nos neste Domingo a primeira missão dos Doze. “Jesus chamou os Doze Apóstolos e começou a enviá-los dois a dois”. Eles assumem e pregam a primeira mensagem de Jesus: “o Reino de Deus está próximo: arrependei-vos e acreditai no Evangelho” (Mc 1, 15). A missão da Igreja e de cada um dos cristãos é anunciar o mistério de Deus que ama a humanidade e que lhe concede a vida, a esperança, o amor, a paz. Jesus Cristo é o centro desta mensagem, porque Ele é a presença amorosa e salvadora de Deus, e porque Ele é o primeiro que viveu (e vive) com o Pai e encontrou a plenitude da vida humana. São Paulo contemplou o mistério salvador de Deus. Como consequência dessa contemplação, deixou-nos um precioso hino na Carta aos Efésios: “nos abençoou com toda a espécie de bênçãos espirituais em Cristo… Ele nos predestinou, conforme a benevolência da sua vontade, a fim de sermos seus filhos adoptivos, por Jesus Cristo… segundo a riqueza da sua graça, que Ele nos concedeu em abundância, com plena sabedoria e inteligência, deu-nos a conhecer o mistério da sua vontade… “( 2ª Leitura). Toda a espiritualidade e teologia da Igreja são abordagens ao mistério inefável de Deus que vem “instaurar todas as coisas em Cristo, tudo o que há nos Céus e na terra”. São Marcos diz isto de uma forma mais simples: “O Reino de Deus está próximo; convertei-vos”. O dom de Deus concede à humanidade a vida nova e eterna. Enumeremos os pontos-chave do Evangelho: o amor, a paz, o perdão, a pobreza, a liberdade, a perseverança nas provações, a confiança absoluta em Deus. E enumeremos, agora, os pontos-chave da Igreja actual: a luta pela paz e pela justiça, o diálogo entre povos e culturas, a atenção aos mais necessitados, o esforço por ultrapassar os injustos desequilíbrios mundiais, o respeito à dignidade de cada pessoa e de cada povo, especialmente dos que são mais fracos, sem recursos e sem benefícios políticos. A sensibilidade cristã sabe que a palavra de Jesus “Ide” põe em marcha a promoção da verdadeira vida para todos segundo o Evangelho.

 

b)        Os Doze são a primeira realização da Igreja, das comunidades cristãs, de todos os discípulos de Jesus. A primeira missão dentro e fora da Igreja é promover o Espírito de Deus. É a missão de todos os cristãos. O anúncio do Evangelho tem momentos fortes e solenes: a proclamação da Palavra na liturgia, os documentos do Magistério. Estes momentos incentivam-nos a anunciar o espírito evangélico. Isto concretiza-se no quotidiano da vida. Cada momento, cada encontro em casa, no trabalho ou em algumas circunstâncias de lazer, são ocasiões para promover a paz e não a discórdia, a atenção aos outros e não o desprezo, a ajuda e não o alheamento, o perdão e não o ressentimento, ou seja, não há vidas neutras. Ou anunciamos e testemunhamos o Espírito do Evangelho ou não.

 

c)         “Nada levem a não ser o bastão”. As circunstâncias da vida mudaram, mas permanece uma convicção: “não leveis nada”. A verdadeira força é a força da verdade que somos convidados a anunciar: amar, perdoar, promover a paz, estar desprendido das coisas, ajudar os mais necessitados e marginalizados, confiar em Deus. É a força e a fraqueza da Palavra. Proclamá-la supõe ajudar a reflectir, a entender, a valorizar o evangelho, a pensar com justiça e respeito. A Palavra chega ao coração e cada pessoa pode abri-lo ou fechá-lo. “E se não fordes recebidos…”. Isto pode acontecer na nossa casa e com os outros membros da Igreja. A Palavra tem um apoio forte: o testemunho de vida. Perdoar, viver em paz, saber ser livre, confiar em Deus, é a verdadeira arma que acompanha a Palavra até ao coração das pessoas que amamos.

11-07-2021

d)        “Segundo a riqueza da sua graça, que Ele nos concedeu em abundância, com plena sabedoria e inteligência, deu-nos a conhecer o mistério da sua vontade” (2ª Leitura). O Espírito Santo transforma-nos em pessoas novas e anunciadores do Evangelho. Anunciar o Espírito de paz, de diálogo, de generosidade, o Espírito de Jesus Cristo, não é um encargo nem um trabalho profissional. É uma maneira de estar no mundo, fruto da experiência vivida da verdadeira vida. Só assim se abre o caminho entre os homens para o Espírito do Senhor. A obra de Deus não consiste em grandes espectáculos ou sinais surpreendentes, mas na acção escondida do Espírito que nos leva ao amor, à paz e à esperança. A obra de Deus abre caminho, através de uma simples palavra ou de um gesto acolhedor. Cada momento que vivemos é um mistério que nos interpela e que jamais se repetirá. Anunciar o espírito de verdade e de paz é fazer o que for possível entre os homens, acrescentando a presença salvadora de Deus.

 

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Ano B - Tempo Comum - 15º Domingo - Boletim Dominical II