Artigo de opinião- Pedro Fidalgo – Os andorinhões são nossos. A muralha também.
Os andorinhões são nossos. A muralha também.
Nasci em Trancoso. Cresci a ouvir o guincho dos andorinhões nas tardes de verão, a vê-los riscar o céu ao entardecer em bandos que parecem impossíveis de contar. Conheço aquela muralha pedra a pedra, ou quase. Brinquei à sua sombra, caminhei ao longo dela centenas de vezes, e sei o que significa para quem aqui vive — não como cartaz turístico, mas como parte da nossa própria identidade.
Por isso mesmo, quando leio que a colónia de andorinhões da nossa muralha está em risco e que somos pouco mais do que vândalos do património natural, sinto uma estranheza que não consigo deixar passar em silêncio.
Deixem-me contar o que vejo daqui, de dentro.
A muralha tem quase dois quilómetros. É uma senhora com setecentos anos, mandada construir por D. Dinis numa época em que Trancoso era fronteira e praça de armas. Resistiu a guerras, a séculos de abandono, a invernos que quem não é daqui não imagina. Mas a pedra cansa. As juntas abrem. A água entra, gela, dilata, e vai fazendo o seu trabalho silencioso de destruição. Quem ama esta muralha sabe que ela precisa de atenção constante — não daqui a dez anos, agora.
As obras que estão a acontecer são num troço de uns cinquenta metros. O castelo não tem obras nenhumas. Cinquenta metros, numa estrutura de quase dois quilómetros.
E no entanto, chegou até nós um abaixo-assinado de dez organizações a falar em destruição irreversível e em violação da lei — como se estivéssemos a assistir ao desmanche da muralha inteira.
Não tenho nada contra os andorinhões. Seria uma ingratidão enorme da minha parte. Eles fazem parte de Trancoso tanto quanto as pedras da muralha onde nidificam. Há qualquer coisa de comovente em saber que estas aves regressam todos os anos de África e encontram o mesmo cantinho onde nasceram — as mesmas fendas, as mesmas pedras aquecidas pelo sol da tarde. Percebo bem a vontade de os proteger.
O que não percebo é a afirmação de que temos aqui “provavelmente a maior colónia de andorinhões-pretos de Portugal”. De onde vem isso? Procurei. O projeto Andorin, que é quem faz este trabalho sério de cartografar as colónias em todo o país, tem centenas registadas. Trancoso está lá — como uma entre muitas. Não encontrei nenhum estudo, nenhuma contagem, nenhum documento científico que sustente esse superlativo. E o próprio Andorin assina o comunicado que o afirma.
Pode ser verdade. Mas também pode ser uma forma de dar mais peso a uma causa que, pelos factos disponíveis, não precisa de exageros para ser legítima.
Há uma coisa que me custa particularmente neste debate. As pessoas que assinam estes comunicados sabem, ou deviam saber, que obras de consolidação em pedra antiga não se fazem no inverno. Não é teimosia dos municípios nem ignorância dos empreiteiros — é física. As argamassas não pegam abaixo de certas temperaturas. A humidade compromete os trabalhos. E em Trancoso, a 875 metros, o inverno não é uma questão teórica.
Os andorinhões chegam em março e partem em outubro. O inverno que sobra é curto, duro e húmido. Então quando é que se fazem as obras? Essa pergunta não tem resposta no comunicado. E a ausência dessa resposta diz muito.
Não estou a pedir que se ignore a lei nem que se trate a natureza com descuido. Estou a pedir proporcionalidade. Estou a pedir que quem vem de fora falar da nossa muralha e dos nossos andorinhões tenha a humildade de perceber que quem aqui vive também os ama — e que ama igualmente as pedras que os acolhem.
Uma muralha que cai não serve os andorinhões. Nem serve Trancoso.
Nós sabemos disso. Sabemo-lo há setecentos anos.
Pedro Fidalgo
licenciado em História





