Artigo de Opinião de Augusto Falcão—Ainda o 10 de março
Na passada edição escrevi acerca do voto, e de como nomes sonantes que ficaram gravados nos anais da nossa história mundial se bateram e alguns, pagaram o preço mais alto pela liberdade.
Quando falo disto, ficam-me sempre na ideia as palavras que um dia Abraham Lincoln escreveu em carta à Sra. Bixby, que tinha perdido 3 filhos na Guerra Civil Americana.
Hoje transcrevo, mais uma vez essas palavras: “Rogo ao Pai do Céu, que possa aplacar a angústia da sua perda, e que lhe deixe, as afetuosas memórias dos seus entes queridos e agora perdidos, e o orgulho solene que deve sentir por ter depositado um tão grande sacrifício no altar da Liberdade” (tradução livre).
Ao longo da nossa história muitos foram aqueles que lutaram pelos valores que hoje comungamos enquanto nação; e que ao longo da história pagaram o preço mais alto pela sociedade, embora sempre imperfeita, hoje temos.
Por isso hoje, vou-vos contar a história de Fernando dos Reis, Fernando Gesteira, José Arruda e José Barneto.
Sim, 4 homens, cujo nomes, com grande probabilidade nenhum dos nossos leitores conhece. 4 homens que um dia tombaram sob as balas dos defensores da ditadura.
Fernando dos Reis, segundo o Museu do Aljube, era filho de Alice e Luís Reis, nasceu a 16 de novembro de 1950 em Arranhó, Arruda dos Vinhos. Com 11 anos, entrou para a Casa Pia, onde estudou até 1967.
Pouco se sabe sobre a vida de Fernando Reis, exceto que, era soldado da 1.a Companhia Disciplinar de Penamacor, unidade historicamente utlizada pelo Estado Novo para punir militares e elementos da oposição acusados de indisciplina.
Fernando Gesteira, era o mais novo de todos, e era natural de Vreia de Jales, Vila Pouca de Aguiar, Trás-os-Montes, e trabalhava num escritório na capital, tinha acabado de atingir a maioridade; tinha vindo para a capital para fugir a uma vida nas minas onde o seu pai trabalhava.
José Arruda, nasceu a 13 de janeiro de 1954 na Ilha de São Miguel, nos Açores; estudou na universidade católica em Braga, e terá estado ligado ao PCP e outro movimento de esquerda.
José Barneto, nasceu em 1935 em Vendas Novas, no Alentejo; Cresceu nos Olivais, em Lisboa, vivia com a mulher e os quatro filhos em Benfica e era escriturário no Grémio Nacional dos Industriais de Confeitaria.
Estes 4 homens, no dia 25 de abril, por entre notícias e emissões de rádio, acerca da Revolução dos Cravos, andavam pelas ruas de Lisboa. Tal como muitos portugueses, nesse dia, saboreavam os primeiros momentos de liberdade após décadas de ditadura do Estado Novo.
Já Marcelo Caetano se tinha rendido, no Quartel do Carmo, uma multidão, ao fim do dia, dirige-se para o edifício sede de um dos símbolos mais horrendos do regime deposto. Na rua António Maria Cardoso, era a sede da PIDE – DGS, a ferramenta de opressão do Estado Novo; aquela que usava a prisão arbitrária e a tortura como arma para defender o regime político em Portugal.
E estes 4 homens, embalados pelo cheiro da liberdade, que os cravos nos canos das armas dos militares exalavam, dirigiram-se no meio da multidão, para a sede deste símbolo de terror.
Os agentes da PIDE, cercados, e sem hipótese de fuga, com medo da multidão, abriram fogo, sobre; por entre gritos de terror e medo, feridos, 4 homens caem no chão, mortos pelas balas da PIDE; estes 4 homens são os descritos acima; mortos pela ditadura que acabara de cair, movidos pelo sentimento de liberdade porque se moveram conscientes de serem livres, de qualquer medo.
Estes são os únicos portugueses que tombaram na revolução de abril, esquecidos das páginas da história, relembrados apenas no Museu do Aljube. Os únicos que perderam a vida, no dia em que Portugal reconquistou a liberdade, e se livrou dos grilhões da tirania da ditadura.
O seu sangue merece ser honrado; a sua morte celebrada; são heróis esquecidos da nossa revolução pura e livre de sangue, que nos devolveu o direito de “apesar não concordarmos com o que outros dizem, defenderemos o direito de o dizerem até a morte”; são aqueles que em nome dos cravos da revolução. Não estão no Panteão, mas devem estar na nossa memória coletiva.
São os heróis esquecidos, entre muitos outros, como maior ou menor importância, que nos devolveram a democracia, a liberdade. Devemos honrar a sua memória votando. Seja no que for, em quem for… mas votando. Em liberdade e em democracia….
Augusto Falcão





