×

Liturgia do I Domingo da Quaresma – ano C

Liturgia do I Domingo da Quaresma – ano C

z-igreja-AB-300x200 Liturgia do I Domingo da Quaresma - ano CA cultura do nosso tempo está muito centrada nas imagens. Pelo ecrã do nosso televisor entram muitas imagens de grande impacto. Chega-nos imagens de tudo e torna-se difícil de separar o que alimenta a verdade. Estes últimos dias ou semanas estão imersos nas festas, nas cores e na música dos carnavais.

Mas agora, a imagem é o caminho da Quaresma que se inicia. Um caminho para despojarmo-nos de todos os disfarces e de todas as nossas máscaras. Uma mudança interior. O próprio Jesus viveu esta mudança na sua experiência de deserto. Passar do externo e dos adereços para chegar a ser o que somos. Temos de nos livrar das ligaduras que nos impedem de sermos mais pessoas e mais livres. Esta é a experiência de Jesus.

Conhecemos o deserto através das fotografias e documentários, mas a vida no deserto não é nada fácil. Por vezes é um lugar de sofrimento, de desespero e de morte. Na Bíblia encontramos muitos relatos a este respeito. É também a história de muitos que procuram Deus. No deserto pode encontrar-se um silêncio profundo, a austeridade natural, o ver-se a si mesmo sem engano, comunicar sem palavras, descobrir na sua grandeza a presença de Deus. Uma presença que se revela na brisa da manhã ou na luz ténue do anoitecer. As relações humanas no deserto têm a força da comunhão.

Num mundo imerso de tanto ruído de palavras e de imagens, precisamos de encontrar momentos para parar, respirar fundo, distanciarmo-nos dos problemas presentes na nossa vida e que parece que são inevitáveis e sem solução. O deserto é tempo de silêncio e de jejum. De silêncio para escutar. De jejum para ficarmos em vigilante esperança de tudo o que possa acontecer. Mas também é tempo de oração. A oração é o meio que nos mostrou Jesus como antídoto contra o engano, a fuga ou a pouca consciência dos nossos limites. A oração coloca-nos nas mãos de Deus e do seu Espírito, que nos conduz e nos dá aquela sabedoria interior que nos faz ver a realidade tal como ela é e como a podemos transformar. Será que dispomos de tempo para escutar Deus que nos fala? Será que o escutamos quando nos chama através dos outros que nos pedem atenção, consolação e ajuda de mão estendida?

Jesus vai ao deserto porque procura cumprir a vontade do Pai. Para servir melhor na sua missão: instaurar o Reino da justiça e da paz, o Reino da fraternidade. O Espírito Santo levou-o para o deserto e inspirou-o nas suas respostas contra todas as insídias e manipulações do mal diabólico. Perante a sedução do poder, Jesus opta pelo compromisso de servir e de se entregar. Perante a sedução das seguranças, Jesus opta pelo risco e pelo esforço necessário na missão de trabalhar por um mundo melhor. Deus ouve o nosso clamor como escutou o clamor do povo de Israel. Também Ele nos fará sair do Egipto da escravidão e do peso de tantas coisas que nos bloqueiam e de tantos medos que nos paralisam. Que frutos podemos oferecer a Deus como fazia o povo de Israel? Os frutos da terra, de cada dia, da luta para combater as rotinas e os negativismos. Os frutos do trabalho, do esforço, do acolhimento, da solidariedade, do perdão e da misericórdia.

Podemos estar cansados e termos a tentação de baixar os braços. De sentir a decepção e esquecer que temos a fé no coração, alimentada pelo Espírito que nos acompanha ao deserto, mas que também nos inspira no meio do emaranhado de tudo o que fazemos e vivemos. Este é o caminho da Páscoa, para confessar e reafirmar a nossa fidelidade a Jesus ressuscitado que nos liberta, que dá sentido à nossa vida e alimenta a nossa esperança para vencer todo o desânimo e decepção.

A cinza convida-nos a fazer este caminho de conversão, de mudança interior. A partir da simplicidade de um coração arrependido, que escuta e se abre para Deus e para os irmãos. O pão e o vinho da Eucaristia tornam presente a vida de Jesus que se ofereceu a si próprio para alimentar a nossa fidelidade e o nosso compromisso.

 

[pdf-embedder url=”https://magazineserrano.pt/wp-content/uploads/2022/03/06-03-2022.pdf”]

LEITURA ESPIRITUAL

«Assim como, pela desobediência de um só, muitos se tornaram pecadores, assim também, pela obediência de um só, muitos se tornaram justos» (Rm 5,19)

O demónio atacou o primeiro homem, nosso pai, com uma tripla tentação: tentou-o pela gula, pela vaidade e pela avidez; esta tentativa de sedução resultou, pois o homem, ao dar o seu consentimento, ficou submetido ao demónio. Tentou-o pela gula, mostrando-lhe na árvore o fruto proibido e convidando-o a comê-lo; tentou-o pela vaidade, dizendo-lhe: «Sereis como deuses»; tentou-o enfim pela avidez, ao dizer-lhe: «Conhecereis o bem e o mal» (Gn 3,5).

Porque ser ávido não é apenas desejar o dinheiro, mas também qualquer situação vantajosa; é desejar qualquer situação elevada para além do razoável. O demónio foi vencido por Cristo, que O tentou de um modo semelhante àquele pelo qual tinha vencido o primeiro homem. Como da primeira vez, tentou-O pela gula: «Ordena a estas pedras que se transformem em pães»; pela vaidade: «Se és o Filho de Deus, lança-Te daqui abaixo»; e pelo desejo intenso de uma situação confortável, mostrando-Lhe todos os reinos do mundo e dizendo-Lhe: «Dar-Te-ei tudo isto se, prostrado a meus pés, me adorares».

Notemos o seguinte no episódio das tentações do Senhor: tentado pelo demónio, Ele ripostou com textos da Sagrada Escritura. Poderia ter lançado o seu tentador no abismo; mas não recorreu ao seu infinito poder, limitando-Se a pôr em primeiro lugar os preceitos da Sagrada Escritura. Deste modo, mostrou-nos como podemos suportar as provas, para que, quando os maus nos fazem sofrer, recorramos à boa doutrina e não à vingança. Comparai a paciência de Deus com a nossa impaciência: nós, quando recebemos injúrias ou sofremos uma ofensa, na nossa fúria, vingamo-nos ou ameaçamos fazê-lo; o Senhor, pelo contrário, suporta os ataques do demónio e responde-lhe com palavras de paz. (São Gregório Magno, c. 540-604, papa, doutor da Igreja, Catequeses sobre o Evangelho, nº 16).

http://www.liturgia.diocesedeviseu.pt/