Avisos e Liturgia do XXIV Domingo Tempo Comum – ano A
Neste Domingo, a Palavra de Deus fala-nos do perdão, como complemento da correcção fraterna, a qual reflectimos no pretérito Domingo. Na primeira leitura, já a sabedoria judaica advertia que é necessário perdoar aos outros o mal que nos fazem, porque, assim, Deus perdoará os nossos erros quando lhe pedirmos. Só Deus pode e deve julgar, e o seu juízo será sempre um juízo de misericórdia e justiça, ao contrário do nosso. O salmo 102 recorda-nos a essência do nosso Deus: “o Senhor é clemente e compassivo, paciente e cheio de bondade”. Uma conduta que devemos imitar. No evangelho, depois da pergunta de Pedro a Jesus, “Se o meu irmão me ofender, quantas vezes deverei perdoar-lhe?”, a resposta de Jesus, “não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete”, marca o procedimento que nos é proposto, ilustrado, como exemplo, com uma parábola. Depois do diálogo entre Pedro e Jesus e a referência ao número sete como perfeição, Mateus coloca na boca de Jesus a expressão “setenta vezes sete”, citando o livro do Génesis (4,24), onde se diz: “Se Caim foi vingado sete vezes, Lamec sê-lo-á setenta vezes sete”. Porém, Jesus apresenta um perdão sem limites e conta uma parábola muito simples, exclusiva do evangelista Mateus. Na parábola, há uma grande diferença entre a dívida do funcionário ao seu senhor e as dívidas dos seus colegas a si próprio, revelando, assim, o nosso desejo de que sejam tolerantes connosco, enquanto somos exigentes com os outros; que Deus perdoe sempre os nossos erros, enquanto que somos inflexíveis, às vezes vingativos, com os erros dos outros. O grande erro de Pedro, que pode ser o nosso, foi pensar que o perdão era uma questão de quantidade, mas o perdão, como qualquer virtude e dom, é uma questão de qualidade; ou é, ou não é. Perdoar é algo que não goza, hoje, de muita simpatia na sociedade actual, nas famílias e em alguns grupos de pessoas e de relações. Não é fácil perdoar; exige muito trabalho interior. Perdoar é revelar riqueza e liberdade interior. Perdoar não significa ignorar as coisas, nem justificar as injustiças, nem perder a própria dignidade. Perdoar é uma atitude dinâmica do nosso espírito. De vez quando, ouve-se esta frase: “perdoo, mas não esqueço”. Quando alguém foi injustamente defraudado, ou recebeu um duro golpe contra a sua dignidade, é lógico que, psicologicamente, fique uma mágoa, difícil de esquecer. Mas uma coisa é a memória psicológica e outra é a vontade de vingança, quando houver oportunidade. A pessoa que não cultiva o esquecimento e a sublimação será sempre vítima das suas memórias, boas ou más. O perdão é a melhor expressão da acção de Deus. Perdoar é transbordar a nossa generosidade e amor, à maneira e ao jeito de Deus. Que a Palavra de Deus, deste domingo, nos ajude a rezar o Pai-Nosso com coerência: “perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”.
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LEITURA ESPIRITUAL
«Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete»
Cristo sublinha com insistência a necessidade de perdoar aos outros. Quando Pedro Lhe perguntou quantas vezes devia perdoar ao próximo, apontou-lhe o número simbólico de «setenta vezes sete», querendo desta forma indicar-lhe que deveria saber perdoar sempre a todos e a cada um. É evidente que a generosa exigência de perdoar não anula as exigências objectivas da justiça. A justiça bem entendida constitui, por assim dizer, a finalidade do perdão. Em nenhuma passagem do Evangelho o perdão, ou mesmo a misericórdia como sua fonte, significam indulgência para com o mal, o escândalo, a injúria causada, ou os ultrajes. Em todos estes casos, a reparação do mal ou do escândalo, a compensação do prejuízo causado e a satisfação da ofensa são condição do perdão. A misericórdia tem, no entanto, o condão de conferir à justiça um conteúdo novo, que se exprime do modo mais simples e pleno no perdão. O perdão manifesta que, além do processo característico da justiça, é necessário o amor para que o homem se afirme como tal. O cumprimento das condições da justiça é indispensável, sobretudo, para que o amor possa revelar a sua própria fisionomia. Com razão considera a Igreja seu dever e objectivo da sua missão assegurar a autenticidade do perdão. (São João Paulo II, 1920-2005, Encíclica «Dives in misericordia», 14).






