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Tag Archives: Unidade Pastoral de Aguiar da Beira

Liturgia do XVIII Domingo do Tempo Comum – ano C

De vez em quando, ouvimos falar de alguém que viveu como um miserável e que, ao morrer, se descobriu que possuía uma grande fortuna. Estes casos podem ser de extrema avareza ou de demência mental. Mas, parece que esta imagem tem algo a ver com a sociedade hodierna: somos capazes de criar muita riqueza, mas uma grande parte da humanidade vive em pobreza extrema, mesmo com problemas graves de sobrevivência.

Para o bem ou para o mal, os seres humanos distinguem-se dos outros animais: somos insaciáveis, queremos sempre mais. A vida de qualquer animal consiste em rotinas cíclicas. Um cão come, brinca, dorme, come, brinca, dorme…e não precisa de mais nada! Porém, nós aspiramos sempre mais no conhecimento, no bem-estar, no ter…nunca estamos satisfeitos. Deus não nos fez assim. Com razão, dizia S. Agostinho: “Criaste-nos para Vós, Senhor, e o nosso coração andará sempre inquieto enquanto não repousar em Vós”.

O problema está em não saber a razão da nossa inquietação e os objectivos da nossa vida. Então, começamos a resvalar pelos escorregadios caminhos do êxito, da fama, da cobiça, do prazer, do poder, do carreirismo…nada nos preenche, nada nos satisfaz, tudo é passageiro. “Vaidade das vaidades”. O nosso coração foi feito à medida de Deus, não das criaturas, e correndo atrás das vaidades não deixamos que Deus nos preencha. Cada um terá de se examinar e ver onde, na sua vida, sofre este sintoma da insaciabilidade. Há pessoas que têm em casa mais livros do que poderá ler na sua vida e continuam a comprar. Há pessoas que têm fortunas de dinheiro, tendo como único interesse acumular riqueza e não praticam a generosidade. Tudo isto poderia ser uma desordem inofensiva se não existissem tantas pessoas no mundo que não têm o necessário para viver.

Apesar de não ser muito agradável, de vez em quando, faz bem pensar que a nossa vida tem um princípio…e um fim. Ajuda-nos a relativizar os problemas que parecem não ter solução, mas que, também, um dia, acabarão. Isto faz pensar no essencial da vida. Quando morrermos, o que irá acontecer? Certamente, virá gente ao funeral! Muita ou pouca, não sabemos. Mas a maioria esquecer-nos-á. Lá diz o ditado popular: “rei morto, rei posto”. Os nossos familiares irão fazer o luto, o que é habitual quando se perde um ente querido, e estarão mais tristes e mais sensíveis durante um tempo. A roupa será dada a alguém, ou irá para o contentor do lixo. A maior parte dos nossos objectos pessoais irão para o lixo ou para o sótão das arrumações. O dinheiro e as propriedades passarão de mão em mão pelos herdeiros. Oxalá não haja guerras por causa das partilhas! Uma coisa é certa: nada poderemos fazer. Com o passar dos anos, também se vai esfumando a nossa memória no coração de algumas pessoas. O nosso nome, a nossa imagem, os nossos “feitos heróicos”, serão conservados no baú da história durante algum tempo, mas chegará o tempo em que o nosso nome e a nossa imagem não terão sentido para as pessoas, como acontece connosco quando nos encontramos com rostos desconhecidos em fotografias antigas. Até podem ser da nossa família, mas não os reconhecemos.

Então, o que levaremos connosco depois da morte? Qual é a riqueza que não passa? Se somos convidados a viver com Deus, que é Amor, temos de pensar que só poderemos levar para o Reino aquilo que esteja relacionado com o amor que vivemos e com o bem que fizemos: tratar dos outros, o perdão a quem nos ofendeu, o pão partilhado, a esmola que demos, a alegria que espalhámos. Tudo o que damos gratuitamente parece perdido neste mundo, mas fica depositado no banco do Reino. No momento da morte, perdemos tudo o que quisemos conservar e recuperamos tudo aquilo que oferecemos aos outros. Não tenhamos medo de nos oferecermos a Deus e aos outros, para que Deus nos faça ricos aos seus olhos.

 

 

LEITURA ESPIRITUAL

Amontoar para si próprio ou ser rico aos olhos de Deus?

 

«Que hei de fazer? Vou aumentar os meus celeiros!» Porque eram as terras deste homem tão produtivas, se ele fazia tão mau uso da sua riqueza? Para melhor se ver a imensa bondade de um Deus que estende a sua graça a todos, «pois Ele faz que o sol se levante sobre os bons e os maus e faz cair a chuva sobre os justos e os pecadores» (Mt 5,45). Eram estes os benefícios de Deus para com este rico: uma terra fecunda, um clima temperado, abundantes colheitas, bois para o trabalho, e tudo o que assegurasse a prosperidade. E ele, o que dava em troca? Mau humor, taciturnidade e egoísmo: era assim que agradecia ao seu benfeitor.

Esquecia que pertencemos todos à mesma natureza humana; não pensou que devia distribuir o que lhe sobrava aos pobres; não fez nenhum caso destes mandamentos divinos: «não negues um benefício a quem precisa dele, se estiver nas tuas mãos concedê-lo» (Pv 3,27), «não se afastem de ti a bondade e a fidelidade» (3,3), «partilha o teu pão com quem tem fome» (Is 58,7). Todos os profetas, todos os sábios lhe gritavam estes preceitos, mas ele fazia ouvidos de mercador. Os seus celeiros rachavam, pequenos para o trigo que neles se acumulava, mas o seu coração não estava satisfeito. Ele não queria desfazer-se de nada, mesmo não chegando a armazenar tudo. Este problema incomodava-o: «Que hei de fazer?» perguntava constantemente. Quem não terá piedade de um homem assim obcecado? A abundância tornava-o infeliz; lamentava-se como se lamentam os indigentes: «Que hei de fazer? Como hei de alimentar-me e vestir-me?»

Observa, homem, quem foi que te cumulou de dons. Reflecte um pouco sobre ti próprio: Quem és tu? O que te foi confiado? De quem recebeste esse encargo? Porque foste tu o escolhido? Tu és servo de Deus; tens a teu cargo os teus companheiros. «Que hei de fazer?» A resposta é simples: «Saciarei os famintos, convidarei os pobres. Vós todos a quem falta o pão, vinde possuir os dons que me foram concedidos por Deus, jorrando como que de uma fonte». (São Basílio, c. 330-379, monge, bispo de Cesareia da Capadócia, doutor da Igreja, Catequese 31).

 

Liturgia do XVII Domingo do Tempo Comum- ano C

 

É sempre incómodo fazer a experiência de estar dentro de um elevador e este parar entre dois andares. Para as pessoas, que sofrem de claustrofobia, será um momento difícil. Se já passámos por esta situação, ou se, um dia, isso acontecer, é importante não entrar em pânico, ou ter alguém que nos ajude a conservar a calma com técnicas de relaxamento, mas o ideal é ter acesso ao telefone de emergência. Isto é uma imagem da oração!

