Avisos e Liturgia do XX Domingo do TEMPO COMUM – ano C
- a) Não há alternativa. Ou acolhemos a Palavra de Deus e, por ela, o Deus da Palavra – fogo que queima, julga, purifica, salva – ou nos gastaremos na busca incessante de seguranças para a vida, que resultarão sempre limitadas, inconsequentes, falhadas. A mensagem da Palavra de Deus deste Domingo é, por si mesma, desconcertante. Esperaríamos do Deus da Palavra “paz”, “segurança”, “felicidade”. Mas ela diz-nos que se “apoderaram de Jeremias e meteram-no dentro de uma cisterna”. Que Jesus sofreu, da parte dos pecadores, uma total oposição à Sua pessoa: “Eu vim estabelecer a desavença… “. É a Palavra de Deus convertida em palavra de contradição, de julgamento.
- b) Na primeira leitura, o profeta Jeremias é o protótipo acabado do mártir pela Palavra de Deus, que será “figura” de Jesus, na missão e no martírio, pela Palavra e pelo Reino. No ano 588, Nabucodonosor, rei de Babilónia, à frente do seu exército, avança para Ocidente e domina os vários pequenos estados em rebelião contra o Império. Depois, segue para Sul e cerca a cidade de Jerusalém. A Babilónia é o grande poder político e militar do tempo. Contra ele nada pode o pequeno Reino de Judá. É, então, que entra em cena o profeta Jeremias. Preocupado com a sorte do povo, insta com as autoridades de Jerusalém para que dialoguem com o rei babilónico e negoceiem com ele a paz. Mas o poder político de Jerusalém está sobretudo voltado para o Egipto. De facto, o Faraó Hofra entra em acção e, para melhor enfrentar o exército egípcio, a tropa babilónica levanta o cerco de Jerusalém. Parece evidente a vitória da classe política judaica e a derrota do profeta. Contudo, o profeta vê mais longe e intui que tentar resistir ao poderio babilónico significará, a breve prazo, a destruição da cidade e o suicídio colectivo da nação. Assim o pensa e assim o proclama, alto e bom som, a todo o povo que o quer escutar. Torna-se uma voz incómoda, desestabilizadora. É preciso eliminá-lo. Apoderam-se dele e metem-no dentro de uma cisterna. Mas a intervenção amiga de um estrangeiro salva-lhe a vida. Como homem ao serviço da Palavra de Deus, ganhará novo alento para, com coragem renovada, continuar a pregar os desígnios do Senhor.
- c) No evangelho, S. Lucas mostra-nos como Jesus assume, claramente, o mesmo caminho do Profeta. Sendo a “Palavra incarnada” do Pai, Ele vive-a, proclama-a e dá-lhe dimensões insuspeitadas. Este evangelho de hoje faz parte de uma composição mais vasta em que São Lucas agrupa o ensinamento de Jesus quanto ao modo como os discípulos e a própria comunidade se devem comportar em relação ao mundo. Na primeira sentença – “Eu vim lançar o fogo sobre a terra e só quero que ele se tenha ateado” – a forma utilizada sugere que o fogo deverá ser ateado no futuro. A palavra “fogo”, entre outros matizes, poderá expressar, aqui, o estado de tensão e de guerra contra o mal, que Jesus vem eliminar. Neste sentido, assume a significação profética de “juízo” e “julgamento” de Deus que purifica os eleitos e extermina os ímpios. Jesus anunciaria, assim, a realização escatológica de um Povo purificado e santo. O “fogo” será o instrumento de formação e purificação da comunidade dos discípulos de Jesus. E porque não ver nele também o “fogo” do Pentecostes, o “fogo” do Espírito, que é dom do Ressuscitado à Sua Igreja, e a antecipação dos últimos dias?
