Avisos e Liturgia do XXXIV Domingo do TEMPO COMUM – ano C

CRISTO-REI
Temos de ser muito cuidadosos quando afirmamos que Jesus Cristo é rei, o Rei do universo. Na Bíblia, a figura dos reis não é excessivamente gloriosa, e o próprio rei David, não seria um bom exemplo a seguir em todos os aspectos da sua vida. Na primeira leitura encontramos esta frase: “Tu apascentarás o meu povo de Israel”, o que nos convida a senti-la como dirigida a nós, em função da nossa condição real recebida no baptismo. Por causa desta nossa condição real, todos os nossos irmãos nos são confiados para que deles cuidemos. Por isso, temos de ser cidadãos preocupados com a sociedade, não só com o que se refere à política, mas também com tudo o que se refere àqueles que nos rodeiam e com todos os que vivem neste mundo, ou seja, temos de cuidar da Criação. A figura do pastor é utilizada, muitas vezes, na Bíblia como metáfora para designar os governantes, aqueles que têm a missão de cuidar e de orientar o povo. Porém, sabemos que nem sempre é assim, porque nem sempre cumprem com eficácia e amor a sua missão e, pior ainda, dispersam e desorientam o rebanho, actuando de maneira insensata. Estes pastores governam-se a si mesmos. Deus decide que Ele mesmo será o pastor do povo, congregando-o, protegendo-o, pastoreando-o e enviando verdadeiros pastores: “Dar-vos-ei pastores segundo o meu coração, que vos conduzirão com inteligência e sabedoria” (Jr 3,15). Assim, afirmamos que um rei é um pastor segundo o coração de Deus.
Ser pastor do povo é a missão de cada cristão, mas ao estilo de Jesus Cristo, exercendo a sua condição real com mansidão, sendo Bom Pastor como Ele. Um Pastor que procura a ovelha perdida, que conhece as ovelhas pelo nome. Jesus Cristo não quis ser um rei como os outros, não governa como os reis da terra, servindo-se dos súbditos. Jesus é um rei que serve o seu povo. A realeza de Jesus Cristo manifesta-se, de maneira surpreendente, no madeiro da cruz. É pregado na cruz que diz que a sua realiza consiste na entrega aos outros. É na cruz que se revela como Messias, como Cristo, como Ungido para levar até ao fim o plano da salvação da humanidade que o Pai lhe confiou. É na cruz que Ele nos pede que O imitemos na sua entrega, como expressão da sua amizade, porque foi Ele que nos escolheu para reinar com Ele. Na segunda carta a Timóteo, São Paulo diz o que consiste em morrer e reinar a partir da cruz: “Tudo suporto pelos eleitos…se com Ele morrermos, também com Ele viveremos. Se nos mantivermos firmes, reinaremos com Ele” (2 Tm 2, 10-12). Se vivermos o Evangelho, suportando a dor que por vezes surge, reinaremos com Ele.
Enche o nosso coração a frase de Jesus ao bom ladrão: “Hoje, estarás comigo no Paraíso”. Talvez, Jesus tenha dito “no meu paraíso”, porque o paraíso de Jesus é o do amor sem medida e sem condições. Os reis da terra imaginam, certamente, outro paraíso: o poder, a riqueza, as comodidades, o bem-estar. Mas Jesus reina a partir da cruz. As autoridades, os soldados e o mau ladrão não estavam interessados num reino à maneira de Jesus. E nós, estamos ou não interessados? Só o criminoso, que estava consciente do mal que tinha feito, conseguiu ver Jesus como Messias que reina a partir da cruz; até se dirigiu a Jesus, chamando-O pelo nome: “Jesus, lembra-Te de mim”.
Em todo o Evangelho, aparecem tantos pedidos feitos a Jesus. Talvez o pedido do bom ladrão seja o mais impressionante. Às portas da morte, o pedido é ir para Deus: “lembra-Te de mim, quando vieres com a tua realeza”. Todos nós sabemos a resposta: “Hoje estarás comigo no Paraíso”; é a promessa do Reino, do paraíso. Assumindo a consciência das nossas fragilidades e do nosso pecado, façamos o mesmo pedido do bom ladrão: “Jesus, lembra-te de mim…”. Jesus, o Juiz e Rei do Universo, julga-nos com amor e pelo amor: por amor nos criou, por amor nos salva.
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LEITURA ESPIRITUAL
«Quando vieres com a tua realeza»
Abriu-se hoje para nós o paraíso, fechado há milhares de anos; neste dia, nesta hora, Deus introduziu nele o ladrão. Realizou assim duas maravilhas: abriu-nos o paraíso e fez entrar nele um ladrão. Hoje, Deus devolveu-nos a nossa pátria, reconduziu-nos à cidade dos nossos pais, abriu uma morada comum a toda a humanidade. «Hoje estarás comigo no Paraíso». Que dizes, Senhor? Estás crucificado, cravado com pregos, e prometes o Paraíso? Sim, diz Ele, para que, pela cruz, conheças o meu poder.
Não foi por ressuscitar um morto, por dominar o mar e o vento nem por expulsar os demónios que Ele conseguiu transformar a alma pecadora do ladrão, mas por ter sido crucificado, preso com pregos, coberto de insultos, de escarros, de troças e de ultrajes, para que tu conhecesses os dois aspectos do seu poder soberano: Ele fez tremer a criação e fendeu os rochedos (Mt 27,51); e atraiu a Si a alma do ladrão, mais dura do que a pedra, revestindo-a de honra. Jamais rei algum permitiria, ao entrar soberanamente na cidade do seu reino, que um ladrão ou qualquer outro súbdito se sentasse a seu lado. Mas Cristo fê-lo: ao entrar na sua santa pátria, levou consigo um ladrão.
Agindo deste modo, não a desonra com a presença de um ladrão; bem pelo contrário, honra o Paraíso, porque é uma glória para o Paraíso que o seu Senhor torne um ladrão digno das delícias que ali se saboreiam. De igual modo, quando faz entrar os cobradores de impostos e as meretrizes no Reino dos Céus (Mt 21,31), fá-lo para glória desse lugar santo, mostrando assim que o Senhor do Reino dos Céus é tão grande que pode restituir a dignidade às meretrizes e aos cobradores de impostos, de maneira que estes se tornam merecedores de tal honra e de tal dom.
Admiramos um médico quando o vemos curar homens que padecem de doenças consideradas incuráveis. É, portanto, justo que admiremos a Cristo quando O vemos devolver aos cobradores de impostos e às meretrizes tal santidade espiritual que se tornam dignos do Céu. (São João Crisóstomo, c. 345-407, presbítero de Antioquia, bispo de Constantinopla, doutor da Igreja, Homilia 1 sobre a cruz e o ladrão, para Sexta-feira Santa, 2; PG 49, 401).