Aqueles que acreditam que não há um Deus que nos escuta e socorra, não podem rezar. Para aqueles que vivem fechados em si mesmos e no vazio, far-lhes-á falta a calma e as técnicas de relaxamento para sobreviver neste mundo. Há outras pessoas que afirmam não haver necessidade de colocar telefones de emergência nos elevadores, porque há aplicações que avisam automaticamente a central de emergência quando se detectam avarias. Se Deus é a central de recepção de mensagens, certamente não tem necessidade que lhe peçamos que conheça as nossas necessidades, mas para nós é muito bom saber que ele nos escuta.

Hoje, quantos catequistas se queixam que as crianças chegam à catequese sem saber rezar! A família é o melhor lugar para aprender a falar. Então, também será o melhor lugar para aprender a rezar. Na vida, as primeiras pessoas que nos falam de Deus deixam-nos marcas na mente para sempre; por isso, convém que sejam os nossos pais. Também é importante que a primeira pessoa que nos ensine a rezar seja alguém que nos inspire muita confiança.

Rezar não é decorar fórmulas orantes e repeti-las vezes sem fim. Pode ajudar à concentração para não nos dispersarmos facilmente. Rezar é uma atitude e uma vontade de comunicar. O texto evangélico deste Domingo é a versão do Pai-Nosso em S. Lucas, que é mais curta do que a de S. Mateus. Se nos dois evangelhos encontramos duas versões diferentes da oração que Jesus nos ensinou, talvez Jesus não se tenha preocupado em apresentar uma fórmula concreta, mas em transmitir um estilo e uma atitude orante, uma atitude confiança e de solidariedade (perdoem-me os biblistas!). Por isso começamos com a palavra Pai e rezamos sempre no plural, pedindo não para mim, mas para nós. Pedimos a Deus que o seu nome seja santificado, não porque ele tenha necessidade disso, mas porque isto é importante para o nosso bem. Uma sociedade que honra a Deus é uma sociedade que busca o Bem, a Verdade e a Beleza. Pedir a vinda do Reino de Deus é pedir que o mal desapareça do mundo. Suplicar pelo pão para cada dia implica viver atentos ao presente e confiar na Providência. O perdão é a face mais difícil do amor. Se podemos perdoar é porque somos perdoados por Deus, da mesma maneira que podemos amar porque Ele nos amou primeiro. Imploramos para não cair na tentação, para não voltar ao estado do primeiro Adão, porque já somos novas criaturas pela vitória de Jesus. Assim, nestas cinco petições, encontra-se tudo o que necessitamos e recebemos de Deus para alcançar a plenitude da vida.

Em todas as parábolas, Jesus esconde uma surpresa para revelar que a maneira de ser de Deus é muito diferente da nossa. Quando Jesus diz que nenhum pai dará uma serpente ao filho se lhe pedir peixe ou um escorpião se lhe pedir um ovo, onde se encontra, aqui, a surpresa? No final do texto. A lógica da argumentação conduz-nos à afirmação de Jesus que Deus nos dará todas as coisas que lhe pedirmos. Mas diz que o Pai do céu dará o Espírito Santo àqueles que Lho pedem! De facto, Deus está sempre a surpreender. Nós pedimos coisas e Ele dá-se a si mesmo! Isto é muito mais do que podíamos esperar. Deus é amor, e amar não é dar coisas, bajular, ou somente dizer “conta comigo”, “estou contigo”.  Amar é dar-se. 

 

24-07-2022

LEITURA ESPIRITUAL

A melhor maneira de rezar

 

Rezar é colocar-se na presença de Deus; mas há uma grande variedade e diversidade de orações. Há quem se dirija a Deus como a um amigo e senhor, oferecendo-Lhe louvores e súplicas, não por si mesmo, mas por outros. Há quem peça um aumento de riquezas espirituais, de glória e de confiança filial. Há quem suplique a total libertação dos seus adversários. Outros pedem que lhes seja concedido um favor e outros ainda a libertação de todas as preocupações com as suas próprias faltas, ou a libertação da prisão; outros ainda, a remissão dos seus crimes.

No pergaminho da nossa oração, escrevamos antes de mais nada uma sincera acção de graças; em segundo lugar, a confissão das nossas faltas e uma contrição de alma profundamente sentida; em seguida, apresentemos então os nossos pedidos ao Rei do Universo. Pois esta é a melhor maneira de rezar. (São João Clímaco, c. 575-c. 650, monge do Monte Sinai, «A escada santa»).

 

Liturgia do Domingo XIV do Tempo Comum – ano C

Nos tempos que correm, andamos muito preocupados, porque não conseguimos transmitir a fé às novas gerações. Durante séculos, quase que nem era preciso fazer nada de extraordinário, pois a transmissão da fé acontecia regularmente. A fé estava presente na vida social e familiar como o ar que respiramos. Se alguém se declarasse não-crente era uma excepção e, por vezes, um escândalo.

Começamos a dar conta que, nos dias de hoje, ao assumirmos que somos discípulos de Jesus, temos de cultivar muito a dimensão missionária. Não podemos deixar de dar testemunho do Evangelho que recebemos, do estilo de vida que nos foi concedido. O problema é que não sabemos como fazer. Por isso, é muito importante darmos atenção aos conselhos que Jesus deu àqueles setenta e dois discípulos que iniciavam a sua missão missionária.

Em primeiro lugar, é necessário salientar que é Jesus que os escolhe e os envia. Não pergunta se há alguém com vontade de O seguir. É uma missão confiada por Jesus, à qual não podemos ficar indiferentes e sem dar resposta. Ele enviou-os dois a dois. Talvez para que nenhum se sinta proprietário do Evangelho, a título pessoal, ou para evitar que a Boa Nova fique confundida com as opiniões e crenças particulares. Mas, de certeza, teve como finalidade deixar bem claro que não podemos comunicar que Deus é Pai se não vivermos de maneira concreta a fraternidade entre todos.

Jesus alerta-nos para as dificuldades que encontraremos. Por isso, não podemos perder tempo a saudar alguém pelo caminho. E nós que fazemos? Colocamos sempre tantas desculpas, porque temos de fazer tantas coisas antes de sair…dizemos que gerir a vida de todos os dias já nos absorve e que não nos fica muito tempo para outras coisas. Podemos imaginar o que Jesus nos responderia! Não só paramos para saudar, mas muitas vezes discutimos com os que não têm a nossa opinião! Pois é! As boas notícias não se podem comunicar com má cara.

