Artigo de opinião–Cláudio Serra- O FUTURO TAMBÉM SE PREPARA
Há organizações onde a mudança acontece naturalmente e outras onde cada mudança parece representar uma ameaça. No universo dos bombeiros portugueses, onde a história, a tradição e o sentido de pertença assumem uma importância particularmente forte, esta é uma questão que merece ser discutida com serenidade, sobretudo quando pensamos na capacidade das nossas instituições para preparar aqueles que terão de assumir responsabilidades no futuro.
Os bombeiros portugueses construíram uma história extraordinária porque, ao longo de sucessivas gerações, houve homens e mulheres disponíveis para receber uma missão que vinha de trás, acrescentar-lhe o seu contributo e transmiti-la a quem viesse depois. Esta continuidade entre gerações talvez seja, aliás, uma das maiores forças do movimento associativo e dos corpos de bombeiros portugueses.
Por isso, quando discutimos o futuro, não devemos fazê-lo colocando gerações umas contra as outras. Devemos fazer precisamente o contrário: perceber de que forma conseguimos juntar aquilo que cada uma delas tem de melhor.
Os bombeiros portugueses possuem um património humano extraordinário, construído por milhares de pessoas que dedicaram décadas das suas vidas às suas associações e aos seus corpos de bombeiros. Muitos trabalharam com menos meios, menor proteção individual, equipamentos muito mais rudimentares e em condições incomparavelmente mais difíceis do que aquelas que hoje conhecemos. A experiência acumulada por essas gerações constitui um património que nenhuma organização responsável pode desperdiçar.
Mas preservar esse património significa também conseguir transmiti-lo.
A experiência de quem percorreu o caminho deve encontrar-se com a capacidade de transformação de quem começa agora a percorrê-lo. Os mais antigos transportam memória, experiência operacional, conhecimento das instituições e aprendizagens construídas muitas vezes em circunstâncias extremamente exigentes. Os mais novos chegam com novas qualificações, maior familiaridade com a tecnologia, diferentes formas de comunicar e outras perspetivas sobre a maneira como as organizações podem responder aos desafios do presente.
Nenhuma destas dimensões é suficiente isoladamente. Uma organização que ignora a experiência corre o risco de repetir erros que outros já cometeram; uma organização que não consegue incorporar novas competências corre o risco de responder aos problemas de amanhã com as soluções de ontem.
É precisamente aqui que a liderança assume uma importância determinante.
Liderar uma organização não significa apenas tomar decisões ou exercer a autoridade inerente a determinada função. Significa também identificar pessoas com capacidade, criar oportunidades para que possam crescer, confiar-lhes progressivamente responsabilidades e garantir que o conhecimento acumulado dentro da organização circula, é partilhado e não fica dependente de um número reduzido de pessoas.
Esta dimensão da liderança será cada vez mais importante no futuro dos bombeiros portugueses.
Nas próximas décadas, os corpos de bombeiros enfrentarão desafios de crescente complexidade. As alterações climáticas estão a modificar o comportamento dos incêndios rurais; a tecnologia está a transformar equipamentos, comunicações e modelos de coordenação; os novos materiais e sistemas energéticos introduzem riscos diferentes; a emergência pré-hospitalar exige competências cada vez mais diferenciadas e a própria transformação demográfica do país coloca novos desafios à capacidade de resposta.
Perante esta realidade, precisaremos de organizações capazes de preservar experiência e, simultaneamente, incorporar conhecimento novo.
Isso obriga-nos também a olhar de outra forma para as novas gerações.
Durante muitos anos, uma parte significativa da renovação dos corpos de bombeiros aconteceu quase naturalmente. Os jovens aproximavam-se das associações, integravam as escolas de infantes e cadetes ou ingressavam diretamente nos corpos de bombeiros e construíam aí uma relação que, muitas vezes, durava décadas.
Hoje essa realidade é diferente.
As novas gerações têm outras oportunidades, outras expectativas e uma relação diferente com as organizações. O tempo disponível é menor, a mobilidade é maior e a permanência numa instituição depende cada vez mais da capacidade que essa instituição tenha para proporcionar participação, reconhecimento, aprendizagem e sentido de pertença.
Por isso, talvez já não seja suficiente perguntarmos como conseguimos trazer jovens para os bombeiros. Devemos perguntar também o que estamos a fazer para que encontrem razões para permanecer.
A resposta não estará em entregar-lhes imediatamente responsabilidades para as quais ainda não estão preparados, nem em desvalorizar a experiência daqueles que chegaram primeiro. Estará na capacidade de criar percursos onde experiência, formação e competência possam coexistir e onde cada pessoa perceba que o seu crescimento dentro da organização depende também daquilo que está disponível para aprender, construir e oferecer.
A antiguidade transporta experiência e merece respeito. A juventude transporta potencial e merece oportunidade. A competência, independentemente da idade, deve encontrar espaço para se afirmar.
Encontrar este equilíbrio talvez seja um dos grandes desafios organizacionais dos bombeiros portugueses.
Existe, porém, uma responsabilidade adicional para aqueles que acumulam muitos anos de serviço: garantir que aquilo que aprenderam não desaparece com o passar do tempo. Cada bombeiro experiente, cada comandante e cada dirigente transporta consigo centenas de decisões, ocorrências, dificuldades, sucessos e erros que constituem um património demasiado importante para permanecer exclusivamente na memória de quem os viveu.
É neste ponto que esta reflexão se encontra diretamente com uma questão anterior: o conhecimento.
Se uma profissão evolui quando consegue transformar experiência em conhecimento, uma organização evolui quando consegue transmitir esse conhecimento entre gerações. Não basta acumular experiência individual; é necessário criar mecanismos para que aquilo que aprendemos possa ser utilizado por aqueles que chegarão depois.
Uma ocorrência complexa, uma decisão difícil, um erro identificado ou uma solução que funcionou particularmente bem podem constituir instrumentos extraordinários de aprendizagem. Quando essa experiência é discutida, analisada e transmitida, deixa de pertencer exclusivamente às pessoas que nela participaram e passa a integrar o património da organização.
É assim que as instituições evoluem verdadeiramente.
Cada geração não deve ter de começar novamente do zero. Deve poder começar onde a anterior conseguiu chegar e, a partir daí, acrescentar conhecimento, novas soluções e novas capacidades.
Talvez seja esta uma das maiores responsabilidades que temos perante o futuro dos bombeiros portugueses: construir organizações onde diferentes gerações não disputem espaço, mas partilhem conhecimento; onde a experiência não seja confundida com resistência à mudança e onde a juventude não seja confundida com falta de capacidade.
Precisamos da memória daqueles que construíram muito do que hoje temos, da experiência daqueles que continuam diariamente a servir e da energia e das competências daqueles que agora começam a chegar.
Não existe futuro sem renovação, da mesma forma que não existe futuro sólido quando se ignora o passado.
Entre estas duas realidades existe uma responsabilidade que pertence a todos nós: garantir que aquilo que uma geração aprendeu pode servir de ponto de partida para a geração seguinte.
Porque preparar o futuro dos bombeiros portugueses não significa escolher entre os que chegaram primeiro e os que chegam agora.
Significa conseguir que caminhem durante tempo suficiente lado a lado para que, quando chegar a vez de uma nova geração assumir maiores responsabilidades, leve consigo o melhor daqueles que a antecederam e tenha liberdade para acrescentar aquilo que o seu tempo lhe exige.
Artigo III de uma série dedicada à reflexão sobre o futuro da profissão de bombeiro em Portugal.
Cláudio Massano Serra
Presidente da Direção da Federação de Bombeiros do Distrito da Guarda




