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Artigo de Augusto Falcão—-Aquele dia em que todos nos lembramos de todos, mesmo daqueles que esquecemos

Artigo de Augusto Falcão—-Aquele dia em que todos nos lembramos de todos, mesmo daqueles que esquecemos

Aquele dia em que todos nos lembramos de todos, mesmo daqueles que esquecemos.

E, como que quase num piscar de olhos, estamos em dezembro e com este mês mais um Natal.

Confesso, que, o Natal já pouco me diz; até porque a “magia” do Natal, já não existe em mim; aquele Natal, que era passado junto à lareira, da casa dos meus avós, onde as couves eram cozidas numa panela de ferro (de 3 patas) ao lume da lareira e com água da fonte é uma recordação do passado que apenas persiste na memória dos mais velhos.

E hoje olhamos para trás, com saudade desses tempos simples, com alguma saudade, e dizemos aos nossos filhos ou aos nossos netos “no meu tempo era ….”

Sim no meu tempo, o pinheiro era verdadeiro e tinha que se deitar fora logo depois do Ano Novo, ou ficava tudo cheio de “agulhas”; e as decorações do pinheiro era algodão a imitar a neve, o presépio eram 5 figuras (o menino Jesus, a Virgem Maria, S. José, o burro e a vaca) e pouco mais.

E as famílias reuniam-se para se ver e estarem juntas. No sentido de amor de família; as pessoas gostavam de estar juntas umas das outras, pouco a família, era algo que se cultivava e se acarinhava.

Durante o ano, as famílias viam-se apenas em ocasiões especiais, e neste dia, era um dessas ocasiões; mas durante o ano, tentavam falar com os seus familiares, por carta, ou em chamadas telefónicas rápidas; sim rápidas já que tempo ilimitado de chamadas de voz, é algo recente.

Assim, quando se viam tinham mesmo a necessidade de estar juntas, e de “matar as saudades”. Porque as saudades, essa coisa tão portuguesa existia mesmo… e era sentida. E tornava-se real, porque as distâncias eram maiores; muito maiores.

E era nesses dias, que a gente se lembrava de todos, mesmo daqueles que nos lembrávamos todo o ano.

A mesa podia ser “pobre”, e não ter a fartura que hoje se tem; a ceia podia ser batatas, couve e um pedaço de bacalhau (não muito porque era caro) mas o importante que era a reunião existia…

Não quero dizer com isto, que tudo era perfeito porque não era; mas tenho a certeza de que todos nós, os que vivemos isto olhamos para trás, e mais uma vez digo e repito, temos saudades desta festa.

Sim, porque hoje veio a aproximação de todos; as viagens ficaram mais rápidas; quase todas a gente se desloca por meios próprios; e as melhorias das comunicações permitem-nos estar “juntos” em tempo quase real; ganhamos em qualidade de vida… e ainda bem; mas o que perdemos é também importante…. perdemos a proximidade real.… e por causa disso, é que naqueles dias nos lembramo-nos daqueles que nos esquecemos durante o ano..

 

Augusto Falcão