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Artigo de Opinião de Augusto Falcão—“Vamos lá falar de tolerância” parte 2

Artigo de Opinião de Augusto Falcão—“Vamos lá falar de tolerância” parte 2

Voltamos, este mês a falar de tolerância; note-se mais uma vez, que não pretendo criar ideias fixas ou até estereotipadas sobre a tolerância ou o que deve ser a tolerância, mas criar no leitor uma “tempestade” de ideias de forma a promover uma reflexão crítica acerca do que queremos para a nossa sociedade em comum.

O que é caracteriza uma sociedade? É a crença de um grupo de pessoas em determinados valores, que todos em conjunto partilhamos, e com objetivos iguais em direção a um bem comum. São esses valores, é essa cola que nos identifica como portugueses, e que todos devemos preservar ou tentar preservar; no fundo, todas as sociedades, acabam por ter um direito, mais ou menos, sustentado à sua auto preservação, sendo esse direito, um direito razoável.

Se temos o direito, de auto preservarmos, esses direitos que nós consideramos fundamentais, onde começa a tolerância e acaba a mesma? Será que ao defendermos esses nossos valores não estamos a ser intolerantes? E onde fica o direito de preservarmos, de forma razoável, esses valores?

Estamos então perante um paradoxo? Aqui, permite-me o leitor, de responder por ele; sim estamos.

Paradoxo esse que já foi bastante filosofado por autores tal com o Popper, ou Rawls.

A defesa intransigente da sociedade de tolerância ilimitada, levará ao desaparecimento da tolerância; isso ocorrerá porque ao protegermos o direito de alguém ser intolerante, levará a que esses mesmos indivíduos, julguem dentro da sua intolerância , que eles não tem o dever ser tolerantes com a nossa posição, e eles mesmo irão lutar para que a nossa posição desapareça; é caso para dizer    que “a tolerância chegará a tal ponto que as pessoas inteligentes serão impedidas de fazer qualquer reflexão para não ofender os imbecis”, citação esta que foi incorretamente  atribuída a Dostoievski;

No entanto, devemos sempre permitir que o intolerante deva ser tolerado, caso contrário estaremos a ser intolerantes; no entanto, a liberdade de “ser parvo” – como se diz em bom português – deve ser restringida quando os tolerantes creem estar em perigo a sua liberdade, crenças e instituições. E essa restrição deve usar os meios que se julguem por convenientes para que essa preservação seja atingida. No entanto, o combate à intolerância deve ser primariamente, feito com argumentos racionais e através de debate de ideias, tentando demover os intolerantes, e levá-los a abandonar as suas crenças e valores de intolerância.

Ou seja, advoga-se o uso da força, se necessário, para preservarmos as nossas crenças e valores, que nos compõem como sociedade.

Deixo aqui, um conselho de leitura: “As sociedades abertas e os seus inimigos” de Karl Popper e a “Teoria da Justiça” de John Rawls, mas acho que no fundo a lição que podemos tirar é aquela que a sabedoria popular ainda nos diz que a “virtude está no meio” e que os extremos nunca são bons.  E que até a tolerância, sendo algo por essência uma virtude, tem que ser bebida com moderação necessária e adequada ao contexto conjetural em que vivemos.

Bom mês de março.

Augusto Falcão