Artigo de Opinião de Luís Miguel Condeço – Sozinhos na serra
Numa aldeia próxima da “nossa” serra, o dia começa com o rádio ligado, não para ouvir as notícias, mas para ouvir a voz que sai daquele aparelho, nem sempre audível. Enquanto o café aquece e o relógio da parede marca horas que já ninguém espera, a próxima conversa será com o carteiro, se houver cartas, ou com a vizinha, se ainda houver vizinha. Este cenário repete-se todos dias no nosso território.
Desde 2011, a Guarda Nacional Republicana (GNR) percorre o país, porta a porta, na operação Censos Sénior, à procura dos idosos que vivem sozinhos, isolados ou em situação de vulnerabilidade. Na última edição (2025) foram sinalizados 43.074 idosos nesta situação, com a liderança destacada a pertencer ao distrito da Guarda, com 5.852 idosos, seguindo-se os distritos de Vila Real e Bragança, com Viseu a surgir em quinto lugar (3.304 idosos). Os dois distritos da Beira são responsáveis por mais de um quinto dos idosos sinalizados em todo o país, e a contagem peca por defeito, uma vez que a área de abrangência da GNR não inclui os grandes centros urbanos.
Apesar de apenas parecer uma situação de vulnerabilidade social, também a saúde e bem-estar são afetados. No ano passado, a Comissão para a Ligação Social da Organização Mundial da Saúde estimou que a solidão está associada a 871 mil mortes por ano no mundo, cerca de cem por hora. Num estudo recente, com mais de dois milhões de participantes, concluiu-se que o isolamento social aumenta em 32% o risco de morte, associa-o a mais 29% de risco de doença coronária e mais 32% de risco de Acidente Vascular Cerebral. E a prestigiada Comissão Lancet (grupo de especialistas da revista científica com o mesmo nome), no seu relatório de 2024 incluiu o isolamento social entre os 14 fatores modificáveis que explicam quase metade dos casos de demência.
A solidão pesa no coração, no cérebro e nos anos de vida, ou como nos dizia Camilo Castelo Branco, um estado de alma fatal e doloroso provocado pela força avassaladora da paixão e pela incompreensão da sociedade.
Segundo o Instituto Nacional de Estatística, quase quatro em cada dez portugueses com mais de 80 anos já vivem sozinhos, sobretudo no interior Norte e Centro. Numa região envelhecida, onde a unidade de saúde mais próxima fica muitas vezes a várias dezenas de quilómetros, um idoso isolado pode ser uma queda que ninguém socorre ou uma depressão que ninguém diagnostica, acabando por chegar tarde e com maior gravidade às urgências e internamento hospitalares.
Mas é possível prevenir a solidão, e há na Europa exemplos que merecem ser replicados em território nacional. Em França, os carteiros visitam regularmente os idosos com o serviço “Veiller sur mes parents”, realizando cerca de 300 visitas por dia e perto de 50 mil pessoas acompanhadas nos últimos dez anos. Nos Países Baixos, o lar Humanitas oferece alojamento gratuito a estudantes universitários em troca de 30 horas mensais de convívio com os residentes. Na Irlanda, mais de 450 Men’s Sheds, oficinas comunitárias onde homens reformados trabalham e confraternizam, reduzem de forma significativa a solidão dos participantes. E na Finlândia, o projeto FINGER demonstrou que dois anos de exercício, alimentação saudável, treino cognitivo e atividades de grupo melhoravam em 25% o desempenho cognitivo de pessoas entre os 60 e os 77 anos.
Mas por cá também temos algumas iniciativas que merecem ser divulgadas, e não muito longe. Em Sernancelhe, a associação Aldeias Humanitar leva gratuitamente cuidados de saúde e apoio social a casa dos idosos das aldeias do Douro Sul, mantém uma linha de apoio permanente e em 2022, colocou no terreno o primeiro “cuidador comunitário” do país. Este projeto desenvolvido em parceria com a GNR de Viseu, foi distinguido em 2019 com o Prémio Direitos Humanos da Assembleia da República. Na Guarda, a GNR testa desde 2021 o eGuard, um sistema de teleassistência que emite um alerta se o equipamento do idoso ficar doze horas sem utilização.
As duas novas Universidades Politécnicas e os milhares de estudantes que as frequentam, podem desenvolver projetos comunitários como os descritos anteriormente, transformando cafés, farmácias, juntas de freguesia e padarias em radares de proximidade.
A solidão não se identifica nas análises clínicas nem tem lugar na receita médica. Mas lentamente silencia e mata. Para a combater não precisamos de grande desenvolvimento tecnológico, basta bater à porta e voltar na semana seguinte.
Luís Miguel Condeço
Professor na Escola Superior de Saúde de Viseu





