Artigo de opinião- Cláudio Serra- Prevenção Florestal – Os Bombeiros não podem continuar a ser o recurso fácil
Os Bombeiros não podem continuar a ser o recurso fácil
O debate em torno da prevenção florestal é necessário, legítimo e urgente. Portugal precisa, com seriedade, de discutir floresta, ordenamento, prevenção e segurança.
Mas precisamente por isso, há matérias onde importa elevar o debate e recusar leituras simplistas sobre realidades profundamente exigentes. Socorro, combate e prevenção fazem parte da essência dos Bombeiros.
Sempre fizeram. E continuarão a fazer. Contudo, é fundamental clarificar responsabilidades.
Os Bombeiros não podem ser vistos como solução automática para tudo aquilo que o sistema, a política pública ou outras estruturas não conseguiram resolver.
Os Bombeiros não podem transformar-se nos faz-tudo de um país que, demasiadas vezes, tarda em enfrentar estruturalmente problemas que exigem planeamento, reforma e responsabilidade própria.
Uma coisa é integrar os Bombeiros numa estratégia séria de prevenção. Outra, profundamente diferente, é transferir para os Bombeiros funções que pertencem, por natureza, a outras entidades, apenas porque isso parece mais
imediato ou politicamente mais simples.
Quem conhece verdadeiramente a realidade dos Bombeiros sabe que a exigência que já hoje lhes é colocada é elevadíssima.
Todos os Bombeiros têm deveres, compromisso, exigências e horas de voluntariado a cumprir. Todos conciliam missão com vida pessoal, familiar e profissional. Todos operam num contexto de elevada exigência humana, física
e institucional.
A isto somam-se, em muitos casos, equipas de intervenção permanente, emergência pré-hospitalar, postos de emergência médica, transporte de doentes não urgentes e resposta operacional permanente.
Ou seja, o verdadeiro debate talvez não devesse começar por perguntar: o que mais podem fazer os Bombeiros?
Talvez devesse começar por algo mais estrutural: como reforçamos carreiras?
Como valorizamos missão? Como melhoramos condições? Como retemos pessoas? Como garantimos reconhecimento efetivo a quem serve?
Porque uma das maiores fragilidades do setor não está na ausência de missão.
Está, muitas vezes, na dificuldade crescente em garantir valorização, estabilidade e reconhecimento suficientes para sustentar essa missão.
A limpeza estrutural de terrenos, o ordenamento, a gestão fundiária, a responsabilização sobre propriedade e a política florestal têm enquadramento próprio, entidades competentes e responsabilidades definidas.
Confundir isso com missão nuclear dos Bombeiros não fortalece o sistema.
Arrisca desvirtuá-lo.
Portugal precisa de Bombeiros valorizados, respeitados e estruturalmente fortalecidos. Não de Bombeiros transformados, por conveniência, em resposta universal para tudo aquilo que outros não querem fazer, não conseguem fazer ou tardaram em estruturar.
Valorizar os Bombeiros não é atribuir-lhes tudo.
É reconhecer, com seriedade, aquilo que lhes é absolutamente essencial fazer e proteger a clareza dessa missão.
A floresta não se protege apenas quando o fogo começa. Protege-se antes: na política, no ordenamento, na gestão, na responsabilização e na prevenção estrutural.
Os Bombeiros são parte decisiva dessa cadeia. Mas não podem ser confundidos com substitutos permanentes de falhas sistémicas.
O país precisa de discutir como reforçar estruturalmente os Bombeiros, não como lhes acrescentar, por facilidade, responsabilidades que pertencem a outros.
Porque defender os Bombeiros é também isto: respeitar a sua missão, valorizar as suas carreiras, proteger a sua dignidade institucional e garantir que o debate público sobre o setor se faz com conhecimento, responsabilidade e visão estratégica.
A prevenção exige compromisso coletivo. A floresta exige reforma séria. E os Bombeiros exigem, acima de tudo, respeito.
Defender os Bombeiros é garantir que o país deixa de lhes pedir para compensar aquilo que nunca teve coragem de estruturar.
Cláudio Serra
Presidente da Direção da Federação de Bombeiros do Distrito da Guarda





