Avisos e Liturgia do XXV Domingo do Tempo Comum – ano A
A nossa reflexão sobre os textos bíblicos deste Domingo tem de ter em conta, como introdução, as palavras do profeta Isaías na primeira leitura: “os meus caminhos estão acima dos vossos, e acima dos vossos estão os meus pensamentos”. Uma afirmação que foi vivida por São Paulo, quando estava na prisão, passando momentos de incerteza sobre o caminho a percorrer na sua vida, segundo a vontade de Deus, como vemos na segunda leitura: “não sei o que escolher…desejaria partir e estar com Cristo, que seria muito melhor; mas é necessário para vós que eu permaneça neste corpo mortal”. O texto evangélico é um exemplo de que a nossa lógica nem sempre coincide com a lógica de Deus. Um tema que é ilustrado, novamente, com uma parábola. A parábola dos trabalhadores que são convidados, em diversas horas do dia, a trabalhar na vinha é a parábola da generosidade de Deus. Este texto não pode ser lido a partir dos critérios da justiça distributiva, ou da política social. O seu conteúdo resume-se em três pontos: – Deus não trata as pessoas segundo a lógica da produtividade do trabalho, mas procura sempre o bem dos últimos e dos menos privilegiados; – A lógica da bondade de Deus não é a lógica dos gestores da economia e da política; – A solução dos problemas que, hoje, nos afectam não virá somente das mãos dos economistas e dos políticos, mas também de uma mudança de mentalidade das pessoas e da recuperação do sentido humanitário. Devemos imitar a gratuidade de Deus, expressa na parábola. Os critérios da economia podem ser critérios de ganância e de competição doentia e escravizante, enquanto que os critérios de Deus são de compaixão e de bondade para com os mais fracos e necessitados. A vinha é o símbolo do povo judeu, povo escolhido por Deus, que se considera o “primeiro”, o mais “importante” de todos os povos, enquanto que os gentios tinham de ser os “últimos”. Mas Deus revela que não exclui ninguém, que todos são chamados a trabalhar na sua vinha, que é o mundo. “Quando vieram os primeiros, julgaram que iam receber mais, mas receberam também um denário cada um”. O denário é dado a todos por igual. Tudo é um dom gratuito e a gratuidade não é objecto de negócio. Deus não se compra nem se vende, mas entrega-se-nos gratuitamente, porque os planos de Deus são muito diferentes dos nossos planos. Hoje vivemos numa sociedade onde a economia predomina por cima de tudo e de todos. E o critério desta economia é valorizar os que mais produzem, é fazer a divisão entre os têm e os que não têm, é tornar ricos os mais ricos, e pobres os mais pobres; é tirar, por vezes, aos que não têm o que ainda têm, privando-os de um posto de trabalho para ganhar e sustentar a vida. O Evangelho faz-nos ver a vida de outra maneira. Não é um tratado de economia, mas uma maneira de entender a vida ao estilo de Deus. Saibamos imitar na nossa vida a infinita generosidade de Deus. Sejamos generosos com todos os que nos rodeiam, sobretudo com os mais fracos e necessitados.
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LEITURA ESPIRITUAL
«Ide vós também para a minha vinha»
Esta parábola trata da conversão dos homens a Deus, alguns desde tenra idade, outros um pouco mais tarde e alguns somente na velhice. Cristo reprime o orgulho dos primeiros e impede-os de censurar os da décima primeira hora, mostrando-lhes que todos têm a mesma recompensa. Ao mesmo tempo, estimula o zelo dos últimos, mostrando-lhes que podem merecer o mesmo salário que os primeiros. O Salvador tinha acabado de falar da renúncia às riquezas e do desprezo por todos os bens, virtudes que exigem coragem e um coração grande. Precisava, por isso, de estimular o ardor de uma alma cheia de juventude; para tal, o Senhor reacende nos seus ouvintes a chama da caridade e fortalece-lhes a coragem, mostrando-lhes que mesmo os que chegaram por último recebem o salário do dia todo. Para falar com mais clareza, poderia haver quem abusasse desta circunstância, caindo na indiferença e no desmazelo. Mas os discípulos perceberão claramente que essa generosidade é um efeito da misericórdia de Deus, que só ela os ajudará a merecer tão magnífica recompensa. Todas as parábolas de Jesus – a das virgens, a da rede, a dos espinhos, a da figueira estéril – convidam-nos a mostrar a nossa virtude com actos. Ele exorta-nos a levar uma vida pura e santa. Ora, uma vida santa custa mais ao nosso coração que a simples pureza da fé, pois é uma luta contínua, um labor infatigável. (São João Crisóstomo, c. 345-407, presbítero de Antioquia, bispo de Constantinopla, doutor da Igreja, Homilias sobre o evangelho de Mateus, nº 64, 4).






