Artigo de Opinião – Cláudio Serra – NÃO FALTA FORMAÇÃO. FALTA UM CAMINHO ACADÉMICO PARA OS BOMBEIROS
IV Artigo de uma reflexão sobre o futuro dos bombeiros
Falar do futuro dos bombeiros portugueses implica, inevitavelmente, falar da qualificação de quem escolhe esta profissão. E importa começar por uma clarificação:
Portugal já dispõe de ensino superior na área da Proteção Civil, com a sua importância e o seu espaço próprio, respondendo a necessidades concretas de um sistema que exige competências cada vez mais diversificadas. O problema não está, por isso, na inexistência de formação superior relacionada com a emergência, mas na ausência de um verdadeiro percurso académico construído especificamente a partir da profissão de bombeiro e da sua realidade operacional.
Esta diferença merece ser compreendida. A Proteção Civil possui uma dimensão abrangente, ligada ao planeamento, à prevenção, à gestão dos riscos, à coordenação e à organização da resposta perante diferentes situações de emergência. A profissão de bombeiro, embora integrada nesse sistema, possui uma realidade própria, profundamente marcada pela intervenção operacional, pela componente técnica e pela experiência adquirida diariamente no quartel e no terreno. São realidades que se cruzam, que se complementam e que precisam umas das outras, mas que não são iguais.
Hoje, um bombeiro que queira prosseguir estudos superiores pode encontrar diferentes caminhos académicos que serão úteis à sua profissão. Pode estudar engenharia, enfermagem, gestão, psicologia, educação, Proteção Civil ou muitas outras áreas. Todas elas podem contribuir para enriquecer os corpos de bombeiros e melhorar a sua capacidade de resposta. Mas continua a faltar uma resposta para uma pergunta que me parece inevitável: onde pode um bombeiro estudar profundamente a sua própria profissão?
Onde pode aprofundar, num percurso académico, aquilo que aprende durante anos de combate a incêndios, salvamento, emergência pré-hospitalar, comando operacional, prevenção e intervenção em diferentes cenários de emergência? Onde pode a experiência acumulada por gerações de bombeiros ser estudada, sistematizada e transformada em conhecimento científico capaz de regressar à própria profissão?
Não defendo que a academia substitua o quartel, nem que o conhecimento científico possa alguma vez dispensar a experiência de quem está no terreno. Defendo precisamente o contrário. A experiência operacional dos bombeiros e o conhecimento académico precisam de se encontrar, porque só dessa aproximação poderemos construir uma profissão capaz de transformar aquilo que aprende diariamente em conhecimento estruturado, capaz de evoluir e de preparar melhor aqueles que amanhã estarão na primeira linha.
É nesta ligação que pode estar uma das grandes oportunidades para os bombeiros portugueses. Precisamos de começar a construir um verdadeiro percurso de qualificação que acompanhe o bombeiro ao longo da sua vida profissional, desde a formação operacional até à especialização e ao ensino superior, permitindo que a experiência adquirida no terreno possa dialogar com a ciência, com a investigação e com novas formas de conhecimento.
Não se trata de criar apenas mais um curso. Trata-se de criar um caminho.
Um caminho que permita a um jovem entrar para um corpo de bombeiros e perceber que pode continuar a estudar, especializar-se, assumir responsabilidades e construir uma carreira sem ter necessariamente de abandonar a profissão para encontrar noutra área o percurso académico que procura. Um caminho que permita também a quem possui décadas de experiência operacional continuar a transmitir esse conhecimento, agora com ferramentas capazes de o estudar, aprofundar e preservar para as gerações seguintes.
Mas esta discussão conduz-nos inevitavelmente a outra. Se queremos bombeiros mais qualificados, mais especializados e preparados para assumir responsabilidades cada vez maiores, também temos de discutir seriamente a forma como valorizamos profissionalmente quem escolhe este caminho.
As Equipas de Intervenção Permanente representaram uma evolução importante, ao garantirem presença profissional permanente e ao proporcionarem maior estabilidade a muitos bombeiros. Mas a profissionalização não pode significar apenas garantir disponibilidade para responder. Tem de significar também a construção de uma verdadeira carreira, com progressão, especialização, reconhecimento e uma valorização compatível com a responsabilidade assumida.
Não podemos exigir cada vez mais competências a uma profissão e continuar a olhar para a sua valorização apenas pelo mínimo necessário para assegurar a função. Um bombeiro profissional não é simplesmente alguém que cumpre um horário. É um profissional que mantém competências específicas, está permanentemente disponível para responder e assume riscos que a esmagadora maioria da sociedade nunca terá de enfrentar.
Por isso, a discussão sobre o futuro das EIP não deve limitar-se ao número de equipas ou ao seu financiamento. Deve incluir também uma reflexão séria sobre o futuro profissional daqueles que as integram e sobre aquilo que queremos que esta profissão possa oferecer a quem nela decide permanecer durante muitos anos.
Se queremos atrair jovens, temos de lhes oferecer mais do que vocação. Se queremos que permaneçam, temos de lhes oferecer mais do que estabilidade. Se queremos que se especializem, temos de lhes oferecer mais do que formação. Temos de lhes oferecer um percurso profissional capaz de acompanhar o crescimento da própria profissão.
Os bombeiros portugueses já possuem experiência, conhecimento e identidade profissional. O desafio que temos pela frente é criar condições para que esse património possa transformar-se numa estrutura capaz de preparar o bombeiro do futuro, aproximando a realidade operacional do ensino superior, promovendo investigação aplicada e criando verdadeiras oportunidades de especialização e progressão.
Porque uma profissão não se afirma apenas pelo que faz. Afirma-se também pela forma como prepara as pessoas que a irão exercer amanhã e pela capacidade que demonstra para criar condições para que essas pessoas possam crescer dentro dela.
Talvez esteja, por isso, na hora de deixarmos de perguntar apenas como formar mais bombeiros e começarmos a perguntar que percurso queremos oferecer a quem decide ser bombeiro.
Portugal já reconhece a importância dos bombeiros. A sociedade demonstra-o sempre que precisa deles. O próximo passo deve ser transformar esse reconhecimento numa estrutura de conhecimento, qualificação e valorização profissional que esteja à altura da responsabilidade que lhes confiamos.
Porque não basta dizer a um jovem que esta é uma profissão essencial.
Temos de conseguir dizer-lhe que também pode ser uma profissão com conhecimento, qualificação, reconhecimento e futuro.
Cláudio Massano Serra





