Avisos e Liturgia Epifania do Senhor- Ano A
“Eis que a estrela que tinham visto no Oriente seguia à sua frente e parou sobre o lugar onde estava o Menino. Ao ver a estrela, sentiram grande alegria. Entraram na casa, viram o Menino com Maria, sua Mãe”. A alegria dos Magos é a alegria do sacrifício, é a alegria dos peregrinos com os pés cheios de bolhas e do pó dos caminhos; é a alegria daqueles que dizem “cheguei, mas no limite, já não conseguia mais”. A Sagrada Escritura não fala da satisfação daquele que se sente seguro com as suas próprias forças e daquele que pensa ser como Deus. Não fala do orgulho de quem ajuda com um ar falso de paternidade. Não fala da histeria pelo excesso de prendas recebidas neste Natal.
A alegria dos Magos do Oriente é a alegria de quem reconhece que as dificuldades da viagem valeram a pena; que o cansaço, os sacrifícios, as bolhas nos pés, o pó, o frio, a chuva ou o sol intenso fazem parte do caminho, mas não apagam o calor do encontro. É a satisfação daqueles que confiam na voz interior que diz: tenta de novo, coragem, vais conseguir! A dureza de uma longa viagem, o cansaço, as dúvidas e as frustrações não apagaram a vontade dos Magos contemplar Deus face a face.
Neste tempo do Natal, celebramos o mistério da Encarnação, ou seja, Deus não se importou de se fazer um de nós, de montar a sua tenda no meio de nós. Mas, neste dia, celebramos também a meta daqueles que procuram Deus. É o nosso mistério e o de tantos homens e mulheres que, mesmo fora da Igreja, procuram Deus, mesmo por caminhos, muitas vezes, sinuosos. Bem sabemos que, diante de nós, temos um caminho longo e duro, no qual só deveremos confiar na frágil luz de uma estrela, de uma luz entre milhares que nos oferecem caminhos mais fáceis e, sobretudo, mais curtos. Tantas vezes nos iludem com atalhos e becos que conduzem à frustração e desilusão! Como distinguir a estrela de Deus? Se ao seguirmos o rasto dessa estrela nos sentimos cansados, mas felizes; se ao vê-la, sentimos que vamos pelo caminho que Deus traçou para mim.
Os Magos do Oriente não são uma imagem ou um conto infantil. Os Magos são testemunhas. Podemos imaginar o que teriam conversado com o menino e com Maria. Mas, como gostaríamos de saber o que iriam a pensar durante o caminho de regresso às suas terras. Diz o evangelho que “regressaram à sua terra por outro caminho”. Depois de se encontrar com Deus, ninguém volta à vida que tinha antes, ninguém volta a pôr os pés nos antigos caminhos. A viagem dos magos é o modelo de como se chega a Deus.
O episódio dos Magos confirma o cumprimento da profecia de Isaías: as nações caminham à luz do Senhor. As nações são todos aqueles que não pertenciam ao Povo de Deus. “Virão adorar-Vos, Senhor, todos os povos da terra”. Mas também os Magos personificam um caminho de fé que os leva a seguir por outro caminho. Em primeiro lugar, os Magos vencem a tentação da preguiça e do comodismo. O verdadeiro cristão não é aquele que se instala e fica parado, mas aquele que confia em Deus e se deixa guiar num caminho aberto às surpresas do Senhor. Em segundo lugar, os Magos vencem a tentação de desistir. No caminho da fé, muitas vezes somos tentados pelo facilitismo e pela resignação. Hoje, continua a haver “Herodes”, sedentos de poder e com medo que lhes roubem o protagonismo, que tudo fazem para nos impedir de encontrar o Senhor. A paciência e a perseverança estão sempre presentes na vida de um peregrino. O cristão não desiste! Em terceiro lugar, os Magos ensinam-nos a vencer a tentação das ideias fixas e pré-concebidas de Deus. Ao chegar ao lugar indicado pela estrela, não se deixaram ludibriar pela pobreza e pelo despojamento da Sagrada Família. O Senhor esconde-se na pequenez das coisas, na pequenez de um presépio, na pequenez de um pobre, na pequenez de uma Hóstia Consagrada.
Só vencendo estas tentações, é que transformaremos os nossos corações. Os Magos venceram todas as etapas, desbravando caminho e superando obstáculos. A vida da fé nem sempre é linear, mas conduz a um encontro único e arrebatador com Cristo e a um regresso a casa “por outro caminho”. É o caminho da conversão.
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LEITURA ESPIRITUAL
«Ofereceram-Lhe presentes: ouro, incenso e mirra»
Na solene festa da Epifania, com base no modelo das oferendas dos reis, Gertrudes ofereceu a Deus, à laia de mirra, o corpo de Cristo, com todos os seus sofrimentos e toda a sua Paixão, por meio da qual queria apagar, para glória de Deus, os pecados de todos os homens, desde Adão até ao último homem. No lugar do incenso, ofereceu a alma de Cristo, cheia de devoção, com todos os actos da sua vida espiritual, para compensar as negligências de todo o universo. Por fim, à laia de ouro, ofereceu a divindade perfeitíssima de Cristo, com as delícias de que ela goza, para compensar as deficiências de todas as criaturas.
Apareceu-lhe então o Senhor Jesus, apresentando esta oferenda como presente de grande valor à sempre adorável Trindade. E enquanto Ele atravessava, por assim dizer, o Céu, a corte celeste parecia flectir o joelho por respeito a esta oferenda. Gertrudes recordou então que certas pessoas, num gesto de humildade, lhe tinham pedido que oferecesse a Deus, no lugar delas e em memória destes presentes dos magos, as pequenas orações que tinham dirigido ao Senhor antes desta mesma festa.
Tendo cumprido este pedido com toda a devoção possível, o Senhor Jesus voltou a aparecer-lhe, transportando pelo Céu esta segunda oferenda, como que para apresentá-la a Deus Pai. E todo o exército celeste acorreu à sua presença, celebrando os louvores desta oferenda como se se tratasse de um presente magnífico.
Deste modo, ela compreendeu que quando alguém oferece a Deus orações ou outros esforços, todo o senado do Céu aplaude este dom como oferenda agradável a Deus. Mas quando alguém, não se contentando em dar o que é seu, junta às suas próprias obras as obras – mais perfeitas – do Filho de Deus, os santos têm por essa oferenda […] uma tal reverência que nada pode aspirar a tão alta dignidade a não ser a única e adorável Trindade, que está acima de tudo. (Santa Gertrudes de Helfta, 1256-1301, monja beneditina, O Arauto, Livro IV, SC 255).






