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Liturgia do Domingo VIII do Tempo Comum – ano C

Liturgia do Domingo VIII do Tempo Comum – ano C

 

z-igreja-AB-300x200 Liturgia do Domingo VIII do Tempo Comum – ano CAs palavras que Jesus nos dirige neste Domingo ajudam-nos, como sempre, a percorrer o caminho da nossa vida, tendo como meta a santidade, contemplar face a face o Pai. Gostamos muito de reflectir as mensagens mais agradáveis do evangelho, deixando um pouco de lado aquelas que são mais directas, duras e exigentes. A vida é sempre exigente e o evangelho é sempre importante, seja qual for a sua mensagem. Podemos cair na tentação de pensar que ser cristão é como ir a uma cantina “self-service”, onde colocamos de lado o que não nos agrada e só escolhemos o que nos interessa e o que gostamos. Se os nossos antepassados tivessem caído neste erro, o evangelho teria somente chegado até nós de forma parcial. Talvez neste Domingo possamos estar nesta atitude. É por isso que temos de nos deixar interrogar com as palavras que Jesus nos diz. Jesus dirige-se aos discípulos através de um provérbio: “Poderá um cego guiar outro cego?”. Em algumas passagens do evangelho, as palavras de Jesus necessitam de uma interpretação, mas este provérbio não precisa de muitas explicações. A resposta é evidente: não, um cego não é capaz de guiar outro cego, porque ambos cairão numa cova. De certeza que Jesus, ao proferir estas palavras, teria em mente os fariseus e desejaria avisar os seus discípulos do perigo em seguir os ensinamentos farisaicos. Situemos este provérbio no nosso contexto cristão. O cego é aquele que não pode ver e, portanto, não é capaz de ver a luz. Esta situação condiciona muito a sua forma de viver, governar e orientar a vida. Se deixarmos o aspecto fisiológico, que todos conhecemos bem, e nos centrarmos na vida espiritual cristã, sabemos que esta luz, para nós, é Jesus Cristo. O cego espiritual é aquele que ainda não conseguiu contemplar a luz de Cristo. Estamos de acordo que um cego não pode guiar outro cego, mas uma pessoa que acolheu esta luz na sua vida pode acompanhar todos aqueles que ainda andam nas trevas. Há um aspecto que, na maior das vezes, é muito descuidado e, até, abandonado: a direcção espiritual, o acompanhamento espiritual. Como queremos avançar no caminho da nossa vida se não temos ou não queremos alguém que nos acompanhe? Vivemos numa sociedade que procura referências nos actores, nos treinadores, nos jogadores, nos comentadores…até a alguns chamam “mister”. Mesmo aqueles que se chamam agnósticos necessitam de “médiums” quando perdem uma pessoa amada. E nós abandonamos, desvalorizamos a possibilidade de um mestre da oração e da fé nos acompanhar e ajudar a encontrar Jesus Cristo. Não precisamos de tecnocratas de psicologia ou de espiritualidade. Precisamos de pais, paternidade e maternidade espirituais, experientes em lidar com o mais íntimo do ser na fé e com a teoria livresca e universitária vivida e rezada. Quem tem a alegria de encontrar alguém com este perfil – orante, contemplativo na acção, directo, transparente, silencioso, sigiloso, bondade pura e sincera – encontra um tesouro. Jesus volta a abordar os seus discípulos com um segundo provérbio: “Porque vês o argueiro que o teu irmão tem na vista e não reparas na trave que está na tua?”. E é tão fácil responder a esta pergunta: porque é mais fácil apontar o dedo aos erros, problemas e dificuldades dos outros do que organizar a minha vida. Estas palavras de Jesus recordam-nos que passamos muitas vezes a vida a julgar os outros. Pensamos que somos os reis e senhores deste mundo, que somos os juízes não só das pessoas, mas também de todos os acontecimentos, que temos autoridade de dar opinião de tudo e de todos como se fossemos um comentador televisivo afamado. Fazendo um exame de consciência, uma revisão de vida, damos conta que não somos a razão nem o juiz de ninguém, que na nossa vida nem sempre tudo é bom, que também somos frágeis e erramos. Pela terceira vez, Jesus diz outro provérbio: “Não há árvore boa que dê mau fruto, nem árvore má que dê bom fruto”. Neste jogo de palavras que Jesus utiliza, recordo aquilo que a primeira leitura diz, do livro de Ben-Sirá: “o fruto da árvore manifesta a qualidade do campo”. O nosso fruto como pessoas, como discípulos de Cristo, será bom se nos esforçarmos por cultivar todas as virtudes e dons que Deus nos concedeu para o bem da nossa vida. Prudência, Humildade, Transparência, Verdade, precisam-se!

 

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LEITURA ESPIRITUAL

«Cada árvore conhece-se pelo seu fruto»

 

Na criação, Deus mandou que as plantas dessem os seus frutos, cada uma «segundo as suas espécies» (Gn 1,11); da mesma maneira, ordenou aos cristãos, que são as plantas vivas da sua Igreja, que produzissem frutos de devoção, cada um segundo a sua qualidade e vocação. A devoção, a vida cristã, deve ser exercida de formas diferentes pelo fidalgo, pelo artesão, pelo criado, pelo príncipe, pela viúva, pela jovem e pela mulher casada; e também é preciso acomodar a prática da devoção às forças, às actividades e aos deveres específicos de cada um. E se o bispo preferisse ser solitário como os monges? E se os casados não quisessem trabalhar como os capuchinhos, se o artesão estivesse todo o dia na igreja como o religioso, e o religioso constantemente exposto a todo o tipo de encontros para o serviço do próximo como o bispo? Tal não seria ridículo, desregrado e insuportável? Este erro, no entanto, é muito frequente. A devoção, quando é verdadeira, em nada prejudica; pelo contrário, tudo aperfeiçoa. «A abelha», diz Aristóteles, «tira o mel das flores sem as estragar», deixando-as inteiras e frescas como as encontrou. A verdadeira devoção faz ainda melhor, pois, não só não prejudica nenhum tipo de vocação nem actividade, como, pelo contrário, as honra e embeleza. Com ela, o cuidado da família torna-se mais pacífico, o amor do marido e da mulher mais sincero, o serviço do príncipe mais fiel, e todos os tipos de ocupação mais suaves e amáveis. Não é só um erro, é também uma heresia querer banir a devoção das companhias de soldados, das lojas dos artesãos, da corte dos príncipes, dos lares dos casais. Onde quer que estejamos, podemos e devemos aspirar à perfeição. (São Francisco de Sales, 1567-1622, bispo de Genebra, doutor da Igreja, Introdução à vida devota, I, cap. 3).

 

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