Artigo de opinião- Vitor Santos- ASSOCIAÇÃO DE FUTEBOL DE VISEU: 100 ANOS DE HISTÓRIA, PAIXÃO E IDENTIDADE
Há instituições que fazem parte da história de um território. Outras acabam também
por fazer parte da nossa própria história. A Associação de Futebol de Viseu é, para
mim, ambas as coisas.
A 15 de outubro de 1926, sob a designação de Federação Desportiva de Viseu,
nasceu oficialmente aquela que hoje conhecemos como Associação de Futebol de
Viseu. Faz hoje cem anos.
Um século de história, de transformações, de dificuldades ultrapassadas e de
gerações que encontraram no futebol muito mais do que um jogo.
Para percebermos o caminho percorrido, vale a pena recuar aos primeiros tempos da
modalidade no distrito. O futebol vivia-se com entusiasmo, mas também com muito
improviso. Faltavam condições, estruturas organizadas e até os cuidados mais básicos
que hoje consideramos indispensáveis.
O chamado futebol das aldeias disputava-se em largos e campos improvisados, como
o Campo da Ribeira, junto ao rio Pavia. Não havia balneários nem as comodidades a
que estamos habituados. Os jogadores equipavam-se onde podiam, por vezes entre
pinheiros e arbustos, e o banho depois do jogo dependia da existência de um rio, de
um regato ou de um chafariz nas proximidades.
É difícil imaginar hoje essa realidade. Mas foi também dessa simplicidade, dessa
vontade de jogar e dessa paixão que se foram construindo as bases do futebol que
conhecemos.
Perante a necessidade de organizar a modalidade, um grupo de entusiastas reuniu-se
a 8 de outubro de 1926, lançando as sementes de uma estrutura que viria a marcar
profundamente o desenvolvimento do futebol no distrito de Viseu.
Começava uma história que não pertence apenas à Associação. Pertence também
aos clubes que resistiram às dificuldades, aos dirigentes que dedicaram tantas horas
da sua vida a uma causa, aos treinadores que ensinaram muito para além do jogo, aos
árbitros que assumiram a responsabilidade de fazer cumprir as regras, aos atletas que
alimentaram sonhos e aos adeptos e famílias que nunca deixaram de estar presentes.
É a história de muitas aldeias e cidades, de campos de terra batida e de relvados, de
vitórias celebradas e de derrotas difíceis de aceitar. É a história de pessoas que,
muitas vezes sem reconhecimento, fizeram do futebol uma parte importante da vida
das suas comunidades.
Mas uma instituição centenária não se mede apenas pelo que fez no passado. Mede-
se também pela capacidade de continuar a fazer sentido no presente e de preparar o
futuro.
Ao longo destes cem anos, a Associação de Futebol de Viseu acompanhou a evolução
do desporto, adaptou-se a novas realidades e alargou a sua intervenção. Hoje, para
além do futebol, representa também o futsal, o futebol de praia e o walking football,
dando resposta a diferentes formas de praticar desporto e a diferentes gerações.
O crescimento das estruturas, a qualidade da formação e a modernização das
competições são importantes. Mas há uma dimensão que nunca pode ficar para trás:
as pessoas.
Porque o desporto não se esgota nos resultados, nas classificações ou nos troféus.
Tem uma responsabilidade na formação de crianças e jovens, na criação de
oportunidades, na promoção do respeito e na construção de comunidades mais
solidárias.
A ética, o fair play, a inclusão e o respeito pelas regras e pelos outros não podem ser
apenas palavras bonitas em discursos comemorativos. Têm de estar presentes nas
decisões, nos comportamentos e na forma como vivemos o desporto, dentro e fora do
campo.
É também por isso que celebrar cem anos deve ser mais do que olhar para trás com
orgulho. Deve ser uma oportunidade para pensar no caminho que ainda temos pela
frente.
A minha história com a Associação de Futebol de Viseu começou muito antes de
imaginar que, um dia, também eu viria a servir o futebol através dos seus órgãos
dirigentes.
A primeira recordação que guardo remonta à década de 70, quando fui recebido pelo
então presidente, João Osório Mateus. Era ainda um jovem e estava longe de
desconfiar que, tantos anos depois, faria parte da estrutura dirigente da instituição que
hoje celebra o seu centenário.
A vida tem destas coisas. Aquilo que começa por ser uma memória de infância ou de
juventude acaba, por vezes, por ganhar outro significado com o passar dos anos.
Ter podido contribuir, de outra forma e noutra etapa da vida, para o desenvolvimento
do futebol distrital foi um privilégio. Um privilégio que me permite olhar para estes cem
anos não apenas como alguém que acompanha a história da Associação, mas
também como alguém que, em determinado momento, teve a oportunidade de fazer
parte dela.
Por isso, neste dia, a homenagem é para todos os que vieram antes de nós, para
aqueles que hoje mantêm esta história viva e para as novas gerações que continuarão
a escrevê-la.
Que os próximos cem anos sejam de crescimento, ambição e inovação, sem perder de
vista aquilo que verdadeiramente dá sentido ao desporto: as pessoas, os valores e a
capacidade de construir algo que nos ultrapassa.
Parabéns à Associação de Futebol de Viseu pelos seus 100 anos!
Que continue a fazer do desporto uma escola de vida, um espaço de encontro e uma
oportunidade para formar melhores atletas, mas, acima de tudo, melhores pessoas.
Vitor Santos
Diretor da AFV





