Artigo de Opinião – Juve Bombeiro – Porque é que uma criança escolhe ser Bombeiro?
Talvez estejamos a fazer a pergunta errada.
Há momentos que passam despercebidos à maioria das pessoas…
Uma criança atravessa, pela primeira vez, a porta de um quartel. Olha em redor com curiosidade.
Observa os veículos, admira as fardas, os equipamentos.
Escuta, em silêncio, histórias de quem veste a farda diariamente… ou de quem já a usou muitos
anos.
Para muitos, é apenas mais uma visita. Mas para quem trabalha diariamente com as futuras
gerações de Bombeiros, pode ser o início de uma história que transformará uma vida. Ou várias!
É precisamente nesse momento que, muitas vezes, nasce uma vocação.
Ao longo do tempo, fui percebendo que talvez estejamos a fazer a pergunta errada.
A verdadeira questão não é:
“Porque é que uma criança escolhe ser Bombeiro?”
A verdadeira questão é outra.
“O que encontra uma criança num quartel que a faz querer voltar?”
À primeira vista, a resposta parece simples.
Os veículos, as sirenes, os equipamentos, o fascínio que qualquer criança sente quando olha para
um Bombeiro.
Tudo isso desperta a curiosidade da criança, mas a curiosidade passa. E, quando ela passa, só
permanece aquilo que verdadeiramente importa. Permanece o ambiente, as pessoas, os valores.
Ao acompanhar o percurso de muitos Infantes e Cadetes, percebi que nenhuma criança continua
neste caminho apenas porque gosta de veículos, fardas ou equipamentos.
Continua porque encontra algo que, infelizmente, nem sempre existe noutros lugares.
Encontra alguém que sabe o seu nome. Alguém que a escuta. Alguém que lhe diz: “Tu
consegues!”
Pode parecer pouco. Mas, para uma criança, pode significar tudo!
Num tempo em que tantas crianças crescem rodeadas de ecrãs, mas cada vez mais afastadas das
relações humanas, a Escola de Infantes e Cadetes oferece algo raro: Tempo. Presença. Exemplo.
É aí aprendem que ninguém é importante sozinho. Que uma equipa vale sempre mais do que
um só. Que respeitar não é um sinal de fraqueza, é um sinal de carácter. Aprendem que ajudar um colega não é um favor, é um dever. E que servir a comunidade nunca será uma obrigação, mas sim uma escolha.
Só quem acompanha estes jovens ao longo dos anos consegue compreender a transformação que acontece diante dos seus olhos.
A criança mais tímida começa a interagir, o jovem inseguro descobre que é capaz de liderar uma
equipa.
Quem tinha medo de errar, percebe que o erro não é o contrário do sucesso, é parte do caminho!
E, sem darmos conta, aquilo que começou como uma simples atividade transforma-se numa
verdadeira escola de vida.
Muitas vezes perguntam-me qual é o segredo. E a resposta é simples.
O segredo, se assim o pudermos chamar, está nas pessoas.
Nas que oferecem o seu tempo sem esperar nada em troca, nas que corrigem sem humilhar.
Que exigem sem desmotivar.
Que educam sem levantar a voz.
E, sobretudo, naquelas que acreditam num jovem antes mesmo de ele acreditar em si próprio.
Mas existe outro elemento sem o qual nada disto seria possível.
As famílias.
São elas que dão o primeiro passo. São elas que entregam aquilo que têm de mais precioso: Os seus filhos!
Essa confiança não pode ser encarada como um gesto comum. É uma enorme responsabilidade.
Porque educar nunca foi missão exclusiva da família, nem da escola. Muito menos dos
Bombeiros.
Educar é uma responsabilidade partilhada.
E quando famílias, escolas e Bombeiros caminham lado a lado, acontecem coisas extraordinárias.
Ao longo destes anos vi crescer muitos jovens. Vi alguns tornarem-se Bombeiros.
Outros, seguiram caminhos completamente diferentes.
Mas todos levaram consigo algo que aprenderam neste percurso. Não foram conceitos da atividade de Bombeiro. Ou não foi só isso. Foi algo maior.
Foram valores. Foram amizades. Foi uma forma diferente de olhar para a vida. Foi a certeza de
que servir os outros faz de nós pessoas melhores.
Uma criança não escolhe uma farda, não escolhe o quartel, não escolhe uma atividade.
Escolhe crescer num lugar onde é respeitada!
Onde percebe que a maior força de um Bombeiro está nos valores que transporta consigo.
E talvez seja precisamente isso que tantas vezes esquecemos.
Os veículos envelhecem. Os equipamentos são substituídos. Os quartéis renovam-se.
Mas os valores que conseguimos transmitir a uma criança permanecem para toda a vida.
Porque o futuro dos Bombeiros não se improvisa. Constrói-se!
Bruno Coutinho
Delegado Distrital – JuveBombeiro Distrito da Guarda





