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Artigo de Opinião – Vitor Santos -Cristiano Ronaldo, a Seleção e aquilo que o desporto nos deve ensinar

Artigo de Opinião – Vitor Santos -Cristiano Ronaldo, a Seleção e aquilo que o desporto nos deve ensinar

Não queria escrever sobre Cristiano Ronaldo. Não por falta de opinião. Muito menos
por falta de interesse pelo tema. Mas porque, nestes assuntos, é muito fácil cair na
tentação de reagir antes de pensar.
Só que há momentos em que também não podemos ficar calados. Este é um deles.
Sou Embaixador do Plano Nacional de Ética no Desporto. Passo boa parte do meu
tempo a falar de valores, de comportamentos, de respeito, de responsabilidade. Falo
com atletas, treinadores, pais, dirigentes e jovens. E seria estranho que, perante um
episódio destes, escolhesse fazer de conta que não vi.
Não quero, por isso, escrever sobre Cristiano Ronaldo enquanto Cristiano Ronaldo.
Quero escrever sobre um atleta. Sobre uma equipa. Sobre um treinador. E, sobretudo,
sobre aquilo que entendemos por responsabilidade quando fazemos parte de um
grupo. Também não quero pegar no teclado e disparar.
Hoje tudo é demasiado instantâneo. A notícia ainda está a acontecer e já existem
dezenas de opiniões. Às vezes, antes de sabermos exatamente o que aconteceu, já
temos quem explique, quem condene, quem absolva e quem tenha encontrado o
culpado.
O ruído na comunicação social também é um sinal dos tempos em que vivemos.
Dezenas, sim, dezenas de opinadores que sabem tudo e que recorrem vezes demais
a frases feitas sobre a sua independência, o seu rigor, a sua liberdade. Não tenho
nada contra a opinião. Pelo contrário. Mas independência, rigor e liberdade não se
dizem. Praticam-se. E depois o público ajuizará.
Quanto ao episódio em si, há uma coisa que me parece difícil de contornar: um atleta
abandonar a concentração da sua equipa não é um comportamento aceitável. E digo
isto sem precisar de saber tudo o que aconteceu nos bastidores. Porque posso não
conhecer a conversa que houve antes. Posso não conhecer as razões. Posso não
conhecer o estado de espírito de quem tomou aquela decisão. Mas sei uma coisa:
fazer parte de uma equipa implica aceitar regras e responsabilidades.
E isso vale para todos. Também para os melhores. Talvez seja precisamente aqui que
devemos parar um pouco. Não para discutir se Cristiano Ronaldo é o melhor jogador
português de sempre. Não para discutir quantos golos marcou. Não para discutir o seu
estatuto ou a importância que teve — e continua a ter — na Seleção.
Tudo isso é outra discussão. A questão que me interessa é mais simples.
Pode um atleta, seja ele quem for, colocar-se acima das regras da equipa?
Para mim, não. E isto não significa que um atleta não possa discordar. Não significa
que tenha de aceitar tudo em silêncio. Não significa que não possa ficar zangado,
frustrado ou até sentir-se injustiçado.
Claro que pode. Somos pessoas antes de sermos atletas. Mas é precisamente quando
estamos zangados, frustrados ou magoados que os nossos comportamentos dizem
mais sobre nós.
É por isso que tenho alguma dificuldade em reduzir este episódio à chamada “gestão
emocional”. As emoções existem. Fazem parte do desporto. Fazem parte da vida.

Mas um atleta de elite também tem responsabilidades. E uma delas é saber gerir
aquilo que sente sem esquecer aquilo que representa.
Depois há outra questão que me parece importante. Os conflitos entre treinadores e
atletas existem. Sempre existiram. Um jogador pode não concordar com uma decisão
do treinador. Pode entender que deveria jogar mais. Pode não aceitar uma
substituição. Pode sentir que foi injustiçado. Tudo isso é humano. O problema não é
haver conflito. O problema é quando deixamos de saber lidar com o conflito. Todas
estas situações têm solução. Tinham solução. Ou, pelo menos, devemos acreditar que
têm.
Não imagino o que é liderar uma Seleção Nacional. Não sei o que significa tomar
decisões com milhões de pessoas a olhar, com uma comunicação social
permanentemente em cima e com uma responsabilidade que ultrapassa em muito um
simples jogo.
Mas quem aceita liderar uma equipa destas sabe, ou tem de saber, que liderar
pessoas é muito mais do que escolher jogadores. É saber ouvir. É saber decidir. É
saber explicar. É saber gerir egos, expectativas, frustrações e conflitos. E é também
saber que, numa equipa, ninguém pode ser maior do que o próprio grupo. Nem o
treinador. Nem o dirigente. Nem o jogador. Nem sequer o melhor jogador. Talvez seja
esta a parte mais importante de toda esta história. Porque os mais jovens estão a
olhar para nós. Estão a aprender connosco.
Quando lhes dizemos que devem respeitar o treinador, respeitar os colegas, aceitar as
decisões e cumprir as regras, temos de ser coerentes quando chegam os grandes
nomes, os grandes talentos e os grandes estatutos.
Caso contrário, estamos a ensinar-lhes que as regras existem para alguns. E isso é
precisamente o contrário daquilo que devemos defender no desporto. Não quero um
desporto onde o talento seja castigado ou diminuído.
Quero um desporto onde o talento seja valorizado. Mas onde quanto maior for o
talento, maior seja também a responsabilidade. Porque o talento pode ganhar jogos.
Pode decidir campeonatos. Pode fazer história. Mas não substitui o respeito.
E é aqui que, para mim, a ética entra. Não quando tudo corre bem. Não quando
estamos todos de acordo. Não quando é fácil respeitar.
A ética aparece quando estamos zangados. Quando discordamos. Quando achamos
que temos razão. Quando temos poder. Quando temos estatuto. É nesses momentos
que os valores deixam de ser palavras. Passam a ser escolhas. E talvez seja por isso
que este episódio me tenha feito parar para escrever.
Não por ser Cristiano Ronaldo. Mas porque nos obriga a pensar no desporto que
queremos. Um desporto onde o talento pode tudo? Ou um desporto onde o talento,
precisamente porque é tão grande, traz consigo uma responsabilidade ainda maior?
Eu sei de que lado estou. Porque, no desporto, ninguém deve estar acima da
equipa.
Nem sequer os melhores. E talvez esta seja uma das coisas mais importantes que
podemos ensinar a quem está a começar.