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Liturgia do Domingo VI do Tempo Comum – ano C

Liturgia do Domingo VI do Tempo Comum – ano C

 

z-igreja-AB-300x200 Liturgia do Domingo VI do Tempo Comum – ano CContinuando a leitura do evangelho de S. Lucas, neste Domingo encontramo-nos no capítulo sexto. Depois do chamamento dos primeiros discípulos, a liturgia propõe-nos o início de um longo discurso de Jesus, deixando de lado uma serie de episódios que Lucas tem em comum com os outros textos evangélicos sinópticos. As leituras deste Domingo, à primeira vista, parece que nos colocam diante de uma contradição. Contrapõe-se a bênção para todo aquele que confia em Deus, à maldição para todo aquele que confia nos homens. É isto que encontramos na primeira leitura do profeta Jeremias e no texto do evangelho. Neste Domingo, Jesus dirige-se não só aos seus discípulos mas também a uma grande multidão. O seu discurso é uma exposição dos requisitos fundamentais do Reino de Deus, que supera a compreensão deste mundo. O texto deste domingo está muito relacionado com o sermão da montanha em S. Mateus, apesar de este ser mais breve. São Lucas apresenta as palavras de Jesus como uma proclamação aos pobres e aos que sofrem e como um convite ao compromisso. Uma das diferenças mais notáveis é que neste discurso Jesus encontra-se num sítio plano, porque para S. Lucas o monte é o lugar do encontro entre Deus e Jesus, e Jesus desce do monte quando tem de se encontrar com as pessoas. As primeiras três bem-aventuranças formam claramente uma “trindade” idêntica com uma igual estrutura. Lucas insiste no “agora” da pobreza, da fome, e do sofrimento. Em S. Mateus, o discurso tem um caracter religioso e sapiencial; em S. Lucas, o texto é mais profético e fala-nos da falta de meios para viver, do sofrimento da pobreza. Não podemos esquecer que o evangelho de S. Lucas apresenta a predilecção de Jesus pelos pobres. Esta predilecção expressa a solicitude de Deus com os necessitados e os abandonados. Os pobres possuirão o Reino e, assim, serão felizes. Os pobres são felizes, não porque são pobres, mas porque Deus está junto deles. A quarta bem-aventurança faz referência aos sofrimentos por causa do Filho do homem, ou seja, da fé em Jesus. Este versículo faz referência ao futuro e não é para todos, mas para uma categoria de pessoas. É a situação dos primeiros cristãos, ainda muito ligados ao mundo judeu. Os discípulos de Jesus experimentam a condição dos pobres porque para ser fiel a Ele expõem-se à insegurança e à marginalização de um mundo que prefere outros critérios, como o poder e a riqueza. As bem- aventuranças são a felicidade daqueles que confiam no Senhor: os pobres, os famintos, os que choram e os que são odiados. Será que isto acontece hoje à nossa volta? A resposta é afirmativa. Encontramos tantas pessoas que vivem na pobreza e na doença, pessoas caluniadas que vivem com a esperança e a consolação de Deus, procurando viver nas pequenas coisas a felicidade que nos espera no céu. É por isso que as bem-aventuranças terminam com um versículo reservado à alegria: “Alegrai-vos e exultai, porque é grande no Céu a vossa recompensa”. Se com as dificuldades de todos os dias somos capazes de experimentar a alegria, maior será esta alegria quando o Reino de Deus vier na sua plenitude. Segundo São Lucas, o discurso de Jesus não termina com as bem-aventuranças, mas, de seguida, cataloga quatro advertências que surgem das próprias bem-aventuranças. Nestas advertências, a riqueza é apresentada como um risco real e perigoso porque dá uma falsa segurança. O rico sente-se auto-suficiente e não necessita de Deus, nem tem necessidade de se preocupar com os pobres, mas fecha-se no egoísmo e não pensa no seu destino eterno. Por isso é-nos dito que os ricos já receberam a sua recompensa. Todas estas seguranças e vida acomodada, nascidas da confiança no poder e na riqueza, podem virar-se contra o homem. Mas todas estas advertências não deixam de ser um aviso, que só reafirmam ainda mais a força das bem-aventuranças. Neste domingo poderemos pensar onde reside a nossa segurança e a nossa felicidade. Através das leituras, fica claro que o homem feliz é aquele que coloca a sua segurança em Deus e não nos homens e na riqueza. Somos convidados a rever a nossa vida e a fazer deste programa vital uma realidade essencial para todos.

 

 

LEITURA ESPIRITUAL

«Bem-aventurados vós, os pobres. Ai de vós, os ricos»

É com razão que o Senhor, proclamando a beatitude dos pobres, não diz: «o Reino de Deus será», mas: «é vosso». Estão próximos do Reino de Deus os que já possuem e trazem no seu coração o Rei de quem se disse que servi-l’O é reinar. Outros que se guerreiem para partilharem a herança deste mundo: «Senhor, minha herança e meu cálice» (Sl 15,5). Combatam entre si até serem os mais miseráveis dos homens: não lhes invejo nada do que procuram, porque «no Senhor encontro a minha alegria» (Sl 103,34). Tu, herança gloriosa dos pobres! Bem-aventurada riqueza dos que nada têm! Não só nos dás tudo quanto precisamos, como ainda, cheia de glória, transbordas de alegria, porque «uma boa medida, cheia, recalcada, transbordante será lançada no vosso regaço» (Lc 6,38). Que a vossa alma se glorifique na sua humildade, ó pobres, e que olhe com desdém toda a grandeza deste mundo. Estão preparados para vós bens eternos, e vós preferis as coisas efémeras, semelhantes a um sonho? Como são infelizes aqueles que a bem-aventurada pobreza torna dignos de serem honrados pelo Céu, admirados pelo mundo e temidos pelo inferno, e que continuamente, na cegueira do seu espírito, olham a pobreza como uma miséria, a humildade como uma infâmia; àqueles que desejam enriquecer e caem nas armadilhas do diabo, que tudo lhes pertença! Quanto a vós, os que tendes por amiga a pobreza e encontrais suave a humildade de coração, a Verdade eterna dar-vos-á a certeza de possuirdes o Reino dos Céus; Ele guarda fielmente para vós este Reino que vos está reservado. (Beato Guerric de Igny, c. 1080-1157, abade cisterciense, Sermão para o dia de Todos os Santos, 6-7; SC 202).

 

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