Liturgia do Domingo V do Tempo Comum – ano C
a) Os textos da Liturgia da Palavra deste Domingo abordam um tema comum. O tema que tem como ideia mestra a Vocação ou o chamamento de Deus para uma missão especial, pessoal e intransmissível, no meio do seu Povo. Mas a vocação nunca pode ser algo de genérico, de abstracto, de meramente humano. Por isso, nas três leituras, temos três ideias – chave que nos ajudam a compreender toda a vocação: primeiro, há um Deus que se revela; segundo, esse Deus chama a pessoa e faz-lhe compreender o Seu chamamento; por fim, esse mesmo Deus, que se revela e chama, envia para uma missão concreta.
b) A 1ª Leitura relata-nos a vocação de Isaías, que se encontra no Templo a participar na Liturgia. De repente, sente-se envolto no mistério de uma teofania de Deus. A linguagem usada transporta-nos imediatamente para a transcendência de Deus: Ele é, por excelência, o “Santo, sentado em trono alto e elevado…”; o Forte, Senhor dos Exércitos, cercado de Glória! A esta divina luz, Isaías toma consciência das suas limitações e fragilidades de homem. Sente necessidade de se purificar, de se converter para se tornar capaz de uma missão divina. O texto refere-nos o inefável diálogo de Deus com o homem, que é convidado a participar com Ele na obra de salvação do Povo. Mas, como será isso possível, se se sente indigno e incapaz? O próprio Deus, pelo Serafim, o purificará de toda a sua indignidade. Aquele que gozou da inefável experiência de santidade e transcendência de Deus, deverá ser mensageiro da conversão do Povo a essa mesma santidade. Temeroso, mas com coragem, aceita essa missão: “Eis-me aqui, Senhor; podeis enviar-Me…”. Para anunciar a Deus, é preciso “conhecê-Lo”. Isaías fez a inefável experiência do Deus Santo através da teofania em que se sentiu maravilhosamente imerso em Deus e este se Lhe revela. A iniciativa da revelação e do chamamento é sempre d’ Ele. Vivendo a experiência do seu Deus, Isaías compreenderá o que Deus é e o que quer dele. E aceitará a missão. Vocação e missão andarão sempre intimamente unidas.
c) O começo da 2ª Leitura é precisamente a continuação deste mesmo tema, agora aplicado aos que seguem Jesus Cristo, a partir do anúncio das primeiras testemunhas: Cristo, a salvação de Deus, é anunciado através do Evangelho. Os Coríntios acolhem-n’O e vivem-n’O; permanecem-lhe fiéis e testemunham-n’O aos outros. É a maneira prática e verdadeira de acreditar – ter fé. Também a Paulo, no seu itinerário espiritual, Jesus se lhe revela no caminho de Damasco. Esta experiência maravilhosa leva-o a acolher, viver, anunciar e testemunhar Jesus até às últimas consequências. Por Ele se sente enviado, e viverá a sua missão de “apóstolo dos gentios” como testemunha fiel até ao fim. Paulo sabe que agora, nos “novos tempos”, a revelação fundamental de Deus é Seu Filho Jesus Cristo, e toda a vocação e missão passam necessariamente por Ele e pela Comunidade dos que O aceitam e O vivem. Por isso, nesta 1ª Carta aos Coríntios encontramos, talvez, o mais antigo “Credo cristão”, recebido das primeiras testemunhas da Ressurreição. “Credo” que, por sua vez, deverá continuar a ser transmitido, pelo tempo fora, na vida de cada crente.
d) No Evangelho encontramos fundamentalmente estas mesmas ideias, embora sob roupagem diferente. O texto está relacionado com o chamamento e a vocação de Simão ao ministério apostólico. Após uma noite de faina intensa, mas infrutífera, às ordens de Jesus as redes são novamente lançadas à água. Para espanto geral, dá-se uma pesca abundante. São tantos os peixes que eles têm de pedir ajuda “aos colegas que estavam no outro barco”. Há aqui vários elementos fundamentais que devemos ter em conta para entender bem a mensagem desta Leitura: 1) O povo comprimia-se à volta de Jesus, para escutar a Sua Palavra. A Palavra congrega, ilumina. É a Palavra imperativa de Jesus que provoca uma “nova criação”, sobretudo no interior de Pedro e todos os seguidores do Evangelho. Por isso é que São Lucas insiste tanto na necessidade dos apóstolos terem sido companheiros e discípulos de Jesus. São os Seus primeiros ouvintes. Serão também as Suas primeiras testemunhas; 2) “Já que o dizes, largarei as redes”. Obediência à Palavra de Jesus, sem reticências, nem delongas inúteis. Por essa Palavra, viva e eficaz, a Igreja ganhou vida; obediente a essa mesma Palavra, ainda hoje será sinónimo de vida, de “Vida em abundância” para todos aqueles que neste mundo – que parece não querer nada com Deus nem de Deus – sentem verdadeira fome do Deus vivo; 3) “Não tenhas receio”. Diante das maravilhas do Senhor, Pedro sente-se indigno, pecador, como certamente cada um de nós. Ele veio para chamar os pecadores e fala-nos até da infinita alegria de Deus por um só pecador que se converta. “Não temas!”. O espírito de ousadia, de perseverança e de dedicação a toda a prova do pescador, que enfrenta os perigos do mar, serão postos ao serviço do Evangelho. E o Senhor estará com ele, como estará sempre connosco.





