Artigo opinião – Vitor Santos — Dia Mundial da Criança
Dia Mundial da Criança
Educar o Sonho também é proteger a infância no desporto
Quando falamos do direito das crianças ao desporto, não estamos apenas a falar de
atividade física, competição ou rendimento. Estamos a falar de infância. De liberdade.
De crescimento. De felicidade.
O desporto deve ser um espaço onde a criança descobre quem é, e não um lugar
onde lhe dizem constantemente quem tem de ser.
Hoje, continuamos a assistir a demasiadas infâncias vividas em modo de pressão.
Crianças tratadas como projetos de sucesso. Pequenos atletas transformados em
miniadultos antes do tempo. Jogos onde o resultado pesa mais do que o sorriso.
Bancadas onde se grita mais do que se educa. Ambientes onde a ansiedade dos
adultos invade a alegria natural de brincar.
Mas uma criança não nasceu para carregar os sonhos falhados dos adultos. Nasceu
para construir os seus próprios sonhos.
Nem todas as crianças querem competir da mesma forma. Nem todas vivem o
desporto com a mesma intensidade. E isso não é um problema. É humanidade. Há
crianças apaixonadas pela competição, outras pela amizade, outras simplesmente
pelo prazer de jogar. O erro está em exigir que todas sintam, reajam e sonhem da
mesma maneira.
Educar pelo desporto exige sensibilidade. Exige perceber que formar uma criança é
muito mais importante do que formar um campeão.
O verdadeiro sucesso não está apenas nas medalhas, nas convocatórias ou nos
contratos futuros. Está na criança que cresce confiante, autónoma, resiliente e feliz.
Está na que aprende a respeitar, a cooperar, a lidar com a derrota e a acreditar em si
própria.
Também os adultos precisam de reaprender o seu papel. Pais, treinadores e dirigentes
não podem viver o desporto infantil como um palco de ego, frustração ou vaidade. A
presença dos pais deve ser porto seguro, nunca fonte de medo ou pressão. O
treinador deve ensinar muito mais do que tática. Deve ensinar humanidade. E os
clubes devem lembrar-se de que trabalham com crianças antes de trabalharem com
atletas.
A especialização precoce, a obsessão pelo rendimento e os calendários competitivos
desajustados continuam a roubar espontaneidade a muitas infâncias. Há crianças
cansadas antes do tempo. Desmotivadas antes de crescer. E algumas abandonam o
desporto não porque deixaram de gostar, mas porque deixaram de conseguir respirar
dentro dele.
Precisamos de devolver o jogo às crianças.
Precisamos de lhes devolver o direito de errar sem medo.
O direito de brincar sem pressão.
O direito de escolher.
O direito de crescer ao seu ritmo.
O direito de serem apenas crianças.
Porque o desporto só cumpre verdadeiramente a sua missão quando ajuda uma
criança a crescer inteira — e não apenas competitiva.
Neste Dia Mundial da Criança, que nunca nos esqueçamos disto: antes de formar
atletas, devemos proteger infâncias.
E talvez a maior vitória de todas seja esta:
uma criança continuar a amar o desporto muitos anos depois de o ter conhecido.
Feliz Dia Mundial da Criança
Vitor Santos
Embaixador do Plano Nacional de Ética no Desporto