- d) Seja como for, o próprio Jesus está implicado neste combate, que é de luta e tensão dentro do Reino, pois Ele mesmo declara que tem um “baptismo” para receber, e este baptismo, de acordo com Mc 10, 38, é claramente um baptismo de sofrimento, de paixão e de morte. “Pensais que Eu vim estabelecer a paz na terra? Pois Eu digo-vos que não: O que Eu vim estabelecer foi a desavença”. Mas não era a paz um dos temas mais decantados e ardentemente esperados pelo povo judeu, para os tempos messiânicos? Não cantam os Anjos essa paz no nascimento de Jesus em Belém? Jesus vem, efectivamente, trazer a “paz messiânica” prometida e cantada pelos profetas. Mas a paz messiânica exige a decisão pessoal de fé. E tal decisão acarreta consigo crises, riscos, rupturas, desavenças. São Mateus substitui a palavra “desavença” pela palavra “espada”. Exprimem ambas a mesma realidade: a cisão provocada pelo próprio Evangelho. As “desavenças” familiares descritas em S. Lucas e em S. Mateus são uma citação de Miqueias referida expressamente ao fim dos tempos, aos tempos da decisão. Aliás, os elementos aduzidos não serão mais do que um pequeno retracto do que estaria já a acontecer em muitas famílias de Jerusalém, por causa dos que aderiam, de alma e coração, à mensagem de Jesus. Dito de outra maneira: Quem acolhe e aceita o Evangelho de Jesus Cristo começa a experimentar, dentro de si mesmo, a guerra e a divisão. É que não se pode aceitar, com a mesma naturalidade, o bem e o mal, a verdade e a mentira, a justiça e a opressão. A imagem de um cristianismo fácil, contemporizador com todos os valores do mundo, tem de dar lugar a um cristianismo adulto, feito de decisões de Fé, marcado por atitudes assumidas, à luz do Evangelho. É neste sentido que a Palavra de Deus introduz a crise no mais íntimo do homem, porque contesta os valores da ordem estabelecida e exige uma decisão por Cristo ou contra Cristo. O homem actual é um homem de opções adiadas. Inserido num mundo de mediocridade e consumismo, treme perante as opções fundamentais da vida e da sua própria fé. Pretende, simultaneamente, dizer “sim” e “não” à sua vocação transcendental. Tem medo do risco. Ora o Evangelho é risco, que projecta o crente para a aventura sedutora de um futuro eterno e feliz em Deus.
- e) Não será esta, precisamente, a mensagem da segunda leitura? Depois de enumerar uma “nuvem” de testemunhas “ a atestar-nos as grandezas da fé”, a Carta aos Hebreus apresenta-nos Cristo como modelo supremo da nossa “corrida” para a perfeição. Com Ele, “guia da nossa fé” e sinal de contradição para o mundo, também nós atingiremos a meta final.
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paroquiasagb
Leitura Espiritual
«Eu vim trazer o fogo à Terra e que quero Eu senão que ele se acenda?»
Nosso Senhor Jesus Cristo vive neste mundo nas almas, crescendo nelas segundo as operações da sua graça, como fazia na sua infância, conversando com sua Mãe; e prossegue a sua vida interior em nós quando somos exclusivamente dele. Aquilo que começou em Si mesmo, prossegue-o na sua Igreja, de modo que a vida divina que lhe comunica, e que tão gloriosa é para Deus seu Pai, não terá fim na eternidade. Ele deseja que toda a Terra esteja cheia de fogo, pois enviou-o cá para baixo com o único fim de que esse fogo devore o mundo […].
Não há nada melhor, nem que dê mais descanso e consolo à alma, do que ser arrebatada para fora de si mesma por Jesus Cristo e pelo seu Espírito divino, que, para tal, não precisa do carro de fogo de Elias (cf 2Rs 2,11), pois nos eleva da Terra ao Céu pelo seu próprio poder, e do fundo de nós mesmos nos transporta para o seio de Deus. E eu seria infiel a Jesus se não pressionasse incessantemente a vossa alma, a fim de impedir que ela descanse, um momento que seja, voltada para si mesma. (Jean-Jacques Olier (1608-1657), fundador dos padres de São Sulpício, Leituras espirituais, 44).
http://www.liturgia.diocesedeviseu.pt/
Avisos Unidade Pastoral das P. de Fornos de Algodres, Cortiçô, Casal Vasco, Infias, Vila Chã e Algodres
De 17 a 24 de Agosto







