Liturgia do Domingo V da QUARESMA – ano C
Se desejarmos alcançar o cimo de uma montanha, é importante fazer uma pausa quando nos encontramos a meio do percurso. É uma oportunidade para olhar o caminho já percorrido, contemplar a paisagem natural e recuperar forças para a etapa que temos pela frente. A Quaresma é este caminho para chegar à Páscoa, renovando os nossos compromissos de seguir Jesus. Neste domingo, o apóstolo Paulo fala-nos de uma corrida, de “correr para a meta”: “esquecendo o que fica para trás, lançar-me para a frente, continuar a correr para a meta, em vista do prémio a que Deus, lá do alto, me chama em Cristo Jesus”. Muitas vezes, os meios de comunicação social informam-nos da realização de corridas ou caminhadas, não tanto para ganhar os primeiros lugares e receber um prémio, mas para expressar união e solidariedade por uma causa concreta. Participar nesta corrida ou caminhada exige esforço, desejo, vontade e, quem sabe, ajuda de algumas pessoas.
Estas corridas e caminhadas formam um grupo de pessoas que estão ao mesmo ritmo, o que permite que, enquanto se caminha ou corre, haja uma relação entre os participantes, partilhando notícias, ideias e sentimentos. Assim, estabelece-se facilmente um sentido de comunhão, apesar da diversidade das pessoas. Então, qual é a meta da corrida do apóstolo Paulo? Ele responde claramente: “Cristo”. Afirma com toda a convicção, porque não fazia parte do grupo dos doze apóstolos que tinham convivido com Jesus e assistido a todas as pregações e milagres. Não podemos esquecer que Paulo foi perseguidor dos discípulos de Jesus e da sua causa.
Qual é a meta? Cristo. Conhecer Jesus. Paulo queria dizer que desejava identificar-se com Cristo, com a sua mensagem e com a sua nova vida, assumindo alegremente todas as consequências. “Assim poderei conhecer Cristo, o poder da sua ressurreição e a participação nos seus sofrimentos, configurando-me à sua morte, para ver se posso chegar à ressurreição dos mortos”. Paulo esquece o passado e caminha apaixonadamente para anunciar Jesus com o seu testemunho pessoal. “Esquecendo-me do que fica para trás, lançar-me para a frente”. Não fica agarrado às tradições, mas abre-se à novidade que o motiva a correr, com a esperança de a alcançar.
O profeta Isaías, em nome de Deus, convidava o povo, ainda no exílio, a olhar para a frente com coragem e esperança: “Não vos lembreis mais dos acontecimentos passados, não presteis atenção às coisas antigas. Olhai: vou realizar uma coisa nova, que já começa a aparecer; não vedes?”. A libertação não virá pela recordação da história mas pela nova realidade que se abre diante do povo. Por isso, é preciso caminhar com esperança. Israel faz caminho como povo e, nesta caminhada, Deus manifesta-se próximo dele, como fez também com S. Paulo. Deus intervém e acompanha o povo de Israel e faz brotar água no deserto, algo que parece ser impossível: “farei brotar água no deserto, rios na terra árida, para matar a sede ao meu povo escolhido, o povo que formei para Mim e que proclamará os meus louvores”.
O que é que Jesus nos traz de novidade? Traz-nos a novidade do perdão e da misericórdia diante da antiga condenação em nome da Lei. Qual é o obstáculo que não nos permite descobrir o amor de Deus? A autonomização e o orgulho que se manifestam no mau exemplo dos fariseus e dos escribas que colocam Jesus perante a lei de Moisés. Para eles a lei escrita era tudo. Para Jesus a lei de Deus é o amor. “Quem de entre vós estiver sem pecado…”. Quantos conflitos entre pessoas e povos se querem resolver, muitas vezes, pelas leis ou pela violência, quando se poderiam ultrapassar ou evitar pela mediação, pelo diálogo fraternal justo e solidário! Na nossa vida, sempre deveriam resplandecer o acolhimento, o perdão, a compreensão e a solidariedade.
Ao instituir a Eucaristia, Jesus coloca no centro da vida cristã o ágape do amor fraternal. A nossa Páscoa é a Páscoa de Jesus, é o seu amor oferecido que celebramos na Eucaristia, onde somos acolhidos, somos perdoados e perdoamos. Com alegria, façamos nossas as palavras de S. Paulo: “Não que eu já tenha chegado a meta, ou já tenha atingido a perfeição. Mas continuo a correr, para ver se a alcanço, uma vez que também fui alcançado por Cristo Jesus”. Chegaremos à meta com a força do Espírito Santo e, como o salmista, peçamos: “Fazei regressar, Senhor, os nossos cativos, como as torrentes do deserto. Os que semeiam em lágrimas recolhem com alegria”.
LEITURA ESPIRITUAL
«Nem Eu te condeno»
A redenção é precisamente a última e definitiva revelação da santidade de Deus, que é a plenitude absoluta da perfeição: plenitude da justiça e do amor, pois a justiça funda-se no amor, dele provém e para ele tende. Na Paixão e morte de Cristo — no fato de o Pai não ter poupado o seu próprio Filho, mas O ter tratado «como pecado por nós» (2Cor 5,21) — manifesta-se a justiça absoluta, porque Cristo sofre a Paixão e a cruz por causa dos pecados da humanidade.
Dá-se, na verdade, a «superabundância» da justiça, porque os pecados do homem são «compensados» pelo sacrifício do Homem-Deus. Esta justiça, que é verdadeiramente justiça «à medida» de Deus, nasce toda do amor, do amor do Pai e do Filho, e frutifica inteiramente no amor. Precisamente por isso, a justiça divina revelada na cruz de Cristo é «à medida» de Deus, porque nasce do amor e se realiza no amor, produzindo frutos de salvação.
A dimensão divina da redenção não se verifica somente em ter feito justiça do pecado, mas também no fato de ter restituído ao amor a sua força criativa, graças à qual o homem tem novamente acesso à plenitude de vida e de santidade que provém de Deus.
Deste modo, a redenção traz em si a revelação da misericórdia na sua plenitude. O mistério pascal é o ponto culminante da revelação e actuação da misericórdia, capaz de justificar o homem, e de restabelecer a justiça como realização do desígnio salvífico que Deus, desde o princípio, tinha querido realizar no homem e, por meio do homem, no mundo. (São João Paulo II, 1920-2005, Encíclica «Dives in Misericordia» 7).
http://www.liturgia.diocesedeviseu.pt/
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