Avisos e Liturgia do III Domingo do Advento- ano A
Ao terceiro Domingo do Advento, é dado, já há alguns séculos, o nome do Domingo da alegria, o qual está muito bem atribuído. Falta já pouco tempo para as festas natalícias, mas os enfeites e melodias que se ouvem nas ruas e nas nossas casas vão já antecipando o ambiente festivo. Faltam poucos dias, mas são suficientes para tomar consciência do que iremos celebrar, porque há cristãos que, pouco a pouco, se deixam influenciar por uma imagem de Natal que não é muito própria de alguém que acredita em Deus.
Se nas últimas duas semanas reflectíamos e rezávamos com o nosso pensamento orientado para o futuro, nestes dias começamos a olhar para o que aconteceu em Belém. O nascimento de Jesus marcou um antes e um depois na História. Deus fez-se menino, assumiu a fraqueza humana. E isto é motivo de grande alegria. Mas há mais! Ao fazer-se um de nós, fez-nos um pouco divinos. Isto não é fábula, é a realidade! Para Deus, nada do que é nosso lhe é estranho e, ao assumir a nossa condição, assume toda a nossa realidade: a boa e a má e, depois, fará justiça. Como afirma Santo Ireneu: “A glória de Deus é o homem vivo. Por causa do seu amor infinito, Cristo tornou-se naquilo que nós somos, para fazer plenamente de nós aquilo que ele é”.
Quantas pessoas vivem situações que não provocaram, que não queriam, das quais não são responsáveis por elas existirem! Recordemos as vítimas de acidentes, das doenças, do abandono das suas famílias. Quem os ajuda, os defende e os apoia? São aqueles que estão mais próximos e que são verdadeiros amigos generosos. É isto que nos falam as leituras deste Domingo. Devemos estar alegres, porque Deus é este Amigo que está perto, que apoia, ajuda e defende. Não há maior alegria do que saber e experimentar que alguém nos quer bem, nos entende, nos ouve, que sofre com as nossas aflições e que se alegra com os nossos regozijos. Esta é uma das razões para celebrar o Natal. “Deus connosco” não é um nome pomposo ou exagerado que os profetas deram ao Messias, mas é uma realidade tão forte que somente uma palavra não pode conter.
A alegria é uma particularidade próprio do cristão, fundamentada na certeza que Deus está connosco, está próximo, ama-nos, cuida de nós. E neste domingo esta alegria parece assemelhar-se à de uma mulher grávida que espera ansiosamente o seu filho. “Espera com paciência a vinda do Senhor”, afirma Tiago na sua leitura. Paciência e esperança são hoje desafios concretos para melhor viver a expectativa da vinda do Senhor
No Evangelho, Jesus elogia João: “Entre os filhos de mulher, não apareceu ninguém maior do que João Baptista”. Hoje, como João, cada um deve ser precursor, ou seja, preparar o caminho para alguém, neste caso, Jesus. Ser cristão não se resume a acreditar que Jesus é o Filho de Deus. Ser cristão implica imitar o Mestre, sabendo que Lhe será sempre inferior. A verdadeira missão de João foi ser um provocador. Com as suas palavras, abanou as consciências, fez perceber a gravidade dos erros das pessoas do seu tempo, alertou para a necessidade de mudar de vida. João foi um inconformado da sociedade. Quando João enviou os seus discípulos para perguntar a Jesus se era o Messias, o Esperado, Jesus respondeu com as suas obras: “Os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos são curados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e a Boa Nova é anunciada aos pobres”. Em Jesus, cumpre-se a profecia de Isaías: Ele vem para fortalecer as mãos fatigadas, robustecer os joelhos vacilantes e dar esperança aos corações perturbados.
Assim, como devemos viver a proximidade do Natal? Cada um deve ser precursor desta vinda próxima do Senhor. Para muitas pessoas, as mãos continuam fatigadas, os joelhos teimam em não querer avançar no caminho, os corações continuam quebrados e dilacerados pelo ódio, injustiça e incompreensão. Enquanto houver “dor e gemidos”, devemos continuar a gritar como salmista: “Vinde salvar-nos, Senhor”. Jesus é Aquele que veio, que vem e que há de vir. Não deveremos esperar outro. Ele é a verdadeira alegria. Levemos a alegria de Jesus aos nossos irmãos com as nossas palavras e acções.
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LEITURA ESPIRITUAL
«Entre os filhos de mulher, não apareceu ninguém maior do que João Baptista. Mas o menor no reino dos Céus é maior do que ele»
Veneremos a compaixão de um Deus que não veio julgar o mundo, mas salvá-lo. João, o percursor do Mestre, que até então desconhecia este mistério, logo que percebeu que Jesus era verdadeiramente o Senhor, clamou àqueles que tinham vindo pedir o baptismo: «Raça de víboras» (Mt 3,6), porque me olhais com tanta insistência? Eu não sou o Cristo. Sou um servo e não o Mestre. Sou um simples súbdito, não sou o rei. Sou uma ovelha, não o pastor. Sou um homem, não um Deus. Curei a esterilidade da minha mãe vindo ao mundo, mas não tornei fecunda a sua virgindade; fui tirado de baixo, não desci das alturas. Emudeci a língua do meu pai (cf Lc 1,20), não manifestei a graça divina. […] Sou miserável e pequeno, mas depois de mim virá Aquele que é antes de mim (cf Jo 1,30). Ele vem depois, no tempo; mas anteriormente estava na luz inacessível e inefável da divindade. « Aquele que vem depois de mim é mais forte do que eu, e não sou digno de levar as suas sandálias. Ele baptizar-vos-á no Espírito Santo e no fogo» (Mt 3, 11). Eu estou subordinado; Ele é livre. Eu estou sujeito ao pecado, Ele destrói o pecado. Eu ensino a Lei, Ele traz-nos a luz da graça. Eu prego como escravo, Ele legisla como mestre. Eu tenho por leito o chão, Ele os Céus. Eu dou-vos o baptismo do arrependimento, Ele dar-vos-á a graça da adopção. «Ele baptizar-vos-á no Espírito Santo e no fogo». Porque me venerais? Eu não sou o Cristo (Homilia atribuída a Santo Hipólito de Roma (?-c. 235), presbítero, mártir, Sermão sobre a Santa Teofania; PG 10, 852).




