Rewilding Portugal realiza primeira reintrodução de coelho-bravo em área rewilding
A Rewilding Portugal realizou a primeira reintrodução de coelho-bravo (Oryctolagus cuniculus algirus) numa das suas áreas rewilding, marcando mais um passo na recuperação dos ecossistemas e das presas no Grande Vale do Côa. A ação decorreu na área rewilding do Ermo das Águias, no âmbito do projeto LIFE LUPI LYNX, que pretende criar as condições ecológicas necessárias para a expansão do lobo-ibérico e do lince-ibérico em Portugal.
Ao todo, foram reintroduzidos 17 coelhos-bravos, distribuídos por três marouços artificiais construídos especificamente para este fim. Cada marouço recebeu um pequeno grupo reprodutor, composto por quatro a cinco fêmeas e um macho, criando núcleos de elevada densidade que permitem às populações estabelecerem-se nas
melhores condições possíveis. Estes marouços artificiais encontram-se protegidos por vedação eletrificada que impedem o acesso de predadores e disponibilizam alimento, água e abrigo. O objetivo é permitir que os animais se adaptem ao território e se reproduzam em segurança durante a fase inicial antes de serem libertados. À medida
que a população aumenta, os coelhos começam gradualmente a sair das vedações e a colonizar naturalmente a área rewilding envolvente, passando a sobreviver de forma autónoma.
Esta abordagem representa uma estratégia baseada nas melhores práticas conhecidas na Península Ibérica para acelerar a recuperação de uma espécie-chave dos ecossistemas mediterrânicos. O coelho-bravo constitui a principal presa do lince-ibérico e da Águia- imperial-ibérica, e é também uma importante fonte de alimento para mais de 20 outrospredadores ibéricos, incluindo o lobo-ibérico, pelo que o reforço das suas populações é
essencial para restaurar as cadeias ecológicas e promover o regresso de grandes predadores.
A seleção da área do Ermo das Águias foi feita após a confirmação da ausência de
populações de coelho-bravo no local, tanto pela equipa de biólogos com base em
monitorizações no terreno, como por relatos de antigos caçadores, permitindo criar um
núcleo populacional onde recentemente a espécie estava ausente. Esta área tem vindo a
beneficiar de várias ações de rewilding ao longo dos últimos anos, incluindo o pastoreio
natural por cavalos Sorraia e Tauros, contribuindo para a recuperação dos habitats e
criando condições cada vez mais favoráveis para a biodiversidade.
Um trabalho que começa muito antes da libertação
Os animais libertados resultam de um trabalho mais alargado desenvolvido pela
Rewilding Portugal no âmbito do projeto LIFE LUPI LYNX e que incluiu a aquisição
de um cercado de reprodução, uma infraestrutura dedicada à criação de coelhos-bravos
para futuras ações de reforço populacional. Este cercado, localizado fora das áreas
rewilding, permite produzir animais destinados a projetos de restauro ecológico e
constitui uma peça fundamental da estratégia de recuperação da espécie.
Paralelamente, a organização procura expandir esta capacidade através da criação de
novos cercados de reprodução em parceria com municípios, associações de caça e
outros proprietários, aumentando assim a produção de animais para futuras
intervenções. Esta diversificação facilita o aumento da diversidade genética nos coelhos
usados, tendo várias fontes de animais, garantindo uma maior robustez genética das
populações.
A Rewilding Portugal apoia igualmente outras entidades na realização de ações
semelhantes nas suas propriedades, contribuindo para a recuperação do coelho-bravo à
escala da paisagem e reforçando a disponibilidade desta espécie em territórios
prioritários para o lobo e o lince.
Próximos passos
Após esta primeira reintrodução, a equipa continuará a monitorizar a evolução das
populações no Ermo das Águias. Está igualmente prevista uma nova ação de reforço na
área rewilding do Paul de Toirões, onde estão atualmente a ser preparados novos
marouços artificiais para receber futuros grupos reprodutores.
Embora já tenham sido registados indivíduos dispersantes de lince-ibérico no distrito de
Castelo Branco, ainda não existem populações estabelecidas na região. Atualmente, as
populações reprodutoras mais próximas encontram-se no Alentejo, estando a espécie a
expandir lentamente a sua distribuição natural para norte.
A disponibilidade de coelho-bravo será um dos fatores determinantes para que essa
expansão possa resultar, no futuro, no estabelecimento de populações permanentes no
Grande Vale do Côa. É precisamente esse o objetivo destas ações: criar hoje as
condições necessárias para que espécies emblemáticas como o lince-ibérico e o lobo-
ibérico possam voltar a ocupar este território.
O reforço populacional agora realizado contribui diretamente para os objetivos do
projeto LIFE LUPI LYNX, sucessor do LIFE WolFlux, que pretende aumentar a
disponibilidade de habitat e de presas em mais de 16 mil hectares de território prioritário
para a conservação destas duas espécies.
Uma espécie cada vez mais relevante para a conservação
A importância deste trabalho ganha ainda maior significado à luz dos mais recentes
avanços científicos. Recentemente, uma equipa internacional de investigadores
defendeu que o coelho-ibérico (Oryctolagus algirus) deve ser reconhecido como uma espécie distinta do coelho-europeu (Oryctolagus cuniculus), reforçando a singularidade deste importante elemento da biodiversidade da Península Ibérica.
Embora esta proposta científica ainda aguarde validação pelas autoridades taxonómicas internacionais, os investigadores consideram que o reconhecimento desta distinção permitirá refletir melhor o estado de conservação do coelho-ibérico e orientar estratégias de gestão e conservação mais adequadas.
Caso venha a ser oficialmente reconhecida, esta reclassificação atribuirá ainda maior
relevância a iniciativas como a desenvolvida pela Rewilding Portugal no âmbito do
LIFE LUPI LYNX, que contribuem para a recuperação de uma espécie-chave dos
ecossistemas mediterrânicos e para a criação das condições necessárias ao regresso do
lince-ibérico e ao reforço das populações de lobo-ibérico no Grande Vale do Côa.





