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Liturgia do Domingo XXVIII do TEMPO COMUM – ano C

Liturgia do Domingo XXVIII do TEMPO COMUM – ano C

 

z-igreja-AB-300x200 Liturgia do Domingo XXVIII do TEMPO COMUM – ano CQue belo testemunho de oração humilde nos dão os dez leprosos que se encontraram com Jesus quando entrava numa povoação! Eles sabiam quem era Jesus e o que fazia, e o que poderia acontecer através dos seus gestos. Dirigem-se a Ele com um dos títulos mais belos de Jesus, o de “Mestre”, e revelam-lhe a sua pobreza e miséria: são leprosos, obrigados a viver separados da comunidade. Por isso, conscientes da sua indigência e exclusão, conservaram-se a distância e gritaram: “tem compaixão de nós”. A resposta de Jesus é a normal para o seu tempo: “Ide mostrar-vos aos sacerdotes”. Era o que estava prescrito na Lei. Aos sacerdotes competia certificar a cura dos doentes. Que belo testemunho nos dão os dez leprosos! Eles mantiveram-se à distância, porque estavam conscientes da doença que padeciam. Consciente da minha fragilidade, também posso gritar: “Jesus, Mestre, tem compaixão de mim”.

“E sucedeu que no caminho (para se apresentarem aos sacerdotes), ficaram limpos da lepra”. Um deles, ao ver-se curado, consciente da cura e da conversão operada nele, “voltou atrás, glorificando a Deus em alta voz”. Agradece, louva a Deus, vendo, portanto, a mão de Deus naquela transformação. É uma oração íntima de louvor e de acção de graças, reconhecendo o amor de Deus que nos libertou do mal e do nosso pecado. E faz isto em alta voz, a gritar, proclamando sem vergonha as maravilhas de Deus. Que grande lição! Manifesta sem vergonha a fé e a gratidão a Deus e anuncia sem medo a quem o quiser ouvir. Contudo, há aqui um pormenor muito interessante: aquele homem era um samaritano. Ele prostrou-se de rosto em terra aos pés de Jesus, profetizando que o verdadeiro templo é Jesus, e não em Garizim ou em Jerusalém. Prostrar-se é humilhar-se até ao solo perante alguém em sinal de respeito ou de devoção, e é uma adoração que somente a Deus pertence e merece. Também nós fomos curados por Jesus de tantas lepras! E agradecemos devidamente? Prostramo-nos de rosto em terra? Ou somos partidários do grupo de adeptos das prostrações diante deles próprios, imitando o diabo no deserto diante de Jesus: “Tudo isto te darei se te prostrares e me adorares”? (Mt 4,9). Como é importante aprender a rezar como este samaritano!

Mas, e os outros nove, onde estão? Parece que Jesus ficou admirado com aqueles nove que foram curados e não voltaram atrás para agradecer e dar graças, denotando que ficaram muito satisfeitos em ficarem curados somente do corpo. Neste domingo, somos convidados a saber dar graças, a agradecer e a dar glória a Deus. Somente aquele samaritano percebeu, naquele acto libertador, a presença de Deus. Como se dá glória a Deus? 1) Escutando o seu convite a aderir a Ele, colaborando na sua obra salvadora, para que todos os seus filhos e todas as suas filhas tenham vida. 2) Participando da vida divina. Santo Ireneu de Lião dizia: “a glória de Deus é a vida do homem, e a vida do homem é contemplar a Deus”. Estaremos cheios de vida se contemplarmos a Deus e deixarmos que Ele faça em nós morada para sermos verdadeiros discípulos, derramando o seu amor sobre os pobres e humildes. 3) Reconhecendo que a acção de Jesus é obra de Deus, regressando a Ele, aclamando que Jesus e Deus estão intimamente unidos. Os leprosos, que não voltaram atrás, somente foram curados da lepra. O leproso que voltou para dar glória a Deus, não só se curou, mas também se salvou: “Levanta-te e segue o teu caminho; a tua fé te salvou”. A fé cristã caracteriza-se pela fidelidade ao Deus único, como professava o sírio Naamã, no texto da primeira leitura. A vida cristã exige o nosso empenho, a nossa colaboração. Há que agradecer, mas há que continuar o caminho; nada está feito e concluído, as “curas” que podem acontecer são apenas um sinal de que Deus não nos abandona no percurso da vida: Ele está lá, sempre disposto a lavar-nos sete vezes (a totalidade) no seu caudal de misericórdia.

 

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LEITURA ESPIRITUAL

«Prostrou-se de rosto por terra aos pés de Jesus para Lhe agradecer»

 

Na meditação do amor de Deus, emociona-me ver os bens que recebi de Deus desde o primeiro momento da minha vida até hoje. Que bondade! Que cuidados! Que providência para o corpo e para a alma! Que paciência! Deus fez-me penetrar estas verdades e vê-las claramente: em primeiro lugar, que Ele está em todas as criaturas; em segundo, que é tudo o que há de bom nelas; e em terceiro, que nos faz todo o bem que recebemos delas. E pareceu-me ver este rei de glória e de majestade aplicado a aquecer-nos na roupa que vestimos, a refrescar-nos no ar que respiramos, a alimentar-nos na carne que comemos, a alegrar-nos nos sons e nos objectos agradáveis, a produzir em mim todos os movimentos necessários para viver e agir. Que maravilha!

Quem sou eu, ó meu Deus, para ser assim servido por Vós em todo o tempo, com tanta assiduidade e em todas as coisas, com tanto cuidado e amor! Sucede o mesmo com todas as outras criaturas; mas tudo isto por mim, qual intendente zeloso e vigilante que manda trabalhar em todos os locais do reino para o seu rei. O mais admirável é o facto de Deus fazer isto por todos os homens, embora quase ninguém pense nisso, a não ser uma ou outra alma escolhida, uma ou outra alma santa. É preciso que pelo menos eu pense nisso, que me mostre reconhecido.

Imagino que, tendo a sua glória como fim supremo de todas as suas acções, Deus faz todas estas coisas principalmente por amor daqueles que admiram a sua bondade, que Lhe estão gratos, que aproveitam a ocasião para O amar; os outros recebem os mesmos bens como que por acaso e por sorte. Deus oferece-nos incessantemente o ser, a vida, as acções de tudo o que criou no universo. É essa a sua ocupação na natureza; a nossa deve ser receber sem cessar aquilo que Ele nos envia de muitos modos, e devolver-Lho por acções de graças, louvando-O e reconhecendo que Ele é o autor de todas as coisas. Prometi a Deus fazê-lo, na medida das minhas possibilidades. (São Cláudio de la Colombière, 1641-1682, jesuíta, Retiro de 1674, quarta semana, Escritos espirituais).