Liturgia do 4º domingo da Quaresma- ano B
4º DOMINGO DA QUARESMA – ano B
Apesar de estarmos habituados a pensar que a libertação do Egipto foi o momento mais importante da história de Israel, é provável que o exílio na Babilónia tivesse sido um momento ainda mais determinante desta história. Somente depois do exílio, os judeus reflectiram mais sobre a sua história. A maior parte dos textos bíblicos foram escritos e compilados depois do exílio. A primeira leitura deste domingo faz-nos um resumo deste exílio: o rei da Babilónia conquista Israel, destrói o Templo de Jerusalém e leva para o exílio muitos israelitas, sobretudo os chefes religiosos e políticos. Na Babilónia, a identidade do povo de Israel corre perigo e também a sua religião. Passados alguns anos, o rei da Pérsia, depois de ter vencido os babilónios, procede de uma forma muito interessante. Prefere que os povos exilados regressem aos seus países: “Quem de entre vós fizer parte do seu povo ponha-se a caminho, e que Deus esteja com ele”. Aos judeus não lhes é fácil digerir que um estrangeiro, um pagão, Ciro, os salvou do exílio. A reflexão que fizeram deste acontecimento ajudou-os a ter um espírito mais aberto para com os outros povos e culturas. O Deus que salva é um Deus universal, que se vale de qualquer pessoa para salvar, quer seja judeu ou pagão. Os anos que se seguiram a este regresso do exílio não foram fáceis. Apesar de estar em casa, o perigo de Israel se afastar da fé dos seus antepassados esteve sempre presente. Descobriram que o exílio não é somente geográfico. Descobriram que a existência humana é sempre, em certo sentido, uma existência em exílio. Facilmente nos afastamos de casa, daquilo em que acreditamos, das nossas convicções. Os babilónios, os romanos ou os gregos exilaram pessoas, afastaram-nas das suas terras e das suas crenças…mas o não podemos esquecer dos nossos exílios, quando cada um quer propositadamente exilar-se!
A conversa de Jesus com Nicodemos enquadra-se neste contexto. Há uma afirmação fundamental: por mais que vivamos num exilio que ofusca o amor, Deus ama o mundo a tal ponto de nos oferecer o seu próprio Filho. “Deus amou tanto o mundo que entregou o seu Filho Unigénito, para que todo o homem que acredita n’Ele não pereça, mas tenha a vida eterna”. Mesmo que andemos longe de Deus, mesmo que tudo à nossa volta esteja longe do Seu amor, Deus continua a amar-nos. E o sinal supremo deste exílio do amor foi a cruz, onde o ódio e as trevas se aliaram para matar um inocente. É neste ambiente que se revela mais claramente o amor cintilante de Deus. Esta mensagem não é antiga. É tão actual como naquele tempo. Também nós vivemos no exílio. Exílio pessoal quando damos conta de que a nossa vida não percorre os caminhos que desejávamos; exílio colectivo, social, quando vemos a nossa sociedade com os seus problemas: a pobreza, a violência, o racismo, a injustiça… Entre todos estes exílios, ou sejam, entre todos estes momentos em que se quer apagar a luz do amor, está sempre presente a seguinte mensagem: a Luz, que é Deus, nunca se apagará, porque Deus ama-nos e ama-nos até ao fim.
Este amor incondicional espera respostas e colaboração. Espera por homens e mulheres que acendam pequenas luzes no meio das trevas reinantes. Estas pequenas luzes são os gestos de amor, por mais pequenos ou por mais heróicos que sejam: um copo de água fresca dado a quem tem sede, um sorriso ofertado a quem está triste, uma mão estendida a quem caiu com o peso das dificuldades da vida. Todos os gestos de amor são provas de que estamos a colaborar com Deus que nos ama tanto. Não acreditamos numa salvação que cai do céu, mas numa salvação que se fez carne, que assumiu a nossa condição humana. Esta salvação revela-se em Jesus e em todos que entregam as suas vidas em proveito dos outros. Que o nosso itinerário da Quaresma seja um caminho de regresso dos nossos exílios, no qual fazemos nascer a luz no meio das trevas.
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LEITURA ESPIRITUAL
O Senhor Jesus diz: «Que a cruz não vos assuste e não vos faça duvidar das palavras que vos digo.» A serpente erguida por Moisés no deserto era eficaz pelo poder daquele que ordenou que fosse levantada. É assim que o Senhor carrega o destino dos homens e sofre as dores da cruz mas, graças ao poder que tem, torna dignos da vida eterna aqueles que nele acreditam. No tempo de Moisés, a serpente de cobre, sem ter vida, graças ao poder de outrem, livrava da morte aqueles que morreriam com as mordidelas venenosas se não olhassem para ela. Da mesma forma Jesus, apesar da sua aparência mortal e dos seus sofrimentos, dá a vida aos que crêem nele, graças ao poder que tem.
Jesus continua: «Tanto amou Deus o mundo, que lhe entregou o seu Filho Unigénito, a fim de que todo o que nele crê não se perca, mas tenha a vida eterna.» Também isso era um sinal do amor de Deus, disse. Como pode Ele dizer: «Tanto amou Deus o mundo, que lhe entregou o seu Filho Unigénito»? É evidente que a divindade não pode sofrer. Contudo, devido à união da humanidade de Jesus com a sua divindade, elas formam uma unidade. Por isso, embora só o homem sofra, tudo o que toca a sua humanidade é atribuído também à sua divindade.
Para mostrar a grandeza da Paixão, São Paulo diz: «Se O tivessem conhecido, não teriam crucificado o Senhor da glória» (1Cor 2,8). Ao dar esse título a Jesus, quer revelar a grandeza da Paixão; do mesmo modo, para mostrar a riqueza do seu amor através dos sofrimentos que suportou, Nosso Senhor diz: «Deus deu o seu Filho único.» (Teodoro de Mopsuestia, ?-428, bispo, teólogo, Comentário de João; CSCO 115,116).
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