Artigo de opinião de Augusto Falcão
10 de junho: da “Raça” à Cidadania — uma data que mudou de sentido
No calendário português, o dia 10 de junho ocupa um lugar especial. É, oficialmente, o Dia de Portugal, de Camões e das comunidades portuguesas. Mas esta designação, hoje consensual e democrática, nem sempre foi assim. Durante décadas, a mesma data teve um significado profundamente diferente — e, para muitos, controverso.
Uma origem literária que se tornou política.
A escolha do 10 de junho remonta à morte de Luís de Camões, em 1580. O poeta maior da língua portuguesa foi, ao longo dos séculos, transformado em símbolo da identidade nacional, da história e da cultura do país.
No entanto, foi no século XX, durante o regime do Estado Novo (1933–1974), que esta data ganhou um peso político muito mais marcado. O regime de António de Oliveira Salazar apropriou-se da figura de Camões para construir uma ideia de nação assente em valores como a obediência, o orgulho imperial e a exaltação de um passado glorioso.
O “Dia da Raça”: identidade ou propaganda?
Durante o Estado Novo, o 10 de junho passou a ser celebrado como o “Dia da Raça”. A palavra “raça”, neste contexto, não tinha apenas um significado biológico, mas sobretudo ideológico: pretendia transmitir a ideia de um povo português com características únicas, quase imutáveis, unido por uma missão histórica.
As comemorações eram marcadas por: Desfiles militares e manifestações de força;
Discursos patrióticos centrados no império colonial;
Exaltação da disciplina, da autoridade e da unidade nacional;
Forte presença da propaganda do regime.
Este “Dia da Raça” servia, assim, como instrumento político para reforçar a legitimidade do regime e promover uma visão homogénea da sociedade portuguesa, onde pouco espaço havia para a diversidade ou para a crítica.
Depois de 1974: uma data reinventada
Com a Revolução de 25 de abril de 1974, Portugal iniciou um caminho
democrático que implicou também a revisão simbólica das suas datas e celebrações.
O 10 de junho foi então redefinido, passando a ser o Dia de Portugal, de Camões e das comunidades portuguesas. Esta nova designação trouxe mudanças importantes:
A ideia de “raça” foi abandonada, considerada incompatível com os valores democráticos;
O foco passou da exaltação militar para a celebração cultural e cívica;
As comunidades portuguesas no estrangeiro passaram a ser reconhecidas como parte integrante da nação;
A diversidade, a liberdade e a cidadania ganharam centralidade.
Hoje, as comemorações incluem sessões solenes, condecorações a cidadãos e instituições, eventos culturais e momentos de reflexão sobre o país — dentro e fora das suas fronteiras.
Entre memória e identidade
A evolução do 10 de junho mostra como uma mesma data pode refletir diferentes visões de país. Se, no passado, foi usada como instrumento de propaganda e de afirmação ideológica, hoje procura ser um espaço de encontro, de reconhecimento e de pluralidade.
Para um público mais adulto, que viveu — direta ou indiretamente — estas transformações, o 10 de junho é também um convite à memória. Recordar o “Dia da Raça” não é apenas revisitar o passado, mas compreender como os símbolos nacionais podem ser utilizados — e transformados — ao longo do tempo.
Um dia para pensar o país.
Mais do que uma celebração formal, o 10 de junho continua a ser uma oportunidade para refletir sobre o que significa ser português hoje:
Num país marcado pela emigração;
Numa sociedade cada vez mais diversa;
Num mundo em constante mudança.
Entre Camões e a contemporaneidade, entre o passado e o futuro, o 10 de junho permanece como um espelho da identidade nacional — não fixa, mas em permanente construção.

Augusto Falcão





