76% dos jovens rurais querem ficar nas suas terras, mas exigem transportes e acesso a melhores empregos
Quase 80% dos jovens das zonas rurais europeias deseja viver, estudar ou trabalhar nos seus territórios de origem ou nas proximidades, desde que as povoações das suas áreas de residência passem a ter uma rede de
transportes minimamente eficaz, serviços de educação com qualidade para os seus filhos e mais oportunidades de participação cívica. Os jovens reivindicam também serviços públicos que lhes permitam candidatar-se
mais facilmente a empregos geralmente reservados a quem vive em áreas urbanas.
Estas são conclusões do relatório “Here to stay? The transitions of rural youth before and after the Covid-19 pandemic” elaborado pela Youth Partnership – uma parceria entre o Conselho da Europa e a Comissão Europeia – sob a coordenação científica de Francisco Simões, investigador do Centro de Investigação e Intervenção
Social (CIS-Iscte).“É fundamental que a União Europeia crie condições para que os jovens possam fixar-se nos seus territórios de origem, sem serem forçados a emigrar por falta de oportunidades”, afirma Francisco Simões.
Segundo o docente do Iscte, “este relatório é um contributo para o debate europeu sobre o ‘direito a ficar’, um dos eixos prioritários da política da Comissão Europeia”.
Segundo o relatório, para permanecerem nas áreas rurais, os jovens exigem melhores infraestruturas de transportes e a promoção de alternativas que facilitem as deslocações casa-trabalho. “Entre 14 fatores apresentados no questionário sobre o emprego: ter viatura própria foi considerado pelos inquiridos como o elemento mais importante para encontrar trabalho”, afirma o coordenador científico da investigação.
Para dar resposta a esta reivindicação dos jovens rurais, o relatório sugere a introdução de sistemas de partilha de carros nas áreas mais remotas, como o carsharing (aluguer de curta duração de frotas) e o carpooling (partilha de boleias/despesas). Além de reduzirem o isolamento das populações jovens, estas opções são mais sustentáveis e menos dispendiosas.
Só 18% recorre a serviços de emprego
Os dados apresentados no relatório revelam que a juventude rural é mais qualificada, com uma frequência do ensino superior muito maior do que no passado. O sucesso no mercado de trabalho, porém, depende sobretudo da existência de redes informais de apoio, em detrimento dos sistemas públicos de emprego, sendo que estes últimos são usados por apenas 18% dos inquiridos pelo CIS-Iscte.
Por esta razão, os autores do relatório apontam como solução a
disponibilização de estruturas móveis de serviços de emprego nos territórios
rurais, à semelhança do que acontece na Bulgária. Estes gabinetes são
coordenados por entidades externas como municípios ou associações, que
operam em articulação direta com os centros de emprego. Apoiar no
processo de procura de emprego e encaminhar os candidatos das zonas
rurais para ofertas adequadas ao seu perfil são alguns dos principais serviços
prestados por estas entidades.
O relatório mostra que não é a falta de oferta cultural que afasta os
jovens rurais das suas terras de origem, uma vez que estes preferem
atividades ao ar livre em vez de espaços culturais tradicionais, como os
teatros. Neste último caso, as taxas de satisfação são mais reduzidas, um
padrão comum entre ambos os géneros.
O relatório “Here to stay? The transitions of rural youth before and
after the Covid-19 pandemic” foi publicado a 25 de fevereiro. O objetivo da
investigação foi analisar como os jovens rurais de 14 países europeus, entre
os 18 e os 30 anos, fizeram a transição para a idade adulta no período pré e
pós-pandemia, de 2019 a 2023. A educação, os sistemas de apoio, a
participação jovem, o emprego, a mobilidade e o acesso ao lazer, à cultura e
ao desporto foram alguns dos fatores estudados.
A amostra incidiu em jovens residentes nos Estados-membros da
União Europeia e do Conselho da Europa. Em cinco deles – Arménia,
Estónia, Irlanda, Roménia e Espanha – foram abordados os cinco níveis de
análise: estrutura institucional; principais tendências; políticas; práticas e
projetos.
Apesar dos progressos registados, como o aumento da participação do
ensino superior e a redução da taxa de jovens “que não estudam, não
trabalham nem frequentam formações” (com o acrónimo inglês NEET), a
investigação revela um declínio acentuado da população jovem nas zonas
rurais, assim como elevadas taxas de desemprego e de participação cívica.





