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Artigo de opinião de Luís Condeço- Há 105 anos uma vacina mudava o mundo

Artigo de opinião de Luís Condeço- Há 105 anos uma vacina mudava o mundo

Há 105 anos uma vacina mudava o mundo

Paris, 1 de julho de 1921. Os cientistas franceses Léon Calmette e Camille Guérin (médico e veterinário, respetivamente) anunciavam à Academia Francesa de Medicina o resultado de treze anos de trabalho e após mais de duzentas e trinta tentativas, uma vacina capaz de proteger contra a tuberculose. Os investigadores do Instituto Pasteur, batizaram-na com as suas próprias iniciais (BCG – Bacille bilié de Calmette et Guérin), e sem o saberem, acabavam de mudar o curso da história da saúde pública.

Mas para compreender o que aquela descoberta significava, é preciso recuar um pouco e imaginar o que era viver com a tuberculose à “espreita em cada esquina”.

No início do século XX, a tuberculose além de uma doença, era um flagelo social, um espelho das desigualdades, uma sentença de morte para os mais vulneráveis. Os europeus do século XVIII chamaram-lhe “peste branca“, pela palidez visível nos doentes. Na época a realidade era cruel, famílias inteiras partilhavam quartos sem ventilação, o analfabetismo era generalizado e as condições de trabalho, miseráveis. A tuberculose prosperava nessa mescla de pobreza e sobrelotação. Ceifou a vida a escritores como Júlio Dinis, Cesário Verde e António Nobre, mas também de anónimos.

Em 1899, a Rainha D. Amélia de Orleans e Bragança fundou a Assistência Nacional aos Tuberculosos, numa tentativa pioneira de organizar o combate a esta epidemia silenciosa que consumia o país, e para a qual não havia tratamento específico. Prescrevia-se “ar puro da montanha“, repouso, e boa alimentação (a famosa tríade de Bremer), prerrogativas de quem tinha posses. Para os pobres, restava aguardar.

A vacina da BCG não surgiu do acaso, mas sim da “teimosia científica”  de Calmette e Guérin, que a partir da bactéria da tuberculose bovina (Mycobacterium bovis) conseguiram obterem uma estirpe capaz de estimular o sistema imunitário humano sem provocar doença. Em 1921, a primeira dose foi administrada a um recém-nascido cuja mãe havia morrido de tuberculose. Havia esperança!

Nas décadas seguintes, a BCG espalhou-se em Portugal e pelo mundo, mais tarde foi integrada no Programa Nacional de Vacinação e passou a ser administrada sistematicamente a todos os recém-nascidos. O seu impacto foi profundo, estimando-se uma eficácia de proteção de 80% contra as formas mais graves da doença (tuberculose meníngea e tuberculose miliar). Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), nos países onde a BCG integra o calendário vacinal infantil, evitam-se anualmente mais de 40 mil casos de tuberculose meníngea.

A eficácia de uma vacina mede-se pela proteção que confere àqueles que, por razões clínicas ou de idade, não podem ser vacinados. A este fenómeno chamamos imunidade de grupo, quando uma proporção suficientemente elevada da população está protegida, o agente infecioso encontra poucos hospedeiros e a transmissão reduz-se ou cessa. Vacinar é, acima de tudo, um ato de cidadania.

O Relatório Anual do Programa Nacional de Vacinação da Direção-Geral da Saúde (2024), evidencia que 98%-99% das crianças portuguesas estão vacinadas com todas as vacinas e doses previstas no final do primeiro ano de vida.

Os dados mais recentes, confirmam uma tendência de descida, em 2024 foram registados 1.536 casos em Portugal (14,3 casos por 100 mil habitantes), o valor mais baixo de sempre. As mortes por tuberculose tiveram uma redução de quase 70% face aos valores de 2015, não se registando qualquer óbito entre crianças e adolescentes.

Desde 1 de janeiro de 2017, a BCG deixou de ser administrada universalmente a todos os recém-nascidos em Portugal. Esta decisão,  seguiu as recomendações da OMS e do Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças, pois a incidência de tuberculose desceu abaixo do limiar crítico, passando-se para uma vacinação seletiva, dirigida aos grupos com maior risco de exposição. Como as crianças com menos de seis anos que pertencem a famílias com risco acrescido de tuberculose, que residem em comunidades com taxas de incidência superiores à média nacional, ou que vão viver ou visitar durante períodos prolongados países com elevada prevalência da doença.

Cento e cinco anos depois, a BCG continua a ser uma das vacinas mais antigas em uso clínico e uma das ferramentas mais valiosas da saúde pública global. Em tempos de hesitação vacinal crescente um pouco por toda a Europa, o modelo português é uma referência que deve ser celebrada e preservada.

Autor

Luís Miguel Condeço

Professor na Escola Superior de Saúde de Viseu