Liturgia do Domingo XX do Tempo Comum – ano A
A mensagem, que as leituras bíblicas deste Domingo nos transmitem, é muito clara: Deus oferece-se a todos os povos, a todos os homens e mulheres. A mensagem que, na primeira parte da Bíblia parece somente destinada ao povo judeu é, como se encarregará Jesus de nos transmitir e certificar, uma mensagem universal. Já o profeta Isaías, na primeira leitura, nos diz que a salvação é para todos e que as portas da casa de Deus estão abertas para todos: “a minha casa será chamada casa de oração para todos os povos”. Na segunda leitura, São Paulo afirma que “Deus encerrou a todos na desobediência, para usar de misericórdia para com todos”. O texto evangélico apresenta um exemplo concreto, o pedido da mulher cananeia, realçando que a salvação universal de Deus tem de ser acompanhada da colaboração dos homens e das mulheres. A história da salvação escreve-se com a participação de cada um de nós. O evangelista Mateus escreveu o seu texto para uma comunidade onde estava muito enraizado a intolerância judaica, como se ela fosse a única destinatária da salvação. Por isso, para instruir a sua comunidade, o texto deste domingo diz-nos que Jesus atendeu uma mulher que não era judia e que, no final, lhe deu um dos maiores elogios que se pode dar a uma pessoa crente: “mulher, é grande a tua fé”. Uma fé que o evangelista contrapõe à incredulidade maioritária do povo de Israel. A cananeia é um modelo de rezar sem desfalecer. É uma oração humilde e confiante, fundamentada na fé num Deus universal. Nada pede para ela, só para a sua filha. A sua fé é grande e desinteressada. Parece um pouco esquisita a primeira reacção de Jesus: “não é justo que se tome o pão dos filhos para o lançar aos cachorrinhos”; mas temos de a entender à luz da mentalidade oriental e não como um insulto ou desprezo para com a cananeia. Na literatura judaica abunda esta metáfora de chamar “cães” aos deuses pagãos e às nações não judaicas; Jesus veio, em primeiro lugar, para o Povo Eleito. A mensagem de Jesus é muito clara: a fé não está condicionada pelas fronteiras de um povo; e, neste caso, a fé fundamenta-se na oração perseverante daquela mulher, pedindo pela sua filha. Os tempos, em que vivemos, são propícios para repensarmos muitas coisas, entre elas, a nossa fé. Alguns poderão estar aborrecidos com Deus, porque sentem-se abandonados, pois Deus não lhes resolve todos os problemas e lhes cura todas as doenças. Outros poderão ter fortalecido a fé, fundamentada num Deus que intervém, através da acção humana para bem de todos. Quanta fé e quanta generosidade podemos ver todos os dias: pessoas que dão tudo para evitar mortes, dores e os sofrimentos dos outros! Quanta generosidade como expressão da generosidade de Deus! Será que ainda não nos convencemos que a fé sem obras está morta? Desejávamos um Deus que nos livrasse dos sofrimentos e problemas e descobrimos um Deus em sofrimento connosco, o Deus das noites escuras, o Deus que não desceu da cruz o Seu Filho, apesar de alguns dizerem que assim acreditariam Nele! O nosso Deus identifica-se com o sofrimento humano: “tudo o que fizerdes ao mais pequenino dos meus irmãos, a Mim o fazeis”. O encontro de Jesus com a cananeia foi a grande oportunidade da vida desta mulher para professar a sua fé. Que o nosso encontro com as dificuldades e sofrimentos da vida sirvam para purificar e crescer a nossa fé. Que Jesus diga a cada um de nós: “É grande a tua fé”.
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LEITURA ESPIRITUAL
«Mulher, é grande a tua fé. Faça-se como desejas».
O Evangelho mostra-nos a grande fé, a paciência, a perseverança e a humildade da cananeia. Esta mulher era dotada de uma paciência verdadeiramente fora do comum. Ao seu primeiro pedido, o Senhor não responde uma palavra. Apesar disso, longe de cessar de rezar, ela implora-Lhe com redobrada insistência o socorro da sua bondade. Vendo o ardor da nossa fé e a robustez da nossa perseverança na oração, o Senhor acabará por ter piedade de nós e conceder-nos-á o que desejamos. A filha da cananeia era «atormentada por um demónio». Uma vez expulso o nefasto desassossego dos nossos pensamentos e desfeitos os nós dos nossos pecados, recuperaremos a serenidade de espírito, bem como a possibilidade de agirmos correctamente. Se, a exemplo da cananeia, perseverarmos na oração com firmeza inabalável, ser-nos-á concedida a graça do nosso Criador; ela corrigirá todos os nossos erros, santificará tudo o que é impuro, pacificará toda a agitação. Porque o Senhor é fiel e justo, Ele nos perdoará os nossos pecados e nos purificará de toda a mancha se gritarmos por Ele com a voz vigilante do nosso coração. (São Beda, o Venerável, c. 673-735), monge beneditino, doutor da Igreja, Homilia sobre os Evangelhos, I, 22: CCL 122, 156-160, PL 94, 102-105).


