Avisos e Liturgia do VI de Páscoa – ano A
Todos já tivemos momentos que nos trazem alegria e tristeza ao mesmo tempo. Isto acontece, quando vivemos um momento muito intenso e agradável e que, depois, vai chegando ao seu termo. Pode ser o último dia das férias ou o final de uma viagem de sonho, ou a saudade dos pais, ou a alegria da visita dos familiares que, depois, regressarão à sua terra. Por muito que nos custe, cada momento é efémero, o tempo foge; esta é a lei da vida. Se ficamos agarrados ao passado, a vida foge e ficamos desligados da realidade presente, isolados num mundo de recordações que se vão desvanecendo.
Talvez tenha sido isto que viveram os discípulos, entre a Quinta-feira Santa e o Pentecostes. O texto evangélico deste Domingo é um excerto do discurso de despedida de Jesus na Última Ceia, antes da Paixão. Depois do Domingo de Páscoa, entre as aparições do Ressuscitado, os discípulos terão tido saudades dos momentos vividos com Jesus a caminhar, a pregar e a curar. Nunca mais isto ia acontecer, sem estavam conscientes do seu futuro.
Não nos acontece o mesmo na nossa vida? Não temos saudade dos tempos passados? Talvez daquele tempo em que se pensava que ser cristão e participar da vida da Igreja era o habitual e rotineiro para todos, e não tínhamos, como agora, a sensação de que vamos contra a corrente e que algumas pessoas não nos entendem. Talvez daquele tempo em que havia a impressão de que um certo sacerdote ou uma certa pessoa de confiança resolvia os nossos problemas de consciência e esclarecia as nossas dúvidas. Talvez daquele tempo em que éramos mais ingénuos do que agora, tempo em que era mais fácil confiar em alguém…
O passado nunca mais volta, apesar de se dizer que “a história repete-se”. Não devemos ficar obstruídos na nostalgia. Jesus convida-nos a viver uma nova presença, mais íntima e profunda do que a anterior. Já não temos Jesus, mas temos o Espírito Santo em nós. Parece que ficamos desprotegidos, porque o mundo não é capaz de ver esta nova presença, mas o Defensor, o Espírito da verdade, nos fortalecerá interiormente e nunca nos abandonará. Já não precisaremos do consenso social nem da autoridade de ninguém para nos sentirmos seguros. A nossa paz e segurança brotam da experiência pessoal de sermos morada divina. “Se Deus está connosco, quem poderá estar contra nós”?
Esta presença do Espírito Santo motiva-nos e fortalece-nos para cumprirmos a missão que Deus nos confiou. “Filipe desceu a uma cidade da Samaria e começou a pregar o Messias àquela gente”. Antes de subir ao Céu, Jesus enviou os seus discípulos a pregar a Boa Nova, a começar por Jerusalém e por toda a Judeia, passando pela Samaria e até aos confins da terra. No dia de Pentecostes, com o discurso de Pedro, teve início a pregação em Jerusalém. A morte de Estêvão foi a primeira grande desgraça devido ao anúncio do Evangelho. Mas, fugindo da primeira perseguição, Filipe chega a Samaria e inicia a segunda etapa da missão apostólica. Sem esta ousadia de Filipe, talvez, quem sabe, Paulo e os outros apóstolos não teriam irradiado tão rapidamente a Boa Nova por toda a parte.
Procuremos não procurar apoios externos para a fé. Temos o necessário com a graça divina que o Espírito Santo nos derrama; graça e presença divinas que recebemos todas as vezes que celebramos a Eucaristia ou outro sacramento. Participemos nela com toda a confiança, devoção e de coração aberto para a missão.
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LEITURA ESPIRITUAL
Recorramos ao Espírito Santo
Aqueles que são conduzidos pelo Espírito Santo têm ideias certas. É por isso que há tantos ignorantes que sabem mais do que os sábios. Uma pessoa que é conduzida por um Deus de força e de luz não pode enganar-se. O Espírito Santo é uma luz e uma força; é Ele que nos permite distinguir o verdadeiro do falso e o bem do mal. Ao enviar-nos o Espírito Santo, Deus fez como um grande rei que encarregasse um ministro de orientar um dos seus súbditos, dizendo-lhe: «Vai acompanhar este senhor por toda a parte e trazer-mo de volta são e salvo».
Que belo é ser acompanhado pelo Espírito Santo! Ele é um bom guia. O Espírito Santo conduz-nos como uma mãe leva o filho de dois anos pela mão, como uma pessoa que vê conduz um cego. Todas as manhãs devemos dizer: «Meu Deus, enviai-me o vosso Espírito Santo, que me fará conhecer quem eu sou e quem Vós sois». Uma alma que possui o Espírito Santo experimenta um delicado sabor na oração e nunca perde a santa presença de Deus. (São João-Maria Vianney, 1786-1859, presbítero, Cura de Ars, «Pensamentos Escolhidos»).