Dito isto, de certeza que estamos a pensar numa campanha porta a porta, como fazem algumas confissões religiosas. Mas Jesus disse-nos que não andemos de casa em casa. Prefere a estabilidade num local onde sejamos acolhidos. A evangelização não requer pressas, porque supõe encarnar o lugar onde estamos presentes. É necessário conhecer e amar as pessoas e os seus costumes, travar amizades e descobrir as sementes do Reino que foram semeadas, porque, certamente, o Espírito de Deus trabalhou aquela terra muito antes de lá chegarmos.

Apesar das dificuldades da missão e das condições impostas por Jesus, os setenta e dois discípulos regressaram felizes da missão. Tinha sido um êxito. Até os demónios obedeciam! Sabemos que nos primeiros séculos do Cristianismo, a fé estendeu-se rapidamente. Como? Os gentios valorizavam duas coisas nos primeiros cristãos: a solidariedade e a honestidade de vida. Viviam como irmãos, partilhavam o que tinham e procuravam que não houvesse entre eles algum indigente. Eram reconhecidos como aqueles que não abandonavam os filhos, que não repudiavam as mulheres, que não assistiam a espectáculos imorais e que se comportavam sempre de maneira digna e humanitária. O Cristianismo propagou-se sobretudo nas pessoas de baixo escalão social: as mulheres de qualquer classe social, as crianças e os escravos. O santoral dos primeiros séculos comprova esta afirmação. Ouve-se, assíduas vezes, que é necessário ir às periferias. Sim, é necessário voltar às periferias, porque foi nas periferias que o Cristianismo se foi espalhando.

Nós somos como aqueles setenta e dois discípulos missionários. Quando termina a missa, ouvimos sempre: “Ide em paz e que o Senhor vos acompanhe”. Estamos a ser enviados para levar a paz ao mundo, a paz que recebemos do Senhor. E quando voltarmos para a próxima celebração deveremos regressar com alegria no coração ao sentir que o Senhor se serve da nossa simplicidade para espalhar a alegria do Evangelho.

 

03-07-2022

LEITURA ESPIRITUAL

«O Senhor enviou-os dois a dois à sua frente, a todas as cidades e lugares aonde Ele havia de ir»

 

Possuído da graça do Espírito Santo, São Francisco disse aos irmãos o que lhes ia acontecer. Reunindo os seis irmãos num bosque contíguo à igreja de Santa Maria da Porciúncula, aonde iam com frequência orar, disse-lhes: «Consideremos irmãos caríssimos, a nossa vocação, porque Deus, na sua misericórdia, não nos chamou só para benefício nosso, mas também para proveito e até salvação de muitos. Vamos, pois, pelo mundo, exortando e ensinando os homens e as mulheres com a nossa palavra e o nosso exemplo, a fim de que façam penitência dos seus pecados e tragam à lembrança os mandamentos, que tanto tempo andaram esquecidos». E acrescentou: «Não temais, pequeno rebanho (Lc 12,32), tende confiança no Senhor. Não digais entre vós: “Como é que vamos pregar se somos ignorantes e iletrados?” Recordai-vos das palavras que o Senhor dirigiu aos seus discípulos: “Não sereis vós a falar, mas o espírito do vosso Pai é quem falará por vós”. O mesmo Senhor vos dará o seu Espírito e sabedoria para exortar e pregar aos homens e mulheres o caminho e a prática dos seus mandamentos». (Vida de São Francisco de Assis, chamada «Anónimo de Perugia», século XIII, Fontes Franciscanas I).

 

Liturgia do XIII Domingo do Tempo Comum- ano C

“Aproximando-se os dias de Jesus ser levado deste mundo, Ele tomou a decisão de Se dirigir a Jerusalém e mandou mensageiros à sua frente. Estes puseram-se a caminho e entraram numa povoação de samaritanos, a fim de Lhe prepararem hospedagem. Mas aquela gente não O quis receber, porque ia a caminho de Jerusalém”. Também Jesus passa pelas nossas vidas e, como aconteceu com aquela aldeia samaritana, nunca é uma ameaça, mas uma oportunidade e uma graça. É evidente que vale sempre a pena aproveitar a sua passagem e não deixar que Ele passe ao lado, ou que sejamos indiferentes à Sua visita. Porém, se alguma vez não tomámos a opção mais correcta, não devemos ter medo de “vinganças divinas”. Devido a muitas circunstâncias históricas, aqueles samaritanos não abriam as portas das suas casas a judeus piedosos que peregrinavam a Jerusalém. Eles não sabiam, nem sequer imaginavam, que Jesus encaminhava-se para a cidade santa para enfrentar um sistema religioso que criava barreiras entre judeus e gentios, puros e impuros, homens e mulheres. Apesar de todas as contrariedades, Jesus cumpriu a sua missão, entregando a sua vida pela salvação de todos, mesmo daqueles samaritanos que O tinham rejeitado.

Os breves diálogos de Jesus com os três candidatos a discípulos, que se encontram no texto evangélico deste Domingo, destacam aspectos importantes para o discernimento sobre a vontade de seguir Jesus. Alguém apresentou-se a Jesus de uma forma muito decidida, talvez demasiado convencido, dizendo: “Seguir-Te-ei para onde quer que fores”. Jesus deu conta do seu desejo de protagonismo, de mostrar que era valente, de querer competir, de desejar ser o primeiro, de querer “dar o corpo às balas”. Mas, o verdadeiro discípulo não ambiciona a currículos promocionais doentios e a condecorações! Os discípulos de Jesus formam uma família, onde cada um procura ocupar o lugar que lhe compete e o mais conveniente para o bem da comunidade. Não colocam a confiança nas suas próprias forças, mas nas do Senhor. Quando Ele nos confia uma missão, também nos concede os carismas necessários para a realizar.

Uma segunda pessoa recebeu o convite de Jesus: “Segue-Me”. Não negou o convite, mas pediu para “ir primeiro sepultar o seu pai”, e, depois, estaria disponível. Há pessoas que sempre apresentam desculpas e justificações para atrasar as decisões: “primeiro, vou apanhar ar, e, um dia decidirei seguir, ou não, Jesus”. Sonham com um futuro diferente, mas nada fazem para o alcançar! Nunca estão preparados, querem certezas e seguranças de tudo, e “o comboio da vida vai passando”. Às vezes, basta somente um passo a dar, mas nunca há vontade e coragem para o dar.

Uma terceira pessoa manifesta a vontade de seguir Jesus, mas, primeiro, “quer despedir-se da sua família”. Parece algo plausível, mas não agrada a Jesus. Ele explica o motivo do seu desagrado: parece que se tratava de alguém que tinha a intenção de voltar atrás depois de ter trabalhado um pouco. Quando fazemos voluntariado, comprometemo-nos por umas horas e depois regressamos a casa tranquilamente sem preocupações. Mas, seguir Jesus não pode ser assim: não tem marcha atrás nem supõe horário estabelecido. Todos os dias podemos mudar de camisa, mas não de coração. E é a partir do coração, do nosso íntimo, que temos de seguir Jesus. Ser cristão implica todos os sectores da vida das pessoas; não há cristãos “a meias”. Que discípulo és tu? Um discípulo demasiado seguro de si mesmo, um discípulo informal ou um discípulo a tempo parcial?

