Avisos e Liturgia do XXIX Domingo do TEMPO COMUM – ano C
Mais uma vez as leituras bíblicas deste Domingo convidam-nos a rezar com os critérios do Evangelho, de uma forma persistente, a “incomodar” Deus, a saber interpretar a sua resposta, ou o seu silêncio. Já no texto da primeira leitura aparece-nos uma imagem de como deverá ser a oração. Os grandes combates da vida só se alcançam com a fé de quem se sabe protegido por Deus, com a oração confiante e persistente ao Senhor e pelo auxílio dos outros nossos irmãos que, com o seu apoio, impedem que se caia facilmente no desânimo e no abandono da luta. Se assim não for, não aguentaremos as nossas dificuldades e sofrimentos. A viúva do evangelho estava angustiada por causa de um juiz que devia ser justo e não era, porque “não temia a Deus nem respeitava os homens”. É um assalariado sem vocação. Mas a pobre viúva insistia firmemente. E o juiz, não porque quisesse fazer justiça, mas para que não o incomodasse mais, atende a viúva. Jesus convida-nos a orar sempre sem desanimar. Usa a imagem de um juiz iníquo que somente atende por interesse. Se um homem assim atende à insistência da viúva, quanto mais Deus atenderá as nossas súplicas!
Deus não é juiz desta maneira. Aquele juiz não temia a Deus (o temor de Deus é um dos dons do Espírito Santo), porque não teve a oportunidade de experimentar o seu amor nem quer amar aqueles que o rodeiam. Mas também não respeitava os homens, muito menos aquela pobre mulher, que é mulher, é pobre e é viúva. No Antigo Testamento, as viúvas, como os órfãos e os estrangeiros, eram desprezadas e exploradas. Mas são pessoas que os profetas sempre falam como preferidas de Deus. De certeza que aquele juiz não conhecia esta frase do profeta Zacarias: “Assim fala o Senhor do Universo: Praticai uma verdadeira justiça e excedei-vos em bondade e compaixão, cada um para com o seu irmão. Não oprimais a viúva e o órfão, o estrangeiro e o pobre e não formeis nos vossos corações maus desígnios uns para com os outros” (Zc 7, 9-10). Jesus apresenta o exemplo desta viúva para louvar a sua perseverança e, assim, faz o juiz reconsiderar. E acrescenta: se um juiz injusto cede, muito mais fará Deus em favor dos seus eleitos, dos pobres, como aquela viúva. É este o desafio para todos nós: rezar sem desanimar e sermos perseverantes na oração, como São Paulo nos propõe (Rom 12,12; Ef 6,18; Col 4,2). Sabemos que o Senhor sempre nos atende, especialmente se lhe pedirmos coisas boas (Mt 7,11), ou o Espírito Santo (Lc 11, 13).
Mas será que temos paciência para esperar a resposta de Deus? Muitas vezes nos queixamos dos impacientes e ansiosos, daqueles que querem tudo imediatamente. Muitas avós ensinam-nos a sermos pacientes quando, constantemente, repetem aos seus netos que têm de ter paciência, calma e bom comportamento. A justiça de Deus também é paciente. Deus não tem pressa. Deus espera pacientemente e, como nos diz Jesus, fará justiça, porque a sua indiferença é aparente, mesmo que a tenhamos como escandalosa em certas circunstâncias. Deus fará justiça, mas fará à sua maneira e não à nossa. Ele fará justiça, ainda que seja pacientemente. Ele atenderá os seus eleitos “teimosos”, que “por Ele clamam dia e noite”. Jesus diz não só para não desanimar, mas para perseverar, não abandonar o Senhor, importunando-O com as nossas preces. Enquanto se grita a Deus, mesmo que sejam gritos de revolta, dúvida ou inquietação, não deixamos de O ter como referência, como única salvação possível. “Mas quando voltar o Filho do Homem, encontrará fé sobre a terra?”. Sem perseverança, sem confiança, sem a firmeza do que se aprendeu e aceitou como certo, sem uma vida de oração alimentada na Escritura ou sem o auxílio da comunhão eclesial dos irmãos, a fé individual morre porque não cresce.
Portanto, neste domingo somos convidados a pensar se fazemos parte destes eleitos, daqueles que reclamam justiça “dia e noite”. Façamos parte daqueles que procuram o Senhor quando estamos cansados e abandonados; daqueles que não colocam condições para seguir o Senhor; daqueles que constroem a vida na rocha firme da Palavra de Deus; daqueles que têm Deus como única riqueza; daqueles que colocam a vida nas suas mãos. Se assim for, Deus far-nos-á justiça, mas quando lhe aprouver, segundo o seu ritmo.
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LEITURA ESPIRITUAL
Oremos sem cessar para descobrirmos o esplendor do seu Reino
A invocação contínua de Jesus, quando acompanhada de um desejo pleno de ternura e alegria, permite que o espaço do coração se encha de alegria e serenidade pela graça da atenção extrema. Mas aquele que conduz ao seu termo a purificação do coração é Jesus Cristo, Filho de Deus e Deus, que é a origem e o Criador de todos os bens. Pois Ele diz: «Eu sou o Deus da paz» (Is 45,7).
Façamos, como David, o esforço de gritar: «Senhor Jesus Cristo». Fiquemos roucos e que o olhar da nossa inteligência não deixe de esperar no Senhor nosso Deus (Sl 68,4). Se nos recordarmos da parábola do juiz iníquo, por meio da qual o Senhor nos diz que temos de rezar continuamente e não desfalecer (cf Lc 18,1), encontraremos ganho e justiça.
A alma que, pela morte, se elevou nos ares, e que, às portas do Céu, tem Cristo consigo e por si, não será confundida pelos seus inimigos, mas, tal como agora, falar-lhes-á com segurança. Mas, até ao seu êxodo, não pode cansar-se de clamar noite e dia pelo Senhor Jesus Cristo, o Filho de Deus. E Ele, segundo a sua divina promessa que não engana, far-lhe-á justiça prontamente, como afirmou a propósito do juiz iníquo (cf Lc 18,1). Sim, eu vos digo que o fará, tanto na vida presente como quando ela tiver abandonado o seu corpo.
É certo que nada disto vem de nós, mas de Deus, que no-lo deu. Ele que, no Pai, no Filho e no Espírito Santo, é louvado e glorificado por todas as naturezas racionais, pelos anjos, pelos homens, por toda a criação que vem da Trindade inefável, do Deus único. Possamos nós descobrir o esplendor do seu Reino, pelas súplicas da puríssima Mãe de Deus e dos nossos santos pais. Ao Deus inacessível, seja dada glória eterna. Amém! (Hesíquio do Sinai, dito de Batos, por vezes assimilado a Hesíquio, sacerdote de Jerusalém, séc. V?, monge, «Sobre a sobriedade e a vigilância», 91, 106, 107, 149, 203).






