Avisos e Liturgia do IV Domingo do Tempo Comum- ano A
Para o Tempo Comum do ciclo A, a Liturgia propõe para a nossa reflexão extractos do Sermão da Montanha. Uma parte deste texto aparecer-nos-á também na quarta-feira de Cinzas. O evangelista S. Mateus, segundo os estudos exegéticos, organiza a sua narração em cinco sermões, colocando Jesus em diversos contextos e a falar para pessoas diferentes. O primeiro sermão é conhecido como o Sermão da Montanha que é mais uma página programática da sua mensagem. Muitos fiéis que participam nas nossas celebrações estão habituados a ler os textos de uma maneira fragmentada, tal como acontece na liturgia. Por isso, seria bom lembrar de que o evangelho forma uma unidade e os que extractos que se apresentam obedecem a uma determinada sucessão com a finalidade de apresentar a mensagem de Jesus, estando relacionados uns com os outros. O evangelho forma uma unidade literária e de conteúdo.
O centro da nossa fé está Jesus. É Ele que queremos seguir, porque é Ele que nos dirige a sua palavra e que se dá como alimento de vida eterna na Eucaristia no aqui e agora da nossa vida. A nossa relação, individual e comunitária, será mais profunda, mais radical, mais cheia de afecto e de amizade se nos aproximarmos cada vez mais de Jesus e da sua palavra. Nunca conseguiremos conhecer totalmente Jesus, estar perto dele e ser seus discípulos em pleno. A introdução do Sermão, onde Jesus é apresentado como o novo Moisés, no cimo do monte, sentado como faz um Mestre, preparado para apresentar ao seu povo a “nova Lei”, um texto programático, fala-nos da presença de multidões e “rodearam-no os discípulos”. Até agora o texto só nos apresentou quatro (domingo passado), e é necessário chegar ao capítulo 9º para se ler a vocação de Mateus e ao início do capítulo 10º para a eleição dos Doze. Estes são os primeiros discípulos que Jesus instruirá. Hoje somos nós, os que preparamos a celebração e que depois participaremos dela, a escutar as palavras e as instruções de Jesus.
A mensagem de Jesus começa com uma palavra que repetirá nove vezes: “Bem-aventurados”. Hoje e sempre, o mundo procura e propõe caminhos concretos para alcançar a felicidade. Em alguns momentos, a sua proposta para chegar à felicidade corresponde com a proposta de Jesus; outras vezes, não. Contudo, o desejo de felicidade é a base para apresentar a proposta de Jesus. Um caminho de felicidade a ser percorrido enfrentando múltiplos caminhos e situações (cada bem-aventurança). O mais importante é saber a orientação que se quer dar à vida. Neste sentido, a última bem-aventurança resume o efeito dos comportamentos adoptados “por minha causa”, porque ultrapassa os critérios e as consequências de seguir Jesus. “É grande nos Céus a vossa recompensa”.
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LEITURA ESPIRITUAL
«Deles é o reino dos Céus»
«Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o reino dos Céus.» Sim, bem-aventurados aqueles que rejeitam os fardos sem valor, mas cheios de peso, deste mundo; aqueles que não querem ser ricos, a não ser pela posse do Criador do mundo, e só por Ele; aqueles que, nada tendo, por Ele tudo possuem (2Cor 6,10). Pois tudo possuem estes que possuem Aquele que tudo contém e de tudo dispõe, estes de quem Deus é a parte e a herança (Nm 18,20). «Nada falta aos que O temem» (Sl 34,10): Deus dá-lhes tudo o que sabe ser-lhes necessário; e se lhes dará a Si mesmo um dia, para que eles encontrem a alegria. Glorifiquemo-nos, pois, meus irmãos, pelo facto de sermos pobres por Cristo, e esforcemo-nos por ser humildes com Cristo. Pois não há coisa mais detestável nem mais miserável que um pobre orgulhoso.
«O reino de Deus não é uma questão de comer e beber, mas de justiça, paz e alegria no Espírito Santo» (Rm 14, 17). Se sentimos que temos tudo isto em nós, proclamemos com segurança que o reino de Deus está dentro de nós (Lc 17,21). Ora, aquilo que está dentro de nós pertence-nos verdadeiramente; ninguém nos pode arrancar. É por isso que, quando proclama a bem-aventurança dos pobres, o Senhor não diz: «deles será o reino dos Céus», mas: «deles é o reino dos Céus». E é deles, não apenas por um direito firmemente estabelecido, mas também por um penhor inteiramente seguro, que já é uma experiência da felicidade perfeita. E não apenas porque o reino foi preparado para eles desde o começo do mundo (Mt 25,34), mas também porque eles já começaram a entrar na sua posse: eles já possuem o tesouro celeste em vasos de barro (2Cor 4,7), já trazem a Deus no seu corpo e no seu coração. (Beato Guerric de Igny (c. 1080-1157), abade cisterciense, Sermão para a Festa de Todos os Santos, 3.5-6).