Vivemos numa sociedade em que nada é seguro e tudo é ambíguo. Parece que as exigências de Jesus são exageradas e contrárias à nossa liberdade. Não é verdade! Cristo é quem nos liberta da escravidão, da incapacidade de sairmos de nós próprios e de vencermos o pecado. Ele quer que sejamos livres e capazes de delinear, guiados pelo Espírito Santo, o caminho da felicidade que todos desejamos. Este caminho só se percorre no amor, com um coração confiante, disponível e entregue a tempo inteiro.

26-06-2022

 LEITURA ESPIRITUAL

«Segue-Me»

 

O Salvador precedeu-nos no caminho da pobreza. Todos os bens do Céu e da Terra Lhe pertenciam. Não constituíam perigo para Ele: podia usá-los mantendo o seu coração inteiramente livre. Mas Ele sabia que era impossível um ser humano possuir bens sem se subordinar a eles e se tornar seu escravo. Por isso, abandonou tudo, mostrando–nos com o seu exemplo, mais do que com palavras, que só possui tudo aquele que nada possui.

O nascimento num estábulo e a fuga para o Egipto mostravam já que o Filho do homem não haveria de ter onde repousar a cabeça. Quem quiser segui-lO deve portanto saber que não temos aqui em baixo morada permanente. Quanto mais vivamente tomarmos consciência disto, mais ardentemente tenderemos para a nossa morada futura e exultaremos com o pensamento de que temos direito de cidadania no Céu. (Santa Teresa Benedita da Cruz (Edith Stein), 1891-1942, carmelita, mártir, co-padroeira da Europa, Meditação para a festa da Exaltação da Cruz).

 

Liturgia do XI Domingo do Tempo Comum – ano C Santíssima Trindade

Posso dizer que conheço uma pessoa porque me falaram dela e me contaram como ela é. Ora, o meu conhecimento enriquece-se quando estabeleço um contacto directo com a pessoa em causa. Se desta abordagem nascer o amor, o conhecimento aprofunda-se, podendo afirmar que sei como ela é por dentro. Porém, ficam sempre alguns mistérios para deslindar. Se nunca nos conhecemos de todo, a nível pessoal, como pretendemos conhecer o outro?

A Solenidade que celebramos neste Domingo convida-nos a reflectir sobre o conhecimento de Deus. Para muitas pessoas, Deus não é mais que uma tentativa pré-científica de dar explicação às muitas perguntas que se tem sobre a vida e o mundo. Deus é alguém que alguns discutem e reflectem apaixonadamente, enquanto que outros são indiferentes, talvez porque desistiram e ou não se interessam em procurar respostas para tudo. É verdade que ninguém viu o Pai, como diz Jesus. Nós acreditamos em Deus, porque, um dia, alguém nos falou Dele.

Acreditar somente porque nos falaram Dele seria um nível baixo de conhecimento. Além disso, sabemos que Deus se tornou próximo de todos, acessível e obscuro, ao mesmo tempo, não perdendo o carácter de mistério. Ele comunicou a sua Palavra e ergueu a sua tenda no meio de nós, humilhou-se, assumindo a nossa natureza humana na pessoa de Jesus. A sua revelação, a sua mensagem sobre Deus e sobre nós é uma carga demasiado pesada para as nossas mentes limitadas e para os nossos corações endurecidos. Por isso, Deus não se limitou somente a enviar o seu Filho, mas também, através do seu Espírito, inspira-nos para avançar no caminho da verdade plena. Todos começamos a conhecer Deus pelo que ouvíamos dizer (“pelos ouvidos”), mas chegará, ou já chegou, o dia em que poderemos dizer que O encontrámos pessoalmente e que é o nosso companheiro no caminho da vida, como foi Jesus para os discípulos de Emaús.

Do contacto e do conhecimento chega-se ao amor. Amar uma pessoa não é só desejar-lhe bem, mas também gerar com ela um clima propício para que se possa saber quais são os seus desejos e necessidades, assumindo-os como meus. É assim que os seres humanos poderão amar a Deus, não porque tenhamos de procurar o seu bem, pois Deus não precisa nada de nós, mas, unidos a Ele, iremos aprender a ver o mundo com os seus olhos.

Metade do ano litúrgico já foi vivido com os tempos fortes do Advento, Natal, Quaresma e Páscoa, com os quais celebrámos os principais mistérios da história da salvação. Celebrámos a encarnação do Filho de Deus, o seu nascimento entre nós, a sua morte na cruz, a Ressurreição, a Ascensão ao céu e a vinda do Espírito Santo. Depois desta caminhada, a Solenidade deste domingo é um convite a contemplar o rosto de Deus que nos foi revelado. Contemplamos um Deus que é o princípio e o fundamento de todas as coisas, que as chama à existência e as quer levar à plenitude. Por isso quer ser conhecido como Pai. Um Deus que se dirige a cada um de nós, torna-se próximo, dá-se a conhecer e nos interpela: por isso, é também Verbo e Filho. Um Deus que nos inspira desde o mais profundo do nosso íntimo e nos faz participantes da sua criatividade sem limites: por isso, O chamamos de Espírito. Um Deus que é Uno, mas não solitário, que é comunhão, corrente infinita de amor; por isso, lhe chamamos Trindade, conscientes de que com esta palavra exprimimos, em linguagem humana, aquilo que Deus nos quis revelar de si mesmo, sem esgotar tudo aquilo que Ele é.

Celebremos a Eucaristia com a vontade de conhecer e de amar cada vez mais este Deus que é mistério de amor inesgotável. Saibamos reconhecer a sua imagem em todas as pessoas e em todos os seres deste mundo. Aprendamos a amar tudo e todos como Deus nos ama.

 

12-06-2022

LEITURA ESPIRITUAL

«Que reconheçamos a glória da eterna Trindade, e adoremos a Unidade na sua omnipotência» (oração colecta)

 

A verdade sobre a Santíssima Trindade tinha-me sido exposta por teólogos, mas nunca a compreendi como a compreendo agora, depois daquilo que Deus me mostrou. Foram-me representadas três Pessoas distintas, que podem ser consideradas e com quem se pode conviver em separado. Percebi depois que só o Filho encarnou, o que mostra claramente a realidade desta distinção. Estas Pessoas conhecem-Se, amam-Se e comunicam entre Si. Mas, se as três Pessoas são distintas, como dizemos que têm, todas três, uma mesma essência? Com efeito, é nisso que acreditamos; trata-se de uma verdade absoluta, pela qual estaria disposta a sofrer mil vezes a morte.

