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Artigo Literário de António Vilela

Artigo Literário de António Vilela

Moby Dick

 

Se me perguntassem qual o livro que mais me marcou nos primeiros anos de leitura, eu responderia sem hesitar que este livro é Moby Dick.

Todos conhecem – mesmo os que não leram o romance do novaiorquino Herman Melville – a história da baleia branca: a luta entre ela e o capitão Acab, que dura três dias, onde a baleia triunfa, restando apenas Ismael, para contar a história. Dizem os estudiosos da obra de Melville que ao escrever esta aventura no mar a intenção do autor era pôr em símbolos o eterno conflito entre o Homem e seu Destino – assim como Beethoven o pôs na sua Quinta Sinfonia – a baleia em Melvijlle representando o Mal infinito do Universo e o capitão Acab a vontade do Homem que se opõe a essas forças.

Eu, todavia, como leitor crítico, acredito que Moby Dick transcende toda a alegoria ou interpretações de símbolos; na sua impiedosa ferocidade a baleia branca é uma COISA em si; coisa que não acontece ao Pequeno Príncipe.

A criança que lê o drama da fera no mar e não entende de símbolos e nem de interpretações profundas, sente esta grandeza com toda a força, apenas na sua representação física e material.

Mas Moby Dick é também a Eterna Fera do Sistema, os impostos e dívidas do trabalhador comum que somos, o Sistema que julga K em o Processo de Kafka, o sistema que aniquila O Estrangeiro de Camus e o doente do Subterrâneo de Dostoievski; é também a Natureza descontrolada pelo próprio Homem que a enfrenta como herói. Um duelo, como vemos a cada instante no dia-a-dia, entre duas forças antagónicas, nos convencendo de que nem a vastidão dos setes mares será capaz de os exaurir.

E a baleia continua a nadar pelo oceano misterioso… e quanto ao príncipe… bem… o espaço sideral nunca foi, para mim, uma boa morada.

 

António Vilela