Artigo de Opinião de Luís Miguel Condeço— Fado de Estudante
Houve um tempo em que o estudante português cabia quase inteiro numa canção, apresentado como irreverente, boémio, despreocupado e romântico. O “Fado do estudante” imortalizado por Vasco Santana, evocava uma juventude leve, com tempo para errar, experimentar e sonhar. Mas o estudante de hoje já não vive apenas entre livros, amigos e exames. Vive também entre prestações, rendas, plataformas digitais, ansiedade de desempenho e um país que continua a proclamar o papel da educação, sem muitas vezes garantir condições iguais para aprender. E talvez seja essa a verdadeira ironia do Dia Nacional do Estudante, assinalado desde 24 de março de 1987, que carrega a memória das lutas estudantis, do direito à educação e à liberdade, mas que continua a ignorar a sua vida real.
É verdade que Portugal tem razões para se orgulhar do seu percurso educativo, e prova disso é a taxa de abandono escolar, que caiu de 20,5% em 2012 para 6,1% em 2025. Ao mesmo tempo, a taxa real de escolarização no ensino secundário atingiu 90,0% em 2024, um valor muito distante do país de há duas ou três décadas (49,1% em 1994). Estes números mostram progresso, e seria intelectualmente desonesto negá-lo.
O relatório PISA (Programme for International Student Assessment) realizado a cada três anos pela OCDE, que avalia competências de leitura, matemática e ciências em estudantes de 15 anos, confirma que o sistema educativo português não está parado. Dados do último relatório (2022), indicam que Portugal situa-se próximo da média na matemática, leitura e ciências. E os estudantes portugueses apresentam um domínio do pensamento criativo, significativamente acima da média da OCDE, ocupando o 12.º lugar entre 64 países participantes.
Mas apesar de grande parte dos indicadores internacionais melhorarem significativamente, continuamos a falhar com muitos dos nossos estudantes. Os relatórios do Instituto de Avaliação Educativa mostram que o estatuto socioeconómico continua a pesar fortemente no desempenho escolar, apresentando os estudantes mais desfavorecidos, maior dificuldade nas ciências, leitura e literacia financeira.
Quando olhamos para o ensino superior, o retrato adensa-se. No ensino público, a propina máxima (para os cursos de licenciatura) mantém-se nos 697 euros no presente ano letivo, a bolsa mínima nos 871,35 euros e o complemento de alojamento fora de residência nos 220 euros por mês, ainda que majorado em zonas de maior pressão imobiliária. São apoios importantes, sem dúvida, mas insuficientes perante a realidade do custo de vida e do mercado de arrendamento. O próprio Estado reconheceu o problema ao financiar 15 mil camas até 2026 através do PRR, num quadro em que a oferta existente apoiava apenas uma pequena fração (cerca de 10%) dos estudantes com necessidade de alojamento.
A preocupação cresce, quando o mérito académico depende excessivamente da carteira da família, da possibilidade de pagar quarto, transportes, alimentação e propinas, ou da sorte de conseguir vaga numa residência. Falamos de igualdade de oportunidades com demasiada facilidade, num país onde estudar longe de casa, é para muitos um ato de resistência económica.
Novos tempos trazem novos desafios, e o PISA 2025 coloca uma ênfase renovada na capacidade de investigar, avaliar e usar informação científica para decidir e agir, pois vivemos num Mundo saturado de informação, desinformação e aparente evidência. As instituições europeias alertam por isso, para uma literacia em inteligência artificial que não pode ser apenas técnica, mas que deve incluir pensamento crítico, compreensão dos impactos humanos e privacidade de dados.
A inteligência artificial pode personalizar aprendizagens e libertar tempo pedagógico, mas não pode transformar-se num atalho para desaprender a pensar. Estudos recentes evidenciam que a perceção da inteligência artificial generativa ainda é limitada nos estudantes portugueses, utilizando-se sobretudo em tarefas escolares e geração de texto, ainda que 21,5% dos alunos afirmem nunca a terem utilizado. A tecnologia em si, não será um problema, mas sim a desigualdade no acesso, a ausência de orientação e a tentação de trocar formação por automatismo.
Talvez a homenagem mais séria aos nossos estudantes, não seja a retórica habitual sobre o futuro, mas uma pergunta simples: que país estamos realmente a oferecer a quem estuda? Um país de reconhecimento ou rankings.
Temos de garantir condições materiais, justiça social e inteligência pedagógica, se não, o fado de estudante deixará de ser memória cultural para passar a ser diagnóstico nacional.