Estas três Pessoas têm um único querer, um só poder, uma única soberania, de tal maneira que nenhuma delas pode coisa alguma sem as outras, e que há um só Criador de tudo quanto foi criado. Poderia o Filho criar uma formiga que fosse sem o Pai? Não, porque eles têm um mesmo poder. E o mesmo acontece com o Espírito Santo.

Assim, há um só Deus todo-poderoso, e as três Pessoas constituem uma só Majestade. Poderá alguém amar o Pai sem amar o Filho e o Espírito Santo? Não, mas aquele que se torna agradável a uma destas três Pessoas torna-se agradável às três, e aquele que ofende uma delas ofende as outras duas. Poderá o Pai existir sem o Filho e sem o Espírito Santo? Não, porque têm uma mesma essência, e onde se encontra uma Pessoa encontram-se as outras duas, porque não podem separar-se. (Santa Teresa de Ávila, 1515-1582, carmelita descalça, doutora da Igreja, Relações, n.º 33).

 

Liturgia do VIII Domingo de Páscoa- ano C- Pentecostes

 

Cinquenta dias depois da Páscoa, os judeus celebram a festa do Pentecostes, o dom da Lei do Sinai, os dez mandamentos. Através destes preceitos, Deus tornou-se próximo do seu povo, não através de alguns acontecimentos maravilhosos, mas em todos os momentos do dia. Deus torna-se presente quando se honra o pai e a mãe, respeitando a vida dos outros, respeitando a relação do casal, etc. Deus faz uma aliança com o seu povo e convida-o a viver em aliança com todos os que o rodeiam. Cinquenta dias depois da nossa Páscoa, em que celebrámos a libertação do mal e da morte, através da ressurreição de Jesus, celebramos a solenidade do Pentecostes, a solenidade do Espírito Santo. De maneira semelhante aos judeus, celebramos este Deus próximo, que nos quer acompanhar em todos os momentos da vida. Esta proximidade é tal que se encontra no mais profundo de cada um de nós, no nosso espírito humano. O Espírito de Deus quer aliar-se com o nosso espírito e, assim, caminhar juntos.

Foi este Espírito que se uniu ao espírito dos discípulos para que deixassem de ter medo, expresso nas portas fechadas da casa onde se encontravam, e com valentia fossem anunciar a Boa Nova do Reino. O medo dá lugar à coragem, a tristeza à alegria, as trevas à luz. Vento, fogo, sopro…estas e outras imagens foram utilizadas para expressar uma realidade difícil de explicar. Esta realidade, que é a mais interior, a mais próxima, é a mais difícil de expressar ou de imaginar, como acontece com todas as nossas experiências mais interiores e íntimas. O Espírito está dentro de nós, mesmo se o não reconhecemos ou não acreditamos nele. É este Espírito que nos motiva quando os nossos frutos são frutos de amor, de alegria, de paz, de paciência, de bondade, de confiança, de humildade, de perdão…

A primeira leitura deste domingo insiste num aspecto muito importante do Espírito: é um Espírito sem fronteiras. Nele não há língua, nem raça, nem ideologia. Há uma só linguagem, a linguagem que todo o mundo compreende, que é a linguagem do amor. Esta linguagem pode existir num católico, num muçulmano ou num ateu, numa igreja, numa mesquita, ou numa sinagoga. É um Espírito universal, que nos convida e entusiasma a sermos instrumentos de unidade, a estarmos perto dos outros, especialmente dos mais pequenos, dos pobres, dos doentes, dos desanimados, dos excluídos…Nós acreditamos que este Espírito de Deus se revelou em Jesus. Por isso, temos de viver à maneira e ao jeito de Jesus, para que este Espírito actue através de nós e possa habitar dentro de nós. É este Espírito que, à luz de Jesus, nos ajuda a ler os sinais dos tempos, tanto os positivos como os negativos, as alegrias e as esperanças, mas também as tristezas e as angústias.

Apesar da sua proximidade, é um Espírito discreto, que respeita a nossa liberdade. Convida, motiva, ilumina, mas deixa que seja o nosso espírito a tomar a decisão final, a dizer a última palavra. Bem sabemos que quando somos mais obedientes à sua acção, é quando somos mais livres. E quando em virtude da nossa liberdade somos rebeldes à sua acção, facilmente nos convertemos em escravos. Escravos do egoísmo, da preguiça, do individualismo, do consumismo…

É este Espírito que, na Eucaristia, transforma o pão e o vinho, e sobretudo os nossos corações, para que se convertam e nos convertamos em Corpo de Cristo, discípulos de Jesus, sinais de uma humanidade fraterna e solidária, unida, mas respeitando a diversidade. Que a Eucaristia seja aquele vento, aquele fogo que nos faz abrir as portas e as janelas para sairmos para o mundo, anunciando e sendo testemunhas, através do nosso amor, de que Deus é Amor.

 

05-06-2022

LEITURA ESPIRITUAL

O Espírito Santo Paráclito

 

O homem nada é por si mesmo, mas com o Espírito Santo é muito. O homem é todo terreno e todo animal; só o Espírito Santo pode elevar a sua alma e conduzi-lo ao alto. Tal como as lentes que aumentam os objectos, o Espírito Santo permite-nos ver o bem e o mal em grande. Com o Espírito Santo, vemos tudo em grande: vemos a grandeza das mais pequenas acções feitas por Deus, e a grandeza das mais pequenas faltas.

Tal como um relojoeiro distingue, com a ajuda da lupa, as menores roldanas de um relógio, assim também, com a luz do Espírito Santo, nós distinguimos todos os pormenores da nossa pobre vida. Sem o Espírito Santo, tudo é frio; por isso, quando sentimos que estamos a perder o fervor, convém-nos muito fazer depressa uma novena ao Espírito Santo, a pedir que nos aumente a fé e o amor! (São João-Maria Vianney, 1786-1859, presbítero, Cura de Ars, «O espírito do Cura d’Ars»).

 

Liturgia do VII Domingo de Páscoa- Ascensão do Senhor- ano C

As solenidades da Ascensão, Páscoa e Pentecostes são diferentes faces da experiência pascal. Podemos afirmar que desde a Páscoa até ao Pentecostes é um só dia de sete semanas, sete vezes sete, que é o sinal da plenitude para os judeus, sete semanas para celebrar a ressurreição de Jesus. Cada uma destas três solenidades, Páscoa, Ascensão e Pentecostes, mostram-nos a ressurreição de Jesus através de várias perspectivas. Cada uma destaca um aspecto diferente daquela experiência difícil de explicar que as primeiras testemunhas viveram.

