Liturgia do Domingo VII do Tempo Comum – ano C
Grandes e fundamentais conselhos de Jesus encontramos no texto evangélico deste Domingo! “Sede misericordiosos como o vosso Pai é misericordioso. Não julgueis e não sereis julgados. Não condeneis e não sereis condenados. Perdoai e sereis perdoados. Dai e dar-se-vos-á”. Destas últimas palavras do evangelho deste Domingo, deve partir a nossa reflexão. Jesus pede-nos para sermos misericordiosos, ao mesmo tempo que nos revela um dado essencial de Deus: Ele, nosso Pai, é misericordioso. Com este jogo de palavras, Jesus deixa claro que tudo o que fizermos em favor dos nossos irmãos, Deus, nosso Pai, nos retribuirá da mesma forma. Nós somos cristãos porque seguimos Jesus e celebramos, em comunidade, a paixão, a morte e a ressurreição de Jesus. Mas os nossos irmãos conhecem-nos como cristãos pela nossa forma de agir e de amar. Neste Domingo vamos colocar a nossa atenção nas nossas relações com os outros, mesmo até com aqueles que não nos apreciam. A primeira afirmação de Jesus neste domingo deixa-nos confusos, apesar de ser uma frase bem conhecida de todos: “Amai os vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam”. De fato, é um pedido muito difícil. Será que a palavra “inimigo” é excessiva no nosso contexto, porque as nossas relações procuram ser educadas e com respeito? Em primeiro lugar, temos de pensar se na nossa vida temos inimigos, porque, às vezes, vemos fantasmas, onde nada existe. Em segundo lugar, consultemos o dicionário para encontrar a definição da palavra “inimigo”. O primeiro significado desta palavra é hostil, contrário, adverso. O segundo significado é adversário numa guerra. Por vezes, pensamos que o inimigo é aquele que não tem qualquer afinidade connosco, não porque nos queira fazer mal, mas porque simplesmente não nos agrada. Então, como podemos amar os nossos inimigos? Jesus não nos pede passividade nem neutralidade. Pede-nos para fazer o bem àqueles que nos querem mal. Assim, vai contra os nossos esquemas! E apresenta-nos a forma de o fazer, com acções concretas. Não se trata, portanto, de um discurso genérico e abstracto, mas de estabelecer vínculos de afecto com todos os nossos irmãos. Esta é a receita se queremos ser discípulos de Jesus Cristo e se queremos ser conhecidos como cristãos: fazer o bem aos que nos odeiam, abençoar os que nos amaldiçoam, rezar por aqueles que nos ofendem. É muito fácil amar os que nos amam. Mas é preciso fazer mais: é preciso mudar o mundo, continuar a construção do Reino de Deus, com pequenas, simples e silenciosas mudanças; é preciso colocar de lado o nosso medo dos outros e a nossa violência para com eles, sobretudo para com aqueles que nos feriram. Se a violência não gera uma resposta violenta, começa a perder a sua força, porque não recebe contestação. Assim podemos contribuir para que a paz e a concórdia reine um pouco mais nos nossos dias.
LEITURA ESPIRITUAL
«Sede misericordiosos, como o vosso Pai é misericordioso.»
Se a nossa caridade fosse acompanhada de compaixão e de pena, não daríamos tanta atenção aos defeitos do próximo, de acordo com aquela palavra que diz: «A caridade cobre uma multidão de pecados» (1Pd 4,8). Por isso, se tivéssemos caridade, essa mesma caridade cobriria todas as faltas e nós seríamos como os santos quando vêem os defeitos dos homens. Quer dizer que os santos são cegos a ponto de não verem os pecados? Mas haverá quem deteste tanto o pecado como os santos? E, contudo, eles não odeiam o pecador, não o julgam, não o evitam. Pelo contrário, compadecem-se dele, exortam-no, consolam-no, tratam-no como a um membro doente; fazem tudo para o salvar. Quando uma mãe tem um filho deficiente, não se afasta dele com horror, mas tem gosto em vesti-lo bem e em tudo fazer para o embelezar. É dessa maneira que os santos protegem sempre os pecadores e se ocupam deles para os corrigirem no momento oportuno, para os impedirem de prejudicar outrem e, assim, progredirem eles próprios na caridade de Cristo. Adquiramos, pois, também nós, a caridade; adquiramos a misericórdia para com o próximo, para nos defendermos da terrível maledicência, do julgamento e do desprezo. Prestemos socorro uns aos outros, como se fossem os nossos próprios membros. Porque «somos membros uns dos outros», diz o apóstolo Paulo (Rm 12,5); ora, «se um membro sofre, todos os membros sofrem com ele» (1Cor 12,27). Numa palavra, tende cuidado, cada qual à sua maneira, de permanecer unidos uns aos outros. Porque, quanto mais unido se está ao próximo, tanto mais se está unido a Deus. (Doroteu de Gaza, c. 500-?, monge na Palestina, Instruções, IV, 76).
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