Liturgia do XI Domingo do Tempo Comum – ano C Santíssima Trindade
Posso dizer que conheço uma pessoa porque me falaram dela e me contaram como ela é. Ora, o meu conhecimento enriquece-se quando estabeleço um contacto directo com a pessoa em causa. Se desta abordagem nascer o amor, o conhecimento aprofunda-se, podendo afirmar que sei como ela é por dentro. Porém, ficam sempre alguns mistérios para deslindar. Se nunca nos conhecemos de todo, a nível pessoal, como pretendemos conhecer o outro?
A Solenidade que celebramos neste Domingo convida-nos a reflectir sobre o conhecimento de Deus. Para muitas pessoas, Deus não é mais que uma tentativa pré-científica de dar explicação às muitas perguntas que se tem sobre a vida e o mundo. Deus é alguém que alguns discutem e reflectem apaixonadamente, enquanto que outros são indiferentes, talvez porque desistiram e ou não se interessam em procurar respostas para tudo. É verdade que ninguém viu o Pai, como diz Jesus. Nós acreditamos em Deus, porque, um dia, alguém nos falou Dele.
Acreditar somente porque nos falaram Dele seria um nível baixo de conhecimento. Além disso, sabemos que Deus se tornou próximo de todos, acessível e obscuro, ao mesmo tempo, não perdendo o carácter de mistério. Ele comunicou a sua Palavra e ergueu a sua tenda no meio de nós, humilhou-se, assumindo a nossa natureza humana na pessoa de Jesus. A sua revelação, a sua mensagem sobre Deus e sobre nós é uma carga demasiado pesada para as nossas mentes limitadas e para os nossos corações endurecidos. Por isso, Deus não se limitou somente a enviar o seu Filho, mas também, através do seu Espírito, inspira-nos para avançar no caminho da verdade plena. Todos começamos a conhecer Deus pelo que ouvíamos dizer (“pelos ouvidos”), mas chegará, ou já chegou, o dia em que poderemos dizer que O encontrámos pessoalmente e que é o nosso companheiro no caminho da vida, como foi Jesus para os discípulos de Emaús.
Do contacto e do conhecimento chega-se ao amor. Amar uma pessoa não é só desejar-lhe bem, mas também gerar com ela um clima propício para que se possa saber quais são os seus desejos e necessidades, assumindo-os como meus. É assim que os seres humanos poderão amar a Deus, não porque tenhamos de procurar o seu bem, pois Deus não precisa nada de nós, mas, unidos a Ele, iremos aprender a ver o mundo com os seus olhos.
Metade do ano litúrgico já foi vivido com os tempos fortes do Advento, Natal, Quaresma e Páscoa, com os quais celebrámos os principais mistérios da história da salvação. Celebrámos a encarnação do Filho de Deus, o seu nascimento entre nós, a sua morte na cruz, a Ressurreição, a Ascensão ao céu e a vinda do Espírito Santo. Depois desta caminhada, a Solenidade deste domingo é um convite a contemplar o rosto de Deus que nos foi revelado. Contemplamos um Deus que é o princípio e o fundamento de todas as coisas, que as chama à existência e as quer levar à plenitude. Por isso quer ser conhecido como Pai. Um Deus que se dirige a cada um de nós, torna-se próximo, dá-se a conhecer e nos interpela: por isso, é também Verbo e Filho. Um Deus que nos inspira desde o mais profundo do nosso íntimo e nos faz participantes da sua criatividade sem limites: por isso, O chamamos de Espírito. Um Deus que é Uno, mas não solitário, que é comunhão, corrente infinita de amor; por isso, lhe chamamos Trindade, conscientes de que com esta palavra exprimimos, em linguagem humana, aquilo que Deus nos quis revelar de si mesmo, sem esgotar tudo aquilo que Ele é.
Celebremos a Eucaristia com a vontade de conhecer e de amar cada vez mais este Deus que é mistério de amor inesgotável. Saibamos reconhecer a sua imagem em todas as pessoas e em todos os seres deste mundo. Aprendamos a amar tudo e todos como Deus nos ama.
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LEITURA ESPIRITUAL
«Que reconheçamos a glória da eterna Trindade, e adoremos a Unidade na sua omnipotência» (oração colecta)
A verdade sobre a Santíssima Trindade tinha-me sido exposta por teólogos, mas nunca a compreendi como a compreendo agora, depois daquilo que Deus me mostrou. Foram-me representadas três Pessoas distintas, que podem ser consideradas e com quem se pode conviver em separado. Percebi depois que só o Filho encarnou, o que mostra claramente a realidade desta distinção. Estas Pessoas conhecem-Se, amam-Se e comunicam entre Si. Mas, se as três Pessoas são distintas, como dizemos que têm, todas três, uma mesma essência? Com efeito, é nisso que acreditamos; trata-se de uma verdade absoluta, pela qual estaria disposta a sofrer mil vezes a morte.
Estas três Pessoas têm um único querer, um só poder, uma única soberania, de tal maneira que nenhuma delas pode coisa alguma sem as outras, e que há um só Criador de tudo quanto foi criado. Poderia o Filho criar uma formiga que fosse sem o Pai? Não, porque eles têm um mesmo poder. E o mesmo acontece com o Espírito Santo.
Assim, há um só Deus todo-poderoso, e as três Pessoas constituem uma só Majestade. Poderá alguém amar o Pai sem amar o Filho e o Espírito Santo? Não, mas aquele que se torna agradável a uma destas três Pessoas torna-se agradável às três, e aquele que ofende uma delas ofende as outras duas. Poderá o Pai existir sem o Filho e sem o Espírito Santo? Não, porque têm uma mesma essência, e onde se encontra uma Pessoa encontram-se as outras duas, porque não podem separar-se. (Santa Teresa de Ávila, 1515-1582, carmelita descalça, doutora da Igreja, Relações, n.º 33).