O texto do evangelho deste Domingo narra-nos como Jesus se despediu dos discípulos. Pede-lhes acima de tudo que sejam testemunhas, não que sejam bispos, teólogos ou sábios. Pede-lhes que sejam testemunhas da experiência que viveram com Ele, testemunhas da sua vida e da sua morte. Este testemunho perpetuará a Boa Nova de Jesus no decorrer dos tempos. Um testemunho que, em primeiro lugar, tem de ser de vida, ou seja, encarnar e actualizar na própria vida a vida de Jesus. Talvez ainda andemos com testemunhos de demasiadas palavras e, quem sabe, de palavras que não são coerentes com as obras, como os fariseus! São testemunhos de vida que transmitem a experiência de um Deus bom e misericordioso, com uma vida de bondade e de misericórdia. Mas, onde vamos buscar a força e a luz quando a debilidade teima em vencer e quando andamos confusos, desorientados e inseguros? Ao nosso interior. É no mais íntimo de cada um, no nosso coração, que o Espírito de Jesus, o Espírito de Deus, quer habitar. É só preciso deixá-lo entrar. É o Espírito de amor que celebraremos no próximo Domingo com a solenidade do Pentecostes. É Ele que nos dá a força e a luz para sermos dignas testemunhas de Jesus.

Jesus sobe ao céu, erguendo as mãos e abençoando. Regressa ao Pai sem abandonar a humanidade, pedindo a cada um que seja testemunha desta bênção, que seja testemunha da bondade de Deus. É para este mundo tão cheio de maldade, de injustiça, de pobreza e de violência que somos enviados a ser arautos de esperança, não só para fora, mas também para dentro de cada um de nós. O mundo e a humanidade nunca estão perdidos para Deus, porque há uma multidão de corações de homens e de mulheres que diariamente praticam o bem.

Os discípulos viveram com Jesus e, agora, tiveram de aprender a viver na sua ausência. Tornaram Jesus presente, através das suas palavras e das suas obras, tentando incarnar a Boa Nova da Salvação. Esta é também a nossa missão. Experimentar Jesus, aproximar-nos de Jesus através das circunstâncias da vida. É uma missão difícil, mas não impossível, com muitas dúvidas e fraquezas, mas é sempre um caminho em frente, sem parar, sem ficar agarrado ao passado e às fragilidades. Como se faz isto? Põe-te ao lado dos homens e mulheres que se cruzam contigo no caminho da vida, dá as tuas mãos, trabalha para fazer crescer a fraternidade, para construir uma sociedade mais acolhedora e justa, em que sejamos capazes, como os discípulos de Emaús, de dizer aos homens, mulheres, crianças, jovens e velhos que fogem dos infernos da guerra e da pobreza: “Fica connosco; ficai connosco”. Não percas tempo a olhar para o céu, mas olha para todos os homens e mulheres que esperam gestos de bondade, carinho, paz e amor. Assim encontrarás bem perto de ti Jesus ressuscitado que subiu ao céu.

LEITURA ESPIRITUAL

Que o amor nos atraia a segui-lo

«O Senhor Jesus, depois de lhes ter falado, foi elevado ao céu e sentou-Se à direita de Deus» (Mc 16,19). Partia assim para o lugar de onde era, regressava de um lugar onde continuava a permanecer; com efeito, no momento em que subia ao céu com a sua humanidade, unia pela sua divindade o Céu e a Terra. O que temos de destacar na solenidade de hoje, irmãos bem amados, é a supressão do decreto que nos condenava e do julgamento que nos votava à corrupção.

Na verdade, a natureza humana a quem se dirigem estas palavras: «Tu és terra e regressarás à terra» (Gn 3,19), essa natureza subiu hoje ao Céu com Cristo. É por isso, caríssimos irmãos, que temos de segui-l’O com todo o nosso coração, até ao lugar onde sabemos pela fé que Ele subiu com o seu corpo. Fujamos dos desejos da Terra: que nenhum dos lugares cá de baixo nos entrave, a nós que temos um Pai nos céus.

Pensemos também que aquele que subiu aos céus cheio de suavidade regressará com exigências. Eis, meus irmãos, o que deve guiar a vossa acção; pensai nisso continuamente. Mesmo que estejais presos na confusão dos assuntos deste mundo, lançai desde hoje a âncora da esperança para a pátria eterna (Hb 6,19). Que a vossa alma procure apenas a verdadeira luz.

Acabamos de ouvir que o Senhor subiu ao céu; pensemos seriamente naquilo em que acreditamos. Apesar das fraquezas da natureza humana, que nos retém ainda cá em baixo, que o amor nos atraia a segui-lo, porque estamos certos de que aquele que nos inspirou este desejo, Jesus Cristo, não nos decepcionará na nossa esperança. (São Gregório Magno, c. 540-604, papa, doutor da Igreja, Homilias sobre os Evangelhos, n.º 29)

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29-05-2022

Liturgia do VI Domingo de PÁSCOA – ano C

 

Todos os ensinamentos de Jesus resumem-se nisto: Deus ama-nos, ama-nos com o amor de um pai ou de uma mãe; ama-nos não em resposta ao nosso amor, mas desde sempre. É como o amor da mãe e do pai para com o seu filho que acaba de nascer, um amor que não impõe condições prévias, que ama antes que o filho tenha capacidade de amar. A imagem do pai e da mãe é excelente para compreender o amor que Deus tem por nós. O pai e a mãe são instrumentos privilegiados de Deus para nos amar. O amor paterno e materno é o primeiro que um ser humano descobre na sua vida. Por isso são tão traumáticas todas as situações em que este amor falta, situações que, infelizmente, não são assim tão raras. Amar Jesus, como nos diz o Evangelho, é dar atenção a tudo o que Ele nos disse. Amar Jesus não é uma acção intimista para com Ele. Amar Jesus é amar como Jesus. Amar Jesus é deixar-se conduzir pelo seu Espírito que nos ajuda a actualizar o amor de Jesus em todos os momentos da nossa vida.

O Espírito motiva-nos a amar. O Espírito de Deus actua todas as vezes que amamos e em todas as vezes que somos amados. Por isso, é um Espírito que não se deixa fechar em seitas, em orações com palavras ou gestos duvidosos, em momentos de histeria, em ideologias, nem em igrejas. Ninguém se pode apropriar do Amor porque todos são capazes de amar. Não pode ser uma marca registada por ninguém, ninguém tem direitos sobre ele, nem os cristãos. É evidente que o Amor é central no Evangelho, mas não é para fazermos dele um estandarte, mas para que o vivamos com todo o homem e com toda a mulher que estejam disponíveis a amar, sejam quais forem as suas crenças e filosofias de vida. Amar não é só com palavras, ou com frases feitas que sempre ficam bem nos discursos, mas com acções concretas, como dar casa, escola, trabalho, descanso. Não é somente com a palavra “Deus” na boca que se ama, é também estender as mãos, imitando o Filho de Deus. Amar é cuidar das pessoas, mas também de tudo o que nos rodeia, respeitando a natureza, a limpeza, não fazendo acções que perturbem o bem-estar e a segurança dos outros.

Amar como Jesus gera paz. O Espírito de Deus envia-nos ao mundo para sermos instrumentos de paz, da paz que Jesus nos dá e que está fundamentada não na ausência de guerras, mas na justiça e na solidariedade. A justiça é tão urgente nos nossos dias em que as desigualdades aumentam cada vez mais, ricos cada vez mais ricos e pobres cada vez mais pobres. A solidariedade é essencial na construção da paz, ajudando-nos a renunciar a alguns dos nossos privilégios para o bem de todos. Não haverá paz verdadeira enquanto não houver uma casa digna para todos, alimento para todos, acesso à educação e à saúde para todos. A paz que Jesus nos deixa é um compromisso exigente para todos, especialmente para aqueles que se dizem seus discípulos. Não estamos órfãos; seremos sempre e apenas meros canais e instrumentos dos quais o Senhor Se serve para tornar possível a missão confiada por Si mesmo à Igreja.

Quando celebramos a Eucaristia, partimos o pão para todos. Alimentados pelo pão descido do céu e pela Palavra de Deus, sejamos instrumentos da paz, da justiça e da solidariedade para connosco, para com os nossos irmãos e para com a natureza.

 

22-05-2022

LEITURA ESPIRITUAL

«O Paráclito vos recordará tudo o que Eu vos disse»

Cristo, que tinha entregado o espírito na Cruz (Jo 19,30) como Filho do Homem e Cordeiro de Deus, uma vez ressuscitado, vai ter com os Apóstolos para soprar sobre eles (Jo 20,22). A vinda do Senhor enche de alegria os presentes: a sua tristeza converte-se em alegria (Jo 16,20), como Ele já lhes tinha prometido antes da sua Paixão. E sobretudo, verifica-se o anúncio principal do discurso de despedida: Cristo ressuscitado, como que dando início a uma nova criação, «traz» aos Apóstolos o Espírito Santo. Trá-lO à custa da sua «partida»; dá-lhes o Espírito como que através das feridas da sua crucifixão: «mostrou-lhes as mãos e o lado» (Jo 20,20).

É em virtude da mesma crucifixão que Ele lhes diz: «Recebei o Espírito Santo» (v. 22). Estabelece-se assim uma íntima ligação entre o envio do Filho e o do Espírito Santo. Não existe envio do Espírito Santo (depois do pecado original) sem a Cruz e a ressurreição: «Se Eu não for, não virá a vós o Consolador» (Jo 16,7). Estabelece-se também uma íntima ligação entre a missão do Espírito Santo e a missão do Filho na redenção.

Esta missão do Filho, num certo sentido, tem o seu «cumprimento» na redenção. A missão do Espírito Santo vai haurir algo da redenção: «Ele receberá do que é meu para vo-lo anunciar» (Jo 16,15). A redenção é totalmente operada pelo Filho, como Ungido que veio e agiu com o poder do Espírito Santo, oferecendo-Se por fim em sacrifício supremo no madeiro da Cruz. E esta redenção é, ao mesmo tempo, constantemente operada nos corações e nas consciências humanas — na história do mundo — pelo Espírito Santo, que é o «outro Consolador» (Jo 14,16). (São João Paulo II, 1920-2005, Encíclica «Dominum et vivificatem», 24).

 

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Liturgia do III Domingo de PÁSCOA – ano C

 

Na parte final do evangelho de João, situa-se o texto deste Domingo que narra a terceira manifestação de Jesus depois da ressurreição. É um texto muito importante, porque frisa alguns pontos importantes, a saber: o que é essencial e que não se vê com os olhos, mas com o coração, e o que é importante ter em atenção, mesmo não sendo a parte mais visível, mas superficial e discreta. Jesus manifesta-se no mar de Tiberíades, aquele mar que tinha sido tão importante para a missão de Jesus e também para a missão dos discípulos. Foi nas margens deste mar que Jesus chamou alguns dos seus discípulos. Foi neste mar que Jesus acalmou a tempestade, fazendo com que os discípulos aprendessem a confiar naquele que dormia na barca. Era este mar que Jesus atravessava para ir às regiões vizinhas e distantes, pagãs, para anunciar uma Boa Nova que era para todo o homem e toda a mulher que quisessem aceitar. É nas margens deste mar, ao amanhecer e não a meio da noite e das trevas que Jesus volta novamente a chamar os discípulos. Não é a noite da cruz, mas a aurora da ressurreição. A noite já tinha passado; agora, é preciso viver o novo dia que Jesus nos concedeu. Convida os discípulos a ir pescar e que o façam num determinado lugar (“à direita do barco”). Convida-os a viver de outra maneira, não imersos na obscuridade da cruz, na decepção ou no fracasso, mas caminhando com a esperança de que a morte não é nem tem a última palavra, porque o amor vence o ódio e o egoísmo. É no meio das nossas próprias tempestades, trevas, desânimos e fracassos que Jesus nos convida a levantar os olhos para Ele e viver com confiança e esperança, escutando-O e seguindo-O.

A rede cheia de peixes, cento e cinquenta e três, não se rompeu. Esta rede é símbolo de uma humanidade que está dilacerada pelas dificuldades, pela intolerância, pelo egoísmo, pela xenofobia, pela violência, pela pobreza. A rede que Jesus confia a Pedro, hoje, é-nos confiada a nós e ao sucessor actual de Pedro, o Papa e a todos os homens e mulheres de boa vontade, sejam quais forem as suas crenças e convicções, para construir um mundo mais fraterno e unido. É importante que a Igreja não olhe somente para o seu umbigo, mas que saia para as periferias da sociedade, a fim de anunciar a Boa Nova da ternura e da bondade. E quando tal acontece, tem de saber trabalhar, custe o que custar, com todos aqueles que querem um mundo mais justo, mais digno, mais humano.

A segunda parte do evangelho narra a tríplice pergunta de Jesus a Pedro, recordando-nos a tríplice negação, ocorrida há bem pouco tempo. Pedro é o discípulo entusiasmado, que não tem medo de nada, que tira a espada da bainha para defender o seu mestre, mas é também aquele que o nega três vezes, talvez com medo de se comprometer. Apesar disto, Jesus não lhe fecha a porta; continua a confiar nele, oferece-lhe a oportunidade de lhe dizer, por três vezes, que O ama e convida-o, novamente, a segui-Lo. Jesus ressuscitado também se manifesta na nossa vida, entre os nossos medos e debilidades para que possamos dizer-lhe, como Pedro, que O amamos e que O queremos seguir.

De acordo com o Evangelho, amar não se trata de uma relação que se estabelece entre Jesus e cada um de nós. Amar Jesus quer dizer amar como Jesus e amar os predilectos de Jesus. Amar como Jesus quer dizer amar sem fronteiras, com um amor generoso que não é calculista nem manipulador. Em suma, amar Jesus quer dizer fazer crescer o amor de Deus onde falta o amor. Assim, que resposta temos à pergunta de Jesus: “Tu amas-Me?”. Será que responderíamos, como Pedro: “Senhor, Tu sabes tudo, bem sabes que Te amo”?

Senhor, Tu sabes tudo e sabes que na minha vida procuro amar aquele que se cruza no meu caminho e que precisa de mim, seja ele quem for. Sem me fixar na sua origem, na sua identidade, mas na sua necessidade de ser amado. Senhor, dá-me a força necessária para assim proceder. Jesus partiu o pão e o distribuiu, juntamente com os peixes, aos seus discípulos. Hoje, partilha connosco o pão e o vinho, sacramento da sua vida entregue por todos. Que este alimento seja força para o nosso caminho, que nos ajude a amar cada vez mais e melhor.

 

 LEITURA ESPIRITUAL

«Ao romper da manhã, Jesus apresentou-Se na margem»

O mar simboliza o mundo actual, batido pelas ondas tumultuosas das nossas ocupações e pelos turbilhões de uma vida caduca. E a terra firme da margem representa a perpetuidade do descanso eterno. Os discípulos afadigam-se no lago porque ainda estão presos nas ondas da vida mortal, mas o nosso Redentor, depois da sua ressurreição, permanece na margem, uma vez que já ultrapassou a condição da fragilidade da carne.

É como se Ele tivesse querido servir-Se dessas coisas para falar aos seus discípulos do mistério da sua ressurreição, dizendo-lhes: «Já não vos apareço no mar (Mt 14,25), porque já não estou entre vós, no meio da agitação das ondas». Foi no mesmo sentido que, noutro lugar, disse a esses mesmos discípulos após a ressurreição: «Disse-vos essas coisas quando ainda estava convosco» (Lc 24,44). Não lhes disse isto por já não estar com eles – pois o seu corpo estava presente e aparecia-lhes –, mas porque a sua carne imortal Se distanciava muito dos corpos mortais deles; Ele dizia que já não estava com os discípulos e contudo estava no meio deles. (São Gregório Magno, c. 540-604, papa, doutor da Igreja, Homilias sobre o Evangelho, n.º 24).

 

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01-05-2022

Liturgia do II Domingo de PÁSCOA – ano C

  1. a)        A página evangélica deste Domingo convida-nos a viver com os apóstolos a primeira semana – trabalho e festa – vivida com a novidade trazida pela ressurreição de Jesus. É a primeira semana de uma nova existência. A ressurreição de Jesus nada mudou no ritmo normal da semana, nem transtornou o trabalho nem o repouso. A Páscoa do Senhor faz que tudo se viva de uma maneira nova. No meio da normalidade da vida, os discípulos disseram: “Vimos o Senhor”, porque tinham feito essa experiência e deixaram-se tocar por Ele, pelo dom do seu Espírito e da sua paz. A narração evangélica somente nos fala de dois Domingos, do primeiro e do segundo. Durante a semana, além do encontro com Tomé, nada se escreve sobre algo que tenha sido importante. Neste encontro, encontramos de forma explícita uma maneira de viver e de transmitir a fé em Jesus Ressuscitado. Viver, conviver, partilhar a vida normal na família, no trabalho, etc.; momentos, onde não há nenhuma transcendência aparente.
  1. b)        Os discípulos estão reunidos no mesmo lugar. É uma maneira de dizer que são uma comunidade eclesial. O “Domingo” – as duas aparições acontecem no Domingo – também nos fala de Igreja: é o dia em que nos reunimos para fazer o mesmo: celebrar o Ressuscitado que está no meio de nós. O primeiro dos dois Domingos tem uma característica que não tem o segundo: estão fechados com medo dos judeus (esta expressão não tem sentido étnico; refere-se aos dirigentes religiosos do povo). Razões para tal não lhes faltavam. O evangelista João já nos tinha narrado que os seguidores de Jesus tinham “medo dos judeus”, por exemplo, na cura do cego de nascença. Eram tempos difíceis. Mas tanto naquela ocasião como nesta, ter visto o Senhor faz mudar as coisas: o cego, quando O viu perdeu o medo; com os discípulos fechados passa-se o mesmo: no segundo Domingo, não se fala de medo. O medo e a fé são, pois, opostos. Como é oportuno fazer um exame de consciência sobre o estado de saúde da fé da Igreja actual! Haverá sintomas de medo e de isolamento? Estaremos, talvez, a viver tempos difíceis que originam tantos obstáculos à nossa confissão de fé em Jesus Cristo! Além do exame de consciência colectivo, que bom seria fazer um exame de consciência pessoal: hoje, como professo a fé na minha vida? Ver o Senhor, anima-nos? Apesar dos discípulos estarem fechados, o Ressuscitado visita-os, toma a iniciativa e aparece no meio deles. É a partir daqui que devemos fazer a nossa reflexão pessoal e comunitária: a Igreja só será construída com o ânimo de Jesus.
  1. c)         “Assim como o Pai Me enviou”. O discípulo é convidado a deixar-se modelar por Jesus, da mesma forma que ele se deixou modelar pelo Pai. O que define o discípulo de Jesus é a missão, ser “enviado”. Os seus discípulos e a Igreja serão definidos pela missão que Jesus lhes dá. A missão evangelizadora e o próprio Evangelho têm sentido com a bem-aventurança que o Ressuscitado proclama: “Felizes os que acreditam sem terem visto”. A finalidade da evangelização é fazer “felizes” os que não conhecem Jesus, conhecendo-O; que sejam “felizes” na fé.
  1. d)        Neste encontro alegre dos discípulos com o Senhor, tanto no primeiro como no segundo, ocupa um lugar de destaque o mostrar as mãos e o lado, onde estão as marcas da morte na cruz. O Ressuscitado é o próprio Crucificado. A eucaristia é celebrar isto mesmo. Não celebramos uma coisa qualquer, sobretudo não nos celebramos a nós próprios; o que celebramos é a Páscoa do Senhor, porque deste acontecimento vem a fé que nos liberta.
  1. e)         Estamos na Páscoa. Oito dias depois, a celebração eucarística deve ser solene, a igreja ornada de flores, a água benta pronta para o rito da aspersão (que substitui o acto penitencial). O rito da aspersão dá às nossas celebrações um “tom” pascal. Para preparar a homilia, o mais importante é contemplar a Palavra de Deus e depois contemplar a vida da comunidade e das pessoas que a formam. Só depois deste duplo exercício, é que poderemos actualizar a Palavra de Deus que nos é proposta nas leituras deste Domingo.

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24-04-2022